sábado, 3 de outubro de 2026

Amanhã, por Eduardo Affonso

O Globo

Eleger é selecionar o melhor — e lá vamos nós, de novo, recolher na xepa o que parecer menos podre

Amanhã é domingo, dia de fila de votação, em pé, de castigo. O castigo é bizarro: optar entre a bijuteria barata banhada a ouro (de tolo) e a estatueta de ouro (com pés de barro). É mais uma eleição que não faz jus ao nome: eleger é selecionar o melhor — e lá vamos nós, de novo, recolher na xepa o que parecer menos podre.

Pensei — eu que gosto tanto de arcaísmos e de palavras que só existem para preencher os quadradinhos das palavras cruzadas — que o jeito será apelar para o apofatismo. Antes de usar o termo — que poderia soar pedante ou hermético (possivelmente as duas coisas) — consultei amigos mais letrados. Nenhum titubeou. Pacheco mencionou o complexo apofatista, padrão Las Vegas, erguido por uma seita na margem do Rio Corumbá. Maria e Gloria contaram de conhecidas suas que, decorridos muitos anos, ainda carregavam o peso da apófase no coração. Justino lembrou-se da moça que sofria de apofatismo bilateral congênito (ABC, no jargão médico). Teresa admitiu ter cogitado frequentar o AA (Apofáticos Anônimos), mas temeu pelos efeitos colaterais.

Entendi que a expressão era bem acessível, adequada a uma crônica. Mas vou dispensar tanta ignorância criativa e manter a ortodoxia. Meu apofatismo é só a estratégia de definir pela negação: como Deus não pode ser descrito pelo que é (Sua natureza escapa à linguagem), resta tentar chegar lá por aproximação, excluindo o que Ele não seja. É mais ou menos o que farei amanhã, na seção eleitoral: escolher por eliminação, um que não seja populista, não esteja — e jamais tenha estado — envolvido em escândalo de corrupção, nem tenha filho ou irmão investigado por suspeita de tráfico de influência, lavagem de dinheiro, organização criminosa. Alguém que não simpatize com líderes autoritários nem apoie ditaduras. Que não vá indicar um parça (ou quatro, cinco, seis!) e transformar o STF num puxadinho do Planalto. Que não minta compulsivamente, nem pretenda continuar negando as aparências e disfarçando as evidências. Que não faça o diabo para ser eleito, nem da fé um instrumento de desunião.

A escolha positiva (não, não vou dizer “catafática” — seria pesar demais a mão) deixo para a arte. Amanhã, depois de ir à urna funerária — e sepultar as esperanças por mais quatro anos, torcendo que ainda haja algo a exumar em 2030 —, quero ouvir de novo (e de novo, e de novo) o disco em que João Bosco reúne amigos novos e antigos e recria sua obra. E “Vice-versa”, com as canções recém-compostas, a quatro mãos, por Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes. E a improvável mistura de piseiro e bossa nova, só possível pela ousadia de Mãeana.

É uma forma de calar o que desagrega — essa política miúda, com gosto de ontem — e ouvir quem constrói pontes novas entre a tradição e a modernidade, o pop e a experimentação, a Petrolina de João Gomes e a Juazeiro de João Gilberto. Aos que entendem que “quem faz romaria e procissão samba também”, que “cê lascou o coração do matuto” pode conviver com “a insensatez que você fez, coração mais sem cuidado” e percebem a riqueza de juntar “lixas e veludos, graves e agudos”.

Amanhã é aquele domingo em que um mau agouro insistente bate na gente. A gente se sente fraco, sem enxergar como sai desse buraco. Que parece sem fundo — mas não há de ser (ainda) o fim do mundo.

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

O álbum de João Bosco ganhou cotação-máxima de Mauro Ferreira.