Correio Braziliense
As denúncias lançadas contra o candidato de
oposição, como farras com prostitutas, amizade com milicianos e lavagem de
dinheiro, não incomodaram tanto quanto acusação de fundo religioso. O Brasil da
República é laico, mas o brasileiro é religioso
Política e religião não se combinam. É difícil governar com base em conceitos religiosos. Desde os antigos até os dias de hoje, a confusão é séria. Jesus Cristo, o homem chamado filho de Deus, foi um essênio que viveu na Galileia entre 6 e 4 a.C e 30-33 d.C. numa tribo isolada no deserto de onde saiu para pregar o arrependimento, a justiça e amor ao próximo. Sua pregação ocorreu em território dominado por Roma. O homem forte na região, Pôncio Pilatos não gostou do que ouviu, sobretudo porque o profeta era visto pelos seus seguidores como um rei. Dois reis não convivem no mesmo pedaço. O dos cristãos morreu na cruz.
Mas seus conceitos sobreviveram por mais de
20 séculos com ampla discussão por meio de entidades religiosas. A descoberta
do Brasil foi obra da Igreja Católica. É uma história bonita e complicada. A
ordem dos Templários, que protegia os peregrinos no caminho de Jerusalém,
ganhou muito dinheiro com o sistema financeiro que criou. Ela financiava as
excursões e protegia seus integrantes. A ordem ficou rica. Tão rica que um dos
principais devedores foi o Rei de França, Filipe IV. Diante da dívida, o
soberano francês escolheu o caminho mais curto: em vez de pagar, extinguiu a
ordem, torturou e executou seus dirigentes. O chefe supremo, Jacques de Molay,
morreu na fogueira. Mas o dinheiro dos templários sumiu.
O dinheiro apareceu, séculos depois, em
Portugal, na Ordem dos Cavaleiros de Cristo, que tinha as características
militares dos Templários. O infante D. Henrique, português que organizou as
grandes navegações, vivia como um templário: asceta e isolado. Suas caravelas,
inclusive as da frota de Pedro Álvares Cabral que aportou na Bahia, ostentavam
a famosa Cruz de Cristo, símbolo dos Templários. E os primeiros europeus
brancos que chegaram ao novo continente eram presidiários ou judeus convertidos
— ou seja, grupo de cristãos novos. A colonização do Brasil foi realizada,
basicamente, por jesuítas que se espalharam de norte a sul. Portugueses faziam
negócios. Os padres catequizavam índios e negros.
Até hoje, existem as festas do Divino no
interior do Brasil. Elas representam a vitória dos cristãos contra os mouros,
ou seja, árabes, que foram expulsos da península ibérica. O Brasil é filho dos
rigores da Igreja Católica. A Inquisição enviou quatro visitações para punir
infiéis na colônia tropical. As punições ocorreram em Lisboa, onde muita gente
morreu na fogueira. Só para efeito de comparação, a colonização dos Estados
Unidos, por pioneiros ingleses, é fenômeno reverso. O país é consequência
histórica da contrarreforma — ou seja do protestantismo de Martinho Lutero. Os
pioneiros fugiram dos rigores da Igreja Católica na Europa, o que favoreceu o
surgimento de várias denominações religiosas na nação do norte.
No século 18, Sebastião José de Carvalho e
Melo, o Marquês de Pombal, descobriu que, para bem governar Portugal, era
necessário evitar os religiosos. Expulsou os jesuítas de todas as colônias e
extinguiu a ordem religiosa, que só ressurgiu muito tempo depois. Ele dividiu o
Brasil em duas colônias. A do Grão Pará e Maranhão (onde ele colocou seu irmão
para governar) falava diretamente com Lisboa. A colônia do Brasil, do Nordeste
para o Sul, se relacionava por meio da capital, Salvador. O conflito Igreja
versus Estado é recorrente na história do Brasil. No Brasil independente, ao
tempo do Império, o governo brasileiro era formalmente católico, mas permitia
que outras religiões existissem desde que em prédios discretos, sem qualquer
publicidade.
Hoje, os adeptos das religiões pentecostais
clamam pelo segundo advento do Senhor Jesus nas mesmas áreas que ele frequentou
séculos atrás. Isso explica a referência a Israel nos comícios políticos no
Brasil. Curiosamente, o estado de Israel não guarda nenhuma semelhança com o
que os religiosos professam. Lá o aborto é permitido, a mulher é livre e serve
no Exército, em todas as funções disponíveis. A crise em torno da Nossa Senhora,
padroeira do Brasil, que, supostamente, perderia esse posto, só se explica
pelas profundas raízes religiosas do brasileiro. Um pastor, tempos atrás,
chutou a imagem da santa. Essa agressão ficou gravada no inconsciente nacional.
A menção de que a santa perderia sua qualificação fez com que Lula ganhasse,
com incrível rapidez, cinco pontos no tracking de sua campanha, de um dia para
outro.
Nenhum dos candidatos apresentou projetos
relevantes para o país. As denúncias lançadas contra o candidato de oposição,
como farras com prostitutas, amizade com milicianos e lavagem de dinheiro, não
incomodaram tanto quanto acusação de fundo religioso. Até a poderosa
Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota oficial
condenando a mistura de política e religião. O Brasil da República é laico, mas
o brasileiro é religioso, graças a Deus. Bom voto.

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