sábado, 12 de setembro de 2026

Corte em pedaços, por André Barrocal

CartaCapital

As recentes decisões de Edson Fachin não garantem o fim da crise no STF

Flávio Bolsonaro bem que tenta, mas Dark Horse não é página virada. O homem encarregado de fazer com que o dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master, chegasse aos realizadores do filme sobre Jair Bolsonaro acaba de ter a delação premiada homologada no Supremo Tribunal Federal e os detalhes sobre o envio dos dólares começam a vir a público. Um dia depois, a Polícia Federal foi às ruas apreender documentos e vasculhar endereços da dona da produtora da cinebiografia, ­Karina Ferreira da Gama, e do roteirista da obra, o deputado Mario Frias, secretário de Cultura no governo do capitão. A batida policial foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, encarregado no STF de um inquérito sobre o repasse de uma emenda parlamentar de Frias a uma ONG de Karina, o Instituto Conhecer Brasil. A ONG é alvo da Polícia Civil paulista por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura da capital, e o delegado do caso, Antônio Carlos Munuera Silveira, aponta “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Em agosto, Dino havia liberado a PF para ter acesso total às investigações em curso em São Paulo.

Os advogados de Gama e Frias não queriam estar na mira de apurações policiais supervisionadas por Dino. Preferiam André Mendonça, relator de um inquérito sobre a cinebiografia criado após a revelação pelo Intercept Brasil, em maio, de que Flávio cobrou dinheiro de Vorcaro para o filme. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, disse o senador em um áudio de WhatsApp de 8 de setembro de 2025, dois meses antes da primeira prisão preventiva do banqueiro. “É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” Uma semana após a cobrança, o fundo Havengate recebeu 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, conforme relatório do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. O fundo é sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, ex-deputado em autoexílio em Tio Sam desde fevereiro de 2025. Desse fundo os recursos seguiram à produtora do filme, a Go Up, que tem Gama como sócia.

A nova operação que visa o financiamento ao filme Dark Horse faz parte do movimento das peças na batalha em curso no tribunal

O clã Bolsonaro alega que o patrocínio de Vorcaro à cinebiografia foi uma relação entre particulares, sem verba pública envolvida. Não é bem assim. Quando estava na beira do abismo, a partir de 2024, o Master conseguiu aportes bilionários de fundos de pensão de servidores públicos. E há ainda outro problema: Eduardo tramou nos EUA o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, cujo objetivo era salvar a pele do pai de uma condenação por tentativa de golpe, julgamento ocorrido no STF há exatamente um ano. O “zero três” começou o complô em fevereiro de 2025, mês da primeira remessa financeira de Vorcaro a Dark Horse. O Supremo considerou a conspiração uma atitude criminosa, uma “coação no curso do processo”, e sentenciou o ex-deputado a quatro anos de prisão. A permanência nos EUA pode ter sido financiada por Vorcaro, ou seja, o banqueiro fora da lei pode ter patrocinado o tarifaço e a “coação”.

No fim de agosto, Mendonça, um dos indicados de Bolsonaro no STF, abriu o gabinete a Vorcaro. Deu-lhe palanque para posar de herói. “Lutar contra todo o sistema não é fácil”, declarou o banqueiro no depoimento, cuja transcrição é pública. Na versão do interrogado, o ingresso no sistema financeiro tinha por objetivo enfrentar bancos que cobram juro alto. A “ousadia” teria levado rivais a persegui-lo. Para se defender, ele teria buscado socorro em agentes públicos e políticos e cruzado a linha da moralidade no trato com esses personagens. Vorcaro se diz arrependido e estaria disposto a delatar os envolvidos, mas a PF barraria o intento. Seus alvos? “Pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo.” Uma delas seria o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afastado do cargo na terça-feira 8 por Mendonça e devolvido ao posto no dia seguinte, primeiro por Dino, sob o argumento de que as apurações sobre Dark Horse não podiam parar, e depois por Edson Fachin, presidente da Corte, com a justificativa de que Mendonça tinha atropelado procedimentos.

O depoimento de Vorcaro a Mendonça havia sido solicitado pelo banqueiro. Dias depois, soube-se que os dois haviam se reunido pessoalmente em março do ano passado, na sede do instituto educacional fundado por Mendonça em 2023, o Iter, notícia que levou o magistrado a anunciar sua retirada da sociedade. Naquela época, Mendonça ainda não era relator do caso Master. Um mês antes da reunião, havia ido a uma alfaiataria na companhia de um advogado conhecido de Vorcaro, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn em sua newsletter. Em áudio de WhatsApp ao banqueiro naquele dia, Ciro Soares comentou: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você. Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”. Em outro, afirmou: “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo (…) Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia”.

Vorcaro corrompeu dois dirigentes do BC, segundo descobertas da PF, na tentativa de proteger o Master na batalha contra a concorrência. Foi o BC de Bolsonaro, recorde-se, que autorizou o banco a funcionar, depois de uma negativa na gestão Temer. Apesar de ser o relator do inquérito sobre o pedido de financiamento de Flávio Bolsonaro a Vorcaro e de todo o caso Master, Mendonça prefere outra linha apuratória: a relação do colega de Corte Alexandre de Moraes com o banqueiro. Essa postura jogou o Supremo em uma crise sem precedentes. Em 15 de setembro, o tribunal realizará uma sessão plenária para examinar um relatório da PF encomendado por Mendonça que aponta vários encontros pessoais e trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes por quase dois anos, a partir de dezembro de 2023. Menos de um mês após o início dos contatos, o banqueiro contratou a esposa do ministro como advogada, um acordo vigente quando Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez, em novembro de 2025. O relatório policial de 218 páginas sobre Moraes é nulo, por ter nascido de duas decisões ilegais de Mendonça: abrir por conta própria uma investigação sobre um colega e tê-lo feito sem ouvir os colegas do STF. É o que sustenta o procurador-geral da República, Paulo Gonet, autor de um pedido de anulação da papelada-documento, algo também a ser avaliado pelo tribunal na terça-feira 15.

Fachin se recusava a decidir, mas acabou obrigado a agir por conta das pressões externas e da escalada da crise

A sessão transcorrerá diante das tevês, como queria Mendonça ao ressuscitar métodos lavajatistas a um mês da eleição? Ou a portas fechadas, como a Corte fez de maneira informal em fevereiro, ao debruçar-se sobre outra papelada de 200 páginas preparada pela PF? À época, quem estava na mira por razões similares àquelas que comprometem Moraes (proximidade excessiva com Vorcaro, e talvez movida a dinheiro) era mais um togado supremo, José Dias Toffoli, então relator do escândalo do Master. Toffoli acabou por deixar o processo, assumido em seguida por Mendonça graças a um sorteio eletrônico. Mas seus colegas salientaram que o documento da PF não tinha valor, por motivos parecidos com aqueles invocados agora por Gonet em relação a Moraes. “A palavra do ministro Toffoli tem fé pública”, disse Mendonça naquela reunião, a propósito da negativa do par de que houvesse “intimidade” com o banqueiro. Mendonça ascendeu na Advocacia-Geral da União, quando Toffoli comandava o órgão nos governos passados de Lula. E foi aprovado para o Supremo no Senado com apoio do agora colega de Corte.

O relatório contra Toffoli havia sido levado por Rodrigues, o diretor da PF, a Fachin, acompanhado de um pedido de suspeição do juiz no caso Master, jamais apreciado pelo tribunal. Ao convocar a sessão plenária para examinar a situação de Moraes, o presidente do tribunal não detalhou o formato. Além de mandar o colega à fogueira, tirou poder dele ao evocar o inquérito das fake news. A investigação foi instaurada pelo Supremo em 2019, para proteger-se da cruzada anti-STF do bolsonarismo. O ex-deputado Daniel Silveira foi condenado a oito anos de cadeia em 2022 graças ao inquérito. Havia gravado vídeo com ameaças de violência física contra juízes da Corte. Moraes será mantido na relatoria de ações penais decorrentes dessa investigação, contudo as apurações pendentes correrão agora sob a batuta de Fachin, que busca o encerramento do processo desde que assumiu o leme da Corte, há um ano. Ele vai estudar os autos para separar o que cabe enviar à PF para ser aprofundado e o que pode ir a Gonet, para ser convertido em acusação formal perante a Justiça.

“Vou indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio Bolsonaro na esvaziada manifestação no 7 de setembro

Manter o inquérito vivo era visto como ato necessário por uma ala da Corte que enxerga no bolsonarismo um risco à democracia e ao tribunal. Dino integra essa corrente. “É possível a um julgador, qualquer que seja ele, ‘prometer o final de um inquérito’ como se fosse um candidato ou para receber aplausos?”, escrevera em uma rede social às vésperas da decisão de Fachin. Colocar um cabresto no Judiciário é uma prática da extrema-direita na atualidade. Foi assim na Hungria nos anos de Viktor Orbán e é assim em El Salvador de Nayib Bukele, entre outros. No Brasil, o Supremo foi uma barreira de contenção ao extremismo de Bolsonaro, condenado pelo tribunal há exatamente um ano por tentativa de golpe. O filho do capitão que concorre a presidente não esconde o desejo de subjugar a Corte. “Vou indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio em um ato público da oposição em 7 de setembro.

Incendiados pela decisão de Mendonça de detonar uma guerra contra Moraes, militantes bolsonaristas não perderam a oportunidade de usar mais um Dia da Independência para malhar o Supremo. Na sabatina no Jornal Nacional, da Rede Globo, em 28 de agosto, Flávio tinha uma “cola” na mão com as palavras “mudança”, “futuro” e “7/set”, uma pista de que a iniciativa de Mendonça contra Moraes não havia sido aleatória, mas parte de um plano. Foram várias manifestações pelo País, estreladas por candidatos ao Senado, a casa legislativa com poder para cassar integrantes do STF. O principal ato, o da Avenida Paulista, mais uma vez deixou a desejar em público, nem um boneco inflável do impopular (nos EUA) Donald Trump evitou o fiasco. Pesquisas existentes hoje apontam avanço do PL no Senado.

São 11 integrantes no STF. Uma das cadeiras está vaga há quase um ano, com a aposentadoria precoce de Luís Roberto Barroso. No próximo governo, três vão pendurar a toga por idade. Eis a conta dos “cinco” de Flávio: as vagas de Barroso, Moraes e dos futuros aposentados. Somados aos dois indicados de Jair que já compõem a Corte (Mendonça e Kassio Nunes Marques), um novo governo Bolsonaro teria a mais alta Corte na mão. Entre auxiliares de Lula, há uma ­disputa silenciosa por um lugar no Supremo. De um lado, Jorge Messias, o AGU. De outro, Wellington César Lima e Silva, o ministro da Justiça. Messias foi indicado por Lula e rejeitado pelo Senado em maio. Na busca pela aprovação, havia se aliado a Mendonça, evangélico como ele. Sonha em ser escolhido de novo, daí a AGU não peitar o juiz em nome da PF e ter resistido por semanas aos apelos de Rodrigues para integrar o esforço de demonstrar a parcialidade de Mendonça nos casos Master e INSS. Lima e Silva foi outro a fazer cara de paisagem diante da batalha. “O Andrei está isolado no governo”, comentava um ministro de Lula na semana anterior à decisão de Mendonça de afastar o diretor da polícia.

Messias e Wellington Silva só entraram em campo por Rodrigues após uma ordem de Lula, no dia do afastamento do delegado. A dupla foi a Fachin, antes de a AGU entrar com um recurso na Corte para devolver o chefe da polícia ao posto. O presidente do tribunal concedeu a liminar, mas só após Dino ter derrubado a decisão de Mendonça, a pedido do próprio delegado.

Para aplauso dos bolsonaristas, Fachin retirou das mãos de moraes o inquérito das fake news, instalado há sete anos

A hesitação de Fachin diante do vale-tudo entre colegas contribuiu para a escalada da crise no STF. Moraes tinha revidado o relatório policial encomendado por Mendonça com um despacho, no qual, também baseado em papéis da PF, apontou fortes indícios de que o oponente teria cometido abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. E defendia que a situação fosse objeto de providências. Fachin queria baixar a temperatura e ganhar tempo, conversou com alguns colegas com esse objetivo, segundo um interlocutor. Os ânimos estão, no entanto, acirrados demais para uma solução dessa natureza. Fachin gostaria ainda de construir uma solução mais ou menos consensual, mas esbarrou na geopolítica interna de forças. Essa geopolítica não permite antecipar o desfecho da sessão de 15 de setembro. Moraes chegou a convocar um pronunciamento para a manhã da quinta-feira 10, dia da conclusão desta reportagem, mas adiou o evento para a segunda-feira 14, véspera da sessão plenária.

O relatório da PF sobre as relações com Vorcaro mostram Moraes em uma posição indefensável. Ele mentiu aos pares, ao divulgar uma nota, em março, na qual negava que certas mensagens de WhatsApp enviadas por Vorcaro em 17 de novembro de 2025 tivessem ele (Moraes) como destinatário. Naquela data, o banqueiro foi preso pela PF pela primeira vez, em um aeroporto, quando tentava embarcar para o exterior. Em uma das últimas mensagens a Moraes, Vorcaro escreveu: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por “bloquear” leia-se “melar” a operação policial a caminho. Na véspera, banqueiro e juiz haviam tido uma reunião. Em seguida, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Trata-se do diretor-geral da PF. Não houve atraso, a polícia algemou Vorcaro.

A Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça só entraram na briga entre a Polícia Federal e Mendonça após o presidente Lula reclamar da omissão dos subordinados

Na antevéspera da prisão, o banqueiro tinha procurado Moraes por mensagem. “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” E prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?” Essas mensagens resumem a relação entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10a Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de novembro. Galípolo é o presidente do BC, que liquidou o Master no dia da prisão de Vorcaro. Paulo é Gonet, o procurador-geral da República. Ao se observarem as mensagens em conjunto e à luz dos acontecimentos, é inevitável concluir que Vorcaro contratou a banca advocatícia da esposa de Moraes para ter acesso direito ao togado. Descobrir a existência de investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das missões de Moraes. Procurar autoridades que pudessem auxiliar o banco e seu dono, outra.

A crise no Supremo é um assunto delicado para Lula e tem impacto potencialmente negativo na tentativa de reeleição. Em parte da opinião pública, Moraes é visto como inimigo do bolsonarismo, em razão da postura dele à frente da Justiça Eleitoral na campanha de 2022 e na condenação do ­ex-presidente por tentativa de golpe. Por tabela, seria “lulista”. Flávio esforça-se para colar o juiz ao presidente. Mendonça inflou essa estratégia ao levantar suspeita contra o diretor da PF. Lula tem dado declarações genéricas sobre o STF nas redes sociais. Sem citar nomes, defende que todo mundo seja investigado, “doa a quem doer”.

O domínio absoluto do tema no noticiário é outro abacaxi para o petista. A insistência monocórdica da mídia tira visibilidade do debate de ideias. Um colaborador presidencial cita um caso: no dia da decisão de Mendonça sobre Moraes, Lula fez uma longa reunião no Palácio do Planalto, com gente de dentro e de fora do governo, para discutir restrições às bets, da limitação à publicidade à possibilidade de proibição total das apostas esportivas, ideia apoiada pela maioria do País. O assunto praticamente não teve espaço midiático. Daí o presidente torcer por uma solução rápida para a crise no Supremo. A sessão de 15 de setembro pode ser o início desse desfecho. Ou, ao contrário, alimentar ainda mais a fogueira. Até lá, a campanha petista tentará manter Lula a uma prudente distância de Moraes. •

Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.

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