Com esses resultados, o movimento das coisas no mundo dá um cavalo de pau, passando a girar em órbitas mais afetas ao fortalecimento da democracia, afirmando-se protagonismo às instituições internacionais, sobretudo da ONU. De outra parte, no Oriente, o movimento das mulheres em favor da aquisição de direitos em sociedades dominadas por secular patrimonialismo aponta para a mesma direção, contrariada, sem dúvida, pela guerra da Ucrânia, para a qual já se procura uma via de negociações apta a interromper a continuidade desse conflito.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
Luiz Werneck Vianna* - Bons remédios não se esquecem
Vera Magalhães - Acomodação para fechar a conta
O Globo
Variável imprevisível na tentativa de
compor aprovação da PEC e 'saneamento' do Orçamento secreto é Rosa Weber
O acordo para a aprovação de uma versão
intermediária, em prazo e valores, da PEC da Transição e as tentativas de
última hora para costurar um acordo para tornar o orçamento secreto mais
limpinho e palatável são movimentos que vão na mesma direção: fazer uma
acomodação entre os Poderes para fechar a conta dos gastos e das emendas e
garantir alguma dose de tranquilidade ao futuro governo na largada.
A equipe de Lula e o Congresso vão dando ao
Supremo Tribunal Federal (STF) o recado de que não querem mais atrito, mais
tanta confusão como foi a tônica dos quatro anos de Jair Bolsonaro. O subtexto,
que vale para o STF e também para o futuro chefe do Executivo, vem da Câmara e
do Senado: não nos tirem todo o oxigênio das emendas do relator, senão vai ter
briga.
Lula já deu várias demonstrações de que entende e está disposto a jogar conforme essas regras não escritas. Ele já foi presidente por dois mandatos, e uma das grandes crises que enfrentou, a do mensalão, foi um escândalo originado na tentativa de estabelecer um mecanismo tosco de cooptação de maioria parlamentar.
Por um novo regime fiscal no Brasil - Vários autores (nomes ao final do texto)*
Folha de S. Paulo
Objetivo deve ser colocar o pobre no
Orçamento e o rico no Imposto de Renda
A equipe
de transição discute uma emenda
constitucional que retira algumas despesas do teto
de gastos. A emenda é necessária, pois viabiliza gastos com o Bolsa Família,
o adicional do benefício por criança e investimentos. Tão importante quanto
essa emenda que autoriza gastos públicos essenciais é estabelecer um novo
regime fiscal no país. O teto de gastos vigente é uma obra de ficção. Ele se
mostrou inviável por sua rigidez operacional e negligência com a desigualdade
brasileira.
Não por menos houve uso indevido das emendas
de relator para se fazer o orçamento
secreto, que feriu vários artigos da Constituição, conforme relatório
recente do Tribunal de Contas da União. O Executivo precisa retomar para si a
responsabilidade de definir o Orçamento no âmbito desse novo
regramento fiscal.
Discutiremos aqui princípios que entendemos fundamentais para o desenho de um bom regime fiscal.
Vinicius Torres Freire - Lula vence jogo da PEC
Folha de S. Paulo
Congresso aceita o grosso do que o PT
queria, leva o seu e ignora problema
De início, o governo eleito queria que
a "PEC
da Transição" autorizasse gastos adicionais de R$ 175 bilhões em
relação ao projeto de Orçamento de 2023. Em dado momento, apareceu a ideia de
permitir ainda despesas extras de R$ 23 bilhões, para investimentos, a depender
do desempenho da arrecadação. O pacote seria então de R$ 198 bilhões; Luiz Inácio Lula da
Silva chegou a dizer que seus valores não eram finais, mas não
começaria uma negociação chutando baixo.
Por ora, juntando as tais possíveis
despesas em investimento, deve-se
aprovar um pacote de R$ 169 bilhões. É quase o valor inicial proposto pelo
governo de transição. É o dobro do valor máximo estimado para que se evite um
crescimento preocupante da dívida pública. Afora milagres.
Lula ganhou o jogo ou, digamos, nestes dias de Copa, que conseguiu a classificação com folga, mesmo cedendo um empate para o centrão, que também vai para a próxima fase. Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) estão eleitos para comandar Câmara e Senado nos próximos dois anos.
Bruno Boghossian - O tamanho do poder de Lula
Folha de S. Paulo
Espaço no Orçamento e decisão sobre emendas
definirão ações de governo e relações políticas do futuro presidente
O tamanho do poder que Lula terá
a partir de 2023 começou a ser definido nesta semana. A votação da proposta que
libera bilhões em despesas no Orçamento e o julgamento das emendas de
relator no STF devem determinar o espaço disponível para as
ações do governo e as bases em que se darão as relações políticas do futuro
presidente.
A margem de R$ 168 bilhões em gastos fora do teto, que avança no Senado, pode se tornar um torpedo nas mãos do presidente eleito pelos próximos dois anos. Essa quantia permite que Lula turbine o Bolsa Família e evite a armadilha de descumprir uma promessa de campanha já no primeiro dia de mandato.
Luiz Carlos Azedo - Corrida para pagar o Bolsa Família de R$ 600
Correio Braziliense
A PEC precisa de pelo menos 49 votos
favoráveis, em dois turnos, para ser aprovada no Senado
O Senado deve apreciar, hoje, a chamada PEC
da Transição, aprovada ontem pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) com
três mudanças que deverão ser consolidadas em Plenário: o espaço adicional
(extrateto) de gastos caiu dos R$ 175 bilhões iniciais para R$ 145 bilhões,
para acomodar o Bolsa Família (atual Auxílio Brasil); o prazo de vigência
dessas regras foi reduzido de quatro para dois anos; e o tempo para o governo
Lula encaminhar ao Congresso uma proposta de nova âncora fiscal passou de um
ano para oito meses.
Tudo está dentro do script das negociações no Congresso. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), está empenhado na aprovação da proposta e lidera pessoalmente as negociações de bastidor. O relator da matéria, senador Alexandre Silveira (PSD-MG), propôs também mais R$ 23 bilhões para investimentos fora do teto em caso de arrecadação de receitas extraordinárias. Na prática, o gasto extra será de R$ 168 bilhões com o aumento de arrecadação, fenômeno previsível por causa da inflação.
Alvaro Gribel - PT pode perder a oportunidade
O Globo
Lula tem a chance de combater a miséria ao
mesmo tempo em que reorganiza as contas públicas. Por ora, prefere brigar com
os números e o mercado
Que Lula está certo em ampliar os gastos
sociais e iniciar a reconstrução do Estado após o desmonte promovido por
Bolsonaro, disso não há dúvidas. Mas ele perde uma enorme oportunidade de começar
bem o governo ao adiar o anúncio do seu regime fiscal. Não existe combate
sustentável à pobreza com déficits primários seguidos e aumento da dívida
pública. E por um motivo simples: o endividamento irá encarecer o dólar,
pressionar a inflação e elevar os juros. A economia crescerá menos, e os pobres
serão os mais afetados, justamente os que precisam ser protegidos.
A tese defendida ontem pelo senador Alexandre Silveira (PSD-MG) no seu relatório à CCJ do Senado é a fórmula para o caos econômico. Se é verdade que o governo pode imprimir moeda para rolar a própria dívida, também é verdade que isso trará uma inflação exorbitante, como a que o país viveu nos anos 80 e início dos anos 90. A ideia de que a ampliação de despesas pelo governo gera um “círculo virtuoso” já deu errado tantas vezes que causou perplexidade que tenha sido evocada novamente.
Lu Aiko Otta - Modo crise diante de contas que não fecham
Valor Econômico
O Brasil está perdendo atratividade para
países de perfil semelhante, como mostra o relatório da dívida pública de
outubro
O modo crise segue acionado no Tesouro
Nacional. Diante de um mercado financeiro instável, a ordem é vender o menos
possível de títulos, para não comprar crédito caro. Há reservas de liquidez
suficientes para continuar assim por nove meses. Espera-se que antes disso haja
clareza sobre os rumos das contas públicas nos próximos quatro anos. E que a
engenharia a ser montada aponte de forma crível para o controle do
endividamento.
No entanto, o relatório do senador Alexandre Silveira (PSD-MG) para a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/2022, a “PEC da Transição”, apresentado ontem, foi motivo de desânimo e olhos marejados na turma que opera a dívida pública do lado governamental do balcão. A menção à Teoria Monetária Moderna (MMT) provocou pedidos de socorro.
Carlos Pereira* - O estelionato secreto de Lula
O Estado de S. Paulo
Orçamento secreto é substituto disfuncional
das moedas de troca entre Executivo e Legislativo
O presidencialismo multipartidário
necessita dotar o presidente de “moedas de troca” para que tenha condições de
montar maiorias legislativas.
Essas trocas podem acontecer sob limites
éticos, por meio de moedas legais, ou podem descambar para práticas corruptas a
partir de moedas ilegais ou pouco transparentes.
É um equívoco defender que os parlamentares
devam receber de forma igualitária recursos orçamentários. Os mais fiéis ao
presidente precisam ser sobre recompensados em relação aos de oposição. É esse
“bônus” que gera incentivos para que participem da coalizão do presidente.
No julgamento que hoje se inicia no Supremo Tribunal Federal (STF), os ministros teriam vários motivos para considerar o orçamento secreto inconstitucional.
Nicolau da Rocha Cavalcanti - Aos que se irritam com os jornais
O Estado de S. Paulo
Se alguém deseja estar num genuíno estado de exasperação com a vida, pare de ler jornal e dedique-se às redes sociais e ao Whatsapp
Com alguma frequência, ouve-se que já não
seria necessário ler um jornal todos os dias porque a informação chega agora
“por outros meios”. Também se escuta a seguinte reclamação: estou pensando em
parar de ler os jornais porque, com suas críticas excessivas e outras tantas
tolerâncias, perderam o equilíbrio. Chegam a irritar. Qual é o sentido de ler algo
se depois fico irritado?
Sim, ler um bom jornal sempre envolve algum
incômodo. Entra-se em contato com gente que pensa diferente, que nos contraria,
que diz, de forma muito convicta, algo que nos parece uma insensatez. O jornal
é uma forma de contato habitual, diário, com a pluralidade da sociedade.
(Desconfie de jornais com os quais se concorda do início ao fim. Eles não
retratam o mundo em sua complexidade. Abdicaram do jornalismo para se tornarem
pirulitos agradáveis ao paladar do leitor.)
No entanto, eis a ironia da vida, todas as pessoas que conheço que pararam de ler jornais para não ficarem irritadas, depois que abandonaram a leitura diária da imprensa, ficaram ainda mais irritadas com o mundo, com os outros e com os próprios jornais. Se alguém deseja estar num genuíno estado de exasperação com a vida e com o que acontece ao seu redor no âmbito político, social e cultural, pare de ler jornal – e dedique-se ao Whatsapp e às redes sociais.
Tiago Cavalcanti* - Quanto valem os serviços religiosos?
Valor Econômico
Serviços prestados equivalem a cerca de 10%
do consumo das famílias, ou cerca de R$ 600 bilhões por ano
Será que as atividades religiosas são
impulsionadas somente por crenças a respeito de estados espirituais, da vida
após a morte ou medo da punição de Deus? Ou será que a religiosidade é motivada
também por retornos em vida?
Alguns economistas racionalizam a devoção
religiosa como um investimento em redes de apoio social ou uma sinalização que
caracteriza atributos de uma pessoa, como benignidade e altruísmo, que a
sociedade valoriza. Entende-se que as religiões não sejam necessariamente
crenças sobre estados pós vida ou buscas por elevações espirituais.
Em países com Estado de bem-estar social limitado, as comunidades religiosas são importantes fontes de seguro contra diversos riscos que as pessoas se defrontam. Tais comunidades podem ajudar os fiéis em busca por postos de trabalho, auxiliar na procura de cuidados médicos, oferecer serviços de amparo a dependentes químicos e apoio emocional em períodos de dificuldades.
Fernando Exman - O carro zero quilômetro de José Múcio Monteiro
Valor Econômico
Ministro da Defesa vai precisar
equilibrar-se entre grupos radicais
Como dizem nas rodas de conversa de
integrantes da equipe de transição, José Múcio Monteiro ganhou um carro novo,
mas ainda está esperando chegar a carteira de motorista para tirá-lo da
garagem. O automóvel está ligado, parado em ponto neutro. E o GPS em processo
de configuração com o rumo que será adotado a partir de janeiro.
É considerada questão de tempo a sua
nomeação para o cargo de ministro da Defesa. Enquanto ela não se efetiva, o
ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ex-ministro da articulação
política de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-deputado federal vai se acostumando
com o novo volante que terá em mãos.
Na segunda-feira, por exemplo, ele foi apresentado ao conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, no hotel em que o presidente eleito está hospedado. O encontro, mesmo que seja descrito por algumas fontes como “uma coincidência”, não deixa de ser simbólico. Entre questões globais, desafios regionais e potenciais parcerias, os dois terão muito a conversar durante os próximos anos.
Elio Gaspari - O desembargador e os blindados
O Globo
Japona não é toga, e toga não é japona
O desembargador Wilson Alves de Souza, do
Tribunal Regional Federal da 1ª Região, concedeu uma liminar suspendendo a
compra de 98 blindados do consórcio italiano para o Exército a um custo que
pode chegar a R$ 5 bilhões. Liminar é apenas liminar, mas a argumentação do
magistrado foi ao mesmo tempo ingênua e onipotente. Ele escreveu:
— Vê-se claramente que o ato atacado não
atende aos pressupostos de conveniência e oportunidade, pois é evidente a falta
de razoabilidade, desvio de finalidade, ilegalidade e até mesmo de elementar
bom senso, pois outra classificação não há quando, ao mesmo tempo em que se
fazem cortes de verbas da educação e da saúde por falta de dinheiro, se
pretende comprar armas em tempos de paz.
O Exército precisa de equipamento. O desfile de blindados queimando óleo na Praça dos Três Poderes no ano passado pode ter dado satisfação àqueles que viam na exibição um ato de arrogância, mas um país não melhora com militares desequipados. A despesa pode parecer excessiva. A assinatura do contrato a poucas semanas da posse de um novo presidente é, sem dúvida, uma iniciativa meio girafa, até porque o edital de consulta pública da compra saiu há mais de um ano. Se há argumentos para suspender a assinatura do contrato, alguns dos que o desembargador usou não ficam de pé.
Bernardo Mello Franco - As lágrimas do capitão
O Globo
Presidente que se dizia
"imbrochável" chora em público às vésperas de perder o cargo e o foro
privilegiado
Para quem gostava de se dizer
“imbrochável”, a cena não deixou de surpreender. Às vésperas do fim do mandato,
Jair Bolsonaro perdeu a pose e chorou. O capitão estava no Clube Naval de
Brasília, onde participou da confraternização anual das Forças Armadas.
A solenidade não tem mistérios. Acontece
sempre em dezembro, o mês das inevitáveis reuniões natalinas. Pelo protocolo, o
presidente é recebido pelos comandantes militares, faz um discurso e
cumprimenta os oficiais-generais recém-promovidos. Depois todos se juntam para
um almoço festivo.
O beija-mão de 2022 teve início pela Marinha. Ao lado da primeira-dama, Bolsonaro foi saudado por novos almirantes de esquadra, vice-almirantes e contra-almirantes. Quando o 13º se aproximou com sua mulher, o capitão começou a fraquejar. Na vez do 14º, debulhou-se em lágrimas diante das câmeras e da plateia fardada.
Roberto DaMatta - Que o gênio da lâmpada esteja do nosso lado na Copa
O Globo
O esporte consegue reunir objetividade,
desejo e vontade, numa combinação cujo ponto culminante é o inesperado
Como anotei aqui, a Copa do Mundo de
futebol ocorre nas Arábias — a terra das Mil e Uma Noites, de camelos e
desertos, burcas, califas, tapetes voadores e haréns idealizados nos filmes em
tecnicolor de Hollywood...
Tudo isso que, num mundo globalizado e
transparente, tem subsistido pelo puritanismo islâmico, pela opressão de gênero
e por uma riqueza estonteante custeada pelo petróleo, hoje posto na lista que
tem seu negrume.
Mas, diante dos inesperados desta Copa das Arábias, é impossível não invocar o gênio da lâmpada de Aladim, porque o futebol é o gênio do encantamento que nos confronta com os impensados e as deliciosas surpresas quando um país negro e pobre vence ou empata com as potências do planeta, revelando — como garante a fábula do gênio da lâmpada maravilhosa — que ninguém tem tudo todo o tempo nas mesmas proporções. E que a riqueza mágica dessa arte penosamente esculpida pelos pés que nos amarram ao chão liberta quando a lâmpada mágica é devidamente esfregada por algum Aladim. O gênio que glorifica o amor pela camisa e a tenacidade tornada arte, negando aos donos do mercado e do mundo uma eventual vitória.
Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Dá pra chutar o pau da barraca ?!...
Contudo, para quem pensa em reforma agraria
expropriatória, a mesma Constituição protege a propriedade produtiva, e proíbe
qualquer intenção desapropriá-las. Como se não bastasse, os produtores rurais
não tem também muita paciência com a invasão de terras.
Não sei se dentro do Grupo da Transição de Governo o assunto vai sendo digerido sem problemas. Aqui fora, a discussão entre o sistema agrícola produtivo e o MST, uma extensão ativa dos trabalhadores rurais sem terra no Brasil, tende a desenrolar-se num diálogo difícil, com muita gente dando palpite, e poucos se entendendo.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
STF precisa por um fim ao orçamento secreto
Valor Econômico
O governo eleito colocou-se a reboque de
Lira e parte do PT teme que a sentença do STF possa atrapalhar a relação
Dinheiro é poder e o orçamento da República
é um poder maior, político, econômico e social. O orçamento secreto é
subterfúgio que captura esta prerrogativa como poder paralelo, escondido do
olhar do público. O Supremo Tribunal Federal inicia hoje julgamento da
legalidade do instrumento criado pelo Congresso para que um grupo de
parlamentares, em acordo com o governo de Jair Bolsonaro, dominasse um bom
pedaço dos recursos dos contribuintes e o distribuísse segundo interesses
partidários e privados. O STF deveria sepultá-lo.
As emendas do relator, nome fantasia do
orçamento secreto, refletem o oportunismo de lideranças do Centrão e de Bolsonaro,
e são parte importante do caos orçamentário desenhado por ambos. Tornou-se
coadjuvante da penúria de dinheiro para o funcionamento da máquina pública, e
meio de barganha com o governo eleito. Lula chamou-o na campanha eleitoral de
“podridão”, de a “maior excrescência orçamentária política do país”, e algo
pior que o mensalão, que abateu próceres de seu governo. Eleito, negocia como
mantê-lo.
As emendas do relator ampliam o controle do orçamento pelo Congresso, depois que, em 2015, as emendas parlamentares tornaram-se obrigatórias. O ponto em comum das iniciativas foi a existência de Executivos fracos ou acuados - como o de Dilma Rousseff, antes do impeachment, e de Jair Bolsonaro, para evitar um impeachment.
terça-feira, 6 de dezembro de 2022
Merval Pereira - Limites à gastança
O Globo
Tasso Jereissati e Alessandro Vieira
apresentaram propostas que limitam o valor fora do teto de gastos entre R$ 70
bilhões e R$ 80 bilhões
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC)
da Transição, tachada pela oposição de “PEC da Gastança”, começa a ser
analisada amanhã pelo Senado, que definirá sua forma definitiva. As PECs
precisam ser aprovadas nas duas Casas (Câmara e Senado) por maioria
qualificada, três quintos dos componentes de cada uma, em duas votações. Tudo
com o objetivo correto de dificultar mudanças constitucionais frequentes.
Apesar disso, já foram feitas 125 mudanças desde que a Constituição foi promulgada
em 1988.
Se aprovada pelo Senado, ela terá de ir para a Câmara, e qualquer mudança que se fizer lá obrigará que volte ao Senado, começando a tramitação novamente. O governo não tem tempo para esperar, pois o novo Orçamento tem de ser aprovado até o dia 22 deste mês para poder valer a partir de 2023. Seu poder de pressão sobre deputados e senadores, portanto, está reduzido pelos prazos. A proposta original prevê que, por quatro anos, o governo possa colocar fora do teto de gastos nada menos que R$ 198 bilhões, que dariam para pagar o novo Bolsa Família no valor de R$ 600 mensais, mais R$ 150 por criança de até 6 anos, além de fazer investimentos em diversas áreas que as equipes de transição consideram passíveis de sofrer um apagão no final do ano.
Míriam Leitão - STF deve rejeitar orçamento secreto
O Globo
Orçamento secreto deve ser derrubado no STF
por pelo menos seis votos, mas o calendário é apertado para o fim da votação
ainda este ano
O orçamento secreto deve ser considerado
inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Essa é a avaliação que eu
ouvi na Corte. E essa convicção vem do fato de que ele fere o “o princípio da
transparência em relação à administração pública que está no artigo 37 da
Constituição”. Mas será uma corrida contra o tempo. A ministra Rosa Weber
pautou o julgamento da ADPF que ela relata para amanhã, quarta-feira. Não é o
primeiro assunto da pauta e na quinta-feira, 8, é dia da Justiça. Na semana que
vem, haverá sessão nos dias 14 e 15. No dia 19, começa o recesso do Judiciário.
Na visão da fonte que eu ouvi, o tema “não é mais um assunto político, é
assunto jurídico”.
Todos os olhares do novo governo estarão sobre o STF porque esta é a questão do momento. Se o uso das verbas públicas através dessas emendas do relator for considerado inconstitucional, resolve-se o mais espinhoso dilema político do novo governo, mas na Suprema Corte há quem tema que a sua derrubada crie novo conflito do Judiciário com a Câmara e o Senado. “Mais uma vez empurram para o STF algo que seria da competência do Legislativo”, me disse uma fonte do tribunal. Porém, explica um ministro, depois que a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) foi proposta, o STF tem que julgar. “A Constituição determina que o Supremo dê uma resposta”, disse esse integrante da Corte.
Carlos Andreazza - Barão Ciro Castro Alcolumbre
O Globo
Embaixador do orçamento secreto no
Planalto, senador fazendo as vezes de ministro, Ciro Nogueira, bolsonarista
recente, habituou-se a publicar mensagens cifradas com referências ao correr do
tempo, sugerindo um prazo — tique-taque, tique-taque, tique-taque. Mas será ele
a ter de se aviar. O governo Bolsonaro acabou. Seu partido, o PP, quer voar.
Voar significa independência. Liberdade
para ouvir o canto do novo esquema de poder. O novo esquema é velho. As turmas
se conhecem e já comerciaram. Ciro Nogueira esteve lá. Não agindo o Supremo
Tribunal Federal (STF), e não agindo para acomodar, o novo esquema de poder —
velhos, os vícios — terá por base de governabilidade o já assentado esquema do
orçamento secreto.
As negociações pela aprovação da PEC da Transição, que são tratativas também pela permanência do vício, oferecem muitas possibilidades. As transações pelo tamanho do corpo da PEC, operações também pela reeleição do deputado Arthur Lira à presidência da Câmara, convidam a muitos bailes. A turma gosta de dançar.
Luiz Carlos Azedo - Ministro civil é chave para “desmilitarizar” o governo
Correio Braziliense
Lula precisa de uma reforma da Defesa que
consolide a pasta como instrumento de poder civil
A criação do Ministério da Defesa como uma
pasta civil nunca foi bem aceita pelos militares, em cuja concepção seria algo
equivalente ao antigo Ministério da Guerra ou ao Estado-Maior das Forças
Armadas durante o regime militar. Teria a função de coordenar a atuação
conjunta das forças, sob comando de um general de quatro estrelas, e não
subordinar Exército, Marinha e Aeronáutica a um poder civil. Reestruturar o
Ministério da Defesa é uma questão chave para o presidente eleito Luiz Inácio
Lula da Silva “desmilitarizar” o governo.
Derrotados na eleição de Tancredo Neves, em 1985, os militares operaram uma retirada em ordem do poder, que havia sido iniciada com a “anistia recíproca”, de 1979. Foi uma estratégia política bem-sucedida, apesar dos percalços, e concluída durante o governo do presidente José Sarney. Eleito presidente, porém, Fernando Henrique Cardoso resolveu erradicar a influência militar da política nacional e criou o Ministério da Defesa, com objetivo de otimizar o sistema de defesa nacional, formalizar uma política de defesa sustentável e integrar as três Forças, racionalizando as suas diversas atividades.
Raphael Di Cunto - Congresso empareda PT e traça limites
Valor Econômico
Força do governo no Congresso depende da
PEC da Transição
Com a mesma certeza que os brasileiros têm
de que a nossa seleção ganhará a Copa, a ponto de até torcer pela lesão de seu
melhor jogador, o PT saiu do segundo turno da eleição acreditando que o torneio
já estava ganho e que a vitória sobre Jair Bolsonaro (PL) deu aval para o
partido impor seu plano de governo sem negociar com as demais forças políticas
do país.
Os articuladores da transição passaram a dizer que os gastos seriam ampliados em R$ 200 bilhões de forma indefinida e já decidir em reuniões fechadas como esse dinheiro todo seria usado: aumentar as verbas para saúde e educação, investir em moradia popular e estradas, retomar os incentivos à cultura. Pleitos justos e necessários, mas a forma ignorou que parte expressiva dos eleitores não concorda com os planos econômicos do PT, só queria ver o Jair ir embora. O Congresso tratou de botar a PEC embaixo do braço, colocar no meio do campo e mostrar que a partida não tinha sequer começado.
Luiz Schymura* - Um mercado de trabalho desafiador
Valor Econômico
Famílias unem baixa poupança com alto risco
de perder renda
A taxa de desemprego no Brasil recuou para
8,3% no trimestre que se encerrou em outubro - menor patamar desde 2015 -,
segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC)
divulgada em 30 de novembro. É importante notar que a melhora ocorreu em um
contexto de elevação da população ocupada (PO), que atingiu o recorde da série
iniciada em 2012: 99,7 milhões de pessoas. Sem dúvida, são números positivos
que sugerem um mercado de trabalho dinâmico.
Contudo, embora seja uma estatística importante, a taxa de desemprego, por si só, não dá necessariamente um retrato fidedigno do desempenho do mercado de trabalho. Afinal, aspectos também relevantes para os trabalhadores, como renda e benefícios adicionais recebidos (plano de saúde, auxílio-creche, fundo de previdência etc.), assim como garantia de trabalho futuro, não são captados por esse indicador.
Luiz Gonzaga Belluzzo* - A meritocracia, de Confúcio a Sandel
Valor Econômico
Na configuração atual, as sociedades
escancaram a incapacidade de entregar o que prometem aos cidadãos
Tzu-chang perguntou a Confúcio: “Como um cavalheiro
deve ser para que digam que ele conseguiu distinguir-se?”. O Mestre disse: “Que
diabos você quer dizer com ‘distinguir-se’?”.
Tzu-chang respondeu: “O que tenho em mente é um homem que tem certeza de ser conhecido, sirva ele em um reino ou em uma família nobre”. O Mestre disse: “Isso é ser conhecido, não se distinguir. O termo ‘distinguir-se’ descreve um homem que é correto por natureza e que gosta do que é certo, sensível às palavras das outras pessoas e observador da expressão nos rostos delas e que sempre se preocupa em ser modesto. Por outro lado, o termo ‘ser conhecido’ descreve um homem que não tem dúvidas de que é benevolente, quando tudo o que ele está fazendo é mostrar uma fachada de benevolência que não condiz com suas ações”.
Cristina Serra - STF, corrupção e democracia
Folha de S. Paulo
Orçamento secreto é máquina de ineficiência
e desperdício de dinheiro público
A sociedade brasileira aguarda decisão definitiva do Supremo sobre o maior esquema
de corrupção e de corrosão da democracia de que se tem notícia neste país. A
indecência atende pela alcunha de orçamento secreto. Coisa de máfia mesmo, pela
inconstitucionalidade, pelo sigilo sobre os parlamentares beneficiados e pelo
volume de dinheiro que se esvai nos ralos dessa imundície.
O caso está à espera de suas excelências há um ano. Fala-se nos bastidores que algum ministro poderá recorrer ao "perdido de vista". Ainda que mal pergunte, precisa de mais tempo para entender o quê? O orçamento secreto permite coisas como fazer, em 2020, 12.700 radiografias de dedo em Igarapé Grande (MA), que tem 11.500 habitantes. Esse é um exemplo do varejo.
Alvaro Costa e Silva - Crime e saúde
Folha de S. Paulo
General Pazuello, um dos responsáveis pela
calamidade sanitária, foi premiado com 200 mil votos
Até hoje, com novas variantes do
coronavírus circulando (embora muita gente tenha fastio e se recuse a falar ou
mesmo a se lembrar da pandemia) e a triste marca de mais de 690 mil mortes, o
Ministério da Saúde insiste — sem o aval de estados e municípios — em manter
políticas negacionistas, como o uso do famigerado kit Covid.
Além do retrato do descaso com que o regime que está indo embora sempre tratou os brasileiros, é uma prova de crime. O relatório da CPI da Covid identificou 29 tipos penais e sugeriu o indiciamento de 80 pessoas, entre os quais o ex-ministro Eduardo Pazuello e o atual, Marcelo Queiroga. Bolsonaro foi acusado formalmente de ter cometido nove crimes; charlatanismo é apenas um deles. A PGR tem travado o acesso da PF aos dados da investigação.
Joel Pinheiro da Fonseca - Twitter e a liberdade de expressão
Folha de S. Paulo
A comunicação de massas foi pulverizada.
Não há mais a coesão institucional que permitia simplesmente tirar algumas
pessoas e conteúdos do debate público
É cedo para declarar que o Twitter sob Elon Musk será um fracasso, como alguns predizem. Enquanto a transformação não vem, ele já está dando o que falar. Na semana passada, um jornalista independente, com a cooperação de Musk, tornou públicas as trocas de mensagens entre comitês de campanha das eleições americanas de 2020 e os funcionários e executivos do Twitter encarregados de moderar o conteúdo na plataforma. Mais especificamente, mostrou que houve uma decisão interna de interditar uma matéria do New York Post em outubro de 2020 sobre um laptop do filho de Hunter Biden -filho de Joe Biden -que teve seu conteúdo vazado.
Eliane Cantanhêde - Olho vivo!
O Estado de S. Paulo
Não dá para exigir mágica nem cobrar Lula por culpas que não são dele. Quando forem, pau nele!
Enquanto o ainda presidente Jair Bolsonaro
deixa as motociatas para lá e se concentra em cerimônias militares, grupos
bolsonaristas continuam atacando irresponsavelmente as eleições e cobrando que
jornalistas e especialistas sejam “tão implacáveis” com o presidente eleito
Lula como foram com Bolsonaro. OK. Isso vale para qualquer presidente. Mas
depende de como as coisas caminharem.
Se vier uma pandemia e Lula tratar como “gripezinha”, criticar quem faz isolamento social como “maricas”, rir das pessoas morrendo sem oxigênio, trabalhar contra vacinas e máscaras e fizer propaganda de remédio inadequado, os bolsonaristas podem ficar tranquilos. Pau nele!
Bernard Appy* - Seletividade na tributação
O Estado de S. Paulo
Para melhorar a distribuição de renda, o ideal é focar em políticas de transferência para os mais pobres
A Constituição federal dispõe que o Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI) “será seletivo, em função da
essencialidade do produto”, e que o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Serviços (ICMS) “poderá ser seletivo, em função da essencialidade das
mercadorias e dos serviços”.
Segundo o princípio da seletividade, bens e
serviços “essenciais” deveriam ser menos tributados, de modo a beneficiar as
famílias de menor renda, que, proporcionalmente, consomem mais itens básicos
que as pessoas de maior renda. A realidade, no entanto, é que a seletividade
tributária é muito pouco eficaz como instrumento de política distributiva.
Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo de alimentos da cesta básica do Pis/cofins pelas famílias com renda superior a 25 salários mínimos é, em reais, cerca de três vezes superior ao das famílias com renda inferior a dois salários mínimos. Em termos absolutos, portanto, a desoneração da cesta básica beneficia mais os ricos que os pobres. Se o objetivo é melhorar a distribuição de renda, seria melhor tributar a cesta básica e transferir o montante arrecadado para as famílias pobres, ou mesmo um valor igual para todas as famílias.
Paulo Hartung - Cuidar do clima é cuidar da vida
O Estado de S. Paulo
O caminhar planetário desajeitado despreza
não apenas riscos e passos já efetivados, mas também oportunidades
Se o caminho se faz no caminhar, com
roteiros tortuosos o mundo está deixando um rastro em desalinho com a
emergência climática. A COP-27, recentemente realizada no Egito, é evidência
desse passo a passo irresoluto.
Pela primeira vez, incluiu-se no texto final a autorização para criação de um fundo de perdas e danos, antigo pleito de países em desenvolvimento, especialmente costeiros e insulares, que já sofrem com o aumento do nível do mar. O esgotamento do meio ambiente aprofunda as já enormes desigualdades sociais. Eventos naturais extremos causam impactos socioeconômicos maiores justamente em países mais vulneráveis. Mesmo com este sinal, o fundo ainda carece de detalhamento operacional.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
STF tem dever de acabar com emenda do relator
O Globo
Depois de suspense, Rosa Weber marcou para
amanhã votação que deveria pôr fim ao orçamento secreto
Depois de meses de suspense, a ministra
Rosa Weber, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), pautou enfim para
amanhã o julgamento das ações que contestam a constitucionalidade das emendas
do relator do Orçamento, conhecidas pela sigla RP9. Apelidado orçamento
secreto, trata-se de instrumento fisiológico, opaco, que não leva em conta
critérios técnicos e incentiva a corrupção. Espera-se que a maioria do plenário
varra para o lixo esse expediente, criado em 2019 pelo governo Bolsonaro para
comprar apoio político e blindar o presidente de investigações e pedidos de
impeachment.
É função do STF impedir que o Congresso estabeleça qualquer regra orçamentária contrária aos princípios constitucionais de moralidade, impessoalidade, publicidade, isonomia e equidade. É exatamente o caso do orçamento secreto. O dinheiro distribuído a quem apoia o governo é controlado pelos caciques do Centrão, em particular os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). As verbas são destinadas a projetos de retorno político aos parlamentares governistas, em geral em seus redutos eleitorais, e não onde façam sentido social ou econômico.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2022
Fernando Gabeira - Ideias para baixar a bola
O Globo
Não há conciliação possível quando se
violenta o direito de ir e vir, impedindo que filhas visitem mães agonizantes,
que crianças operem um olho para não ficarem cegas
A temperatura política está muito alta.
Ainda há bloqueios de estrada, invasões de câmaras municipais, ofensas a Gil no
Catar, a Ciro em Miami e a Rodrigo Maia na Bahia. Houve quem se alegrasse com a
contusão de Neymar.
Adianto algumas ideias para baixar a bola.
Isso significa em futebol jogar com calma e jogar melhor. Quem quiser chamar de
conciliação que o faça, desde que entenda o termo não de uma forma ingênua,
como se as diferenças políticas fossem suprimidas por magia.
Em Minas se dizia: é preciso que as ideias
briguem, mas as pessoas não. Creio que a temperatura baixará se os setores mais
lúcidos da direita conseguirem explicar aos outros que a eleição acabou. Foi um
processo já proclamado pelo TSE, passou por auditorias, obteve aprovação dos
observadores internacionais.
Não há mais o que fazer. Quem reza diante
dos quartéis precisa compreender que os militares não são surdos. Se não
responderam às suas preces, é porque decidiram respeitar a escolha majoritária.
Da mesma forma, do exterior não virá ninguém, não existe nenhum tribunal cuidando das eleições brasileiras. O mais sensato é aceitar o resultado, preparar-se para fazer oposição e tentar de novo em 2026.
É preciso que a bola baixe também num campo essencial para a democracia: a liberdade de expressão. Sei que é difícil se mover na democracia com um tsunami de fake news. Mas é preciso correr os riscos. Aliás, o risco maior é entregar na mão de mentirosos a bandeira da liberdade de expressão.
Miguel de Almeida -O adeus às cores mórbidas
O Globo
Embora o velho PT continue a gritar no
governo de transição, Lula sabe que ganhou a eleição pelo antibolsonarismo — e
não com o petismo
Dois fatos canhestros sintetizam o Brasil
atormentado no mimimi do pós-Bolsonaro:
1) A magistrada que não reconhece Chico
Buarque como autor de sua belíssima “Roda viva”. (Acredito não ser uma postura
ideológica, o que seria algo altamente sofisticado: parece ignorância burra e
simples; o tal axioma -5% + 4% igual a 9% faz escola.)
2) O filho Zero Três, depois de fritar hambúrguer nos Estados Unidos, agora no Catar, com pen drives na mão, no papel de camelô da Saara. No tempo da cirurgia à distância, diz usar pen drive! (Depois de perderem a eleição, surge aí uma nova oportunidade de negócio. Não deve dar lucro como lojinha de chocolate, mas já é uma diversificação de portfólio. Alternativa na área gastronômica talvez seja a venda de sopão na porta de quartel.)
Washington Olivetto - O campeonato mundial de cafajestice
O Globo
Tive a oportunidade de presenciar coisas
horríveis na minha vida, mas nem todas elas somadas superam o número de
canalhices cometidas no Brasil durante a campanha eleitoral de 2022
Em 1962, ano em que completei 11 anos,
estreou nos cinemas o filme “Os cafajestes”, do diretor luso-brasileiro Ruy
Guerra.
O filme, com Jece Valadão e Daniel Filho,
era estrelado por Norma Bengell, que protagonizou o primeiro nu frontal do
cinema brasileiro. Essa cena se transformou no assunto da mídia em geral e em
obsessão tanto minha quanto dos meus amiguinhos de escola, que só conhecíamos o
filme de ouvir falar, já que era proibido para menores de 18 anos.
Aprendi naquele ano a palavra “cafajeste”,
que, segundo meu pai, era sinônimo de sujeito mal-educado, que no seu dia a dia
cometia cafajestadas. Muitos anos passaram, tive a oportunidade de presenciar
coisas horríveis na minha vida, mas nem todas elas somadas superam o número de
canalhices cometidas no Brasil durante a campanha eleitoral de 2022.
Só essas dariam para fazer uma espécie de The Guinness Book of Records da Cafajestice, mas resolvi lembrar mais algumas para compor um livro imaginário da vagabundagem universal.



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