Valor Econômico
Vice-presidente do PT, Washington Quaquá, levou às redes sociais suas críticas à estratégia eleitoral e à postura da coordenação lulista
Vice-presidente do PT e principal liderança
no Rio de Janeiro, mas alijado do restrito núcleo que toma decisões no partido
e na campanha, Washington Quaquá cansou de ser ignorado, e ao contrário de
outros petistas que se queixam em privado, levou às redes sociais suas críticas
à estratégia eleitoral e à postura da coordenação lulista, que se fechou ao
diálogo, e na sua visão, pode conduzir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
ao abismo.
“O Flávio [Bolsonaro] vai para a televisão de dentro de um supermercado e fala da vida real, e nós, falando de terras raras”, criticou Quaquá em vídeo, citando o projeto que regulamentou a exploração dos minerais críticos, cobiçados por Estados Unidos e China. Lula quer falar de soberania, pauta que não seduziu o eleitor.
Coordenador da campanha de Lula no Rio -
terceiro maior colégio eleitoral, atrás de São Paulo e Minas Gerais - Quaquá
reclamou que não tem diálogo com a coordenação nacional. Mencionou que
encomendou pesquisas internas, mas não tem com quem discutir os resultados.
Com visita de Lula ao Rio de Janeiro
programada para esta sexta-feira (18), Quaquá ecoou aliados que cobram a
ausência da frente ampla que ajudou o petista a se eleger em 2022, e apontou o
velho erro do petista de se fixar na bolha de esquerda. Referiu-se ao ato de
Lula com artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso como perda de tempo: “É
pregar para convertido”, lamentou.
Antes da atividade com artistas, que será à
noite, Lula terá agenda presidencial durante o dia com o governador interino do
Rio e presidente licenciado do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, ao lado de
quem conhecerá ações coordenadas das três esferas de Poder para o combate ao
crime organizado.
Quaquá, entretanto, defendeu, em outro vídeo,
que para ampliar os votos no Estado, ele deveria realizar agendas com
evangélicos em São Gonçalo, um dos maiores colégios eleitorais, e base do
deputado Douglas Ruas, candidato ao governo e aliado do candidato do PL, Flávio
Bolsonaro; bem como fazer reuniões com representantes da polícia fluminense.
Excluído do núcleo decisório da campanha -
que se fechou entre quadros do PT paulista, da Bahia e do Ceará -, Quaquá se
consolidou como força eleitoral no Rio. Em 2024, foi reconduzido para o
terceiro mandato na Prefeitura de Maricá, de onde comanda uma das maiores
receitas de royalties de petróleo do país, que em 2025 totalizou cerca de R$ 4
bilhões. Ele demonstrou a hegemonia regional no ano passado, ao eleger o filho,
Diego Zeidan, presidente do diretório fluminense do PT, derrotando o deputado
Reimont, que tinha o apoio dos cardeais nacionais da sigla, como o presidente
Edinho Silva, o vice-líder do governo, Lindbergh Farias, e o ex-presidente da
Alerj André Ceciliano, que tinha gabinete no Palácio do Planalto.
Em dezembro, num gesto de viés eleitoral,
Quaquá e seu aliado, o candidato a governador Eduardo Paes (PSD) - ainda no
cargo de prefeito da capital -, assinaram um acordo renunciando a parte de suas
receitas de royalties em favor das cidades de São Gonçalo, Magé e Guapimirim,
que juntas concentram um dos maiores eleitorados do Rio.
Se a cobrança de Quaquá para que Lula fale
mais da vida real dos brasileiros repercutiu, em paralelo, a coordenação
lulista também recebia apelos para que o petista se libertasse da crise do
Supremo Tribunal Federal (STF), que Flávio, habilmente, colou nele, e
contribuiu para derrubá-lo nas pesquisas.
A principal resposta veio na quinta-feira
(17), com o anúncio do aumento do Bolsa Família em 15%, que surpreendeu
adversários e o mercado financeiro, e ao mesmo tempo, mudou a pauta dos
adversários. Mas como o reajuste começa a cair na conta dos beneficiários em 19
de outubro, eventual convergência em votos pode vir apenas no segundo turno.
Flávio, a seu turno, foi bem assessorado para
não cair na armadilha petista de criticar o aumento. Ao comentar a iniciativa,
o candidato do PL disse que deveria ter sido feito antes, e que Lula agiu no
desespero, pelo medo de perder. Ele também terceirizou a maldade: coube ao
aliado, Zé Trovão (PL-SC), recorrer à Justiça Eleitoral alegando abuso de poder
do petista.
Outro movimento controverso, mas que, ao fim,
deverá ajudar mais do que atrapalhar a campanha de Lula foi o pedido de vista
do ministro Flávio Dino no julgamento sobre Alexandre de Moraes. Com o gesto,
ele postergou o desfecho do caso para depois da eleição. A pauta não vai sumir
do debate eleitoral, mas o adiamento diminui o desgaste, desloca o tema das
manchetes e distancia Lula da crise do STF.
O pito de Quaquá na coordenação lulista evoca
o conto “Quaquaraquaquá, Dibber Lannon”, de John Fante, autor de “Pergunte ao
Pó” e “Espere a Primavera, Bandini”. Numa comunidade italiana nos Estados
Unidos, de forte apelo católico, Arturo Bandini zomba do amigo Dibber Lannon,
que espalha na escola que o irmão mais velho será papa, quando na verdade, Pat
Lannon é um namorador incorrigível. “Haha, gargalhada para Dibber”, tripudia
Arturo.
Em abril, o PT comemorou que o adversário de
Lula seria Flávio, considerado “mais fácil” do que o governador Tarcísio de
Freitas. “Quaquaraquaquá”, diria Flávio hoje, com vantagem nas pesquisas. Ele
se tornou favorito, mas ainda não dá para saber, numa disputa tão acirrada,
quem vai rir por último na eleição.
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