CartaCapital
As políticas públicas e sociais dos três
mandatos do presidente foram impulsionadas por um ambiente democrático
É atribuída a Mahatma Gandhi uma resposta
irônica ao jornalista que o questionou sobre a Civilização Ocidental. Gandhi
disparou: “Teria sido uma boa ideia”.
Na esteira do Iluminismo e da Revolução Francesa, a dita Civilização, entre dores e contradições, busca sobreviver às muitas agressões dos que proclamam sua defesa. O século XX testemunhou a dura peregrinação da “boa ideia”, sempre atormentada pela tensão permanente entre desejos despóticos dos poderosos e os anseios dos mais frágeis pela autonomia do indivíduo. Autonomia que reivindica a convivência entre singularidade e diferença, ancoradas nas solidariedades da pertinência cívica e republicana.
Diante da admiração internacional e do
sucesso doméstico alcançados pelo presidente Lula, corre-se o risco de
desconsiderar seu compromisso inarredável com a democracia.
As políticas públicas e sociais dos três mandatos
do presidente foram, sim, impulsionadas por um ambiente democrático. Isto
ocorreu na contramão do ethos neoliberal imperante no mundo nos últimos anos,
que tratou de promover a ética intolerante dos vencedores, aquela que não deixa
ao desamparado, ao inferiorizado, senão a alternativa de massacrar a própria
autoestima.
“A individualização” do fracasso, inscrita
nos pórticos da concorrência desaçaimada, não permite ao derrotado compartilhar
com os outros um destino comum provocado pela desordem do sistema social. O
reconhecimento social é uma preciosa forma de remuneração não monetária. E essa
retribuição torna-se cada vez mais escassa quando o desemprego e a desigualdade
prosperam em meio a uma eufórica comemoração do sucesso do indivíduo.
Não cuidamos aqui apenas da desigualdade
econômica, mas das carências educacionais e culturais que assolam o País. O
velho desenvolvimentismo criou uma resistência nos dirigentes brasileiros a
cuidar da produção de bens culturais como um fator de progresso econômico e
social. Se a memória não me atraiçoa, arrisco dizer que Adorno afirmava que
“sem compreensão não há liberdade”.
Cada vez que falam em populismo eu tenho
arrepios. Populismo é uma palavra sem conceito. Ela pretende dizer que os
“esclarecidos” − entre aspas − votam de maneira racional, não por interesse
próprio. Dizem que os desvalidos e os mais pobres estão atacando o orçamento na
defesa de seus interesses. Já os especialistas, esses não, eles encarnam a
racionalidade. Eliminam a contraposição de interesses e vão jogar Lego com a
racionalidade dos bem-nascidos e a irracionalidade do povão .
Desde os anos 70, testemunhei a intensa
convivência entre Lula e Democracia. A seu modo exercitava a política como
vocação e mediação. Mediação entre os dois sistemas de vida que regulam o
equilíbrio das sociedades capitalistas: as necessidades e aspirações dos
cidadãos e os interesses que se realizam através do mercado. Nesse jogo de
mediação, crucial para a vida moderna e civilizada, deve-se reconhecer a
legitimidade dos interesses contrapostos, um exercício permanente dos governos
comprometidos com a soberania popular.
Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

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