terça-feira, 7 de outubro de 2014

José Roberto de Toledo: Congresso Nacional S.A.

- O Estado de S. Paulo

Com a dispersão crescente de suas cadeiras entre mais e mais partidos, o Congresso está virando uma sociedade anônima. Como na composição acionária das maiores empresas, não é preciso ser dono de metade mais um dos votos, basta ter uma fração do poder e saber negociar os votos suficientes para garantir a maioria. E ninguém negocia melhor do que o PMDB.

Hoje, 22 partidos têm representação no Congresso. A partir de 2015, se não houver fusões nem traições, 28 legendas terão direito a pelo menos uma cadeira na Câmara. É a maior dispersão partidária da história brasileira. A Câmara terá três bancadas de um deputado só (PSL, PRTB e PT do B), três de duplas (PEN, PTC e PSDC), duas de trios (PMN e PRP).

Se os 28 partidos do Congresso lançarem candidato a presidente da República em 2018, a legislação obriga que todos tenham direito a voz nos debates eleitorais na TV. Se o debate durasse uma hora, cada candidato teria direito a fazer uma pergunta de 30 segundos e dar uma resposta de um minuto e meio. Ou talvez fosse melhor começar e terminar nas considerações finais.

Se empilhassem suas cadeiras num bloco dos nanicos, os partidos com 10 deputados ou menos alcançariam estatura de totem maia. Chegariam a 57 cadeiras e formariam a terceira maior bancada da Câmara, à frente do PSDB. Perderiam para PT (70) e PMDB (66), mas olhariam os rivais nos olhos, não na canela.

É improvável que isso aconteça, porém. A sopa de micro letrinhas partidárias mistura partidos de todos os matizes, dos democratas cristãos do PSDC aos comunistas do PC do B. É difícil vislumbrar Luciana Genro (PSOL) e Levy Fidélix (PRTB) se confraternizando em um churrasco imaginário do bloco dos nanicos.

Os partidos tendem mesmo à pulverização na Câmara. Quanto mais dispersos os votos dos deputados, maior o varejo das negociações do Executivo com o Congresso - e maior o poder dos poucos atacadistas remanescentes. Mesmo que tenham encolhido.

O PMDB elegeu 78 deputados federais em 2010. Perdeu alguns ao longo da atual legislatura e ocupa hoje 71 cadeiras. No domingo, elegeu apenas 66. Mas isso não é necessariamente problema. Afinal de contas, mesmo encolhendo e tendo a segunda maior bancada, o partido comandou a Câmara ao longo de 2013 e 2014. É tudo uma questão de composição de forças. O poder é relativo.

Em comparação ao PT, que continua tendo a maior bancada da Câmara, o PMDB aumentou - ou diminuiu a diferença. Hoje há 17 deputados petistas a mais do que peemedebistas. Em 2015 serão apenas quatro cadeiras a mais para a bancada do PT. Isso porque os petistas sofreram a maior perda absoluta: 18 deputados.

Isso significa que o PMDB, mesmo menor no Congresso (perdeu uma cadeira no Senado, mas continua com a maior bancada: 18), continuará sendo o fiel da balança, aquele que faz diferença não apenas em como as matérias são votadas, mas no que vai a voto. Para isso, o partido fará de tudo para continuar presidindo a Câmara e o Senado. Na Câmara, já tem candidato.

Eduardo Cunha, atual líder peemedebista na Casa, está de olho na cadeira de Henrique Eduardo Alves desde que o deputado desistiu de concorrer ao 12º mandato na Câmara para lançar-se ao governo do Rio Grande do Norte. Cunha vem acumulando cacife para isso há mais de uma legislatura. Reelegeu-se domingo com a terceira maior votação do seu Estado, o Rio de Janeiro. Nenhum outro dos 65 deputados do PMDB teve mais votos do que ele: 233 mil.

Não chega a ser um Celso Russomanno (que com seu 1,5 milhão de votos voltou à Câmara e levou sete deputados do PRB com ele), mas tem o suficiente para chegar ao poder. É a mesma tática de alguns dos grandes empresários modernos. Com menos de 5% dos votos de uma companhia, conseguem manobrar com outros acionistas e chegar ao comando da empresa, às vezes até virar presidente.

Míriam Leitão: A ideia da oposição

- O Globo

Durante um ano o economista Armínio Fraga com andou um grupos de cerca de 60 especialistas para estudar os diversos problemas do país e suas soluções. O programa, divulgado em partes por Aécio Neves no fim do primeiro turno, tem como base a retomada do investimento. "Nossa ideia é de que a economia está com um problema de oferta por que passa por um apagão de credibilidade", diz Armínio.

O governo Dilma acha que o problema da economia é a falta de demanda e por isso tem estimulado o consumo. —Quero deixar claro que nada temos contra a demanda, ela é necessária, mas tem que haver um equilíbrio. Se não houver oferta cria- se a situação em que o Brasil está agora, de alta inflação e recessão ao mesmo tempo. Isso é livro-texto e o nosso diagnóstico é que estamos com problema na oferta. Se há demanda então seria normal o empresário aumentar a produção. É assim que funciona. Com a imensa necessidade de investimento em infraestrutura no Brasil, por que não se investe?

Nas rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos, saneamento. Isso deveria ser uma tremenda oportunidade para o Brasil crescer. Não está acontecendo pela incerteza. Ele acha que essas dúvidas vêm da alta da inflação, da afirmação do governo de que está tudo bem, do excesso de artificialismos e do intervencionismo. Há intervenção em vários preços importantes do sistema. As empresas diante disso ficam paralisadas. A saída é desmontar vários desses problemas. Armínio usa a imagem de um carro indo pela estrada em direção a um despenhadeiro. —Essa é a minha caricatura para a economia. Se você é uma passageira desse carro obviamente quer sair dele. Mas se o carro faz a volta e vai no sentido contrário, há um alívio geral. O veículo é o mesmo, só que está se afastando do risco.

O que a gente tem de potencial passa, de cara, por uma mudança de expectativa. É preciso fazer a economia aterrissar com a inflação mais baixa sem provocar recessão. E mais: como fazer essa economia crescer? As coisas estão juntas. Têm que estar juntas. Armínio acha que tudo passa por acertar o macro. —O primeiro passo é aumentar a transparência. O que está acontecendo aí é gravíssimo. Não é apenas que, ao fazermos as contas, vemos que há na verdade um déficit primário e não superávit. É um atentado à democracia porque há gastos orçamentários que não estão explícitos. Todos os gastos tem que estar no orçamento porque isso força uma discussão de qualidade. Se as pessoas acham que o dinheiro do BNDES é de graça, é mágica, fica todo mundo usando.

É preciso escolher o que fazer com o dinheiro do banco e saber quanto custa. Armínio sugere acertar o macro e o monetário, ou seja, o Banco Central perseguir sua meta de inflação. —Eu acho que se o governo fizer a sua parte na área fiscal e não abusar do crédito dos bancos públicos, o trabalho do BC será facilitado. Mas o que se fez foi tentar derrubar os juros e ao mesmo tempo expandir o crédito dos bancos públicos sem controle. Se o país racionalizar o uso dessas instituições, sem prejuízo de manter os programas relevantes e de qualidade que precisam ser mantidos, e ao mesmo tempo o governo segurar o fiscal, o BC vai atingir sua meta.

A pergunta que vem naturalmente é o que e onde cortar? Segundo Armínio há muita coisa que pode ser cortada, muita gordura, por estar o governo "aparelhado e mal administrado " há bastante tempo . —Eu acho que muitos dos subsídios aos empresários não serão necessários se for feita a reforma tributária, com simplificação e desoneração de exportação e investimento. O custo do capital pode ser reduzido com uma política fiscal e creditícia mais arrumada, fazendo uma blitz de custo Brasil, essas centenas de regras que atrapalham a vida dos empreendedores.

Se isso for feito, esses subsídios não serão necessários. Armínio explica que é preciso fazer o ajuste também gradualmente, enquanto a economia vai melhorando, o investimento aumenta. Ele acha factível o país voltar acrescer ao ritmo de 4% a 4,5% ao ano. — Os ajustes fiscal e da inflação têm que ser feitos em dois, três anos. Mas logo no primeiro ano já se sente a diferença. Toda a agenda micro pode começar a ser feita imediatamente.

Celso Ming: O fator confiança

- O Estado de S. Paulo

Os resultados das eleições do primeiro turno exigem revisão de cenários a partir de 2015. Embora houvesse alto grau de convergência entre as propostas de política econômica dos candidatos da oposição, para a candidata Dilma Rousseff enfrentar a proposta econômica de Aécio Neves não é a mesma coisa que enfrentar a proposta econômica de Marina Silva.

A presidente Dilma vinha repetindo que, caso reeleita para um segundo mandato, não faria grandes correções de rumo. A condução da economia ficaria limitada a ajustes, nada de muito profundo. Enfim, Dilma dobraria as apostas na que chamou de nova matriz macroeconômica, baseada na indução do crescimento pela expansão das despesas públicas.

Ela não via (e ainda não vê) razões para cavalos de pau porque continua aferrada ao diagnóstico de que o baixo crescimento econômico e a inflação alta demais foram e continuam sendo gerados lá fora. Nessas condições, nada a fazer além de reforçar a dose de paciência e de esperar até que a conjuntura mude.

Esta Coluna vinha argumentando que esse discurso já era, por si só, mais eleitoreiro do que programático e que, se tivesse de realinhar preços administrados e o próprio câmbio, como ficou inevitável, apenas essas duas manobras implicariam escolhas que mudam muito do jogo do primeiro mandato. Isso porque exigiriam um aperto nas contas públicas que não houve até agora, para evitar a disparada da inflação e outras distorções.

Mas isso não é tudo. O governo do PT parece não ter se dado conta de que as condições externas mudaram – e estas não têm a ver com o diagnóstico de base. Acabou o rali das commodities e está para acabar a oferta generosa de recursos em moeda estrangeira, porque o Fed, o banco central dos Estados Unidos, programa agora a retirada de dólares da economia. São fatores que, por si sós, exigirão mudanças não triviais na economia brasileira.

Um futuro governo Dilma ainda teria de enfrentar o baixo índice de confiança, que não se concentra apenas na faixa dos empresários. Ele permeia a maioria dos segmentos sociais, como os indicadores estão demonstrando.

A ameaça mais iminente é a perda do grau de investimento dos títulos públicos. Se for confirmada, o Brasil será obrigado a aceitar um aumento dos juros na rolagem de suas dívidas em moeda estrangeira e, além disso, verá desmilinguir ainda mais os índices de confiança na economia. Nesse quesito, um cenário Aécio pelo menos começaria com certa vantagem. Seria assumidamente um retorno à ortodoxia, à maior previsibilidade e à busca de um crescimento econômico sustentável.

Ainda que uma equação macroeconômica capaz de evitar a recessão e o rebaixamento da qualidade da dívida não esteja de todo clara, parece bem mais complicado agora para a presidente Dilma enfrentar uma proposta de oposição.

Se tivesse de concorrer com Marina no segundo turno, Dilma talvez continuasse a desconstruir-lhe a frágil candidatura. Como agora o adversário é outro, e este exibe Armínio Fraga como arma contra a prostração, é possível que a candidata do governo tenha de avançar em direção do que não pretendeu fazer, ou seja, na direção do que a Carta ao Povo Brasileiro representou em 2002 para a recuperação da confiança na primeira candidatura Lula.

Esperanças para a oposição e desafios ao PT: O Globo - Editorial

• Em vez de ataques virulentos de lado a lado — nisso o PT é especialista —, Dilma e Aécio deveriam investir tempo e esforço em explicar o que farão de 2015 a 2018

A tendência estava sinalizada em pesquisas na fase final da campanha e nas últimas sondagens, divulgadas no sábado, mas a vantagem que o candidato tucano Aécio Neves obteve em relação a Marina Silva, do PSB, nas urnas, foi uma surpresa.

Ninguém poderia imaginar há um mês, mesmo dentro do PSDB, que um empate na margem de erro verificado na véspera do final do primeiro turno viria a se converter em pouco mais de onze pontos à frente de Marina — inesperados 33,56% contra 22,32% — na contagem efetiva dos votos.

Mais atingido eleitoralmente pela morte trágica de Eduardo Campos, e a consequente candidatura de Marina Silva como cabeça de chapa do PSB, que a própria presidente Dilma Rousseff, Aécio Neves chegou a ser considerado fora do jogo. Mas persistiu e, muito por mérito próprio, recuperou a viabilidade da candidatura tucana.

Com a ajuda, é certo, da violenta e nada ética campanha do PT para desidratar Marina. Com a contribuição, também, da própria candidata ao, por exemplo, lançar um programa sem antes lê-lo com atenção, para não ser forçada, depois, a corrigi-lo. Foi assim na desgastante questão da homofobia e no apoio ao uso da energia nuclear. Abriu o flanco para ser acusada de escrever o programa de governo "a lápis" — devido às sucessivas correções que fez no texto. Embora com menos virulência que os petistas, Aécio não teve alternativa a não ser também apontar a fragilidade da candidata.

Em outra das ironias que costumam acontecer em eleições, o que se considerava certo com a unção de Marina Silva, o fim da "polarização tucanos-petistas", foi restabelecida, e com toda força.

Petistas consideravam a de 2014 uma eleição difícil para o partido, e tinham razão. Os 41,59% dos votos obtidos por Dilma, vencedora do primeiro turno, ficaram 5,3 pontos aquém dos 46,91% conseguidos no primeiro turno em 2010, quando o tucano da vez foi novamente José Serra, eleito no domingo para voltar ao Senado representando São Paulo. Em relação a 2010, quando teve 47,6 milhões de votos, Dilma perdeu 4 milhões de eleitores.

Levadas em conta as votações dos três candidatos a presidente, o Brasil votou no domingo majoritariamente contra o segundo mandato para Dilma: 58,41% dos eleitores optaram pela oposição, principalmente com Aécio ou Marina. Não quer dizer que Aécio vencerá o turno final, mas é um alerta ao PT. Este alerta chega a ser estridente em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país e berço do partido. Além da baixa votação de Alexandre Padilha, candidato derrotado ao Palácio dos Bandeirantes, o PT paulista teve perdas nas suas bancadas estadual e federal, com destaque para a derrota de Eduardo Suplicy, no Senado, para Serra.

Se Aécio perdeu no próprio estado, Minas, em que Dilma arrebanhou 53,11% dos eleitores, contra 27,59% do ex-governador mineiro, ele pode tentar reduzir os danos alardeando que o PT, em compensação, sofreu derrota histórica em São Paulo. Talvez, com isso, consiga diminuir o alcance das suas avarias, mas que foram além: Aécio também não conseguiu eleger seu candidato, Pimenta da Veiga, derrotado em primeiro turno por Fernando Pimentel, ministro de Dilma, e antigo aliado do candidato tucano em eleições passadas no estado.

Os 44% conseguidos por Aécio, um mineiro, em São Paulo são invejáveis. Tempos atrás, seriam improváveis. Assim, o tucano pode conseguir junto aos paulistas um colchão de algo na faixa dos 10 milhões de votos ou mais, para compensar as derrotas garantidas no Norte-Nordeste. Foi assim que Fernando Henrique Cardoso, nas duas disputas com Lula, em 1994 e 98, saiu vitorioso.

Mas, reconheça-se, naquela época ainda não existia o Bolsa Família e todo o arsenal assistencialista que, segundo mostram os inúmeros mapas publicados nos jornais de ontem, dividiu de vez, política e partidariamente, o Brasil em dois: um, o menos desenvolvido, o Norte-Nordeste, com largo predomínio do PT. O outro, boa parte do Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste, de oposição.

Aécio Neves sai do primeiro turno com um cacife invejável e um outro muito robusto, mas ainda a ser confirmado. O trunfo certo é o apoio firme do tucano Geraldo Alckmin, reeleito governador de São Paulo e que, na comemoração da vitória, declarou que se ele (candidato em 2006) e Serra (em 2002 e 2010) "bateram na trave" — perderam para Lula, duas vezes, e Dilma —, agora será diferente. Afinal, um PSDB unido, algo raro em campanhas presidenciais.

O cacife provável é o apoio de Marina e seus 22 milhões de votos, capazes de decidir esta eleição para um ou outro, mesmo que não consiga induzir uma transferência total de apoios. Em 2010, quando atraiu também cerca de 20 milhões de eleitores, recebeu o aceno de Serra, mas preferiu ficar neutra. Na prática, pelas características do seu eleitorado, ajudou Dilma. Agora pode ser diferente, muito pelos ataques vis que recebeu da campanha à reeleição da presidente e ainda por semelhanças de propostas no campo econômico com os tucanos. É nisto em que Aécio aposta, sem deixar de cortejar o apoio de Renata, viúva de Eduardo Campos, que demonstrou, com seus filhos, ser importante eleitora em Pernambuco, haja vista a votação de Paulo Câmara, indicado ao governo do estado por Campos, e catapultado para a vitória em primeiro turno numa campanha impulsionada pela emoção em torno da morte do candidato do PSB, e com participação ativa de Renata e filhos. O PSB de Roberto Amaral, presidente do partido, ministro de Lula e lulopetista, terá dificuldades de marchar unido para abraçar a candidatura de Dilma. Até porque Alckmin terá como vice, no próximo mandato, Márcio França, presidente do PSB regional.

Será uma campanha dura, em que todo o arsenal dos marqueteiros petistas destinado a espalhar o terror entre as famílias de baixa renda entrará em ação. Mais uma vez, como em campanhas anteriores, os tucanos serão apresentados como aqueles que cassarão o Bolsa Família, levarão a fome à mesa dos pobres — no lugar dos banqueiros do filmete feito contra Marina. Os programas petistas serão tão virulentos quanto é o risco de o PT ter de abandonar o Planalto em 1º de janeiro. Em troca, o PT terá se manejar a questão da corrupção, em particular a ainda sob investigação na Petrobras.

Mas Dilma e Aécio deveriam investir tempo e esforço em revelar o que pretendem fazer no mandato de 2015 a 2018. O tucano tem divulgado propostas em pílulas. Deveria liberá-las todas. E a petista se equilibra numa conjuntura econômica muito ruim — inflação alta, contas públicas muito desequilibradas, déficit externo crescente e economia rateando — sem dar uma palavra sobre os remédios que pensa ministrar ao país. Anunciar a demissão do ministro da Fazenda no final do governo é nada, pois se sabe que a política econômica é da presidente. Serão três semanas para se compensar a má impressão deixada no primeiro turno, em que os 142 milhões de eleitores ficaram, e continuam, desinformados sobre o futuro.

Alívio e esperança: O Estado de S. Paulo - Editorial

"Ufa!" A exclamação do leitor, estampada no Fórum dos Leitores na edição de ontem do Estado, resume o sentimento de alívio com que a maioria dos brasileiros conheceu o resultado da votação de domingo, que, ao colocar no segundo turno do pleito presidencial um candidato de oposição com reais possibilidades de ser eleito no próximo dia 26, demonstra que foi dado o primeiro passo para dar um fim à nefasta sequência de governos lulopetistas. A soma da votação dos dois principais candidatos de oposição, Aécio Neves e Marina Silva - mais de 57 milhões (56,8%) - contra os 43,2 milhões (41,6%) obtidos por Dilma Rousseff, mostra sem a menor sombra de dúvida que o povo brasileiro considera esgotado o prazo de validade da permanência do PT no poder.

A tarefa de concretizar o sentimento de verdadeira mudança manifestado nas urnas é agora a responsabilidade maior dos dois grupos políticos que, reunidos em torno de Aécio Neves e de Marina Silva, foram os indutores de um resultado adverso ao lulopetismo na primeira fase da votação presidencial. É do entendimento democrático entre essas duas forças, colocando o interesse nacional acima das conveniências partidárias ou pessoais, que depende em boa parte a oportunidade que deve ser oferecida ao povo brasileiro de promover a grande mudança a que tanto aspira. E tudo indica que esse entendimento pode estar a caminho.

E mesmo na indesejável possibilidade de que as forças políticas que apoiam Aécio e Marina não se mantenham íntegras para marcharem unidas no segundo turno, nada impede que o sentimento oposicionista simbolizado pelo claro desejo nacional de mudança prevaleça nas urnas do dia 26. Afinal, as lideranças político-partidárias influenciam, mas não dominam, o arbítrio do eleitor. E isso ficou muito claro no último mês da campanha do primeiro turno, quando a maioria do eleitorado oscilou entre os nomes de Aécio e de Marina, mas jamais teve abalada a sua determinação de votar contra o PT.

A votação de Dilma Rousseff no primeiro turno ficou abaixo do indicado pelas pesquisas - inclusive a de boca de urna -, mas foi notável a vigorosa recuperação de Aécio Neves, que até poucos dias antes amargava o terceiro lugar, com índice de intenção de voto abaixo dos 20%. Numa extraordinária demonstração de força de vontade e competência política, quando as circunstâncias lhe pareciam adversas, o ex-governador mineiro foi à luta com determinação redobrada e, passo a passo, recuperou com sobras o eleitorado que estava perdendo para a candidata do PSB. Acabou obtendo nas urnas quase 35 milhões de votos (33,5%), logrando reduzir para apenas 8 pontos porcentuais uma vantagem de Dilma que chegara a cerca de 25 nas pesquisas de opinião.

Por outro lado, a reversão da trajetória ascendente que Marina Silva vinha cumprindo até o início de setembro foi o resultado, em parte, dos ataques contundentes que sofreu por parte de Dilma Rousseff e do PT, muitas vezes mentirosos e indignos, mas, sobretudo, da falta de quadros e de estrutura partidária de sua base de apoio.

Agora, a disputa começa em outros termos. Dilma Rousseff já não contará com a enorme vantagem de tempo na propaganda dita gratuita no rádio e na televisão. O tempo será agora dividido igualmente entre os dois candidatos. Dez minutos diários para cada um que o PT, por sua vez, dividirá entre a tentativa de, a qualquer preço, demolir a reputação de Aécio Neves e a manipulação de imagens, dados e estatísticas para escamotear o fato de que os quatro anos de mandato de Dilma Rousseff têm sido um retumbante fracasso, sob qualquer ponto de vista.

A Aécio Neves caberá demonstrar, com seu programa de governo e o apoio de uma equipe idônea e comprovadamente competente, que os tucanos e seus aliados estão prontos para resgatar o Brasil de uma sequência de maus governos. Prontos para resgatar o Brasil do populismo irresponsável que ameaça a todos, especialmente os pobres, com recessão econômica e inflação. E prontos para resgatar a moralidade na administração da coisa pública, que foi levada ao fundo do poço pela corrupção que contamina o aparelho estatal.

Casuarina e Roberta Sá - Pressentimento

Carlos Drummond de Andrade: No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Opinião do dia: Aécio Neves

“Quero deixar aqui uma palavra de homenagem especial a um amigo querido, um homem honrado e digno, abatido por uma tragédia no meio da campanha. Ao Eduardo, seus ideais e sonhos, a minha reverência. É hora de unirmos forças para levar seus sonhos em frente. A minha candidatura não é mais apenas de um partido político ou de um conjunto de alianças, mas a daqueles que acreditam que é possível dar ao Brasil um governo que una decência e eficiência.”

Aécio Neves, senador (MG) e candidato a presidente da República, discurso ontem em BH. O Globo, 6.10.2014.

Aécio enfrentará Dilma; Marina sinaliza apoio ao tucano

Dilma e Aécio fazem 2º turno e buscam aliança com Marina

• Caciques das duas siglas, como Lula e FH, são trunfos na negociação para tentar atrair PSB e ex-senadora

Chico Otavio, Fernanda Krakovics, Junia Gama, Maria Silva, Silvia Amorim e Simone Iglesias – O Globo

RIO, BRASÍLIA E SÃO PAULO - A presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves vão protagonizar, a partir de hoje, a quarta disputa consecutiva entre PT e PSDB no segundo turno de uma sucessão presidencial. E ambos recomeçam a disputa correndo atrás do legado de 22 milhões de votos de Marina Silva (PSB), que pode ser decisivo no dia 26 de outubro. A importância de Marina pode ser medida pelas estrelas destacadas para convencê-la. Pelo PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique vai procurar a candidata para garantir o seu apoio a Aécio. Pelo PT, coordenadores do comitê eleitoral de Dilma defendem que Lula converse com a ex-senadora na tentativa de garantir, pelo menos,sua neutralidade, como na eleição de 2010. A abertura das urnas confirmou as eleições presidenciais de 2014 como uma das mais disputadas da História recente do país.

Com 99,8% dos votos apurados até as 22h33m, Dilma liderava a apuração, com 41,6% dos votos válidos, seguida de Aécio, que chegou aos 33,6% numa virada eletrizante sobre Marina. Mas os 21,3% obtidos pela candidata do PSB são, agora, o patrimônio mais cobiçado por tucanos e petistas. Resta saber se os votos de Marina são iguais aos votos do PSB ou a candidata é maior do que o partido. Marina faz mistério sobre o caminho a ser tomado, mas deu pistas de que a discussão sobre eventual apoio terá como base o programa de campanha herdado de Eduardo Campos.

Em seu discurso ontem à noite, a ex-senadora deu sinais de que a condição para fechar uma aliança passaria pela incorporação, por parte de Aécio, de pontos do programa de governo do PSB. O PSB pode tomar uma decisão sem esperar pela ex-senadora. Dirigentes do partido devem se reunir no início da semana para "tomar o pulso do partido e identificar qual será a tendência majoritária ". A neutralidade, dizem, está descartada. Aécio, apesar da empolgação com o resultado, entra no segundo turno amargando uma derrota em seu estado natal, Minas Gerais, onde o candidato do PT, Fernando Pimentel, elegeu-se governador no primeiro turno encerrando uma longa hegemonia tucana.

Mas o PT também viu o ex-ministro Alexandre Padilha, seu candidato ao governo de São Paulo, maior e mais importante colégio eleitoral do país, terminar a disputa — vencida por Geraldo Alckmin, do PSDB — com um pífio terceiro lugar. As mágoas provocadas pelos ataques no primeiro turno da disputa e o indisfarçável descompasso entre Dilma e os dirigentes do PSB serão os principais obstáculos a serem superados pelos dois partidos. Dilma passou o último mês e meio de campanha empenhada em desconstruir a imagem da adversária, a quem chegou a acusar de mentir e ter desvio de caráter. Mas Aécio também não foi amistoso com a ex-senadora, atacando-a por não ter deixado o PT quando o mensalão ganhava contornos de escândalo.

Alckmin, que tem vice do PSB, negociará apoio
Aécio, na entrevista coletiva de ontem, após a confirmação do resultado, fez publicamente uma homenagem póstuma a Eduardo Campos, morto no dia 13 de agosto. No primeiro dia de campanha no segundo turno, o tucano desembarca hoje na capital paulista para reunião coma coordenação da campanha. Alckmin fará aponte com lideranças do PSB no estado pela proximidade que tem com lideranças do partido. O vice de Alckmin é do PSB, Márcio França (PSB), e o prefeito mais importante do partido no estado é Jonas Donizete (Campinas), também muito próximo do governador. Numa eventual neutralidade de Marina, a campanha de Aécio espera que, ao menos em São Paulo, o partido marche com ele. Mesmo interesse existe em relação ao PSB de Pernambuco, onde uma declaração de voto da viúva de Campos, Renata, é um desejo de Aécio.

No estado, ele teve o seu pior desempenho no país. Já os petistas vão procurar o presidente do PSB, Roberto Amaral, que foi ministro de Ciência e Tecnologia no governo Lula. Amaral, que será reconduzido à Presidência do partido no dia 13, nunca escondeu a simpatia pelos petistas. Também serão visitados os governadores do Espírito Santo, Renato Casagrande, e da Paraíba, Ricardo Coutinho, além da família Capiberibe, do Amapá. Para além dos eventuais apoios amealhados para o segundo turno, a campanha de Dilma aposta que ela herdará naturalmente uma parcela de votos de Marina. Eles contam com eleitores tradicionais do PT, principalmente da classe C, que estavam com a ex-senadora, e com os eleitores mais à esquerda. — A Marina é outra espécie, ela é não é do nosso partido, é da Rede.

O PSB terá uma posição que não necessariamente será a mesma dela. Se for igual, melhor ainda. Mas ela pode querer fazer como fez em 2010 e o PSB não irá ficar neutro em uma eleição presidencial — afirma um integrante da cúpula socialista. Embora o vice de Dilma, Michel Temer, seja presidente do PMDB, a candidata petista também terá dificuldade na busca de apoio do partido. Ela não deve poder contar com setores do PMDB que apoiaram Marina no primeiro turno . Isso porque os peemedebistas do Rio Grande do Sul, Pernambuco e Mato Grosso do Sul, que estavam com a candidata do PSB, são oposição ao governo da presidente e têm afinidade com o tucano. No Rio, o grupo peemedebista que apoiou Aécio teve um bom resultado eleitoral e deverá intensificar o movimento Aezão, como ficou conhecida a campanha do tucano no estado .

Antes mesmo da divulgação do resultado, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), aliado de Marina, anunciou ontem apoio ao tucano, em texto repleto de críticas ao governo Dilma. "Hoje, o povo brasileiro referendou o caminho de mudança, ao levar o país ao segundo turno das eleições presidenciais. Não podemos titubear e nem nos dividir . (...) Aécio representa a possibilidade real de virarmos a página de um ciclo que se esgotou — socialmente , economicamente e politicamente ", diz texto.

Gilberto Carvalho já faz contatos com o PSB
A aposta do PSDB é que as negociações avancem com o coordenador da campanha de Marina, o ex-tucano Walter Feldman, e o vice-governador eleito de São Paulo, na chapa de Alckmin, Márcio França.—No segundo turno de 2010 , fui com o Feldman, em nome do Serra, falar com o Alfredo Sirkis e com o PV pedir o apoio da Marina. E o argumento que nós dois levamos era justamente deque era preciso a união das oposições para derrotar o petismo no poder. Espero que o Feldman tenha bem presente os argumentos que levamos a Marina, que acabou liberando o PV e ficando neutra.

Mas hoje a situação é outra e esperamos que a decisão seja outra — disse Aloysio Nunes,candidato a vice na chapa de Aécio. O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) telefonou após a consolidação do resultado para Amaral e pediu apoio do PSB à reeleição. Quanto a Marina, Carvalho afirmou que "naturalmente" dirigentes do PT e da campanha vão procurá-la.— Claro que vamos procurá-la. Falei com Amaral e ele quer construir um caminho conosco. Mas pediu calma e tempo para conversar com o partido — afirmou

PSB
A campanha de Dilma Rousseff buscará o apoio do PSB através de políticos próximos ao PT, como o presidente da sigla, Roberto Amaral, e de outros dirigentes socialistas, como o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, que enfrentará o tucano Cassio Cunha Lima no segundo turno.

Família de Eduardo Campos
Outro canal para chegar a Marina é a família do ex-governador, que até agosto era o candidato do PSB a presidente. Embora tenham se distanciado nesta campanha, Aécio mantinha boa relação com Campos. No PT, há defensores dessa reaproximação. Campos foi ministro de Lula.

Marina Silva
O PSDB vai procurar Walter Feldman, um dos políticos mais próximos à ex-senadora e que, até 2013, era deputado tucano.O s tucanos querem que o ex-presidente FH procure Marina.No PT, há quem defenda que Lula fale com ela para obter, pelo menos, sua neutralidade.

Pastor Everaldo
O candidato do PSC à Presidência tornou-se um radical opositor do governo do PT e também é considerado pelos tucanos como um apoio provável a Aécio Neves. Nos debates ocorridos neste primeiro turno, Pastor Everaldo aproveitou suas intervenções para atacar o governo Dilma.

Eduardo Jorge
O candidato do PV à Presidência foi secretário municipal de Meio Ambiente na gestão de José Serrana prefeitura de São Paulo e é um dos apoios que o PSDB buscará neste segundo turno. O verde também tem boa relação com Aécio Neves, de quem foi colega na Câmara dos Deputados.

PPS
Os tucanos dão como certo o apoio do PPS. O presidente nacional do partido, Roberto Freire, é crítico ferrenho do PT e das gestões petistas e, apesar de nesta eleição ter se aliado à candidata do PSB, Marina Silva, sempre teve relações próximas com o PSDB.

Aécio faz aceno a Marina, que sinaliza apoio a ‘mudança’

• Campanha tucana vai usar alianças estaduais com PSB para atrair Marina; na propaganda, meta é separar governo Dilma do de Lula

Pedro Venceslau, Débora Bergamasco, Isadora Peron, Denise Chrispim Marin, Suzana Inhesta e Ricardo Chapola - O Estado de S. Paulo

No primeiro pronunciamento que fez depois de confirmada sua passagem para o segundo turno, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, homenageou o ex-governador Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo durante e campanha, e afagou Marina Silva, candidata do PSB que terminou o 1.º turno em 3.º lugar na disputa. Os tucanos acreditam que o discurso mudancista da ex-ministra poderá levá-la a apoiar Aécio.

No seu discurso após o resultado, em São Paulo, Marina fez o que foi interpretado como um aceno ao candidato oposicionista ao afirmar que os brasileiros mostraram nas urnas que não concordam com os rumos tomados pelo atual governo da presidente Dilma Rousseff (PT). “O Brasil deu sinais de que não quer mais o que está aí”, disse Marina, sem citar nomes.

Em Belo Horizonte, o candidato do PSDB, foi na mesma linha: também sem citar Marina, afirmou: “É hora de unirmos forças. Minha candidatura não é de um partido político”.

Aécio ainda fez afagos explícitos à ex-ministra, mas disse que não tinha conversado com ela. O tucano reiterou os elogios feitos pela manhã, ao votar na capital mineira. “Tenho enorme respeito pessoal pela ex-ministra, mas não posso antecipar apoio.”

O candidato do PSDB iniciou sua fala destacando os ideais de Campos. “Quero deixar uma palavra de homenagem a um homem público honrado, que foi abatido por uma tragédia no meio dessa campanha, o Eduardo. Seus ideais e seus sonhos têm a minha deferência”, disse Aécio.

Segundo aliados de Aécio, interlocutores do candidato tentarão se aproximar de Renata Campos, viúva de Campos, para que ela faça uma ponte com a candidata do PSB. “Tenho um enorme respeito por ela (Renata), mas não tenho nenhum encontro marcado. Sou muito cauteloso em relação a isso.”

Apesar da sinalização, Marina disse que os partidos da coligação vão se reunir nos próximos dias para tomar uma decisão oficial. O anúncio deve acontecer até a próxima sexta-feira.

“O programa é a base de qualquer diálogo neste segundo momento”, afirmou. Segundo ela, o documento que apresentou à sociedade - e que foi alvo de diversas críticas tanto de petistas quanto de tucanos - “é coerente com outro caminho, com outra maneira de caminhar”.

O posicionamento de Marina, que foi filiada ao PT por mais de duas décadas, surpreendeu aliados mais próximos. Antes de a ex-ministra chegar ao local onde fez seu pronunciamento oficial, na zona oeste de São Paulo, a maioria apostava que ela ficaria neutra na disputa, como fez em 2010.

Questionada por jornalistas se tomaria essa mesma decisão, ela afirmou que ao se aliar a Eduardo Campos no ano passado, depois de o Tribunal Superior Eleitoral negar o registro do seu novo partido, foi um sinal de que estaria disposta a tomar posições. “Eu assumi a postura de não me recolher numa anticandidatura, o que pode indicar uma tendência. Assumi o compromisso da mudança indo apoiar Eduardo Campos”, disse.

Críticas. Segundo integrantes da campanha, as fortes críticas que Marina sofreu do PT desde que assumiu a candidatura após a morte de Campos, em meados de agosto, serão levadas em conta na hora de tomar a decisão.

Pessoalmente, o vice da chapa, Beto Albuquerque, disse que não iria aceitar apoiar a reeleição de Dilma após a onda de ataques petista. “Eu não sou cara de levar desaforo para casa. Nem de esquecer calúnias, vilanias ou mesmo boatos contra a nossa candidatura”, disse.

Apesar da derrota surpreendente nas urnas, Marina não demonstrou abatimento durante o seu pronunciamento.

Ela aproveitou o momento para agradecer o apoio da militância, da família e da coordenação da campanha.

Reunião.Aécio disse que amanhã terá uma reunião com os coordenadores da campanha em São Paulo para preparar suas agendas de viagens. Questionado se manteria a estratégia de atacar a gestão da presidente Dilma no 2.º turno, Aécio disse que não faz a “política do ódio”.

Dilma lidera e enfrenta Aécio, que arranca com votos de SP

• Presidente tem menos votos no primeiro turno do que em 2010, e senador tucano passa Marina com resultado surpreendente

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - A presidente Dilma Rousseff (PT) enfrentará o senador mineiro Aécio Neves (PSDB) no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para o próximo dia 26. O candidato tucano ultrapassou na reta final da campanha a ex-senadora Marina Silva (PSB), que parecia uma ameaça à reeleição de Dilma quando entrou tardiamente na corrida presidencial, em agosto.

Dilma chegou na frente, mas seu desempenho foi pior do que no primeiro turno das eleições de 2010. A presidente recebeu 42% dos votos válidos neste domingo (5). Foi o pior resultado obtido pelo líder de uma disputa presidencial desde 1989. Há quatro anos, Dilma obteve 47% dos votos no primeiro turno.

Tratado com descrédito até poucos dias atrás, Aécio saiu das urnas com 34% dos votos, mais do que os 33% obtidos há quatro anos pelo ex-governador José Serra, adversário de Dilma em 2010. Marina conseguiu 21%, mais do que os 19% que alcançou em 2010, quando concorreu pelo PV.

Aécio obteve votação muito superior à que os institutos de pesquisa indicavam na véspera da eleição. Segundo o Datafolha, o candidato tucano tinha 26% das intenções de votos válidos no sábado. Na avaliação do instituto, a diferença sugere que a arrancada na reta final fez muitos eleitores optarem por Aécio na última hora no domingo.

O confronto entre Dilma e Aécio transformará a eleição presidencial deste ano em mais um capítulo da histórica rivalidade entre o PT e o PSDB, os partidos políticos que controlaram o poder central nas últimas duas décadas.

Esta será a sexta eleição presidencial em que petistas e tucanos duelam. Os tucanos ganharam duas, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), principal fiador da candidatura de Aécio. Os petistas venceram três vezes, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma.

A polarização entre petistas e tucanos era um dos alvos principais de Marina, que assumiu a candidatura após a morte do ex-governador Eduardo Campos e tentou se viabilizar como uma terceira força capaz de renovar o sistema político brasileiro, no embalo das manifestações que agitaram o país em 2013.

Nos próximos dias, Dilma e Aécio começarão a disputar o espólio eleitoral de Marina. Segundo o Datafolha, 59% dos eleitores que a apoiavam na véspera da eleição pretendiam votar em Aécio se ele passasse para o segundo turno. Outros 24% dos marineiros disseram preferir Dilma.

Três de cada dez votos obtidos por Aécio foram paulistas. Os tucanos mandam em São Paulo há quase duas décadas, e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi reeleito domingo. O Nordeste garantiu a liderança de Dilma. De cada dez votos que ela obteve, quatro vieram da região.

Os petistas impuseram uma derrota aos tucanos em Minas Gerais. No Estado que Aécio governou por dois mandatos, o ex-ministro Fernando Pimentel (PT) foi eleito.

Marina critica agressividade do PT e indica apoio a Aécio

• Terceira colocada fala em "mudança qualificada" e diz que país sinalizou rejeição à situação

• Presidente do PSB defende união com petistas, mas posição é minoritária dentro da aliança marinista

Marina Dias, Ranier Bragon - Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Fora do segundo turno, Marina Silva indicou na noite deste domingo (5), em sua primeira manifestação pública após a abertura das urnas, que apoiará o tucano Aécio Neves contra a presidente Dilma Rousseff (PT).

A candidata do PSB criticou a "inédita e despropositada agressividade" da campanha petista e afirmou: "O Brasil sinalizou claramente que não concorda com o que está aí".

Em seguida, lembrou sua posição em outubro de 2013, quando descartou ficar fora da disputa pelo Palácio do Planalto após ver fracassada a criação de seu partido.

"Minha postura quando não foi feito o registro da Rede, de não me recolher numa anticandidatura, pode ser uma tendência", disse, em resposta sobre se permaneceria neutra entre Dilma e Aécio.

Em 2010, quando também ficou em terceiro na eleição presidencial, Marina não optou por nenhum dos dois candidatos finalistas.

"Sabemos que uma boa parte do Brasil, desde 2010, vem dando sustentação a uma mudança que seja qualificada [...] Não dá para tergiversar com o sentimento do eleitor", afirmou.

Durante entrevista num espaço de eventos em São Paulo, Marina afirmou, porém, que discutirá o eventual apoio com os partidos que sustentaram sua candidatura e que a afinidade com seu programa de governo é a "base para qualquer diálogo".

Marina caiu 12 pontos nas pesquisas após sofrer forte ataque na TV da campanha de Dilma. Aécio também investiu contra a pessebista.

"Estou aqui não como uma derrotada, mas como alguém que sabe que não teve que abrir mão dos princípios para ganhar a eleição", disse a ex-senadora, arrancando aplausos da militância.

Apesar da inclinação de Marina, há setores do PSB que defendem o apoio a Dilma, entre eles o presidente do partido, Roberto Amaral.

Em reunião antes do evento, a ex-senadora discutiu os termos de seu pronunciamento com um pequeno grupo de assessores e familiares.

Nessa reunião ficou claro que a posição pró-Dilma é minoritária. "Confesso que é muito difícil pensar em votar na Dilma depois do que sofremos", afirmou o vice de Marina, Beto Albuquerque.

Um dos partidos aliados à então candidata, o PPS, já defende abertamente a adesão ao tucano. A expectativa é que a decisão seja anunciada até quarta-feira (8).

Mesmo tendo detectado a curva de crescimento de Aécio, o resultado final deixou muitos marineiros perplexos com a queda na reta final. Em números e percentual, a pessebista teve resultado muito próximo ao de 2010, quando foi candidata pelo PV.

Questionada sobre seu futuro político, disse: "Em determinados momentos, temos de esperar pela história".

A Marina que chegou ao primeiro turno neste domingo não era a mesma de 20 de agosto, quando foi oficializada candidata. A comoção pela morte de Eduardo Campos, sete dias antes, deu lugar à euforia de favorita, quando a primeira pesquisa após a tragédia que matou o ex-governador de Pernambuco indicou que ela era a única capaz de vencer Dilma.

Após os ataques de PT e PSDB, tentou recuperar fôlego com viagens ao Nordeste e ao Sul, mas os números não respondiam. Ficou mais arredia, mais magra e mais rouca.

Beto Albuquerque diz ter dificuldade para apoiar Dilma

• Vice na chapa de Marina Silva à presidência da República aguarda posição coletiva do PSB para confirmar apoio

Ana Fernandes - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O vice na chapa de Marina Silva, deputado federal Beto Albuquerque (PSB-RS), corroborou a sinalização da candidata de inclinação a apoiar o candidato tucano Aécio Neves, mas marcando de forma dura a defesa por uma aliança que se baseie no programa de governo da coligação. "Eu pessoalmente tenho muita dificuldade (de apoiar a Dilma). Eu como gaúcho não sou um homem de levar desaforo para casa. Nem de esquecer calúnias e vilanias como foram criadas contra a nossa candidatura", afirmou. Mas ressaltou ser uma postura pessoal e que o PSB ainda se reunirá para tirar uma posição coletiva.

Sobre o programa, disse ser importante adotar uma postura firme antes de fechar qualquer apoio. "Vamos ver agora se vão ter uma leitura diferente do nosso programa, temos que saber se isso é honesto. Em 2010 a Marina entregou para a 'Dona Dilma', que assinou inclusive a incorporação de uma série de questões do programa e que depois foi ignorado. A velha política para ganhar apoio topa qualquer coisa e depois não cumpre. Nós não vamos entrar nesse jogo do me engana que eu gosto."

E ressaltou que é importante avançar para um conceito de oposição além daquele incorporado pelo PSDB. "Nós marcamos oposição não apenas ao governo, que é uma característica com Aécio. Nós marcamos uma oposição a essa velha política que tem uma expressão muito forte que aí está."

Beto também fez menção ao desempenho da candidatura, reforçando o discurso de Marina de que não saem derrotados das urnas. "Eu e a Marina não ganhamos no segundo turno, mas vamos dormir tranquilos hoje. Nossos eleitores não foram eleitores de voto útil, mas foram eleitores de um programa de governo. Nós vamos manter isso", concluiu.

Fernando Henrique diz que vai buscar apoio de Marina a Aécio

• Ex-presidente cobra coerência e afirma que PT é adversário comum

Ronaldo D"Ercole – O Globo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que espera ter o apoio de Marina Silva (PSB) à candidatura de Aécio Neves (PSDB) na disputa do segundo turno da eleição contra a presidente Dilma Rousseff (PT). Para Fernando Henrique, a adesão de Marina à campanha tucana é uma questão de coerência.

- As pessoas têm de ter coerência, você não pode deixar de ver quem é o adversário principal. E o adversário principal neste momento é o PT, representado pela presidente Dilma Rousseff - afirmou o ex-presidente, pouco antes de votar, no final da manhã.

"Aécio mostrou perseverança"
Fernando Henrique disse que até aquele momento não havia conversado com a candidata do PSB - "porque não era o momento" -, mas que, uma vez confirmada a passagem de Aécio ao 2º turno, procuraria Marina. Mesmo porque, lembrou, ele próprio já vinha defendendo uma coalizão das duas candidaturas num eventual segundo turno contra Dilma.

- Eu disse isso há muito tempo, claro que tem de saber em que momento. Neste momento (ontem pela manhã), nem se discute o assunto. Mas, o Aécio ganhando, a Marina tem de vir para o nosso lado. Eu não tenho dúvida, antes de qualquer liderança, o eleitorado vai se unir - disse ele, acrescentando: - É preciso também falar com o PSB, não só com a Marina.

Indagado se manteria a posição caso Marina fosse ao segundo turno, Fernando Henrique disse que sim. Para o ex-presidente, o fato de Aécio ter conseguido reagir, depois de ter perdido muito espaço com a ascensão de Marina Silva em agosto, após a morte de Eduardo Campos, é algo que o fortalece para a disputa do segundo turno.

- E muito. Ninguém vence na véspera, é no dia. E eu senti isso na pele, perdi para o Jânio (Quadros, na disputa pela prefeitura de São Paulo) apesar de todas as pesquisas. E o Aécio mostrou perseverança, isso ficou visível no debate, (mostrou) que ele domina os temas - disse ele: - Minha expectativa é a melhor possível, porque segundo turno é uma nova eleição, e acho que está na hora de a gente dar uma virada no Brasil.

Ao indicar a presidente Dilma e o PT como os adversários a serem vencidos, Fernando Henrique listou equívocos do governo. Particularmente os erros na economia, que devem afetar as políticas sociais, tão caras ao governo.

- Quem vai sofrer é o povo. E, diferentemente do que diz a propaganda (do PT), nós (a oposição) é que podemos garantir a continuidade das políticas sociais, porque sabemos como mexer na economia para o país continuar crescendo.

Já em tom de campanha, ele citou a Petrobras e atacou a forma de administrar do PT, "nomeando só partidários e permitindo que haja o que houve, essa roubalheira".

FHC pedirá apoio do PSB no 2º turno

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, BELO HORIZONTE - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que vai procurar pessoalmente a candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, para pedir apoio ao tucano Aécio Neves no segundo turno.

"Espero o apoio de Marina. O adversário principal neste momento é o PT, representado por Dilma Rousseff (PT). Está na hora de dar uma virada no Brasil", afirmou FHC, logo após votar em um colégio de São Paulo, na manhã deste domingo.

Ele também irá procurar as principais lideranças do PSB.

Na visão do ex-presidente, os eleitores de Marina tendem a se juntar aos de Aécio, "como ocorreria no caso oposto [se a candidata fosse para o segundo turno] porque sabem que é preciso mudar".

Já no primeiro discurso após o resultado, Aécio deixou clara a sua principal preocupação: o temor de desmobilização do tucanato em alguns dos principais colégios eleitorais do país.

"Nós estamos apenas na metade da travessia. Portanto, não vamos nos dispersar", disse, parafraseando seu avô, Tancredo Neves.

Outro desafio do tucano será reverter o resultado que obteve no primeiro turno em Minas Gerais, seu reduto eleitoral. Ele ficou atrás da presidente Dilma Rousseff (PT) no Estado e viu seu candidato ao governo, Pimenta da Veiga (PSDB), ser derrotado pelo petista Fernando Pimentel.

Aécio não definiu ainda onde lançará sua campanha no segundo turno. Há expectativa de que ele faça um ato em Pernambuco, terra do ex-governador Eduardo Campos, e onde Marina Silva ficou em primeiro lugar na eleição presidencial.

Aécio homenageia Campos e acena a Marina

• "Todos que quiserem contribuir são bem-vindos. Tenho enorme respeito pela Marina ", diz tucano após resultado

Maria Lima – O Globo

BELO HORIZONTE- Uma hora depois do término da apuração do 1º turno, o candidato do PSDB, Aécio Neves, fez um pronunciamento chamando as forças que querem derrotar o projeto do PT a se juntar a ele no 2º turno contra Dilma Rousseff. Aécio fez uma homenagem emocionada a Eduardo Campos, morto em acidente aéreo, e prometeu continuar honrando seus ideais de decência e democracia, e projetos que buscava para o Brasil. A primeira viagem de Aécio no 2º turno ser á para Recife.

— Quero deixar aqui uma palavra de homenagem especial a um amigo querido, um homem honrado e digno, abatido por uma tragédia no meio da campanha. Ao Eduardo, seus ideais e sonhos, a minha reverência. É hora de unirmos forças para levar seus sonhos em frente. A minha candidatura não é mais apenas de um partido político ou de um conjunto de alianças, mas a daqueles que acreditam que é possível dar ao Brasil um governo que una decência e eficiência — discursou Aécio, no que foi visto como um gesto em relação ao 2º turno. Aécio disse que não entrará na estratégia do PT de fazer uma campanha de ódio, e repetiu uma frase do avô Tancredo Neves: — Nós estamos apenas na metade da travessia, portanto não vamos nos dispersar .

"Vou respeitar o tempo de marina"
O tucano hoje estará de novo nas ruas e, durante entrevista coletiva, convidou a ex-senadora Marina Silva a se integrar à aliança. Não tinha havido até o meio da noite nenhum conta to com Marina, e Aécio afirmou que iria respeitar o tempo dela. Também não tinha havido ainda conta to com a viúva de Campos, Renata, considerada peça fundamental na eventual adesão do PSB à sua candidatura. —Todos que quiserem e puderem contribuir com esse projeto são bem-vindos . Tenho um enorme respeito pela Marina, e vamos esperar seu tempo. A vitória hoje foi do povo, foi a vitória da mudança, vamos continuar unidos. Nosso projeto é generoso, e a ele podem se som ar todos que querem a mudança. Não ganhei nada ainda, a mudança começa hoje, aqui em Minas Gerais — disse Aécio.

Hoje, às 14h, ele se reúne com o comando da campanha em SP para fechar a agenda das próximas semanas. O Nordeste, onde precisa recuperar a diferença enorme para Dilma, pode ser o alvo. Ao agradecer a Pimenta da Veiga, candidato do PSDB ao governo de Minas derrotado para Fernando Pimentel (PT), Aécio sinalizou com uma trégua e desejou sucesso ao petista vitorioso pelo "enorme amor que tenho por essa terra". Pimentel e Aécio já foram aliados no passado, e em Minas uma parte do eleitorado aderiu ao "Pimentécio": voto no petista para o governo e no tucano para presidente . 

Sobre a polarização PT X PSDB tão criticada por Marina, Aécio disse que vai continuar batendo nos problemas do governo Dilma, mas que sua disputa não é contra pessoas, e sim, a favor do Brasil:

— Não faço a política do ódio e do medo. Não acho que o adversário tem de ser abatido a qualquer custo. Sou um democrata. Minhas companheiras serão a verdade e a coragem. Quando questionado sobre a baixa votação no Nordeste e em estados como o Rio, Aécio disse que não imaginava ter uma votação tão expressiva como a que foi registrada. — Eu me sinto um grande vitorioso. Todos os números do Brasil estão muito acima de todas as expectativas. Não vou privilegiar uma região. No Nordeste vou ter mais tempo para debater nosso ousado projeto para a região — disse, pedindo que os governadores eleitos aliados não desmobilizem as estruturas.

Logo cedo, ao acompanhar a votação dos candidatos ao governo de Minas, Pimenta da Veiga, e ao Senado, Antonio Anastasia, Aécio debitou a sua virada a uma batalha diária , e disse que não era a "zebra" da eleição. Vestindo uma camisa azul, cor do PSDB, combinada com a mulher Letícia Weber, o presidenciável foi aplaudido ao re dor do colégio estadual Central, onde votou: — Não sou a zebra ou azarão , eu sou um determinado . Sou um brasileiro que não desiste nunca. Perguntado se em algum momento pensou que não daria para virar o jogo, Aécio disse que sempre teve fé que recuperaria o espaço perdido:

— Minha fé interior , minha confiança e minha determinação não mudaram nunca. Nunca perdi a confiança porque sempre compreendi que temos o melhor projeto para o Brasil. Porque esse sentimento de mudança que permeia a sociedade brasileira, e ele é amplo, pressupõe não apenas a derrota do PT , que é essencial, mas a introdução de um projeto capaz de permitir ao Brasil voltar a crescer , controlando a inflação , melhorando nossos indicadores sociais , resgatando nossa capacidade de atrair o capital privado como parceiro da nossa infraestrutura, por exemplo . Sempre acreditei e sempre confiei, mas uma campanha é feita de altos e baixos. Depois da votação, Aécio almoçou na casa de um parente e depois se isolou no apartamento, só com a mulher e os filhos, para acompanhar a apuração. 

Governador de Pernambuco declara apoio a Aécio

Erich Decat – O Estado de S. Paulo

O governador de Pernambuco, João Lyra Neto (PSB), declarou na noite deste domingo apoio ao candidato Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da disputa presidencial. A decisão foi tomada na véspera do encontro da cúpula do PSB estadual, previsto para esta segunda-feira.

"A surpreendente ascensão de Aécio Neves nos últimos dias do processo eleitoral para a Presidência da República refletem o seu excelente desempenho nos debates eleitorais e o credenciam para representar as forças de oposição no segundo turno do pleito presidencial. Vou defender esta tese junto aos companheiros do Diretório Regional do PSB e, também, como integrante do Diretório Nacional, vou indicar o nome de Aécio Neves para apreciação da Executiva Nacional", declarou em nota o governador. Lyra faz parte do grupo de Eduardo Campos, morto no último dia 13 de agosto, mas foi preterido por este na disputa para o governo do Estado. O escolhido pelo presidenciável, Paulo Câmara, foi eleito em primeiro turno.

"O Brasil enfrenta um momento muito delicado em sua economia e, também, um esgarçamento no seu tecido político. É fundamental lutarmos para o país voltar a crescer e indispensável uma reforma política. Creio que Aécio Neves conquistou a condição de liderar este momento da política nacional", ressalta Lyra Neto.

Na noite deste domingo, Câmara, governador eleito de Pernambuco, afirmou que nesta segunda-feira a cúpula nacional da legenda será informada sobre uma posição do PSB local.

"Nós não tivemos na eleição presidencial o resultado que gostaríamos de ter. Nossa candidata Marina Silva foi vencedora aqui no Estado de Pernambucano, mas não teve a vaga no segundo turno. Nós temos responsabilidade como partido político de nos posicionarmos. Vamos nos reunir amanhã, mais tardar, com a direção local e tirar a posição de Pernambuco, que será apresentada ao PSB Nacional, para que juntos a gente decida o que é melhor para o Brasil", afirmou Câmara em entrevista coletiva realizada num hotel no bairro de Boa Viagem.

Ricardo Noblat: A escolha de Marina

"Desvio de dinheiro é natural e intrínseco ao serviço público" - Cid Gomes, governador do Ceará

- O Globo

Marina Silva, candidata do PSB a presidente da República, jogara a toalha há dez dias. Foi quando comentou com um dos seus conselheiros: "Levadas em conta as circunstâncias que marcaram minha entrada na campanha, já fui longe demais." Voltou ao assunto depois do debate entre os presidenciáveis promovido pela TV Globo na última quinta-feira. Admitiu desanimada: "Eu estar onde estou já é um milagre.

É CLARO QUE não estava satisfeita com seu desempenho. Conformada? É quase certo que sim. Queria ganhar naturalmente. Mas repetia que a ganhar perdendo preferia perder ganhando. Um jogo de palavras. Não só um jogo. Cadê dinheiro para pagar as despesas sempre crescentes da campanha? Dinheiro até poderia existir. Estrutura montada para administrar a campanha com eficiência, jamais existiu.

CADÊ MATERIAL de propaganda? Até daria tempo para produzi-lo. Para fazê-lo chegar às mãos de eleitores em todo o país... Impossível. Foram queimados mais de 50 milhões de "santinhos" com Marina de candidata a vice-presidente . Ela evitava dizer que se sentia mal acolhida pela facção do PSB liderada por Roberto Amaral, o presidente em exercício do partido desde a morte de Eduardo Campos.

LEVARÁ MAIS algum tempo para que Marina reconheça os muitos erros que cometeu — se é que o fará. O primeiro e mais barulhento dos erros foi autorizar a divulgação do seu programa de governo sem ter lido com rigor a versão final. Acabou sendo obrigada a retificá-lo. E pagou por isso um preço elevado. Desgastou-se. Acusaram-na — e com razão — de dizer uma coisa hoje e de se desmentir amanhã.

O SEGUNDO ERRO grave foi não abdicar da posição de se manter distante de políticos que julgava indignos de sua companhia. Um deles: Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, que acabaria reeleito no primeiro turno. Marina liderou as pesquisas de intenção de voto em São Paulo. Depois foi desbancada por Dilma. Por fim, autorizou a impressão de suas fotos junto com as de Alckmin. Era tarde. E, no entanto ...

NO ENTANTO, teria sido tão fácil para ela, uma vez Eduardo morto, recuar de certos dogmas que apregoara sem ônus como candidata a vice... A maioria dos eleitores compreenderia se ela dissesse: "Em respeito à memória de Eduardo, assumo como meus todos os compromissos assumidos por ele." E ainda poderia se permitir, de fato, a respeitar alguns e a esquecer de outros porventura difíceis de engolir .

TUDO INDIC A que Marina não repetirá o comportamento que adotou na eleição presidencial de 2010, quando foi a terceira candidata mais votada e negou seu apoio a qualquer um dos finalistas do segundo turno — Dilma e José Serra. Para ser coerente com o que disse sobre Dilma, apoiará Aécio se ele adotar parte do seu programa de governo. Aécio pagará qualquer preço pelo apoio de Marina. E com razão.

NA ÚL TIMA SEMANA de campanha, Aécio disparou na frente de Marina e quase atropelou Dilma na reta de chegada. Pôde fazer isso, sobretudo, graças aos votos de mineiros e de paulistas. Nenhum instituto de pesquisa foi capaz de antecipar o tamanho da ojeriza nacional ao PT. O partido, praticamente, acabou varrido do Sul do país onde perdeu as eleições para governador e senador.

A VALER O que ensina a história das eleições majoritárias de 1994 para cá, o candidato a se eleger no segundo turno será o mais votado no primeiro. Portanto, alô, alô, Dilma! Mande passar a faixa presidencial. Mas, pensando melhor, não mande.

Dora Kramer: Nunca antes

- O Estado de S. Paulo

Em matéria de sobe e desce, surpresas e vaivéns, nada se compara a esta eleição que, no dia da votação, desmentiu o que parecia o único dado previsível: a disputa acirrada pela vaga no segundo turno.
As urnas mostraram o tucano Aécio Neves em larga dianteira em relação a Marina Silva e muito próximo da presidente Dilma Rousseff, de quem aparecia muito distante nas pesquisas. O segundo turno reproduzirá mais uma vez a polarização entre PT e PSDB, desta vez com uma diferença muito mais apertada.

O PT não esperava o resultado e sentiu o tranco. No momento em que foram liberados os primeiros números já mostrando o cenário de Aécio com votos em patamar bem acima do previsto, deputados petistas que estavam nos estúdios na TV Bandeirantes não escondiam o abatimento. "O caldo vai engrossar", comentou Arlindo Chinaglia.

A reação deixa muito claro que a preferência era a de que a adversária fosse Marina. Sendo Aécio, a guerra vai acontecer em terreno já conhecido pelo eleitorado: a comparação dos governos tucanos e petistas. Isso sem contar o que as campanhas não revelam sobre as armas de grosso calibre e baixíssimo nível que ninguém sabe no que exatamente consistem, mas todo mundo desconfia que mesmo se não existirem, de algum modo podem ser fabricadas.

Mal se definiu o resultado, as atenções se voltaram para a decisão de Marina a respeito do apoio (ou não) a Aécio. Segundo Walter Feldman, a definição sairá no máximo em cinco dias e terá critério exclusivamente político.

"Temos de pensar no que é melhor para o Brasil", dizia ele no domingo à noite, minutos antes de se reunir com Marina Silva e alguns companheiros de PSB.

Com isso, Feldman quer dizer que não deve pesar nenhum tipo de rancor por causa dos ataques feitos no primeiro turno. Ele fala em relação à campanha do PSDB, partido ao qual pertenceu e do qual ainda é próximo.

Outros preferem aproximação com o PT. Entre eles o presidente do PSB, Roberto Amaral. E os petistas, já na noite de domingo, se preparavam para procurar o partido em busca de apoio.

Será difícil a legenda conseguir uma posição de unidade. Mas, para Aécio, o importante não seria a orientação do PSB, mas um posicionamento de Marina, cujos eleitores em sua maioria disseram na última pesquisa antes da eleição que não votariam no PT nem no PSDB.

José Roberto de Toledo: A onda virou avalanche

- O Estado de S. Paulo

O resultado do 1.º turno é muito ruim para Dilma Rousseff (PT). A presidente fez uma vantagem muito menor do que a esperada sobre Aécio Neves (PSDB), cerca de 8 milhões de votos. Em 2010, ela abriu quase o dobro disso, foram 12 milhões a mais do que o tucano José Serra. Por sua vez, Marina Silva (PSB) praticamente voltou ao seu patamar de quatro anos atrás. O que ela teve a mais veio de Pernambuco, herdado de Eduardo Campos.

A missão de Dilma é a mais difícil de um candidato a presidente do PT desde 1998. Em quantidade de votos, sua vantagem equivale à de Lula em 2006, mas com uma diferença fundamental: o ex-presidente ficara a 1,4 ponto de se eleger no primeiro turno. Dilma está a 9 pontos da reeleição. Faltam-lhe 9 milhões de votos.

A petista vai precisar dos pouco mais de 2 milhões de votos de Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL) e pelo menos 7 milhões dos 22 milhões de votos de Marina. Ou seja, Dilma precisa de 32%, ou 1 a cada 3 eleitores da candidata do PSB. Na última simulação de segundo turno, a petista conseguia 20%, 1 de 5.

Já Aécio, que chegou a convocar uma entrevista coletiva para dizer que não renunciaria à candidatura em setembro, teve um desempenho melhor do que o de Serra em 2010. O eleitor mudancista migrou em massa para ele nos metros finais da corrida eleitoral quando percebeu que Marina não tinha mais chances.

Por pelo menos um mês, Marina surfou sozinha a maior onda de opinião pública em muitos anos no Brasil, mas caiu da prancha e acabou na areia. Como o movimento que a carregou, sua candidatura sucumbiu ao peso das próprias contradições.

As mesmas razões que levaram a comunidade de negócios a flertar com a campanha de Marina à Presidência fizeram ela fraquejar nas pesquisas de intenção de voto quando a disputa esquentou.

Empresários e operadores do mercado financeiro enxergaram em Marina mais do que uma candidata aberta ao diálogo e disposta a ouvir opiniões divergentes - diferentemente da irredutibilidade de Dilma Rousseff (PT). Com ou sem razão, projetaram a imagem de alguém que, por falta de um partido, precisaria de mais suporte de terceiros e se tornaria assim permeável a influências externas. É como se imaginassem que poderiam tutelá-la.

O problema foi que a opinião pública pensou a mesma coisa, com sinais trocados. Quem se deixa tutelar não é um líder confiável. A partir das idas e vindas em relação ao seu programa de governo, colou na imagem pública de Marina a ideia de que ela é volúvel. Era a favor do casamento gay, depois não era mais. Saiu do PT para o PV, depois para a Rede e, por falta de opção, entrou no PSB. Tudo em um espaço de tempo muito curto.

Não houve um evento catastrófico, mas a sucessão de pequenos desgastes. Sua candidatura não implodiu, foi desconstruída a marretadas, a cada inserção de 30 segundos dos adversários na TV. Fixaram-lhe a imagem de uma candidata sem estrutura partidária, sem equipe e sem firmeza de propósito.

A campanha de Marina era a sobreposição mal costurada do estafe herdado de Eduardo Campos com o séquito da Rede. Seu comando mudou de estratégia no meio da corrida. Primeiro pintou-a de vítima. No fim, tentou vesti-la de guerreira. Deu no que deu. Nem que tivesse sido Aécio a se vestir de amarelo no debate da Globo, a queda de Marina não teria sido interrompida nem seus ex-futuros-eleitores teriam deixado de cair no colo do tucano. Depois que a avalanche começa, não há nada que consiga pará-la.

O embate de Dilma com Aécio nas próximas três semanas será uma reprise do filme que o eleitor cansou de ver em 2006 e 2010: Norte/Nordeste contra Sudeste/Centro-Oeste, interior contra capitais, pobres contra ricos, menos escolarizados contra mais escolarizados. O final é incerto, mas o enredo será o mesmo de sempre: uma mistura de farsa e suspense com momentos de terror.

Valdo Cruz: Saudades de Marina

- Folha de S. Paulo

Duas grandes ausências e muitas surpresas foram as marcas desta eleição. A maior delas, a disparada final do tucano Aécio Neves, que deixou petistas perplexos e os leva a sentir saudades antecipadas da adversária Marina Silva.

Entre as ausências, Eduardo Campos (PSB) fez falta. Sua partida precoce empobreceu o debate, que virou campeonato de desconstrução de imagem promovido pelo PT.

A eleição ficou também mais pobre porque os manifestantes de junho de 2013 não deram as caras na campanha de 2014. Faltou o colorido das ruas, algo que agradou e muito a turma da velha política. Culpa da violência de uns radicais.

Classificada como um milagre, a maior surpresa se materializou. Auxiliado pelos ataques petistas a Marina, o tucano atropelou a ambientalista na reta final e vai ao segundo turno da disputa, abrindo uma frente considerável em São Paulo.

Sai do primeiro turno revigorado, o que assusta o PT, mas com um gosto de vitória misturado com um sentimento de derrota. Se ganha entre paulistas com folga, perde no seu Estado, munição a ser usada pela campanha de Dilma contra ele. Na linha de quem conhece Aécio Neves não vota em peso no senador mineiro.

Em Minas, confirmou-se a surpresa que veio se construindo ao longo da campanha. O petista Fernando Pimentel acaba com o reinado de 12 anos dos tucanos no Estado. Vira um dos principais trunfos de Dilma na fase final. Logo ele, que era tão criticado pela cúpula do PT.

A presidente já disse ao amigo que vai precisar muito dele no segundo turno. Eleito governador, vai ter muito trabalho para ajudar na reeleição de Dilma. Aécio, depois de deixar Minas em segundo plano, conseguiu recuperar terreno nos últimos dias.

Agora, enfim, será a vez de o tucano virar alvo da máquina petista de desconstrução de imagem, que afia suas garras. Já o PSDB conta o acervo das maracutaias da Petrobras. Será um segundo turno sangrento.

Simon Schwartzman:A armadilha da mediocridade

• Não será mais possível crescer como se fez até aqui, é preciso redirecionar a política econômica e social

- Folha de S. Paulo

Os economistas falam da "armadilha da renda média", de países que, como o Brasil, conseguiram chegar aos US$ 10 mil ou US$ 12 mil por habitante por ano, mas não conseguem chegar perto dos US$ 30 mil a US$ 50 mil, como os países desenvolvidos. Um outro nome seria a armadilha da mediocridade.

O Brasil chegou aonde está graças às exportações de minérios e produtos agrícolas e ao crescimento da indústria e dos serviços que acompanharam a expansão das cidades. Fez parte desta história a ampliação da Previdência Social, dos serviços de saúde e da escolaridade. Para os governos, bastava cobrar impostos e distribuir para quem solicitasse conforme a força de cada um, dos políticos amigos às indústrias protegidas, passando pelos funcionários públicos e sindicatos, e chegando aos pobres com o Bolsa Família.

Esse tipo de crescimento já não tem como continuar. Acabou a migração do campo para as cidades, mas a violência urbana parece fora de controle e o transporte público é péssimo. A desigualdade vinha caindo, mas já não cai mais. A miséria se reduziu, mas a pobreza continua. Já quase não se morre de diarreia, mas o SUS mal consegue atender os enfermos de câncer e do coração. Já não há crianças fora da escola, mas elas mal aprendem. O acesso ao ensino superior cresceu com mais dinheiro para as universidades públicas, cotas, bolsas e crédito educativo, mas a qualidade da maioria dos cursos é ruim e as vantagens de ter um diploma são cada vez menores.

Os economistas sabem muito do que precisa ser feito para sair dessa armadilha: equilibrar as contas públicas, fortalecer a capacidade regulatória do Estado, abrir as empresas à competição internacional, criar regras claras para o uso de incentivos públicos e garantir ao setor privado a segurança jurídica necessária para seus investimentos. Mas isso não basta, porque o "custo Brasil" não vem somente do protecionismo, dos entraves burocráticos e da má qualidade da infraestrutura física, mas, sobretudo, da ausência de uma população bem-educada e capacitada, da condição de vida precária das cidades e da incerteza gerada por um sistema político desmoralizado.

Não será mais possível continuar crescendo e se desenvolvendo como se fez até aqui. Para sair da armadilha da mediocridade, é preciso redirecionar a política econômica e social, mas também olhar em volta, para os países que conseguiram superar essa barreira, e ver o que têm a nos ensinar sobre educação, saúde, proteção à velhice, gestão dos espaços urbanos, política ambiental, política energética, modernização do Estado e reforma do sistema político.

Nestas eleições, a grande pergunta é quais candidatos continuam olhando para trás, fazendo e prometendo mais do mesmo, satisfeitos com o que temos, e quais têm as condições de abrir espaço para um país capaz de avançar nestes novos caminhos. Para todos será uma longa aprendizagem, sujeita a erros e acertos. Mas não há dúvida de que está na hora de renovar.

Simon Schwartzman, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade no Rio de Janeiro e ex-presidente do IBGE

Renato Janine Ribeiro: Muita coisa precisa mudar

• Devemos separar eleições federais e estaduais

- Valor Econômico

Muita coisa precisa mudar no formato das campanhas. Não sou dos que consideram nosso sistema eleitoral uma calamidade. O problema maior está nas escolhas legislativas. O senador tem mandato muito longo e uma boa chance de passar o cargo, em algum momento, a suplentes desconhecidos de quem votou neles. Deputados e vereadores são escolhidos com os eleitores sabendo pouco a seu respeito. Mas nossas eleições presidenciais me parecem quase modelares.

Após a experiência Collor de eleição solteira, passamos a casar a escolha do presidente e do legislativo federal. Um aventureiro terá dificuldade de vencer. Ao longo de um ano, pelo menos, os principais postulantes são submetidos a uma bateria de questionamentos - quase um bombardeio - que no final das contas faz que só os realmente capazes permaneçam: os que têm a melhor liderança política. A governabilidade geralmente se define antes da eleição. Quem não tiver apoios consistentes dificilmente chega lá. Sem demérito para Marina Silva, ela é a exceção confirmando a regra. Assumiu a candidatura a pouco tempo do pleito, e com isso foi poupada do pior: algo como os três anos de ataques a Dilma, os 12 meses de ataques a Aécio - que foram chamados de tudo o que é ruim, mas sobreviveram. Mesmo assim, em menos de 50 dias, bastante coisa se discutiu e se soube a respeito de Marina, seus méritos, suas limitações. É assim que tem de ser.

Mas, feito o elogio, muito precisa mudar. O pior é a relação entre o candidato e o eleitor, que é o ponto central de tudo. Os contatos presenciais, como os comícios, foram perdendo importância. A propaganda se faz cada vez mais pela televisão, rádio e internet. E aqui temos várias questões. Começo pelo horário eleitoral. Na eleição aos cargos majoritários de presidente, governador, prefeito e senador, os postulantes passam por uma grande exposição, mas sem debate e com frequência dizendo tudo igual. Apela-se à emoção mais do que à razão. Daí que as campanhas custem caro, dando dinheiro a marqueteiros, quimeras vazias a eleitores e contratos polpudos a financiadores. Isso tem de ser revisto.

Em poucos anos, poderíamos chegar a uma campanha de formato novo. O candidato se reuniria com grupos de eleitores para discussões focadas, transmitidas pela internet. A rede mundial substituiria com vantagem a televisão, baixando os custos com marqueteiros. Isso dispensaria os grandes financiadores de campanha, que são o que corrompe o sistema político, e fortaleceria o compromisso do candidato com um eleitor que será também um e-leitor. Um ano atrás, tínhamos 110 milhões de internautas e 130 milhões de eleitores. Logo teremos mais internautas do que votantes. A meta da inclusão digital deve garantir que todo cidadão tenha terá acesso à internet.

Segundo ponto: os debates precisam ser uma pedra de toque da campanha. Neles, os candidatos são expostos a um contraditório que não tem lugar no horário gratuito. Mas os debates não têm passado de shows, às vezes de má educação. Até presenciamos bate-bocas, como no debate da Record em que Levy Fidelix surfou na homofobia. Infelizmente, com isso o que guardamos na memória é o folclore. A meu ver, o melhor da campanha foram as entrevistas - duras - de William Bonner e Patrícia Poeta. 

Mas ficamos numa situação difícil. Se jornalistas comandam o debate, há o risco de facilitarem para um lado, não sendo poucos os casos de parcialidade deles. Já se um candidato pergunta para outro, podem fazer tabelinha ou, mesmo, ignorar o tema proposto. Aécio Neves, interrogado sobre o episódio em que recusou fazer o teste do bafômetro, mudou rápido de assunto. E Everaldo chegou, no debate final, a simplesmente ignorar o tema que lhe cabia e perguntar a Aécio outro inteiramente diferente - o que levou Bonner a passar um pito no pastor. Penso que precisa haver muitos debates e que devem constituir uma viga-mestra da campanha, mas o formato atual ainda não é satisfatório.

Terceiro: separar as eleições federais das estaduais. Sou contra a proposta de coincidência entre todas as eleições - incluindo até mesmo as municipais. Ora, se o número de cargos em disputa num ano como o atual já é alto, dificultando a boa escolha, por que e para que aumentá-lo? E sobretudo, este ano mostra que tudo se concentrou na eleição presidencial. Os governadores passaram batido. Vamos votar neles com pouca discussão. Para não falar dos parlamentares.

Uma solução simples seria realizar dois pleitos em sequência. Por exemplo, as eleições estaduais seriam em setembro, após dois meses de campanha, e as federais em novembro. Ou vice-versa. Teríamos então um período eleitoral mais longo, mas nem tanto assim. O eleitor ungiria governantes em separado, com maior tempo para discutir seus nomes e propostas, mas perto o bastante para que uns e outros representem o mesmo momento histórico.

Poderíamos, além disso, aproximar a eleição e a posse dos eleitos. Não há razão para ficarmos de dois a três meses com um governante que já foi substituído pela vontade popular. Nos países parlamentaristas, a posse é no dia seguinte à eleição. Seria bem razoável iniciar o mandato uns 15 dias após o segundo turno.

Finalmente, isso credenciaria o eleito a participar da decisão sobre o orçamento para seu primeiro ano de governo. Hoje, ele assume com uma lei orçamentária feita pelo Executivo e Legislativo em final de mandato. Tal situação só prejudica o novo governo, que tem seu início determinado por prioridades que já não são as do eleitorado.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.