sexta-feira, 4 de março de 2022

Vera Magalhães: Quanto custa a democracia?

O Globo

O Supremo Tribunal Federal encerrou a discussão sobre o valor do fundão eleitoral nesta quinta-feira, ao julgar constitucional a decisão do Congresso que elevou o montante para R$ 4,9 bilhões nas eleições deste ano.

Com isso, depois de três campanhas com gasto inferior ao dos anos anteriores, a eleição de 2022 voltará a um patamar nominalmente igual ao da eleição de 2014, que foi a mais cara da História e custou os mesmos R$ 5 bilhões.

Paulatinamente, os congressistas deram um jeito de recompor o volume de recursos para bancar as próprias eleições, depois de duas eleições municipais e uma nacional de “vacas magras”.

O primeiro pleito depois da decisão do Supremo Tribunal Federal de considerar inconstitucionais as doações de empresas a candidaturas, o de 2016, foi espartano nos valores oficialmente declarados: R$ 650 milhões, segundo as estimativas do TSE. Um corte de nada menos que 48% em relação ao pleito municipal anterior, em 2012. Àquela altura, o fundão eleitoral ainda não tinha sido criado, e as fontes de recursos eram o fundo partidário e doações de pessoas físicas.

Eliane Cantanhêde: A guerra é aqui

O Estado de S. Paulo

Por excesso de dependência, Brasil é pego de calça curta na guerra, como na pandemia

Depois de falar com o russo Vladimir Putin, o francês Emmanuel Macron avisou ao mundo que “o pior está por vir na Ucrânia”. Quem avisa amigo é, e o pior não atinge só a Ucrânia, bombardeada, invadida e ameaçada de extinção, mas também potências e países periféricos. O Brasil não passa ileso.

Os efeitos da guerra em si, e do cerco e das sanções à Rússia, já começam a chegar, não na forma de bombas, tanques e tiros, mas de ameaça ao fornecimento e aos preços de gás, combustível, fertilizantes e trigo. Logo, às famílias, empresas e economia, com mais inflação e juros, menos crescimento e empregos.

Fernando Gabeira: Um novo mundo após o carnaval

O Estado de S. Paulo

Expectativa é de que o próprio Congresso Nacional assuma o debate de como adaptar o Brasil às novas condições provocadas pela guerra

O mundo mudou com a invasão da Ucrânia e sofre mudanças mais profundas ainda com o desastre climático anunciado pelo mais recente relatório da ONU.

Aqui, no Brasil, quase ninguém riu ou brincou, e era carnaval. Estamos ainda na curva descendente da pandemia e, em termos de instituições políticas, não discutimos estratégias. É como se não houvesse amanhã.

A invasão da Ucrânia, entre os inúmeros temas que suscita, mostrou aos europeus que é necessário superar a dependência do gás importado da Rússia. E também revelou ao Brasil que é necessário superar a dependência dos fertilizantes que nos vendem os russos e belarussos.

Reconheço que este tema é árido. No entanto, defendo a ideia de que os candidatos deveriam discuti-lo na campanha, colocando como objetivo a autossuficiência nacional. Em princípio, parece interessar apenas ao agronegócio. Mas é uma ilusão. O tema subjacente é a segurança alimentar, que deve interessar a todos os que lutam para acabar com a fome no Brasil.

Houve um momento, no fim do século passado, em que o País produzia o fertilizante necessário para sua agricultura. Mas, com o tempo, a produção agrícola cresceu mais e descolou-se do ritmo mais lento dos fertilizantes. Isso é um grande problema, porque o solo nacional não é dos mais férteis. Há toxidez com alumínio em 63% das terras, e em 25% elevada fixação de fósforo.

Uma saída tranquila para este impasse só pode ser encontrada em médio e longo prazos. O governo é apenas uma parte da solução, pois a grandeza da tarefa transcende a sua capacidade.

Luiz Carlos Azedo: Guerra da Ucrânia torna China ainda mais forte

Correio Braziliense

Os chineses levam vantagem com a guerra na Europa, embora a narrativa do ocidente quanto à democracia se aplique, também, à liderança de Pequim

O diplomata e estrategista político Henry Kissinger talvez seja o político do Ocidente que melhor conhece a China, onde esteve cerca de 50 vezes. Seu livro Sobre a China é um best-seller até hoje. A proeza dele como diplomata foi conceber e executar a reaproximação entre os Estados Unidos e a China comunista, construindo uma aliança que seria decisiva para o colapso da antiga União Soviética. Seus críticos, porém, questionam a forma subalterna como trata a questão da democracia e dos direitos humanos na China.

A China demorou para aceitar que não era o centro do mundo e que precisaria se integrar a um sistema internacional liderado pelas potências ocidentais. Isso ocorreu na marra, após ser derrotada militarmente pelo Império Britânico. Sem os mesmos recursos, no entanto, os chineses optaram por convidar outros países europeus a estabelecerem postos comerciais no seu território, para provocar e depois manipular a rivalidade entre eles.

Maria Cristina Fernandes: O visionário que previu o conflito

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Alerta contra a expansão da Otan é o mais lembrado, mas George Kennan também advertiu para o fortalecimento das instituições ocidentais que já não são mais alvo da investida comunista, mas do populismo de direita

No dia 18 de janeiro de 1990, George Kennan, maior conhecedor da Rússia na história da diplomacia americana, chegou ao Comitê de Relações Internacionais do Senado. Tinha 86 anos e viu-se na obrigação de se preparar exaustivamente para falar sobre o estado da arte da relação entre os dois países.

Lá encontrou um único senador, representante de Delaware, 48 anos, e no exercício do seu terceiro mandato. O esvaziamento da sessão “reduziu sobremaneira a qualidade do evento”, disse Kennan, ao considerá-la sua despedida da vida pública.

A melancolia testemunhada por Joe Biden naquela audiência pública foi a de um diplomata que viu se perderem todas as fichas apostadas na suspensão da escalada armamentista. Trinta e dois anos depois, o presidente americano recusa-se a enviar tropas e lidera a política de sanções contra a brutalidade do ataque à Ucrânia.

Cristian Klein: Kiev e o Planalto cercados de delírios

Valor Econômico

Esquerda e direita procuram nova ordem mundial

As primeiras reações à invasão na Ucrânia mostram a direita e a esquerda brasileira, em seus estratos mais empedernidos, ambos desnorteados, num discurso de difícil tração.

A guerra pôs o presidente Jair Bolsonaro em situação constrangedora, de ambiguidade, forçado a falar menos do que pensa. Embora esteja claro que sua simpatia viaje até o Kremlin. O Palácio do Planalto em Brasília está tão cercado de delírios olavistas quanto Kiev de tropas russas.

A esquerda também é assombrada pelos instintos mais primitivos, ainda que justificados com profundidade, digressões e contexto histórico. Desde a eclosão do conflito, há nove dias, vozes progressistas procuram relativizar a agressão de Vladimir Putin lembrando que o imperialismo ianque fez e faz igual em lugares como Iraque ou Afeganistão, com os quais a comunidade internacional parece pouco se importar. O único país a ter atacado outro com bomba atômica foram os Estados Unidos.

A Rússia, herdeira do império soviético, teria razões geopolíticas para proteger seu espaço dos avanços da Otan e do Ocidente, dono da ordem capitalista. Na caixa de ferramentas ideológicas, a chave da Guerra Fria saiu do fundo do armário para dar conta dos novos e graves acontecimentos.

Os principais atores, as duas grandes potências militares, parecem os mesmos rivais de ontem. Mas, de qualquer ângulo, a ação russa, o rastro de destruição, a tragédia humanitária, as ameaças de ataque nuclear são indefensáveis. Não é no autocrata e ex-oficial da KGB que a esquerda vai reviver sonhos de uma sociedade igualitária. Exceto como pastiche de crítica à ordem liberal.

Claudia Safatle: Fé no teto do gasto é a receita de Meirelles

Valor Econômico

Modelo é a política fiscal implementada em São Paulo, que ajudou Estado a fechar o ano com superávit primário

Recuperar a política fiscal ancorada na lei do teto para o gasto público será uma das primeiras medidas a serem anunciadas pelo eventual governo de João Doria, pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB. Segundo o ex-ministro da Fazenda no governo de Michel Temer Henrique Meirelles, coordenador do programa de governo de Doria, o teto não perdeu credibilidade ao ser corrompido pelo atual governo, mas sim a política fiscal. “O teto não perdeu credibilidade, o que perdeu credibilidade foi a política fiscal por não se ancorar na lei do teto”, defendeu ele. “Basta, porém, anunciar que vai seguir o teto e o problema estará resolvido na hora”, acredita o ex-ministro e atual secretário de Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo. Meirelles foi o pai da lei que estabeleceu um teto para a variação do gasto público. A lei proíbe aumento real da despesa pública anual, que poderá ser corrigida apenas pela inflação por dez anos, renováveis por mais dez.

Vinicius Torres Freire: Quanto a Rússia vai sofrer

Folha de S. Paulo

Nas previsões, economia russa vai sofrer como a do Brasil dos anos 2010

A economia da Rússia pode encolher de 7% a 10% neste ano por causa das sanções de governos e da debandada de empresas e bancos americanos e europeus. Sim, previsão de crescimento econômico costuma ser chute ruim. No caso da Rússia em guerra com a Ucrânia e sob ataque econômico ocidental, a especulação é ainda mais temerária.

Mas suponha-se que as primeiras previsões menos pessimistas de bancões e similares se confirmem: queda de uns 7% do PIB neste ano e, então, crescimento regular entre 1% e 1,5%. Parece o Brasil da década de 2014 a 2019.

Reinaldo Azevedo: O criminoso Putin desvela a verdade nua

Folha de S. Paulo

Quantos males pode haver na Pandora aberta de Kosovo?

Vladimir Putin violou a Carta das Nações Unidas e o direito internacional. Qualquer que seja o desdobramento de sua ação na Ucrânia, já é o grande derrotado.

Rússia é uma ditadura mitigada. Pós-guerra e sanções, ele só permanecerá no poder com tirania explícita. Cometeu erros, mas contribuiu, apelando a Eça de Queirós, para retirar do tal Ocidente o manto diáfano da fantasia que cobria a nudez forte da verdade.

Potências não podem —ou não deveriam— romper as regras do direito internacional, pretextando ou não a intervenção humanitária. Quantas vezes, no entanto, também os EUA, com ou sem Otan, o fizeram e o farão?

No realismo de um Carl Schmitt (1888-1985), por exemplo, americanos e russos agiram em nome do que importa: a segurança, não os direitos. No plano intelectual, lutemos contra a herança de Thomas Hobbes, resgatando como inspiração moral a Escola Ibérica da Paz, nunca estudada por aqui.

Hélio Schwartsman: Há justificativa moral para guerras?

Folha de S. Paulo

E quanto a terceiros países? Existe um dever de evitar guerras?

Guerras têm implicações morais. Nos dias de hoje, é muito difícil encontrar uma situação que justifique deflagrar um conflito e sacrificar inocentes para alcançar um objetivo político, mesmo que este seja legítimo. Ser arrastado para uma guerra é moralmente mais tranquilo. A parte atacada pode alegar que só repele a agressão, o que é totalmente aceitável.

No caso da Ucrânia, o vilão é Putin. Ainda que, pela lógica do realismo geopolítico, seu pleito de manter Kiev longe da Otan não fosse absurdo, ao ordenar a invasão, o autocrata russo perdeu qualquer filamento de razão que pudesse ter. Ninguém tem o direito de pisar no seu jardim, mas isso não lhe dá o direito de disparar um tiro contra o sujeito que pisa no seu jardim. Reações, inclusive as defensivas, precisam obedecer a um senso de proporcionalidade.

Bruno Boghossian - A guerra de Putin

Folha de S. Paulo

Presidente molda futuro político a partir das repercussões internas da invasão da Ucrânia

A popularidade de Vladimir Putin disparou depois que a Rússia bombardeou a Tchetchênia, em 1999. Os números do então primeiro-ministro passaram dos 80% e abriram caminho para sua eleição à presidência, no ano seguinte. A guerra contra a Geórgia, em 2008, e a invasão da Crimeia, em 2014, também lhe renderam um belo bônus de aprovação.

Conflitos armados são oportunidades para alguns políticos. Em certos casos, os embates despertam na população um sentimento coletivo de união, que acaba se traduzindo em apoio aos governantes. Mesmo quando os disparos ocorrem no exterior, um outro tipo de luta se desenrola dentro das fronteiras.

Ruy Castro: Espião contra espião

Folha de S. Paulo

Os agentes secretos de Biden são mais rápidos que os de Putin. Biden é que é devagar para agir

Há russos infiltrados entre os resistentes ucranianos. Há ucranianos infiltrados entre os invasores russos. A função de uns e de outros é descobrir os movimentos do inimigo, tentar confundi-lo e, se possível, sabotar. Guerra é guerra e, em todas elas, a informação é tão importante quanto a ação armada —pode tanto antecipar um confronto quanto adiá-lo ou até evitá-lo. E mais de uma guerra já foi ganha numa mesa a quilômetros do front, por um especialista que conseguiu quebrar um código impenetrável. Ou perdida, pelo fato de esse especialista ser um operador secretamente a serviço do outro lado.

Flávia Oliveira: O carnaval é uno

O Globo

Em meio ao luto por Petrópolis — até ontem, 232 mortes confirmadas, cinco desaparecidos e 1.007 pessoas em abrigos, segundo a prefeitura local — e a perplexidade pela guerra na Europa, o Rio de Janeiro atravessou um arremedo de carnaval, materializado em festas pagas, blocos clandestinos, celebrações na Cidade do Samba e manifestações tradicionais nas zonas Norte e Oeste, caso dos grupos de clóvis, os bate-bolas. A rede hoteleira faturou, parte da população se divertiu, mas as escolas de samba não atravessaram a Marquês de Sapucaí nem as avenidas Chile e Intendente Magalhães. O Cordão da Bola Preta, para ficar num exemplo de megabloco impedido de desfilar, não lotou a Rio Branco, em razão das — justificadas, mas seletivas — restrições sanitárias pela pandemia.

Na Quarta-Feira de Cinzas, a Liesa divulgou calendário de ensaios técnicos das agremiações do Grupo Especial, em cinco domingos, a partir de 13 de março, antecedendo o que já é perigosamente chamado de segundo carnaval, entre 20 e 24 do próximo mês. Não é de hoje que a indústria do turismo defende data fixa, em detrimento do calendário móvel, que atrapalharia os visitantes e a temporada. Desfile de escola de samba em abril, ainda que coincida com o dia de reverenciar São Jorge (no Rio, Ogum, na Bahia, Oxóssi), é evento carnavalesco. É também necessária reparação de danos à massa de trabalhadores, que amargou vulnerabilidade no par de anos de pandemia. Mas não é carnaval.

Pedro Doria: Um humorista

O Globo

Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia, é algo novo. Políticos que usam redes sociais para desinformar, manipular, já conhecíamos. Zelensky está usando as redes como chefe de Estado de país em guerra. E está fazendo isso com um grau de eficiência que nunca vimos. De seu exemplo, inevitavelmente, sairão lições sobre como a democracia e o mundo on-line se encontram.

Com toda a cautela necessária para a comparação histórica, Zelensky é um Churchill. A cautela vem da proporção. Winston Churchill era o premiê britânico quando a Europa continental havia sido engolida pelo nazifascismo e mergulhava na Segunda Guerra. Zelensky é o presidente de um país invadido pelo vizinho imperialista. Estando clara a diferença, o mundo nunca havia visto alguém como Churchill —nunca viu alguém como Zelensky.

Guto Rodrigues*: A Guerra Quente

A guerra é o embate entre civilização e barbárie, eu condeno e não apoio a guerra. Na primeira guerra mundial, os comunistas, pelos mencheviches, Julio Martov e pelos bolcheviche, Vladimir Lenin condenaram a guerra. Não aceitavam que operários fossem morrer pela ambição do capitalismo.

Pensávamos que neste novo século as guerras, flagelos da humanidade como mostra o quadro Guernica de Pablo Picasso, estariam superadas.

As novas tecnologias nos conduziriam a um mundo mais democrático, inclusivo e justo, conectado, solidário com a inteligência e a informação verdadeira e com qualidade de vida, abrindo, portais para a humanidade gozar a paz e a felicidade.

O breve século, assim chamado o século vinte, com seu vetor iconoclasta soterrou os podres poderes, mas dos escombros germinou uma estação distópica encouraçada pela barbárie, o ódio e a intolerância e mais os fakes que impõe a valorização da mentira e o mau-caratismo, são instrumentos usados pela ultra direita. Bolsonaro e seguidores, aqui no Brasil, tentaram legitimar para eleição.

O que a mídia pensa: Editoriais

EDITORIAIS

Guerra não pode ser pretexto para liberar exploração mineral

O Globo

O presidente Jair Bolsonaro vislumbrou na Guerra da Ucrânia, que deverá afetar a importação de fertilizantes pelo agronegócio brasileiro, um pretexto para tentar liberar a exploração mineral em terras indígenas. Se é verdadeira a dependência do país, sobretudo da Rússia e da Bielorrússia, nossos principais fornecedores, a tentativa de desencavar um projeto enviado ao Congresso em 2020, ainda não apreciado pelo Parlamento, não passa de oportunismo político. Quer aproveitar o conflito para tocar mais uma “boiada” sobre as já depauperadas normas ambientais.

Nas redes sociais, Bolsonaro afirmou que, “com a guerra Rússia/Ucrânia, hoje corremos risco da falta de potássio ou aumento do seu preço”. Ainda segundo ele, “nossa segurança alimentar e agronegócio (Economia) exigem de nós, Executivo e Legislativo, medidas que nos permitam a não dependência externa de algo que temos em abundância”. Foi uma referência velada às jazidas de potássio que ele supõe existirem em terras indígenas na Amazônia.

Poesia | Rosa de Hiroshima - Vinicius de Moraes

 

Música | João Bosco, Roberta Sá e Trio Madeira Brasil - De frente pro crime

 

quinta-feira, 3 de março de 2022

Merval Pereira: Ganhar perdendo

O Globo

Uma guerra que se ganha perdendo parece ser o destino da Rússia de Vladimir Putin na escalada militar contra a Ucrânia. O discurso do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, diante do Congresso americano, muito assertivo, fez uma análise geopolítica sobre a guerra interessante, que parece ser consensual: Putin está saindo enfraquecido dessa guerra, e seu desejo de menos Otan em seu entorno parece estar proporcionando o ambiente político internacional para que mais países queiram se proteger na aliança militar ocidental.

A provável derrota militar de Volodymyr Zelensky poderá se transformar numa derrota política de consequências inimagináveis para a ambição de Putin de recriar a Grande Rússia. Se não for morto na guerra, Zelensky, que era o alvo número um do aparato militar russo, será o líder da resistência à dominação, com grande capacidade de comunicação e uma rede de apoio político que poucos líderes têm.

Digo que Zelensky era o alvo, e não é, porque, a esta altura, um assassinato dele poderá ser o estopim de uma reação internacional com reflexos internos, que podem levar à deposição de Putin. Os interesses financeiros dos oligarcas que literalmente o sustentam estão fortemente abalados pelas sanções impostas pelo Ocidente.

Malu Gaspar: A diplomacia do zap

O Globo

Ao explicar o que ele mesmo chamou de posição de “neutralidade” em relação à guerra na Ucrânia, Jair Bolsonaro recorreu à dependência do setor agrícola em relação aos fertilizantes russos.

“Para nós, a questão do fertilizante é sagrada”, disse, na mesma entrevista em que considerou um “exagero” falar que o governo de Vladimir Putin está massacrando ucranianos.

Claro que não interessa a ninguém que o agronegócio brasileiro fique sem insumos. Menos fertilizantes levam a menor produtividade, maiores custos e, consequentemente, mais inflação.

Está evidente, porém, que essa não foi a única razão para o comportamento leniente de Bolsonaro em relação a Putin.

Desde o momento em que pisou na Rússia, ele demonstrou que seu cálculo tem mais a ver com as eleições de outubro que com a geopolítica mundial ou com a pujança da nossa agricultura.

William Waack: Guerra e liderança

O Estado de S. Paulo

A guerra na Ucrânia ressalta para os militares a importância da condução política

Guerras oferecem excelentes lições sobre liderança política, algo que os militares brasileiros talvez estejam aprendendo com a invasão russa da Ucrânia. Na Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), que forma os futuros generais, um ponto central estudado no presente conflito é a “guerra informacional”, diz um de seus docentes, o professor Tasso Franchi.

Trata-se de qual lado num conflito manipula melhor as informações ao público. E qual lado no conflito toma as melhores decisões baseado em quais informações, evitando ser levado por desinformação. O mundo da revolução digital acentuou brutalmente a gravidade do problema, mas não alterou a sua natureza.

Como “desinformação” entende-se também subestimar a capacidade de resistência do adversário, ou superestimar a própria força – o noticiário sugere que Vladimir Putin estava desinformado ao iniciar a invasão da Ucrânia. É algo que ainda pode corrigir, embora já esteja pagando um preço altíssimo.

Maria Cristina Fernandes: Pra que serve a guerra

Valor Econômico

Só o front interno da guerra sucessória explicaria a troca no comando do Exército

Ao final dos oito minutos e 37 segundos que durou sua declaração depois do encontro com o presidente brasileiro, quase o dobro do que falou Jair Bolsonaro, Vladimir Putin encarregou-se de informar ao público sobre o ineditismo da reunião que, naquele momento, se desenrolava entre os chanceleres e os ministros da Defesa dos dois países. A inclusão do ministro Walter Braga Netto e de sua contraparte russa Serguei Choigu na reunião dos chanceleres Carlos França e Serguei Lavrov foi uma tentativa da Rússia de vender armas para o Brasil às vésperas do ataque à Ucrânia.

Não deu em nada, mas expôs a esquizofrenia da política externa de um presidente cuja diplomacia, duas semanas depois, votaria pela condenação da Rússia na Assembleia Geral da ONU, descolando-se dos outros três parceiros do Brics (China, Índia e África do Sul), que se abstiveram.

Luiz Carlos Azedo: Com guerra, Putin volatilizou US$ 630 bilhões em reservas

Correio Braziliense

Estados Unidos, o Canadá, o Reino Unido e a União Europeia incorporam a narrativa ideológica como paradigma de divisão do mundo entre o Ocidente democrático e o Oriente autocrático

Após três dias de debates, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou, ontem, uma resolução contra a invasão da Ucrânia pela Rússia por 141 votos a favor, cinco contra e 25 abstenções. Foi uma derrota acachapante do presidente russo, Vladimir Putin, que obteve apoio apenas de Belarus, Coreia do Norte, Eritreia e Síria, além do voto da própria Rússia. África do Sul, China e Índia, parceiros dos Brics, se abstiveram, mas o Brasil votou contra a Rússia, apesar da retórica de neutralidade do presidente Jair Bolsonaro.

Há um significado adjacente à condenação que precisa ser levada em conta: a ONU legitima as sanções econômicas duríssimas adotadas pelos Estados Unidos e seus aliados do Ocidente, sobretudo o Canadá, o Reino Unido e a União Europeia. Nunca antes mecanismos de governança da economia mundial foram acionados dessa maneira, o que praticamente deixa a Rússia fora das principais cadeias de produção e comércio mundial. Mesmo a China, que é a segunda maior economia do planeta, sente a pressão das medidas, que não adotou. A operação de cerco à economia russa inclui, também, as redes sociais e as criptomoedas.

Bruno Boghossian: O diplomata e a cavalaria

Folha de S. Paulo

Campanha contratou ex-ministro que parece estar na contramão dos sonhos golpistas do capitão

O partido de Jair Bolsonaro foi buscar nas galerias do Tribunal Superior Eleitoral um coordenador jurídico para a candidatura do presidente. Tarcisio Vieira é um veterano da corte. Foi ministro por sete anos, até maio do ano passado, do órgão que se tornou o foco principal dos movimentos conspiratórios do capitão.

Como juiz, Vieira atuou nas disputas presidenciais de 2014 e 2018 –aquelas que Bolsonaro diz terem sido fraudadas, sem apresentar nenhuma evidência. Como advogado, ele representará um candidato que repete as falsas suspeitas e atira dúvidas sobre mais uma eleição.

Ruy Castro: No tapa com o tanque

Folha de S. Paulo

Kiev pode cair, mas só se poderá dizê-la dominada depois que os russos matarem seu último cidadão

No apogeu da luta armada contra a ditadura militar, em 1970, e vendo um de seus filhos envolvido nela, Nelson Rodrigues escreveu desesperado: "Não se sai no tapa com o tanque". Referia-se à disparidade de forças —o frágil ser humano contra o monstro de aço. Mas Nelson se enganou. Sai-se no tapa, sim. Está acontecendo em Kiev e em outras cidades da Ucrânia: cidadãos desarmados se jogando contra os tanques russos, subindo neles, chutando seus para-brisas, perseguindo-os pela rua e lhes jogando pedras. Dentro deles, os invasores devem estar atônitos. Vladimir Putin não os avisou que enfrentariam gente tão brava e patriota. Afinal, os ucranianos não eram "russos"?

Maria Hermínia Tavares: Putin em pele de vítima

Folha de S. Paulo

As ideias de Putin formam parte do repertório da extrema direita no mundo

Ocupando uma tela inteira, o mapa mostra bases de mísseis ao redor do imenso território russo, enquanto Vladimir Putin, com um gesto de abraçar o vazio, descreve a situação de seu país, segundo ele permanentemente ameaçado pelo Ocidente.

A cena é do segundo episódio do documentário em quatro partes "Entrevistas com Putin", do cineasta americano de esquerda Oliver Stone, lançado em 2017 e levado ao ar no Brasil pela TVT (TV dos Trabalhadores).

Ela dá o tom da conversa de quase quatro horas, durante as quais o autocrata vai revelando, com precisão e perfeito controle da imagem que quer projetar, sua versão de uma Rússia altiva, conservadora e vítima da incompreensão, dos compromissos traídos e das ambições das potências ocidentais.

Míriam Leitão: As derrotas de Vladimir Putin

O Globo

O presidente Vladimir Putin está perdendo a guerra. Não há mais bom cenário para ele. O domínio do território da Ucrânia ocorrerá unicamente pela desproporção de forças, mas ele não conquistará a Ucrânia. O PIB do país que governa vai despencar numa recessão que é ainda difícil de calcular, o dólar subiu 40%, medidas são tomadas pelo Banco Central para conter a fuga de divisas. Um rublo vale menos que um centavo de dólar. Nos últimos sete dias houve uma brutal destruição da riqueza russa. A bolsa ficou fechada, mas em Londres as empresas russas viraram pó. A ação do banco Sverbank estava cotada a US$ 15, vale agora US$ 0,02. E seu braço europeu decretou falência. Os títulos do país são classificados como lixo e não encontram comprador. Putin governa um país sitiado econômica e financeiramente.

O projeto inicial de Putin fracassou. Ele achou que seria um passeio, um desfile militar até Kiyv. E encontrou pela frente o espírito humano. A força e a capacidade de luta dos ucranianos não se explicam nos manuais militares. Essa foi a primeira derrota de Putin. O domínio final será pelo esmagamento, seus tanques andarão sobre escombros. Que vitória será essa?

Cristiano Romero: Custo de energia para pobres é maior no Brasil

Valor Econômico

A vida no país é mais cara para população que quem tem menos

No país que caminha para, em alguns anos, produzir volume de energia bem superior à demanda exigida pela atividade de sua economia, a conta de luz representa hoje, em média, 12% do custo mensal de uma família. O peso é maior, como quase tudo neste imenso pedaço do planeta, na cesta de consumo dos mais pobres - para 16,7 milhões de famílias (compreendendo, portanto, universo de cerca de 67 milhões de pessoas), com renda até dois salários mínimos por mês (R$ 2.424), a energia representa 15% (R$ 363,60), em média, do gasto mensal.

É evidente que não existe energia gratuita, mas, para essas famílias, o dinheiro gasto com luz é maior do que o desembolsado para custear a mensalidade de uma escola particular. Alguém questionará: "Mas, por que pagar pela educação formal do filho se existe escola pública, gratuita, no ensino fundamental 1 e 2 e no ensino médio?

Celso Ming: Impacto global desta guerra

O Estado de S. Paulo

A disparada da inflação global é o principal efeito econômico desta guerra

O nível de incertezas produzidas por essa invasão da Ucrânia continua o mesmo de quando começou ou até aumentou. Mas, há mais de uma semana, as pessoas se perguntam até onde vai isso.

Nesta quarta-feira, os preços do barril de petróleo tipo Brent, referência no mercado internacional, fecharam a US$ 112,93, 7,58% acima das cotações da véspera. Mas haviam chegado a bater os US$ 114 no dia. Em apenas dez dias, a alta é de 22,13%. Em Nova York, o WTI teve ganho de 6,95%, cotado a US$ 110,60 - maior patamar desde maio de 2011. Já há analistas que falam em petróleo a mais de US$ 150 por barril.

Everardo Maciel*: Quarta-Feira de Cinzas

O Estado de S. Paulo

Para além da tragédia, as repercussões econômicas e sociais em todo o mundo serão graves e persistentes

É nessa data do calendário religioso que assisto apreensivo à injustificada e insana agressão, com ameaças de uso de armas nucleares, da Rússia ao heroico povo ucraniano, ratificando o entendimento do biólogo Edward O. Wilson (1929-2021) de que nossas emoções pouco evoluíram desde a Idade da Pedra, quando cotejadas com a evolução do conhecimento científico e tecnológico.

Ninguém é capaz de prever os desdobramentos dessa agressão, especialmente quando combinada com uma insidiosa pandemia, ainda não totalmente debelada, e eventos climáticos extremos, decorrentes da desatenção com o meio ambiente. Desconheço precedente histórico de tão insólita combinação.

É certo, contudo, que, para além da tragédia, serão graves e persistentes as repercussões econômicas e sociais em todo o mundo. Para enfrentá-las, será crucial um incomum esforço de criatividade, determinação, resiliência e solidariedade, do qual o Brasil não poderá se eximir. Alienação não é uma boa escolha.

Vinicius Torres Freire: A Inflação que vai vir

Folha de S. Paulo

Com alta do mercado de petróleo, decisão influencia na inflação e tem efeito político

Faz 50 dias que a Petrobras não aumenta o preço de gasolina e diesel. Nesse tempo, o barril de petróleo do tipo Brent ficou 36,8% mais caro. Em reais, em uma conta de guardanapo, o barril encareceu 26,4%, pois o real se valorizou e não voltou a levar tombo maior mesmo com a guerra.

Não é assim que petroleira faz contas para definir o preço de acordo com a paridade internacional (que depende do custo de gasolina e diesel nos mercados produtores relevantes para o Brasil etc.). Mas dá para ter uma ideia do problema, se a estatal estiver mesmo decidida a manter sua política de preços.

Está? A decisão vai influenciar a inflação, talvez o tamanho da alta de juros que ainda está por vir e tem efeito político, é óbvio. O assunto se torna ainda mais enrolado quando se nota que os preços de trigo, milho, soja e carnes também vão subir um tanto mais também por causa da guerra na Ucrânia.

Em tese, a Petrobras teria um argumento sensato para não mexer por ora nos seus preços, que é justamente a alteração causada pela guerra e a incerteza a respeito do que vai acontecer. Mas tem problemas práticos e políticos para enrolar muito.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

China se tornou decisiva para a paz na Europa

O Globo

Contra os mísseis e tanques russos na Ucrânia, o Ocidente montou uma contraofensiva econômica sem precedentes. Nunca antes uma economia do porte da russa tinha sido alvo de sanções tão duras. Com a Rússia virtualmente sem acesso ao sistema financeiro internacional, assistindo à saída e ao boicote de multinacionais, sua sustentação econômica dependerá cada vez mais da China. Por isso todos os olhos estão voltados para Pequim. Faz um mês que Xi Jinping trocou juras de “amizade sem limites” com Vladimir Putin. É improvável que tenha se arrependido, embora algo tenha mudado na atitude chinesa.

Na terça-feira, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em conversa com o colega ucraniano, Dmytro Kuleba, afirmou que seu país está pronto para ajudar a acabar com a guerra. Um eventual esforço chinês para fazer deslanchar as negociações de paz será bem-vindo. Um país simpático a Putin, que se absteve nas duas últimas votações contrárias à Rússia nas Nações Unidas, teria papel especialmente relevante neste momento.

Poesia | Fernando Pessoa: Ao entardecer

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele!  Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,

E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda no campo

E triste como esmagar flores em livros

E pôr plantas em jarros...

Música | Roberta Sá - Mora na filosofia

 

quarta-feira, 2 de março de 2022

Vera Magalhães: Com janela, março terá mexe-mexe partidário

O Globo

Começa nesta quinta-feira o mês do vale-tudo partidário. Graças à aguardada janela criada e reforçada em sucessivas mudanças na legislação eleitoral, deputados poderão zanzar por legendas ao seu bel-prazer até o início de abril sem correr o risco de perder os mandatos.

Mas não ficará restrito a eles o vaivém deste mês. Também pré-candidatos a governador e a presidente aproveitam o saldão de siglas para experimentar que figurino melhor lhes convém para a disputa de outubro.

Será um mês de muita conversa de pé de ouvido, muita promessa de casa, comida e roupa lavada e, ao fim, partidos hoje grandes podem terminar minguados, bem como legendas antes acanhadas podem sair portentosas.

No cenário nacional, algumas das mudanças ensaiadas dizem respeito ao PSDB e ao movimento de diáspora que pode ser deflagrado na janela.

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, é o peixe mais graúdo nesse aquário. Sua saída do PSDB depende de uma resposta do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que ficou de dizer depois do carnaval ao PSD se vai ou não se colocar na disputa pelo Planalto.

A esperada saída de cena do senador mineiro deverá vir com a justificativa de que o Senado exigirá muito dele, o que imediatamente deflagará sua campanha para ser reeleito para o posto na próxima legislatura.

Estados repetem polarização de Lula e Bolsonaro

Em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, candidatos apoiados por líder petista e nomes ligados ao presidente da República aparecem com mais chances nas pesquisas e devem repetir embate nacional

Sérgio Roxo / O Globo

SÃO PAULO — Três dos cinco estados brasileiros com mais eleitores caminham para ver a polarização do plano nacional se repetir em suas disputas ao governo na eleição, com um candidato ligado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outro ao presidente Jair Bolsonaro (PL) disputando a preferência do eleitorado. Tanto petistas como bolsonaristas consideram provável a repetição do duelo nacional em São Paulo, Rio e no Rio Grande do Sul.

A eventual ocorrência do embate em mais locais não é descartada, mas só ficará clara ao fim do período de inscrição das chapas. É esperado que no Nordeste, onde Bolsonaro tem baixos índices de popularidade, os candidatos não se vinculem ao presidente, e as eleições para governador sejam influenciadas mais pelas conjunturas locais.

— É uma eleição nacional talvez com mais importância e, portanto, influência, que as demais. Pode ser que o espírito da eleição nacional seja tão forte e tão irresistível que se reproduza nos estados — analisa o cientista político Carlos Melo, professor do Insper.

Bernardo Mello Franco: Traduzindo o bolsonarês

O Globo

O ministro das Relações Exteriores arrumou uma nova tarefa. Virou dublê de intérprete presidencial. Acostumado a aprender idiomas, Carlos França abraçou um desafio mais ousado. Vai se dedicar a traduzir o bolsonarês para o mundo.

No domingo, o capitão interrompeu a folia para avisar que não pretende criticar a invasão russa da Ucrânia. A guerra já estava no quarto dia, mas ele alegou que ainda queria “entender o que está acontecendo”. “Não vamos tomar partido. Nós vamos continuar pela neutralidade”, sentenciou.

Na segunda-feira, França tentou explicar que Bolsonaro não disse o que disse. “Quando o presidente usou neutralidade, é no sentido de imparcialidade. Não é no sentido de indiferença”, esclareceu, em entrevista à GloboNews.

Sem autonomia para cuidar da política externa, o chanceler pode justificar o salário na nova função. Afinal, um tradutor do bolsonarês teria poupado o país de muitos traumas recentes. Na posse, quando o capitão prometeu “valorizar a família”, o intérprete explicaria que ele se referia a todas as famílias. E não só à própria, mimada com rachadinhas e mordomias federais.

Ao anunciar que “acabou com a Lava-Jato”, Bolsonaro não confessou ter nomeado um engavetador para proteger corruptos. Apenas pretendia rebatizar a operação, já que o nome original é ecologicamente incorreto e incentiva o desperdício de água.