Revista Veja
Reta final com guerrilha religiosa no palanque e esgrima de vaidades no STF
É uma eleição diferente. Delineia o fim de um ciclo com a despedida da geração que se mantém hegemônica na política desde o fim da ditadura.
Dois candidatos encarnam esse epílogo: Lula,
80 anos, e Ronaldo Caiado, 77 anos, ajudaram a fazer a Constituição (1988),
disputaram a primeira presidencial com voto direto (1989) e estão aí nas urnas,
de novo, quase quatro décadas depois.
O sujeito oculto desta eleição é Jair Bolsonaro, 71 anos. Ele ascendeu na política cultuando o saudosismo do regime militar, que o renegara no Exército. Está inelegível e condenado à prisão até os 97 anos de idade, porque tentou construir a própria ditadura depois de ter perdido a reeleição para Lula (2022).
Uma das peculiaridades desse processo
eleitoral é o desalento desenhado em diferentes pesquisas nos últimos doze
meses. Predomina um clima de apatia que, talvez, tenha origem na longa
transição geracional, onde a permanência do antigo limita ou simplesmente
impede a emergência do novo aos olhos dos 158 milhões de eleitores.
Lula e Jair Bolsonaro conduziram o país a uma
armadilha, resumiu Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de
Pernambuco: “Quanto maior a rejeição a cada um dos polos, mais necessário o
outro parece aos seus seguidores. O desgaste não os expulsa do jogo; torna-os
reciprocamente indispensáveis. A competição democrática deixou de produzir
renovação.”
Favoritos nas pesquisas sobre a votação de
domingo (4/10), Lula e Flávio
Bolsonaro, o candidato escolhido pelo ex-presidente, resolveram empurrar o
Estado laico para um conflito religioso de palanque. Chegaram à reta final da
eleição devotados à manipulação eleitoreira de símbolos religiosos, apenas para
reafirmar a velha ciranda de repúdio ao adversário — votar em Lula para impedir
Bolsonaro, votar em Bolsonaro para impedir Lula. Essa discussão bizantina sobre
o padroado nacional de Nossa Senhora Aparecida, celebrado há 309 anos pelos
católicos, revela muito sobre os desertos de ideias em que foram plantadas as
duas candidaturas presidenciais.
Outra singularidade é a transformação de
Brasília numa usina de insegurança institucional.
“Reta final com guerrilha religiosa no
palanque e esgrima de vaidades no STF”
Quem deveria proteger a estabilidade criou
inédita instabilidade. A sentença judicial de hoje, baseada em leis aplicadas a
situações similares no passado, tem grande chance de ser revogada amanhã e
reformada outra vez na semana seguinte — e assim, sucessivamente… Vale no STF
e, também, nos demais tribunais cujas decisões estão sujeitas a revisão no
Supremo.
Juízes de tribunais superiores são políticos
vestidos de toga, mas é anômala a presença deles na paisagem política nacional
dando motivos para se duvidar da estabilidade institucional. Parte do Supremo
resolveu aderir à guerrilha religiosa estimulada por Lula e Flávio Bolsonaro na
reta final das eleições apenas porque viu nela bom pretexto para o acirramento
da crise interna.
Há nove meses o conflito consome o STF,
inflamado pelas revelações sobre envolvimento de alguns dos juízes e familiares
em estranhas transações com o Banco Master. O antigo dono do banco, Daniel
Vorcaro, completou seis meses de prisão preventiva por fraudes bilionárias no
mercado financeiro. O relator do caso, juiz André Mendonça, pediu ao tribunal
para decidir se vai investigar o juiz Alexandre
de Moraes. Motivo: a banca da família Moraes manteve um contrato de 131
milhões de reais em serviços de advocacia ao ex-banqueiro Vorcaro enquanto o
Master afundava nas próprias maracutaias. A resolução do caso talvez aconteça
depois do segundo turno eleitoral.
Teólogo, pastor e indicado por Jair Bolsonaro
ao STF sob a justificativa de que é “terrivelmente evangélico”, Mendonça se
tornou alvo preferencial dos juízes aliados a Moraes, entre eles Gilmar Mendes,
Flávio Dino
e Cristiano Zanin.
Vice-presidente do Tribunal Superior
Eleitoral, na semana passada ele proibiu publicações em redes sociais que
associavam o candidato Flávio Bolsonaro a um bizarro movimento para retirada do
título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A decisão de Mendonça
foi revisada no STF, numa suposta interferência indevida na autonomia da
Justiça Eleitoral.
A esgrima de vaidades entre juízes do Supremo
produziu uma crise de consequências imprevisíveis, condimentada por ameaças ao
Estado laico. É a autofagia da toga.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015

Nenhum comentário:
Postar um comentário