sábado, 12 de setembro de 2026

O que fazer com a AfD? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Estratégia de isolar partidos da direita radical pode estar com os dias contados

Forças democráticas precisam buscar meios de reduzir virulência dessas legendas

Até aqui, a estratégia dos partidos mainstream europeus de isolar a direita radical para impedir que ela chegue ao poder tem experimentado sucesso relativo. Exemplos desse mecanismo de "cordon sanitaire" incluem a eleição presidencial portuguesa de fevereiro, quando o ultradireitista André Ventura, do Chega, foi derrotado, e as duas vezes, 2017 e 2022, em que sua congênere francesa, Marine Le Pen, perdeu o segundo turno do pleito para Emmanuel Macron.

O "Brandmauer" (porta corta-fogo), que é a versão alemã do cordão sanitário, poderá funcionar agora e evitar que o partido extremista AfD (Alternativa para a Alemanha) comande o estado da Saxônia-Anhalt, apesar de ter obtido 44% dos votos e ter ficado a três cadeiras da maioria que lhe permitiria governar sem depender de ninguém.

O ponto é que essa estratégia não funcionará para sempre. Le Pen já figura como favorita para o pleito presidencial francês de 2027, e a AfD tem crescido rapidamente na preferência dos alemães. Se o "cordon sanitaire" tem a virtude de evitar que representantes de uma ideologia perigosa assumam postos de comando do Estado, também carrega o ônus de conceder a esses partidos o duplo benefício de poderem posar de vítimas do sistema, o que tem apelo eleitoral, e de poupá-los do desgaste do poder, que tem sido inclemente com governantes.

Se a direita radical continuar crescendo, não restará outro caminho às forças democráticas que não o abandonar a estratégia do isolamento e tentar reduzir a virulência dessas legendas, mesmo que ao preço de negociar com elas. Não é impossível. Marine Le Pen já ficou menos radical que seu pai, o fundador do movimento. A italiana Giorgia Meloni, eleita por um partido com origens fascistas, faz um governo institucionalmente bem-comportado. Até se afastou de Vladimir Putin para estreitar a ligação com a UE (o sistema).

O avanço da ultradireita é um pouco como a mudança climática. Precisamos tentar agir tanto sobre as causas (mitigação) como sobre os efeitos (adaptação).

 

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