terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Aloysio Nunes Ferreira: Países mais próximos

- O Globo

Vemos no Oriente Médio nações vibrantes, terra de oportunidades

De hoje a 6 de março, visitarei Israel, Palestina, Jordânia e Líbano. Temos com a região laços históricos e afetivos, pelo papel exercido por imigrantes judeus, libaneses, palestinos e sírios no desenvolvimento nacional e na formação do tecido social brasileiro, e pela contribuição que damos à causa da paz na região, como demonstram nossa participação em operações de paz da ONU e a acolhida a refugiado sírios.

Em Israel, encontrarei o presidente Reuven Rivlin e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Israel é um país próspero, que se afirma como centro de tecnologia e inovação, com o qual, assim como com a Palestina, o Mercosul mantém acordo de livre comércio. Queremos explorar oportunidades comerciais e de investimento, sem descuidar de outras áreas, em particular a cooperação em defesa, ciência, tecnologia e inovação.

*Rubens Barbosa: Ressuscitando a Doutrina Monroe

- O Estado de S.Paulo

Superada a guerra fria, supremacia dos EUA na América Latina deixou de ser automática

O renascimento da Doutrina Monroe é a grande inovação do governo Trump na recém-anunciada política externa para a América Latina.

O presidente James Monroe, nos idos de 1823, anunciou que os EUA iriam proteger os países sul-americanos de ameaças de colonização vindas de países europeus: “A América para os americanos”. Posteriormente, em 1904, Theodore Roosevelt ampliou essa política para incluir a defesa de direitos de empresas norte-americanas na América Latina. Essas ações ficaram conhecidas como a Doutrina Monroe e seu corolário. No governo Obama, em pronunciamento feito na sede da Organização dos Estados Americanos, John Kerry, então secretário de Estado, afirmou, com grande ênfase, que a era da Doutrina Monroe tinha chegado ao fim.

Recentemente, em discurso na Universidade do Texas (US engagement in the Western Hemisphere), antes de seu passeio este mês pela América Latina, o secretário de Estado, Rex Tillerson, anunciou: “Tínhamos esquecido a importância da Doutrina Monroe e o que ela significou para o Hemisfério”. Em nome dessa doutrina, os EUA, à medida que seu poder aumentava, assumiram o papel de polícia da região e posteriormente do mundo. Na América Latina houve mais de dez intervenções sob a justificativa de defesa dos interesses das empresas norte-americanas e das ameaças aos valores, nem sempre coerentes com a democracia, defendidos por Washington. O retorno dessa percepção no atual governo não pode deixar de ser preocupante.

Sem outras inovações, como nos governos republicanos e democráticos de Clinton, Bush e Obama das últimas décadas, essa política está fundada nos mesmos três pilares: economia, segurança e democracia.

Daniel Aarão Reis: Novos movimentos, outros limites

- O Globo

Vertentes conservadoras são pouco estudadas. Dá-se preferência ao caráter épico das propostas revolucionárias

Nos anos 1960 do século XX, há 50 anos, surgiram concepções e movimentos que interpelaram tradições conservadoras de direita e de esquerda. O ano de 1968 foi especialmente quente, mas, como assinalou Marcelo Ridenti, os tremores que agitaram as sociedades nem sempre se deram com a mesma intensidade num ano preciso. Assim, os marcos cronológicos daquela época agitada ainda dividem os especialistas.

O epicentro do terremoto situouse nos EUA, porém, se estendeu com diferentes características por quase todo o mundo, alcançando a Europa, Ásia e América Latina.

Brotou o movimento das mulheres, questionando a autoridade masculina, reivindicando igualdade de direitos na economia e nas relações afetivas; exigindo o compartilhamento do trabalho doméstico e da educação dos filhos; o controle sobre a reprodução biológica e o direito de as mulheres interromperem por sua vontade a gravidez. Novas leis deveriam autorizar e proteger a emancipação feminina.

Apareceu o chamado poder jovem. Nas escolas e universidades, os jovens questionavam as autoridades consagradas. As relações hierárquicas foram desafiadas. Interdições insensatas, negadas. Proibições, inquiridas. Os estudantes recusavam a lógica excludente de um saber e de um poder esclerosados, incapazes de dar conta dos seus interesses e indagações. Nos EUA, já ninguém queria ser mutilado ou morrer nos arrozais vietnamitas. Na China, a supremacia do Partido Comunista foi posta em questão. Na Europa, no “maio francês” os estudantes armaram barricadas nas ruas. Logo depois, uma greve geral operária contestou a ordem do capital. O general De Gaulle murmurou: trata-se de um chienlit (bagunça). Bagunçada e injusta, gritaram os estudantes, é a desordem que seu governo representa e defende.

*Joel Pinheiro da Fonseca: A utopia das redes sociais

- Folha de S. Paulo

É uma surpresa que o resultado dos megafones nas mãos dos indivíduos seja barulho e tribalismo?

Havia um sonho no início da internet: o sonho de uma humanidade mais unida. Com mais facilidade de comunicação, pessoas de lugares distantes interagiriam mais e derrubariam muros. Com um mar de informações disponível a um clique, quaisquer discordâncias seriam facilmente resolvidas. A tecnologia abria as portas para um mundo da união universal pautada pela ciência.

Infelizmente, não foi o que aconteceu. O contato entre pessoas distantes permitiu que aqueles que pensam igual troquem mais figurinhas e articulem ações conjuntas. Ao mesmo tempo, a abundância de informações permitiu que cada narrativa se servisse de dados e exemplos para reforçá-la e aumentar seu poder de persuasão junto a ouvintes indefesos.

Hoje, aquele sonho de internet (um espaço amplo, aberto e descentralizado) se foi; vivemos no enorme condomínio fechado do Facebook, que acelera a polarização. No início dos anos 2000, alguns poucos aficionados por política e cultura discutiam entre desconhecidos em fóruns online sob identidades anônimas. Hoje, as coisas se misturaram: seu manifesto político na rede te dá reputação (ou ódio) entre pessoas que te conhecem.

Eliane Cantanhêde: Fonte nova, mas velha

- O Estado de S.Paulo

Operação Cartão Vermelho atinge Jaques Wagner e falta time reserva para o PT

Se o Supremo arma o fim branco da Lava Jato, as operações da Polícia Federal contra poderosos e crimes de colarinho-branco vão de vento em popa, com uma peculiaridade: elas embicaram em 2018 para os dois partidos que polarizam a política desde 1994, o PSDB e o PT.

A primeira operação da PF direcionada para corrupção neste ano foi no Paraná, sólido reduto tucano. A segunda foi ontem na Bahia, onde o PT é campeão de votos. Assim, a guerra entre PSDB e PT pode deixar de ser apenas política e passar para a seara da polícia – e justamente no ano da sucessão presidencial.

No Paraná, as buscas e apreensões chegaram à Casa Civil, coração de qualquer governo, mas não diretamente ao governador tucano Beto Richa. Já na Bahia o alvo mais reluzente foi o ex-governador e líder petista Jaques Wagner. O efeito é demolidor.

Uma operação no Paraná aumenta o desânimo com a política e a percepção de que “todos são iguais”, principalmente por vir junto com a revelação de que o engenheiro Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, mantém R$ 113 milhões no exterior. Ele é apontado como “operador” dos tucanos paulistas.

Na Bahia, porém, a Operação Cartão Vermelho (um nome que diz tudo) atinge em cheio uma das últimas reservas do PT para a Presidência. Com a candidatura do ex-presidente Lula virtualmente inviabilizada pela Justiça, o partido só tem, ou tinha, duas alternativas: o baiano Wagner ou o paulista Fernando Haddad. E agora?

Bernardo Mello Franco: Um cartão vermelho para Wagner

- O Globo

Anova operação da Polícia Federal pôs mais uma pedra no caminho do PT. O partido já dava como certo que não conseguirá lançar Lula à Presidência. Agora pode ficar também sem seu plano B: o ex-ministro Jaques Wagner.

O petista foi acusado de embolsar R$ 82 milhões das empreiteiras Odebrecht e OAS. O dinheiro teria sido desviado das obras da Fonte Nova. Pelas contas da PF, o superfaturamento no estádio da Copa chegou a R$ 450 milhões.

Ontem a polícia amanheceu no apartamento de Wagner, numa torre com vista para a Baía de Todos os Santos e a Ilha de Itaparica. Apreendeu papéis, computador e 15 relógios de luxo. Não é a primeira vez que o ex-governador se vê em apuros pelo que ostenta no pulso.

Há dois anos, um lobista da Odebrecht contou ter presenteado Wagner com um relógio avaliado em US$ 20 mil. O petista reconheceu o mimo e se saiu com uma das piores desculpas da Lava-Jato. “Guardei e nunca usei, porque eu uso outro tipo de relógio”, esnobou.

Agora os investigadores também apuram outros tipos de regalo. Segundo a delegada Luciana Matutino, Wagner usou a casa da mãe, no Rio, para receber R$ 500 mil. O ex-ministro é carioca e estudou Engenharia na PUC. Radicou-se na Bahia para fugir da repressão na ditadura militar.

Ricardo Noblat: PT à procura de um plano D ou E

- Blog do Noblat

Quem substituirá Lula como candidato

A batida da Polícia Federal na casa, em Salvador, do ex-governador da Bahia Jaques Wagner, e a suspeita de que ele se beneficiou de dinheiro desviado da reforma do Estádio da Fonte Nova, obrigarão o PT a procurar um plano D ou E para candidato à sucessão do presidente Michel Temer.

Sem Lula, a eleição será uma fraude, repetem sem sucesso os caciques do PT. Mas, na prática, eles contavam com Wagner para substituir Lula como candidato. À sua revelia, Wagner era o Plano B. Ganhou duas vezes o governo da Bahia direto no primeiro turno.

Mais: elegeu no primeiro turno o atual governador, Rui Costa. A Bahia, hoje, talvez seja proporcionalmente o maior reduto eleitoral do PT. Wagner não queria ser candidato a presidente porque sabia que mais dia, menos dia, a Polícia Federal bateria à sua porta. Bateu.

Fernando Exman: Reação de políticos é risco à intervenção

- Valor Econômico

Apoio popular dependerá de resultados práticos

Passado o impacto político inicial do anúncio das medidas de combate à insegurança pública que assola o país, nova fase se inicia para o governo federal. Autoridades avaliam que a receptividade da população à intervenção no Rio de Janeiro e à criação do Ministério da Segurança Pública foi positiva. Mas, agora, cada uma das ações do Executivo passará por detalhado escrutínio. Inevitavelmente, políticos tentarão aproveitar para ganhar pontos com o eleitorado - sejam governistas ou de oposição - a poucos meses do início da campanha. Já o presidente da República não tem tanto tempo assim: tratando-se de um assunto que tem impacto direto na vida das pessoas, Temer logo começará a ser cobrado por resultados.

Sem possibilidades de aprovar a reforma da Previdência, o presidente agiu com rapidez para afastar a percepção de que seu governo entraria em fase terminal. Com a retomada da economia contratada, redirecionou os esforços para o combate ao crime organizado e à violência. Colocou com rapidez o tema da segurança pública no topo das suas prioridades, item sempre citado pela população como uma de suas principais preocupações nas pesquisas de opinião e área que, no Rio de Janeiro, chegou a uma situação inaceitável. Garantindo uma rápida e folgada aprovação do decreto de intervenção no Rio pelo Congresso, demonstrou que mantém uma maioria parlamentar - mesmo que a base governista não tenha sido, em relação especificamente à reforma da Previdência, tão aliada quanto gostariam os articuladores políticos do Palácio do Planalto.

Hélio Schwartsman: Procura-se um liberal de verdade

- Folha de S. Paulo

Faltam nomes fortes que proponham uma agenda econômica calcada na realidade

Há um engarrafamento de pré-candidatos no campo liberal conservador. Tentam trafegar nessa avenida nada menos do que Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, além do próprio presidente Michel Temer. Por fora ainda corre Flávio Rocha, das Lojas Riachuelo. Como tudo o que não é vedado pelas leis da física pode acontecer, Luciano Huck ainda poderia mudar de ideia e concorrer.

Tal congestionamento contrasta com a virtual ausência de nomes fortes no campo que eu chamaria de genuinamente liberal, isto é, que proponha uma agenda econômica calcada na realidade e defenda uma pauta progressista nas questões sociais.

Pense num candidato que aceite o beabá da cartilha econômica —ideias bem básicas como a de que não se pode, por muito tempo, gastar mais do que se arrecada— e leve a sério a liberdade, sem medo de defender propostas impopulares como legalização das drogas, descriminalização do aborto, da eutanásia, abolição de delitos como desacato, apologia etc. Ou, pela negativa, alguém que não queira censurar museus, nem endurecer o direito penal e nem se perca em fazer agrados a igrejas.

Merval Pereira: Ventos policiais

- O Globo

Os palanques eleitorais para a eleição presidencial deste ano estão sendo montados aos trancos e barrancos, mais ao sabor dos ventos policiais do que dos políticos. E numa eleição casada, onde estarão em jogo nada menos que sete cargos eletivos — presidente da República, governadores, dois senadores, deputados estadual, distrital e federal —, quem tiver as melhores alianças partidárias terá o maior tempo de propaganda na televisão. Mas com o advento das redes sociais no mercado eleitoral, e o encurtamento da campanha oficial, não é possível garantir que o tempo de televisão seja mais importante.

Até que se prove o contrário, as alianças políticas regionais serão fundamentais para a captação de votos, mais até que o curto espaço que sobrará para a campanha de propaganda oficial de rádio e televisão, que terá a duração de apenas 35 dias, a partir de 31 de agosto.

A Bahia entrou ontem na lista dos estados que serão afetados pelas investigações da Operação LavaJato, que ao mesmo tempo em que dificultou a campanha regional do PT, atingiu em cheio a opção mais palatável eleitoralmente para substituir Lula como candidato presidencial.

O ex-governador e ex-ministro Jaques Wagner buscava na eleição quase certa para o Senado o foro especial que o protegeria justamente dessa investigação, que já fora arquivada no âmbito da Justiça Eleitoral local, normalmente mais exposta à influência do poder político incumbente. Mas era a melhor bala de prata petista para substituir Lula na campanha presidencial, apesar de não querer assumir essa missão.

Luiz Carlos Azedo: Mera coincidência

- Correio Braziliense

A ida de Jungman para o Ministério da Segurança Pública é uma solução natural, tipo “prata da casa”. Entretanto, não é natural um general como ministro da Defesa, pasta criada para o poder civil

No livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte, já citado aqui a propósito da conjuntura eleitoral que vivemos, Marx se inspira no golpe de estado de Napoleão Bonaparte, em 9 de novembro de 1799, para descrever o golpe de seu sobrinho Luís Napoleão, 50 anos depois. Presidente em final de mandato, em 2 de dezembro de 1851 dissolveu a Assembleia e convocou um plebiscito que restituiu o Império; um ano depois se proclamou Napoleão III. O livro foi escrito entre dezembro de 1851 a março de 1852, em Londres, com o propósito de mostrar as circunstâncias nas quais “Napoleão, o pequeno”, como Victor Hugo o chamava, pôde desempenhar o papel de herói e tomar o poder.

Luís Bonaparte foi um reformador, admirador da modernidade britânica, e promoveu considerável desenvolvimento industrial, econômico e financeiro, mas seu maior legado foi a reforma urbana de Paris, sob comando do prefeito Georges-Eugene Hausmann, um dos símbolos da modernidade. Somente deixou o poder em setembro de 1870, quando surgiu a Terceira República, após a derrota francesa na batalha de Sedan, na Guerra Franco Prussiana. Depois de deposto, exilou-se na Inglaterra, onde morreu em 1873.

Uma das melhores reportagens políticas já escritas, nela Marx descreve o surgimento do partido social-democrata (Montanha): “Quebrou-se o aspecto revolucionário das reivindicações sociais do proletariado e deu-se a elas uma feição democrática; despiu-se a firma puramente política das reivindicações democráticas da pequena burguesia e ressaltou-se seu aspecto socialista. Assim surgiu a social-democracia”. E mostra também que legitimistas e orleanistas, frações monárquicas do Partido da Ordem, se uniram no regime parlamentar republicano porque cada uma dessas correntes considerava a república uma solução mais aceitável do que a opção monárquica preferida pela outra, uma espécie de jogo de perde-perde da aristocracia restauradora francesa.

Antonio Delfim Netto: O Brasil não é administrável

- Valor Econômico

É hora de colocar cada Poder e seus apêndices dentro das 'caixinhas'

Para um jejuno em direito constitucional como eu, viver a tumultuada gestação da Constituição de 1988 foi uma experiência inesquecível.

Primeiro, foi assistir à magnífica negação das leis da termodinâmica: do caos emergiu uma ordem! Segundo, foi aprender que, em geral, finíssimos argumentos jurídicos costumam esconder armadilhas para os incautos que não conhecem o poder infinito de uma vírgula. Terceiro, que a "ordem" construída embutia, afinal, uma lógica fechada sobre si mesma para a consecução do objetivo desejado: a construção de um "Estado democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias" (preâmbulo da Constituição de 1988).

O Artigo 1º da Constituição determina que: "A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos: 1) a soberania; 2) a cidadania; 3) a dignidade da pessoa humana; 4) os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.

Como se organizará a República está expresso no Artigo 2º: "São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário", que devem atingir "Artigo 3º...os objetivos da República Federativa do Brasil: 1) construir uma sociedade livre, justa e solidária; 2) garantir o desenvolvimento nacional; 3) erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; 4) promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Todos os Poderes têm controles internos e externos que respeitam a sua independência e exigem que respeitem a harmonia com os outros Poderes, ou seja, há limites para todos. O controle externo do Legislativo (Artigo 71) "será exercido com o auxílio do Tribunal de Contas da União".

Além do desemprego: Editorial | O Estado de S. Paulo

O fato de que 12,3 milhões de brasileiros não conseguem encontrar o emprego que procuram com insistência mostra como ainda é grave o quadro do mercado de trabalho, a despeito dos sinais cada vez mais evidentes de melhora da situação econômica, inclusive com a abertura de postos de trabalho. Mas esse número, mesmo sendo por si só revelador do drama que assombra milhões de famílias, não resume todo o problema. Falta trabalho para 26,4 milhões de pessoas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse número é mais do dobro do total de desempregados e deixa claro que políticas públicas voltadas para a geração de emprego não devem focar 12 milhões de pessoas, mas bem mais do que isso.

Para aferir a falta de trabalho, aos desempregados devem ser somados aqueles que estão subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e aqueles que compõem o que os estatísticos chamam de força de trabalho potencial. Esse último contingente é formado por pessoas que gostariam de trabalhar, mas, por algum motivo, não procuraram emprego nos 30 dias que antecederam a pesquisa, além daqueles que não estavam disponíveis para trabalhar. Esses dados constam da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua referente ao quarto trimestre de 2017 que o IBGE acaba de divulgar.

Foco do Banco Central precisa ser a inflação: Editorial | O Globo

Não há maturidade para que o BC também se preocupe com o emprego, como acontece nos EUA, onde, apesar do duplo mandato, o Fed dá prioridade à defesa do dólar

O conjunto de 15 propostas apresentadas pelo governo como forma de compensar a frustração da derrota na tentativa de votar na Câmara o projeto de reforma da Previdência inclui a formalização da autonomia do Banco Central, ideia antiga sem maior trânsito junto aos políticos.

O conjunto de medidas, por ter sido uma simples e tosca manobra do Planalto para desviar a atenção do engavetamento da emenda constitucional da Previdência, não foi levado a sério, mas pelo menos a questão do BC merece ser avaliada.

Não apenas porque se trata de uma equiparação da autoridade monetária brasileira à de outros países, mais desenvolvidos — ou seja, é um modelo exitoso —, mas também porque o senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo na Casa, acrescentou à concessão de autonomia operacional do BC mais um objetivo a ser atingido pela diretoria da instituição: além da clássica defesa da moeda, o emprego.

Há nisso a intenção política de reduzir resistências no Congresso à maior liberdade de trabalho para a diretoria do BC, que compõe o Conselho de Política Monetária (Copom), responsável pelos juros. Acabaria, ou reduziria o temor primário, de fundamentação ideológica, de que os bancos centrais tenderiam sempre a elevar os juros, para ajudar “rentistas” e o setor financeiro.

Acesso à internet ainda falha e prejudica competitividade: Editorial | Valor Econômico

Em um momento em que a indústria internacional discute o lançamento para breve das redes de telefonia móvel 5G, que permitirá a troca de dados entre aparelhos praticamente em tempo real, e empresas de transporte com veículos autônomos começam a funcionar, chega a ser bastante desanimador o quadro da situação da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) do Brasil, pintado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os resultados indicam que o uso da internet no país parece ter estagnado. O preço do equipamento necessário e o custo do serviço explicam em boa parte porque isso está acontecendo, além da falta de acesso às redes. Mas também há falta de interesse ou de conhecimento.

Elaborada a partir de dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio Contínua (Pnad Contínua) de 2016, a TIC constatou que 30,7% dos domicílios brasileiros não tinham acesso à internet. Visto de outra forma, a pesquisa mostrou que 44% da população, ou 90,2 milhões de pessoas, não acessaram a internet nos 90 dias anteriores à pesquisa. Levando-se em conta o segmento com 10 anos ou mais, o percentual é de 35%. A situação varia conforme a região. No Sudeste, o percentual da população sem acesso à internet com 10 anos ou mais cai a 27,7%, enquanto no Nordeste sobe para 47,7%. O Centro-Oeste surpreende ficando logo atrás do Sudeste, com 28,2% da população fora da rede, e à frente do Sul, com 32,1% e do Norte, com 45,7%. Para navegar na internet, a grande maioria da população - 97,2% dos domicílios - usou o celular, que desbancou definitivamente o computador, seja de mesa ou notebook, que prevalecia.

Fazia muito tempo que o IBGE não pesquisava o assunto, apesar de sua importância. A última vez foi em 2005, usando critérios diferentes, que não permitem uma comparação. Ainda assim, para se ter uma ideia, se apurou naquela ocasião que 71% da população usava a internet para a educação e aprendizado e 68,6% para se comunicar com as pessoas.

Setor externo continua firme: Editorial | O Estado de S. Paulo

Com superávit comercial de US$ 64,02 bilhões no ano passado e saldo de US$ 59 bilhões previsto para este ano, o Brasil continua com boa perspectiva para o setor externo – uma bênção muito especial, neste momento, quando se consideram as incertezas da política interna e a paralisação do programa de reformas. As boas condições do balanço de pagamentos foram confirmadas, mais uma vez, com a divulgação, pelo Banco Central (BC), dos números de janeiro. No mês passado entraram US$ 6,47 bilhões de investimento direto líquido, valor suficiente para cobrir com folga o déficit de US$ 4,31 bilhões em transações correntes. Esse déficit chegou a US$ 8,99 bilhões em 12 meses, enquanto o investimento direto somou US$ 65,34 bilhões.

Contas externas em mau estado e crise cambial, isto é, escassez de dólares, marcaram a maior parte dos grandes tropeços econômicos do Brasil. Não houve, no entanto, problema cambial na última grande crise brasileira, embora o déficit em transações correntes tenha chegado a 4,24% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e ficado em 3,31% em 2015. No ano passado, de forte recuperação, o buraco equivaleu a apenas 1,31% do produto e foi financiado por investimento direto correspondente a 3,04%.

As transações correntes, também conhecidas como conta corrente do balanço de pagamentos, são um resumo do intercâmbio do País com o exterior. Incluem a balança comercial de mercadorias (agropecuárias, minerais e industriais), a conta de serviços (viagens, transportes e aluguéis de equipamentos) e as de renda primária (como entrada e saída de lucros e juros) e secundária (principalmente dinheiro enviado a familiares por trabalhadores no exterior).

Os donos do dinheiro: Editorial | Folha de S. Paulo

Trocas de partido e disputa por fundos mostram que controles precisam ser aperfeiçoados

A proximidade da janela aberta pela legislação para trocas de partido começou a atiçar o senso de oportunidade dos deputados federais, bem como o apetite das siglas nas quais o poder se fragmentou no Congresso há algum tempo.

Graças a uma emenda constitucional aprovada no início do ano retrasado, os parlamentares terão neste ano 30 dias para trocar de legenda sem correr o risco de sofrer punição na Justiça Eleitoral por infidelidade partidária. A temporada irá de 8 de março até 6 de abril.

Como esta Folha noticiou, dirigentes partidários interessados em aumentar a força de suas bancadas tentam atrair deputados bons de voto com a promessa de que terão acesso privilegiado aos recursos de que dispõem para financiar campanhas nas próximas eleições.

Trata-se de uma oferta especialmente sedutora por causa das mudanças promovidas na legislação eleitoral nos últimos anos.

PF: Wagner recebeu R$ 82 milhões

O ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner, opção do PT na corrida presidencial, foi alvo de operação da Polícia Federal que investiga R$ 450 milhões de superfaturamento na obra da Arena Fonte Nova. Wagner é suspeito de ter recebido R$ 82 milhões, entre doações e propinas, da OAS e da Odebrecht. Ele nega.

Wagner entra na mira

Cotado para substituir Lula na campanha, ex-governador da Bahia é alvo de ação da PF

Gabriel Cariello e Miguel Caballero | O Globo

Cotado como alternativa do PT ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a corrida presidencial, o ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner foi o principal alvo de uma operação da Polícia Federal, deflagrada ontem, que investiga superfaturamento em contratos para a reforma da Arena Fonte Nova, em Salvador. Wagner é acusado pela PF de receber R$ 82 milhões em propina e doações eleitorais das duas empresas que formaram o consórcio responsável pela obra: Odebrecht e OAS. Ele nega irregularidades. O PT classifica a operação de “episódio de perseguição contra o partido”.

A delegada responsável pela Operação “Cartão Vermelho”, Luciana Matutino, afirma que o superfaturamento da reconstrução do estádio soma cerca de R$ 450 milhões, em valores atualizados. O custo equivale a cerca de 65% do total gasto na obra. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal em todo o Brasil revelaram suspeitas de despesas muito superiores às orçadas em várias cidades da Copa. No Maracanã, no Rio, e no Mané Garrincha, em Brasília, os custos finais extrapolaram em mais da metade o orçamento inicial.

No caso da Fonte Nova, as investigações indicaram que os supostos pagamentos ao ex-governador baiano saíram do montante recebido pelas empreiteiras. Delações de executivos das construtoras e de políticos apontam que Jaques Wagner é o sétimo chefe de executivo estadual acusado de receber propina em obras das arenas. Sérgio Cabral (PMDB-RJ), Agnelo Queiroz (PT-DF), José Roberto Arruda (PR-DF), Eduardo Braga (PMDB-AM), Omar Aziz (PSD-AM) e Silval Barbosa (PMDB-MT) também já foram citados. À exceção de Silval Barbosa, todos os outros políticos acusados negam qualquer ato ilícito.

— O somatório de R$ 82 milhões foi o total identificado nesta investigação que foi doado pela OAS e Odebrecht para o ex-governador — disse a delegada, em entrevista após a operação.

Agentes da PF cumpriram sete mandados de busca e apreensão: na casa de Jaques Wagner em Salvador; na secretaria estadual de Desenvolvimento Econômico, da qual ele é titular; e em outros endereços na capital baiana ligados ao secretário da Casa Civil, Bruno Dauster, e ao empresário Carlos Daltro, amigo de Wagner. Segundo a delegada, foram apreendidos documentos, computadores, mídias e cerca de 15 relógios do ex-governador. A Polícia Federal chegou a pedir a prisão preventiva de Wagner e dos outros dois alvos da operação, mas o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) negou os pedidos.

Os investigadores se basearam em informações prestadas por delatores da Odebrecht e em materiais colhidos em outras operações de busca e apreensão, na sede da OAS, além de um estudo que apontou superfaturamento na obra.

PT admite desgaste, mas mantém ‘Plano B’

Partido vai reforçar discurso de que é alvo de perseguição política

Sérgio Roxo | O Globo

-SÃO PAULO- Lideranças petistas avaliam que a operação de ontem da Polícia Federal “constrange e atrapalha” os planos do PT de fazer de Jaques Wagner o plano B caso Lula seja impedido de disputar a Presidência da República por causa da Lei da Ficha Limpa. Dirigentes da legenda acreditam, porém, que o episódio não significará uma pá de cal para o ex-governador da Bahia porque o discurso de “perseguição ao partido”, já usado nas acusações contra o ex-presidente, também se aplica nesse caso e encontra eco em uma parcela significativa de eleitores.

Outra aposta é que os adversários terão dificuldade para tratar de escândalos de corrupção durante a campanha, já que denúncias têm atingido integrantes das mais diversas legendas.

Wagner é o preferido da maioria dos dirigentes e parlamentares do PT para entrar na disputa ao Planalto. O plano na legenda é levar a candidatura de Lula, mesmo com a condenação em segunda instância que o torna ficha-suja, até o prazo final para a troca do cabeça da chapa, a 20 dias da eleição. Se até lá os advogados não conseguirem uma liminar nos tribunais superiores, ocorreria a mudança de candidato.

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad também é citado como plano B, mas seu nome enfrenta resistência porque alguns petistas consideram que ele não defende a legenda de forma enfática. Wagner, que governou a Bahia por dois mandatos, também tem um retrospecto eleitoral mais favorável do que o ex-prefeito, derrotado no primeiro turno ao tentar a releição em 2016. Apesar das preferências, deve caber a Lula indicar o seu substituto.

Kassab diz ser possível ter candidato único 'de centro' à Presidência

Por Thais Carrança e Lucas Marchesini | Valor Econômico

SÃO PAULO E BRASÍLIA - O ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, defendeu a união do que chamou de "centro da política" em uma única candidatura presidencial. Kassab afirmou que dentro desta premissa a sigla irá decidir nos próximos dias se terá candidatura própria à Presidência. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, cogita sair da sigla para tentar viabilizar sua candidatura por outro partido.

"Todos sabem que temos no plano federal um encaminhamento, um esforço, para que possamos ter no campo do centro da política brasileira um único candidato a presidente da República", disse Kassab a jornalistas, após evento na Prefeitura de São Paulo, junto com o prefeito João Doria (PSDB). Kassab é cotado para ser vice em uma chapa encabeçada por Doria ao governo de São Paulo.

Segundo Kassab, o esforço do PSD é para que este pleiteante seja seu, uma vez que o partido tem um "excelente candidato", que é Meirelles. "No momento certo, e este momento está se aproximando, o partido, vai definir se o nosso candidato, pelas circunstâncias, não pelas suas qualidades, é o mais adequado para disputar uma eleição, ou se iremos partir para uma coligação. Vamos aguardar mais alguns dias", disse o ministro.

Segundo Kassab, se o nome de Meirelles reunir circunstâncias favoráveis, será ele o candidato do PSD. "Caso tenhamos uma coligação, as consultas apontam que o melhor nome é do atual governador [de São Paulo], Geraldo Alckmin, do PSDB", completou.

Maia quer o DEM mais independente de Temer

Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), negou a possibilidade de o seu partido desembarcar do governo do presidente Michel Temer, às vésperas do provável lançamento de sua pré-candidatura à Presidência da República. Ele reconheceu, porém, que a legenda ensaia um movimento de maior independência em relação ao Palácio do Planalto, com seus parlamentares tendo abertura para votar contra projetos defendidos pelo governo, caso não concordem com o que for apresentado.

"Acho que os partidos da base têm que ter a liberdade de lançar seus pré-candidatos e não precisam ser hostis com o governo. O DEM e eu, como presidente da Câmara, vamos continuar tendo diálogo com o presidente Temer. Naquilo que acreditamos, continuaremos votando a favor, e se não concordarmos, votaremos contra", disse Maia, que não confirmou se será apresentado como postulante à Presidência durante a convenção nacional da sigla, marcada para a próxima semana.

Segundo apurou o Valor, parlamentares ligados à cúpula do partido reconheceram que a baixa popularidade do governo Temer obrigará Maia e a sigla a se descolarem do presidente, caso queiram ter alguma chance de ver a candidatura própria decolar. Os aliados do presidente da Câmara apostam, porém, que o afastamento deve ser "gradativo" e não pode "nem de longe lembrar uma ruptura", visto que o parlamentar do DEM sempre foi um dos avalistas da agenda reformista defendida e praticada pelo emedebista.

Ciente das dificuldades que poderia enfrentar caso permitisse que sua pré-candidatura fosse classificada como governista, Maia e seus aliados viram no movimento de independência a única alternativa para que a candidatura própria do DEM tenha "chances de vingar".

Paes negocia filiação com PSDB e PP para disputar governo do Rio

Destino de ex-prefeito do Rio, que conversou com Alckmin, deverá ser anunciado em 10 dias

Catia Seabra, Thais Bilenky | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Potencial candidato ao governo fluminense, o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (MDB) se reuniu neste fim de semana com dois pretendentes —PSDB e PP— para definir seu futuro partidário.

A tendência, segundo seus aliados, é que se filie ao PP.

Seu destino deverá ser anunciado dentro de dez dias. Embora os dois partidos tenham oferecido legenda para a disputa, Paes admitiu a hipótese de não concorrer ao governo do Estado, sob o argumento de que esse é o desejo de sua família.

Hoje inelegível por decisão judicial, Paes teme também os desdobramentos da Operação Lava Jato.

No domingo, Paes se encontrou com o vice-governador do Rio, Francisco Dornelles, para discutir os termos de sua filiação ao PP. Ele recebeu carta branca para costura de alianças no Estado.

Em favor do partido, pesa o fato de o PP não ter candidato à Presidência, permitindo mobilidade a Paes. O tempo de TV do PP é compatível ao do PSDB.

No tucanato, sua candidatura seria obrigatoriamente atrelada à do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. No sábado, Paes se reuniu com Alckmin, no Palácio dos Bandeirantes, para discutir o cenário eleitoral do Rio.

Na conversa, segundo a Folha apurou, Alckmin quis saber se o ex-prefeito era de fato candidato ao governo do Rio e abriu as portas da legenda a Paes.

Segundo aliados, o governador detectou algum receio de Paes em relação à Lava Jato. Alckmin pondera também os obstáculos que essa aliança poderia impor à aproximação do PSDB com o DEM.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), quer lançar o pai, o ex-prefeito Cesar Maia (DEM-RJ), ao governo, mas a intenção é vista com ceticismo por interlocutores de Alckmin.

PSDB do Rio reage à entrada de Eduardo Paes no partido

Convite feito por Alckmin pegou tucanos fluminenses de surpresa

Fernanda Krakovics | O Globo

O convite do presidente do PSDB e governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para que o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes volte para o partido pegou os tucanos fluminenses de surpresa e provocou a reação do presidente do diretório estadual, deputado federal Otavio Leite. Assim como no PP, com quem também negocia, Paes quer o controle do partido no estado.

— Não é conveniente a filiação dele, tem muito desconforto. O partido guarda um constrangimento em relação ao Eduardo pelo fato dele ter sido secretário-geral da sigla, ter tido todas as oportunidades e ter deixado o PSDB de lado. Saiu de maneira abrupta para ser secretário do (Sérgio) Cabral — disse Leite.

Alckmin formalizou o convite no sábado à tarde, em reunião de cerca de duas horas no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Paes, que é pré-candidato a governador, pediu uma semana para dar uma resposta. Desde o carnaval o governador estava sondando o ex-prefeito do Rio por meio de emissários. Na última quarta-feira, o presidente do PSDB pediu para que marcassem o encontro, temendo que Paes fechasse com o PP.

Vinicius de Moraes: Samba da Bênção

Carlos Drummond de Andrade: Canto ao homem do povo - Charles Chaplin

(Trecho)

I

Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Arnaldo Jordy: Um remédio amargo

A decisão do governo federal de intervir na segurança pública do Rio de Janeiro já era especulada, diante da falência total da elite política e administrativa do Rio de Janeiro, que teve no final do ano passado a dramática situação de ter três ex-governadores presos: Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho; o presidente e quatro conselheiros do Tribunal de Contas do Estado; o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani; o influente ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, além de empresários como Eike Batista e outros, que simbolizaram a quadrilha que se instalou no Estado.

A intervenção já foi cogitada por diversas vezes pelo senador Lindbergh Farias, durante os governos de Lula e Dilma, ex-presidentes que, em diversas ocasiões, exaltaram os governos de Sérgio Cabral e assim, coniviram com o saque ao Estado, que ficou à beira da insolvência absoluta, especialmente após as obras superfaturadas para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Hoje, com as instituições desacreditadas e as contas falidas, o Rio vê o crime organizado tomar conta do Estado e controlar setores da própria polícia. Diante disso, não há como negar que a intervenção não é um ato despropositado. Algo precisa ser feito de imediato para conter esse câncer que tem o poder do tráfico de drogas para comprar mais poder, como bem retratado no filme “Tropa de Elite 2”, do diretor José Padilha. Não há como as organizações criminosas se desenvolverem a esse ponto sem uma certa cumplicidade do aparelho de estado.

O avanço do crime é um problema do Brasil inteiro, sim, mas é mais evidente no Rio de Janeiro, onde os territórios são disputados pelas organizações de traficantes em verdadeiras guerras que impedem até mesmo as crianças de ir à escolas, por medo de tiroteios e balas perdidas, e criam o caos na cidade em momentos como o carnaval. Por isso, é difícil encontrar naquele Estado quem seja contra uma intervenção. Só no ano passado, 134 policiais militares foram assassinados. Este ano, até quarta-feira, 21, outros 17 policiais haviam sido mortos.

*Marcus André Melo: O voo do pato manco

- Folha de S. Paulo

“Intervenção” é assombração. “É o tema mais controverso da Velha República, mais que estado de sítio”, segundo Afonso Arinos. As intervenções ocorriam quando havia conflito nas eleições estaduais —disputa pelo privilégio de apoiar o governo federal, como alertou Vitor Nunes Leal.

Ao contrário da Argentina, que tem história de intervenções sob regime democrático: Irigoyen (em 10 das 14 províncias) e Menem (em seis) foram os campeões.

No Brasil, a última havia sido em 1924. No Rio de Janeiro, após a eleição de 1922, cuja vitória era disputada por dois governadores, um da oposição estadual que fora empossado pela Assembleia Legislativa e outro da situação que tomou posse munido de um habeas corpus do STF. Mas o primeiro era apoiado pelo presidente Artur Bernardes, que anulou o resultado, nomeou um interventor e convocou novas eleições. Vencidas pelo primeiro, é claro. No mesmo figurino ocorrera a primeira, em 1914.

Fernando Limongi: A casta de toga

- Valor Econômico

Nada justifica os privilégios do Poder Judiciário

No início de fevereiro, a revista "Isto é" festejou "o novo tom da justiça". Para a revista, "o Supremo não se dobra a pressões" e rejeita "acomodações". Posando com caras de durões e trajando capas, os Ministros foram retratados como heróis, membros da Liga da Justiça.

Na abertura do ano judiciário, 'Os Onze Supremos' foram recepcionados pela FRENTAS (Frente Associativa da Magistratura e do Ministério Público). Os juízes e promotores não saudavam o estrelato de seus líderes. Estavam ali para pressionar, defender o seu. De lá para cá, a pressão só cresceu e, no final dessa semana, circularam rumores de que magistrados estariam dispostos a entrar em greve.

Não é a primeira vez que juízes pressionam o Supremo e ameaçam paralisar atividades. Fizeram o mesmo em 2000, ano da aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e da imposição de tetos salariais. Cortes e austeridade fiscal para todos, menos para os magistrados.

Nelson Jobim, em seu depoimento à História Oral do Supremo, desce aos detalhes, narrando peripécias de fazer inveja a Pedro Malasartes. Jobim manipulou pauta do Supremo, blefou, ameaçou, fez acordos com líderes do movimento grevista e muito mais. Tudo para escapar dos limites impostos pelo teto constitucional sem parecer que o Supremo cedera ao 'sindicato'. Para tanto, contou com a anuência do Presidente Fernando Henrique e fez tabelinha com o então Ministro Chefe da Casa Civil, Pedro Parente --a quem define como um 'craque' -- e com Gilmar Mendes, à época na Advocacia Geral da União.

Demétrio Magnoli: Que tiro foi esse?

- O Globo

A Paraíso do Tuiuti recuperou o morro clássico, puro e sofrido, adicionando-lhe o discurso farsesco do PT, que faz a escravidão perenizar-se no “cativeiro social”, celebra a CLT varguista e anuncia uma “libertação” conduzida pelo “quilombo da favela”. Na quarta de cinzas, encerrado o carnaval político pra inglês ver, chegou a intervenção federal, pra brasileiro ver. Que tiro foi esse? Os jornalistas referem-se à “intervenção na área de segurança do Rio”, numa tentativa desesperada de conciliar o conceito à realidade factual. O governador segue no comando do governo estadual. Mas o Planalto, com seu beneplácito explícito, cassa-lhe o controle da segurança pública. O paradoxo indica o triunfo da Tuiuti: continuamos, deploravelmente, a fingir que o morro — tanto faz se casto ou criminoso, subjugado ou sublevado — é um mundo à parte.

A história velha evolui em novo capítulo. Na sua hora áurea, a política das UPPs ganhou tanto apoio, político e popular, quanto terá a intervenção, ao menos na sua fase inicial. As UPPs produziram um equilíbrio temporário, cobrindo com gaze fina a ferida purulenta. Nas “comunidades pacificadas”, atualizaram-se os pactos criminosos, enquanto se redividiam os territórios das facções armadas. A milícia, que é a “polícia do B”, alastrou seu poder, saltando dos serviços de botijão de gás e “gatonet” para os negócios imobiliários. O CV desgastou-se em conflitos com a ADA e o TCP, o que preparou a irrupção do PCC em terras cariocas.

Sob a precária segurança das UPPs, nada se fez para reformar as polícias, identificar as ramificações políticas do crime organizado ou radiografar suas relações com as autoridades públicas. A ruptura do equilíbrio provisório decorreu do colapso financeiro estadual, que provocou uma implosão da Polícia Militar, nas formas de ondas de abandonos abertos ou ocultos dos empregos. Os pedidos de baixa, o absenteísmo disfarçado e a cooptação de policiais pelas milícias e pelas facções escancararam a cidade à criminalidade comum. Agências dos correios pararam de entregar objetos em áreas críticas da metrópole. Táxis começaram a recusar corridas fora dos limites da Zona Sul. Que tiro foi esse? As armas e os projéteis desceram o morro, dinamitando a “normalidade” prévia. Daí, a intervenção.

Marcus Pestana: A intervenção no Rio e os desafios na segurança

- O Tempo (MG)

Na última segunda-feira, entramos pela madrugada na Câmara dos Deputados, discutindo e deliberando sobre o decreto presidencial que determinou a intervenção federal na área da segurança pública do Rio de Janeiro. Foi uma medida extrema e polêmica diante das cenas chocantes e dramáticas ocorridas nas semanas próximas do Carnaval. O Rio, símbolo do Brasil no exterior, parecia uma cidade sitiada pelo crime organizado. Chegamos ao extremo absurdo de existir um aplicativo de internet sobre zonas com tiroteio e vias principais ilhadas pela ousadia e agressividade do tráfico.

A insegurança hoje é um dos principais problemas nacionais. Principalmente nos grandes centros urbanos, mas que também em pequenas e médias cidades e na zona rural. A população brasileira reclama medidas urgentes e eficazes que combatam a violência. Os cidadãos de bem exigem o fim da retórica vazia de planos que não saem do papel e a retomada do controle da situação por meio de ações efetivas que gerem resultados concretos.

Vinicius Mota: Aspectos da intervenção

- Folha de S. Paulo

O que vai acontecer na segurança pública do Rio sob intervenção federal? Quais serão as consequências políticas da medida? Na linha da largada, quando ainda predomina um nível baixo de informação, eis o pouco a afirmar:

1. A ação tem amplo respaldo popular, apurou pesquisa Ibope solicitada pelo Planalto. O resultado fica dentro do padrão das mobilizações similares anteriores;

2. O brasileiro confia nas Forças Armadas mais do que nas outras instituições testadas pelo Datafolha em junho de 2017;

3. Os militares brasileiros desenvolveram larga capacitação em intervenções urbanas na área da segurança pública. Mais de 10% do contingente esteve no Haiti ao longo dos 13 anos da missão da ONU;

4. Na comparação com a bagunça e com o grau de infestação delinquencial das polícias do Rio, é provável que o efeito inicial da intervenção federal seja positivo;

*Celso Rocha de Barros: Alckmin tem chances de vencer?

- Folha de S. Paulo

O PSDB, como o PT, enfrenta o desgaste de ser identificado com o sistema político que desabou

Não duvido que Geraldo Alckmin e o PSDB de São Paulo tenham muitas qualidades. Afinal, essa coisa de acreditar que alguém pode vencer várias eleições seguidas só enganando o eleitorado é coisa de tucano, e eu sempre votei no outro cara.

Mas a vida do candidato pessedebista à Presidência não anda fácil.

Nas últimas eleições presidenciais o PSDB foi um competidor fortíssimo. Tinha votações muito expressivas em São Paulo e nos outros estados de agronegócio forte. Era altamente competitivo em Minas Gerais. Desde que FHC neutralizou Maluf nos anos 1990, os tucanos não tiveram desafiantes pelo flanco direito. A hegemonia no campo antipetista trazia muito apoio na elite econômica e entre os formadores de opinião. É difícil imaginar que algum outro partido tivesse conseguido resultados melhores contra o lulismo em seu auge.

Um impeachment, vários ministérios com Temer e diversos líderes pegos pela Lava Jato depois, ficou mais difícil para o PSDB.

Angela Bittencourt: Meirelles precipita mudança na equipe

- Valor Econômico

"Apostamos na virada e não no pior", diz Rosenberg

O ministro da Fazenda Henrique Meirelles e sua determinação para disputar a Presidência da República convidaram o núcleo político do Planalto a participar da dança das cadeiras na equipe econômica e devem movimentar a Esplanada dos Ministérios nesta semana.

Meirelles vai decidir, entre fim de março e início de abril, se concorre às eleições ou se fica na pasta. Na última semana, de intensa exposição à mídia, o ministro apresentou como pessoal o calendário eleitoral - 7 de abril é data-limite para candidatos deixarem cargos públicos. Em nenhum momento atribuiu o título de ministro de Estado ao presidente Michel Temer.

O ministro-candidato colocou o carro na frente dos bois ao enfatizar publicamente sua disposição para ampliar a participação no governo e ao demonstrar reservadamente o interesse de indicar o seu sucessor na Fazenda. O ex-secretário do Tesouro, hoje secretário-executivo da pasta, Eduardo Guardia, vem sendo preparado por Meirelles para sucedê-lo, mas o senador Romero Jucá (MDB-RR), líder do governo no Senado, defendeu sem firula o ministro do Planejamento para o cargo.

Funcionário de carreira, Dyogo Oliveira assumiu interinamente o comando do Planejamento em 23 de maio de 2016, substituindo Jucá. Foi efetivado somente em março de 2017, após frustradas tentativas de Meirelles de anexar o Planejamento à Fazenda.

Oliveira tornou-se um assessor particularmente caro ao presidente Temer por propor e defender a liberação das contas inativas do FGTS e do PIS/Pasep. A transferência desses depósitos aos trabalhadores injetou na economia quase R$ 70 bilhões e viabilizou a maior desalavancagem das famílias que se tem notícia. Com dívidas quitadas, os brasileiros estão prontos para consumir e a empurrar o país a um ciclo de crescimento que será sustentado, de fato, com a expansão dos investimentos.

Cida Damasco: Na arena do Planalto

- O Estado de S.Paulo

Temer e Meirelles disputam paternidade da economia que "deu certo"

Dois candidatos a candidato à Presidência, cada um bem abaixo de 5% nas pesquisas de intenção de votos, disputam o legado da política econômica do governo Temer. Detalhe: os dois são vizinhos no Planalto. Temer cada vez mais dá sinais de que é candidato à reeleição, seja para valer ou até para garantir uma “sobrevida” no final do mandato. E Meirelles, ao seu estilo, vem admitindo interesse em mudar do ministério para a Presidência, enquanto busca um partido para abrigar seu projeto - a sua própria legenda estaria inclinada a ficar com o tucano Alckmin.

Poucos dias após a apresentação da agenda requentada de 15 pontos, em que o governo tentou passar a impressão de que não está parado e dispõe de alternativas para ajudar a tapar o buraco da reforma da Previdência, o ministro da Fazenda deu a senha: está pensando no assunto e considera a Fazenda uma “etapa já cumprida”.

O presidente, por sua vez, derrotado na Previdência e, tudo indica, também convencido de que encerrou sua missão na economia, virou-se para outras bandas. Melhor dizendo, para a banda da segurança, com a polêmica intervenção militar no Rio e a mais que polêmica criação do Ministério da Segurança.

Luiz Carlos Mendonça de Barros: Na economia, Trump segue Dilma

- Valor Econômico

Economias de mercado, sempre acabam superando as crises criadas pela má gestão dos homens públicos

O populismo, seja de direita ou de esquerda, segue sempre o mesmo roteiro para o desastre. Esta máxima, que vários analistas políticos extraíram do comportamento da história em vários momentos do passado, mais uma vez está presente no início do segundo ano de mandato do presidente Trump. A demagogia barata do presidente republicano, na linha do movimento Tea Party, entra em conflito direto com a dinâmica de uma economia de mercado madura e funcional como a dos Estados Unidos. O resultado vai ser novamente um desastre de grandes proporções.

O presidente americano herdou de seu antecessor democrata um cenário econômico altamente favorável, depois de quase dez anos de uma crise mundial gravíssima. O governo Obama corajosamente seguiu, no início de seu mandato, uma agenda tipicamente keynesiana, com intervenção do governo no resgate de bancos e empresas privadas e o apoio político a uma gestão heterodoxa por parte do Federal Reserve. Posteriormente, articulou com a liderança política da Europa o engajamento do BCE na política monetária super expansiva adotada pelo Fed, mesmo sob o bombardeio dos ultra ortodoxos do Banco Central alemão. A eleição do italiano Mario Draghi como presidente do BCE permitiu que os dois gigantes econômicos do ocidente trabalhassem lado a lado para tirar o mundo de uma das mais graves crises econômicas da história.

Ricardo Noblat: Meirelles está jogando dinheiro fora

- Blog do Noblat

Pelas costas, todos riem dele

Salvo em igrejas evangélicas onde homens de boa fé como ele costumam ser bem recebidos, o ministro Henrique Meirelles, da Fazenda, não encontra a menor acolhida quando bate à porta de partidos e de políticos atrás de apoio para disputar a próxima eleição presidencial. E o pior: ainda imagina que poderá atrair apoios, sim.

O presidente Michel Temer não moverá um dedo por ele. Menos porque acredite nas chances de se reeleger. Ficará satisfeito em não sair escorraçado do Palácio do Planalto. E mais porque Meirelles, uma vez candidato, assumiria a paternidade por tudo o que o governo possa ter feito de bom na economia, deixando o resto na conta de Temer.

Sem Huck e impasse tucano, Alckmin se volta a MG e Rio

Racha em São Paulo está controlado, favorecendo avanço em Estados-chave

Igor Gielow | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Passada a ameaça Luciano Huck e com o aparente acordo firmado para a sucessão em São Paulo, o clima melhorou no PSDB para tentar alavancar a pré-candidatura de Geraldo Alckmin ao Planalto. Os dois maiores colégios eleitorais depois da casa do governador paulista, Minas e Rio, são os próximos focos.

Não que tenha sido simples ou que será daqui em diante, como diz um coordenador tucano. Mas a turbulência do começo do ano cedeu, apesar da ansiedade para que Alckmin supere os dois dígitos em pesquisas de opinião até abril —hoje ele está no limiar.

Nesse período o PSDB viu ressurgir a possibilidade de o apresentador concorrer, na esteira da virtual inelegibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado em segunda instância por corrupção.

A desistência do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, de disputar prévias também retirou um óbice que vinha atrapalhando o governador.

O outro nó que parece quase desatado é São Paulo. Alckmin queria ver seu vice, Márcio França (PSB), como candidato único de sua base no Estado. O PSDB reagiu e, a seus três pré-candidatos já colocados, surgiu com força movimento em favor do prefeito paulistano, João Doria.

A fatura ainda não está emitida, mas encaminhada o suficiente para as atenções tucanas se voltarem para Rio de Janeiro e Minas Gerais.

ALIANÇAS
Em Minas, o candidato natural do tucanato, Antonio Anastasia, está firme na disposição de não concorrer. Alckmin o estimulou, mas a reação do senador foi a de agradecer a deferência. Seu grupo trabalha pelo nome do deputado federal Rodrigo Pacheco, hoje no MDB mas que deverá filiar-se ao DEM.

Se vingar, assegura palanque em Minas para Alckmin. A expectativa dos tucanos é chegar ao segundo turno, quando a derrota do governador Fernando Pimentel (PT) é considerada como muito provável.

Alckmin convida Paes para o PSDB

Ex-prefeito do Rio, que negocia também com o PP, pediu uma semana para pensar

Fernanda Krakovics | O Globo

De saída do PMDB e com um pé no PP, o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes, pré-candidato a governador, foi convidado pelo presidente do PSDB e governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, a voltar para o partido. Ele pediu uma semana para dar uma resposta.

Os dois se reuniram na tarde de anteontem, por cerca de duas horas, no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. A eventual filiação de Paes ao PSDB daria um palanque forte no Rio, terceiro maior colégio eleitoral do país, para Alckmin, que é pré-candidato à Presidência da República.

— Ele insistiu muito para que o Eduardo retornasse ao PSDB. Isso deu uma balançada no Eduardo, que pediu uma semana para avaliar — disse um aliado de Paes.

O ex-prefeito foi filiado ao PSDB de 2003 a 2007, período em que chegou a ser secretário-geral e candidato a governador. Na época deputado federal, ele foi dos mais aguerridos opositores do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Paes foi para o PMDB, partido da base de Lula, em 2007, a convite do então governador do Rio Sérgio Cabral. Na ocasião, escreveu uma carta para Marisa Letícia, esposa do petista, já falecida, pedindo desculpa por ter atacado um de seus filhos na CPI dos Correios.

Paes já comunicou aos dirigentes do PMDB que deixará o partido e deve pedir formalmente sua desfiliação até amanhã.

Ontem, o ex-prefeito se reuniu com o presidente estadual do PP, o vice-governador Francisco Dornelles. As negociações com o partido estão avançadas, mas esbarram em alguns entraves. O ex-prefeito queria, por exemplo, assumir o comando do diretório estadual, o que não foi aceito.

— Não é nem que ele queira entrar e já sentar na janela. Ele queria assumir era o volante — ironizou um integrante do PP.

Também há resistência no partido à entrada de alguns deputados que viriam com Paes, como Soraya Santos (PMDB-RJ). A disputa é por controle de diretórios municipais, áreas de votação e distribuição dos fundos eleitoral e partidário.

DESGASTE
Paes tenta se descolar do desgaste do PMDB no estado, que está com sua cúpula presa e patina com a administração de Luiz Fernando Pezão.

O ex-prefeito mantém o plano de ser candidato mesmo com a confirmação, anteontem, pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio, de sua condenação por abuso de poder político e econômico, nas eleições de 2016, e a consequente inelegibilidade por oito anos. Ainda cabe recurso ao Tribunal Superior Eleitoral.

A ação foi proposta pela coligação “Mudar é possível”, cujo candidato a prefeito do Rio em 2016 foi o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

Ele acusou Paes de usar a prefeitura para contratar, por R$ 7 milhões, uma empresa para elaborar o plano de governo do candidato do PMDB à sua sucessão, Pedro Paulo.

Avança negociação de Meirelles com o MDB

Andrea Jubé, Fabio Graner e Raymundo Costa | Valor Econômico

BRASÍLIA - As conversas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, com o MDB para uma possível filiação avançaram e algumas lideranças graúdas do partido do presidente Michel Temer chegam a garantir que o destino dele já estaria certo nessa direção. Na contagem regressiva para se afastar do cargo, o ministro tem um mês e meio para se viabilizar como candidato e construir apoio político em torno de seu nome, tarefa que não é fácil.

No fim da tarde do último sábado, Meirelles tratou do assunto com o presidente Michel Temer, em reunião no Palácio do Jaburu. Os dois falaram de sucessão presidencial, da candidatura Meirelles e da cogitação do ministro de se filiar ao MDB.

Meirelles, que conversa também com o PRB, gostaria de se candidatar por um partido grande, como o MDB, com tempo de televisão e estrutura em todo o país. Mas em princípio, o candidato do MDB chama-se Temer.

Embora demonstre cada vez mais apetite pela sucessão presidencial, Meirelles ainda tem dúvidas sobre esse caminho, segundo apurou o Valor. Por isso, ele está na fase de pedir pesquisas qualitativas para verificar a viabilidade de seu nome.

Temer inicia 'xadrez' de reforma ministerial

Ele terá que resolver casos de pastas com interinos e trocar auxiliares que sairão candidatos

Daniel Carvalho, Angela Boldrini | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer começa nesta semana a desenhar o mapa de substitutos dos ministros que deixarão seus cargos no início de abril para disputar as eleições.

Os titulares das pastas e seus partidos já têm indicados para apresentar ao Palácio do Planalto. A lista inclui até nomes envolvidos em denúncias de corrupção.

Além de ter que decidir o que fazer com os Ministérios do Trabalho e da Indústria —hoje chefiados por interinos— e com o novo Ministério da Segurança, Temer terá que escolher quem vai assumir outras 13 pastas que ficarão vagas a partir de 7 de abril, prazo para a desincompatibilização.

Raul Jungmann deve ser deslocado nesta semana da Defesa para o novo Ministério da Segurança Pública.

Nos próximos dez meses, terão novo comando devido às eleições: Esporte, Desenvolvimento Social, Turismo, Integração Nacional, Relações Exteriores, Saúde, Educação, Ciência e Comunicações, Transportes, Meio Ambiente e Minas e Energia. A Fazenda também pode passar por uma troca, se Henrique Meirelles for candidato à Presidência.

"A ideia é que os partidos que hoje têm uma influência nos ministérios mantenham essas influências, até porque estamos contentes com o trabalho de todos. Os partidos serão ouvidos", diz o ministro Carlos Marun (Secretaria de Governo), responsável pela articulação política.