quarta-feira, 16 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Milei avança ao adotar novo regime cambial

O Globo

Respaldado por acordo robusto com o FMI, presidente argentino tenta sair da armadilha do peso forte

A decisão do presidente argentino, Javier Milei, de reformular a política cambial chegou em boa hora. Desde que assumiu, em dezembro de 2023, ele promoveu mudanças consideradas impensáveis. Reduziu o gasto público em 27% e fez a inflação mensal cair de 26% para cerca de 3%. Não sem razão seus apoiadores dizem que a Argentina precisou de um presidente fora do normal para dar mais normalidade a sua economia. Apesar de um primeiro ano promissor, desafios persistem. O recente acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) abriu o caminho para Milei tentar desatar o nó do câmbio. A chegada de dólares motivou o anúncio de um novo regime, com a implementação de uma banda de flutuação. O sucesso de todo o plano econômico depende de uma transição sem sobressaltos.

Quem defende a democracia? - Vera Magalhães

O Globo

Em 2022 e 2023 o Brasil se mostrou mais maduro e equipado que os Estados Unidos em 2020 e 2021 para lidar com as turbas

Estados Unidos e Brasil lidam neste momento com um dilema comum: como responder a diferentes graus de ameaça à democracia que aconteceram nos últimos anos e, por lá, se intensificam a cada dia no novo mandato de Donald Trump?

Enquanto aqui uma corrente política tenta convencer a sociedade de que o Judiciário exagera e persegue ao punir com rigor aquilo que a sua Corte mais alta, o Supremo Tribunal Federal, decidiu por ampla maioria ter sido uma tentativa de golpe de Estado, nos Estados Unidos as diferentes instituições começam a dar sinais de que perceberam quanto subestimaram a capacidade de destruição de todo o arcabouço democrático erigido nos últimos séculos por parte de uma oligarquia disposta a fazê-lo.

A ignorância nos EUA de Trump – Elio Gaspari

O Globo

Não se pode exigir que os presidentes dos Estados Unidos conheçam a América do Sul. Franklin D. Roosevelt (1933-1945) chamou Getúlio Vargas de general, e George W. Bush (2001-2009) perguntou a Fernando Henrique Cardoso se havia negros no Brasil. A ignorância pontual é uma condição do gênero humano. Afinal, ninguém é obrigado a saber tudo, mas o problema se agrava quando o sujeito recicla a própria ignorância e acredita ter conseguido sabedoria. Esse é o caso de Donald Trump e de sua turma.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse que “o governo Obama (...) permitiu que a China se infiltrasse em toda a América do Sul e Central com sua influência econômica e cultural”, e acrescentou:

— Estamos retomando o nosso quintal.

O doutor falava do Canal do Panamá, onde empresas chinesas se estabeleceram no vácuo deixado pelos interesses comerciais dos Estados Unidos.

A conexão El Salvador - Bernardo Mello Franco

O Globo

Em campanha para o governo do Rio, Eduardo Paes prepara um novo factoide. Quer ir a El Salvador conhecer a política de segurança de Nayib Bukele.

No poder desde 2019, o presidente salvadorenho é um populista de extrema direita que investe na imagem de xerife. A pretexto de combater o crime, transformou seu pequeno país num Estado policial. A receita inclui prisões arbitrárias, encarceramento em massa e restrição aos direitos civis.

Antes de completar um ano no cargo, Bukele invadiu o Congresso com soldados do Exército. Inconformado com o resultado de uma votação, chamou os parlamentares de “sem-vergonhas que não querem trabalhar para o povo”.

Para governar sem freios legais, ele também investiu contra o Ministério Público e o Judiciário. Numa só tacada, destituiu o procurador-geral da República e cinco juízes da Suprema Corte. Em sinal de gratidão, o tribunal o autorizou a disputar outro mandato, apesar de a Constituição salvadorenha proibir a reeleição. O autocrata venceu no primeiro turno com 84% dos votos.

Entrevista | Sarney: Brasil vive 'descoordenação entre os Poderes' e precisa de reforma política

César Felício / Valor Econômico

Perto de completar 95 anos, ex-presidente prepara livro sobre regime semipresidencialista e voto distrital misto

Perto de completar 95 anos de idade e quatro décadas depois de assumir efetivamente a Presidência da República, o ex-presidente José Sarney afirma que a falta de consolidação partidária no Brasil explica o desequilíbrio entre os Poderes, com o Congresso e o Judiciário extrapolando seu papel. Segundo Sarney, o avanço do Congresso sobre o Orçamento é decorrência da fraqueza partidária, e não o oposto.

Para Sarney, o Brasil vive hoje uma “descoordenação entre os Poderes”, com o Judiciário e o Legislativo extrapolando suas atribuições. Na raiz desse desequilíbrio, segundo o ex-presidente, está a debilidade dos partidos políticos. “A integração dos Poderes no sistema ‘check and balance’, com um controlando o outro, foi muito abalada”, diz.

Sarney pretende lançar em breve um livro sobre “o Brasil e seu labirinto” para tentar reavivar a proposta de voto distrital misto e semiparlamentarismo, pauta que circula por gabinetes em Brasília sem nunca engrenar.

Ao rememorar seu governo, Sarney relembra seu embate contra o MDB (à época PMDB) em torno da duração de seu mandato. Foi o momento de maior tensão entre os Poderes. Avançava no Congresso a proposta de se antecipar a eleição presidencial para 1988, e não 1989, como desejava o presidente. A Comissão de Sistematização, que preparou o anteprojeto da Constituição, aprovou a antecipação.

Sarney fez um pronunciamento à época afirmando que havia uma “inversão da ordem constitucional” em uma “ação contra democracia”. Nascia naquela época o “Centrão”, grupo de parlamentares conservadores que, em troca de favores do governo, brecou a pressão para encurtar o mandato presidencial. Sarney relata que evitou o confronto direto com Ulysses Guimarães, presidente da Câmara, da Constituinte e do PMDB, “porque significava um grande problema para o país o presidente da República brigar com presidente da Câmara”.

Sarney evita comentar diretamente os atos golpistas de 8 de janeiro, em relação aos quais o ex-presidente Jair Bolsonaro está sendo investigado, mas descarta que o país tenha estado perto de um golpe militar na ocasião. “Eu tenho a convicção de que quem quiser jogar com as Forças Armadas para fazer qualquer aventura política, pode saber que não contará com eles”, disse. O ex-presidente confirma que risco existiu no período da transição do regime militar para o civil.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Previsibilidade para a Defesa Nacional entra no radar – Fernando Exman

Valor Econômico

Proposta de emenda constitucional que tenta dar previsibilidade ao orçamento do Ministério da Defesa dá sinais de avanço

Cerca de um ano e meio depois de protocolada no Senado, a proposta de emenda constitucional que tenta dar previsibilidade ao orçamento do Ministério da Defesa dá sinais de avanço. É uma movimentação silenciosa e ainda sem prazo para ser concluída. Mas, diante de um cenário externo que se deteriora a cada dia, já está nos bastidores inclusive o debate para tentar aperfeiçoar o texto da PEC 55 de 2023.

Mudou o cenário observado desde o primeiro ano do atual mandato do presidente Lula, quando ocorreram os ataques do 8 de janeiro e interlocutores da cúpula militar deram por interditada a tramitação da proposta. Para essas fontes, sinal claro deste novo momento é a recente articulação para a indicação do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) como relator da matéria na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Líder do governo no Congresso Nacional e representante do Amapá, avalia-se que Randolfe pode retirar da PEC o carimbo que seus críticos colaram nela de ser uma proposta da oposição. Afinal, quem a apresentou foi Carlos Portinho (PL-RJ), mas ela trata de uma questão de Estado. Adicionalmente, Randolfe conhece de perto a realidade da Amazônia e a necessidade de proteção da Margem Equatorial.

Concluída a análise da constitucionalidade da PEC, a ideia é avançar nas discussões sobre mérito e forma.

Economia global em marcha à ré forçada - Márcio Garcia

Valor Econômico

Ironicamente, as medidas econômicas ineptas do novo governo Trump podem até colocar em risco a hegemonia do dólar como moeda de reserva internacional

A incerteza que se disseminou pelos Estados Unidos e pela economia mundial após a posse do novo governo foi ampliada em grande medida no “dia da liberação”, 2 de abril. Naquela bela tarde primaveril do Hemisfério Norte, o presidente Donald Trump fez o anúncio das novas tarifas, sobraçando uma placa com uma lista de países com as tarifas que teriam sido aplicadas às importações de bens oriundas dos EUA em 2024, e com as novas “tarifas recíprocas” que passariam a ser aplicadas às exportações de cada país.

Quando pouco depois foi divulgada a fórmula utilizada no cálculo das supostas tarifas que seriam cobradas dos EUA, a reação foi quase unânime. Não me lembro de ter visto nenhum economista minimamente respeitável defendendo seja a concepção da exótica fórmula seja a forma muito peculiar de sua implementação.

Unctad: economia mundial ruma para a recessão; Brasil só cresce 2,2% - Assis Moreira

Valor Econômico

Agência da ONU vê situação difícil, mas também oportunidades no comércio do Sul Global

A economia mundial está em trajetória de recessão, empurrada pelo aumento das tensões comerciais e pela persistente incerteza, alerta a Agencia das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) em relatório publicado hoje.

Para a agência da ONU, a projeção é que o crescimento global desacelere para 2,3% em 2025 comparado a 2,8% no ano passado.

Para o Brasil, a estimativa é de desaceleração para 2,2% comparado a expansão estimada em 3,4% no ano passado.

A Unctad cita ameaças crescentes, incluindo choques na política comercial, volatilidade financeira e aumento na incerteza que correm o risco de descarrilar a perspectiva global.

Histórias de espionagem e a raposa que toma conta das atividades da Abin – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A PF intimou o diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, a prestar depoimento no âmbito da investigação sobre o suposto esquema de espionagem ilegal dentro do órgão

Desde a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, cada dia que passa, a política brasileira ganha ares de um romance policial noir, no estilo da trilogia de Joy Ellroy sobre a trama conspiratória que resultou no assassinato do presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963, e nos acontecimentos posteriores da política dos Estados Unidos, inclusive os golpes de Estado que ocorreram no Brasil e em outros países latino-americanos.

Por pouco, segundo investigações da Polícia Federal (PF), não se consumou o assassinato do ministro Alexandre Moraes, relator do inquérito que investiga o golpe, numa operação abortada de última hora, cujo plano previa, também, os assassinatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin, para destituir um governo eleito pelo voto popular. É a impunidade dos responsáveis pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 que está em questão quando se discute uma anistia aos que participaram da tentativa de golpe.

As imortalidades de Mario - Cristovam Buarque

Correio Braziliense

Aos 89 anos, Mario Vargas Llosa concluiu seu tempo, mas não morreu, porque se fez imortal pelas letras, pela vida, pelas academias e pelo Nobel que o laureou

A primeira imortalidade de um escritor está na permanência dos seus personagens e nas histórias criadas por ele. A segunda imortalidade vem dele próprio, como personagem de seu tempo. A presença em uma academia também lhe confere imortalidade, e receber o Prêmio Nobel de Literatura é o coroamento maior. Mario Vargas Llosa conquistou esses quatro pilares da imortalidade.

Ao longo de sua carreira, o escritor peruano criou personagens e histórias inesquecíveis, como se tivesse sido o Balzac do realismo fantástico latino-americano. Nunca morrerão os personagens de Conversa na catedral, Pantaleão e as visitadoras, A guerra do fim do mundo, A casa verde e dezenas de outros livros e personagens que ficarão na lembrança de seus contemporâneos e das futuras gerações. O próprio Vargas Llosa, crítico literário, escreveu uma tese, Orgia perpétua, onde cita que Madame Bovary, criada por Gustave Flaubert, 100 anos antes, marcou mais seus sentimentos do que pessoas de carne e osso com as quais ele conviveu no mundo real. Nós vivemos até hoje com Dom Quixote e Sancho Pança, com Capitu, Riobaldo, Ana Karenina, tanto quanto com os personagens de Vargas Llosa. Flaubert conquistou imortalidade por sua personagem, mas Vargas Llosa obteve imortalidade também pela própria vida, sua presença de intelectual público e de político combatente, inclusive candidato à presidência do seu país.

Democracia ou autocracia? - Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Trump tem indícios de uma autocracia. Sob o lema de "Tornar a América grande novamente", o magnata republicano parece não ter freios ou limites

Dê poder a um homem e você o conhecerá. Dê poder a ele duas vezes a ele e conhecerá sua verdadeira face. Não sei se esse ditado existe ou se o criei em meio à minha insônia. São 4h de uma terça-feira e a busca por um tema para este artigo contribui para afastar o sono. Penso na catástrofe humanitária em Darfur, na vitória do conservador Daniel Noboa no Equador, na guerra brutal de Israel e da Rússia em Gaza e na Ucrânia, na força do papa que esteve à beira da morte. Todos eles são bons temas de serem esmiuçados nessas poucas linhas. Escolhi falar sobre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Desde que retornou à Casa Branca, o republicano promoveu uma escalada autocrata no país mais poderoso do mundo — ou seria a China? Raciocínio típico dos xenófobos, rotulou os imigrantes não documentados de terroristas e criminosos, e ordenou a prisão dos estrangeiros ilegais nas escolas, igrejas, locais de trabalho e hospitais. 

Trump contra a universidades - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Governo americano quer intervir no ensino com chantagem financeira e guerra demagógica

Faz muitos anos, universidade deixou de ser discussão pública no Brasil, assunto de conversa daquilo que, no passado, se chamava de "formadores da opinião pública" (formavam a opinião uns dos outros. Atualmente nem isso). No máximo, falamos de ranking, o que dá audiência, ranking de qualquer coisa, de pizzaria a sex shop, de riqueza a felicidade. Nos EUA, é assunto de guerra cultural e política.

Universidade não é aqui assunto de política pública, de política econômica de médio prazo, que dirá de discussão eleitoral. Mesmo discussões sobre políticas de desenvolvimento mal mencionam universidades e centros de pesquisa —essas políticas vão dar com os burros n’água.

Planalto cobra deputados da base de Lula que assinaram urgência de projeto da anistia

Catia Seabra e Victoria Azevedo / Folha de S. Paulo

Não está descartada a revisão de indicações políticas de signatários do requerimento de partido de Bolsonaro

Com um mapa de indicações políticas em mãos, integrantes do governo Lula (PT) estão fazendo cobranças a integrantes da base aliada no Congresso que assinaram o pedido de urgência do projeto de lei que dá anistia aos condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro.

relatório do projeto prevê que todos os atos pretéritos e futuros relacionados aos ataques à sede dos três Poderes terão anistia, abrindo brecha para beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A ministra da SRI (Secretaria de Relações Institucionais), Gleisi Hoffmann, já tem um levantamento de todas as indicações de cargos federais feitas por políticos da base aliada e seu plano já era se debruçar sobre isso nos próximos dias. Mas a adesão de aliados à proposta de anistia precipitou essa abordagem.

À sombra do ocaso - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Já se fala com desenvoltura que 2026 pode ser a última eleição sob influência de Lula e Bolsonaro

Com alguma distância, a sombra do ocaso ronda os dois chefes das torcidas mais estridentes da cena política atual.

Luiz Inácio da Silva (PT), enroscado na baixa aprovação de seu governo, pode não concorrer ou até perder a reeleição. Jair Bolsonaro (PL), inelegível e réu no Supremo Tribunal Federal, ainda corre o risco de ser preso.

Entre a população, a situação tampouco é boa: 62% acham que o presidente não deveria concorrer à reeleição e 67% consideram que o antecessor deveria se recolher à inelegibilidade.

Anistia a golpistas é salto no precipício - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Perdão seria um convite a futuros usurpadores e ainda colocaria o país à beira de uma crise entre Poderes

Minha simpatia por teorias do direito penal mínimo faz com que eu não seja o maior fã de penas de prisão. Sou, contudo, um defensor ardoroso de condenações. Autores de crimes graves precisam ser condenados especificamente pelos delitos que cometeram (o tipo e o tamanho da sanção são uma outra discussão), ou os efeitos dissuasórios do direito penal não se materializam.

Gosto de citar uma frase do cardeal de Richelieu que captura a essência do problema: "Fazer uma lei e não a mandar executar é autorizar a coisa que se quer proibir". Se parlamentares tiverem sucesso em aprovar uma anistia para os golpistas de 2022-23, estarão convidando futuros usurpadores a agir sempre que desgostarem dos resultados das urnas. Caberá à Justiça Eleitoral só organizar a fila das intentonas, a fim de que não ocorram duas ao mesmo tempo.

O batom, a Biblia e a banalidade do mal - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Déboras se ofereceram, com Bíblia e batom, à engrenagem que faria o golpe parecer legítimo

Nos últimos meses, setores bolsonaristas têm tentado transformar os sediciosos do 8 de Janeiro em mártires da liberdade. O caso mais notório é o da cabeleireira Débora, condenada a 14 anos de prisão por participar da invasão da praça dos Três Poderes. "Ela só escreveu ‘Perdeu, mané’ com um batom", diz o deputado Nikolas Ferreira, que chegou a compará-la a Rosa Parks, a moça do Alabama que se recusou a ceder o lugar no ônibus por dignidade e virou símbolo da luta pelos direitos civis nos EUA.

A comparação, para além do insulto histórico, revela algo mais profundo: uma operação de limpeza moral que tenta apresentar os golpistas como "pessoas comuns" injustamente perseguidas por um Estado tirânico.

É aqui que a filósofa Hannah Arendt oferece uma chave precisa para pensar o mal na modernidade. Quando Adolf Eichmann, funcionário-padrão da burocracia nazista, foi capturado e julgado em Jerusalém, em 1961, Arendt cobriu o julgamento como enviada da The New Yorker e ficou impressionada: ele não parecia um monstro, nem um sádico, nem um fanático. Parecia apenas... um homem comum.

Por que líderes autoritários como Trump amam o passado – Regina Ribeiro*

O Povo

Harvard foi a primeira universidade de elite dos Estados Unidos a não aceitar as imposições do governo Trump e resistir à ameaça de perder fundos federais da ordem de US$ 2 bilhões

Há pouco mais de dois anos, escrevi aqui sobre um relatório que Harvard divulgou sobre seu papel no processo de escravização de pessoas nos Estados Unidos. Pediu perdão por ter contribuído de forma positiva para a escravidão, por ter aceito em seu campus pessoas escravizadas que serviam a seus alunos e professores, por ter incentivado ideias que propagavam e consolidavam a escravidão, e por ter sido lenta, muito lenta, - e em alguns momentos até dificultado - em aceitar alunos negros.

A instituição chegou a expulsar “três estudantes negros matriculados na Faculdade de Medicina, em 1850, por pressão de alunos brancos”. Mais de 100 anos depois, em 1960, Harvard reconheceu que havia apenas 9 homens negros entre os 1212 selecionados para estudar na universidade de elite americana. As desculpas e criação de um fundo de US$ 100 milhões, a fim de promover ações de reparação jamais haviam sido feitas durante um governo de Donald Trump, como estamos vendo agora.

Anistia e Constituição - Martônio Mont'Alverne*

O Povo

Sem dúvida que o assalto planejado ao Congresso Nacional e ao STF, e o plano de assassinato do Chefe do Poder Executivo e de integrante do STF atentam objetivamente contra a separação dos Poderes

O par. 4º do art. 60 da Constituição é claro. Não será objeto de discussão projeto de emenda sequer tendente a abolir a forma federativa; o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos Poderes; e os direitos e garantias individuais expostos no art. 5º da mesma Constituição. São as nossas chamadas cláusulas pétreas ou eternas. No extenso rol do art. 5º estão elementos basilares da democracia: liberdade de manifestação de pensamento, liberdade de associação partidária, religiosa e profissional, ampla defesa etc.

Os golpistas do final do ano de 2022 e de 8 de janeiro de 2023 planejaram atentados contra a forma federativa, o voto, a separação de poderes e os direitos individuais. Sem dúvida que o assalto planejado ao Congresso Nacional e ao STF, e o plano de assassinato do Chefe do Poder Executivo e de integrante do STF atentam objetivamente contra a separação dos Poderes. Se ao legislador não é permitido relativizar estas cláusulas, impossível imaginar que criminosos que buscaram destruir estas cláusulas sejam beneficiados por eventual anistia.

Poesia | A Vida, de Mário Quintana

 

Música | Seu Jorge, Caetano Veloso - Desde que o samba é samba

 

terça-feira, 15 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discussão vexatória sobre anistia trava a pauta do Congresso

O Globo

Debate sobre projeto deixa em segundo plano temas urgentes — das redes sociais aos supersalários

O Congresso Nacional desmente a máxima de que, no Brasil, o ano só começa depois do carnaval. Chegou a Páscoa, e o Parlamento não votou nenhuma pauta de interesse do país, com exceção da aprovação (atrasada) do Orçamento. Todas as energias estão voltadas às pautas vexatórias de anistia aos golpistas do 8 de Janeiro e emendas parlamentares. Parece até que nada urgente depende do Legislativo. No cargo desde fevereiro, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), deveriam acelerar o ritmo. Trabalho não falta.

A regulamentação das redes sociais segue sem receber atenção. Em junho do ano passado, o então presidente da Câmara, Artur Lira (PP-AL), anunciou a criação de grupo de trabalho com a missão de elaborar um texto para substituir o Projeto de Lei (PL) das Redes Sociais, alvo de ataques da oposição. No prazo de 90 dias, o Parlamento receberia o conteúdo novo para debate. Até agora, nada. Enquanto isso, as redes sociais continuam a trazer riscos, e as plataformas digitais a fingir que nada têm a ver com o assunto.

Poderes em disputa - Merval Pereira

O Globo

Crise institucional que abrange os três Poderes da República vem sendo armada com a discussão sobre a anistia aos acusados do golpismo

Uma crise institucional que abrange os três Poderes da República vem sendo armada com a discussão sobre a anistia aos acusados do golpismo que culminou com a vandalização dos prédios representativos de nossas instituições democráticas em Brasília. O governo foi surpreendido porque 146 deputados federais que supõe estarem em sua base parlamentar assinaram o pedido de urgência do projeto de anistia. A iniciativa não significa, fique claro, que os mesmos 262 que assinaram o pedido de urgência votarão a favor. No entanto a manobra legislativa que o líder do PL, Sóstenes Cavalcante, aplicou, protocolando o pedido de urgência para que nenhum dos assinantes possa retirar seu apoio, pegou o governo mais uma vez de surpresa.

O governo se considerou traído, o Supremo Tribunal Federal (STF) também está irritado com a atitude do Congresso, considerada uma afronta. Ministros pressionam o presidente Lula a fazer retirar assinaturas de apoiadores, algo que agora não há mais chance de acontecer. É uma crise envolvendo os três Poderes, com implicações importantes na relação de um governo de coalizão, mas sem muita eficácia. É uma coalizão sem consequência, pois os políticos têm seus interesses próprios e não respeitam mais a necessidade de ser fiéis ao governo para ter cargos e ministérios.

Projeto de anistia do PL é a antessala de uma crise institucional - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Débora do batom serve de biombo para o objetivo de anistiar os oito acusados de liderarem a tentativa de golpe de estado, entre os quais Bolsonaro, três generais e um almirante

O líder do PL, deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), protocolou na Câmara dos Deputados o pedido de urgência para o projeto de lei que anistia os presos pelo 8 de Janeiro de 2023. O documento, com 264 assinaturas, foi enviado à Mesa na tarde desta segunda-feira. A decisão de protocolar a proposta foi antecipada para pôr uma saia-justa no presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), e constranger parlamentares que haviam assinado o texto e pretendiam retirar seus nomes, após analisar o teor constitucional da proposta.

A eventual aprovação deste projeto deixaria o país à beira de uma crise institucional. O Congresso não é uma instância revisora das decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). É disso que se trata, pois as sentenças que estão sendo adotadas contra os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro estão dentro dos limites estabelecidos pela legislação penal. A discussão sobre os rigores da dosimetria das punições está se dando no âmbito da própria Corte. É o caso, por exemplo, do julgamento da cabeleireira Débora Rodrigues Santos, que ficou conhecida por pichar com um batom a estátua da Justiça, em frente ao STF.

As razões ocultas dos signatários da anistia - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Signatários da anistia somam o triplo da bancada do PL. São de partidos que integram o governo Lula mas querem enfrentar o STF para recuperar prerrogativas usufruídas sob Bolsonaro

Em menos de três meses desde sua volta à Casa Branca, a extrema-direita foi capaz de deixar em apuros o mercado de títulos públicos, reserva da poupança americana, desvalorizar o dólar frente às principais moedas e desmantelar cadeias mundiais de produção com as idas e vindas de seu tarifaço.

O Brasil tem conseguido escapar relativamente ileso, com chances de vir a ganhar mercados anteriormente ocupados pelos chineses, graças ao pragmatismo e à capacidade de negociação do Itamaraty e do vice-presidente Geraldo Alckmin.

O que resta por ser explicado é como, neste momento de demonstração inequívoca de incúria administrativa de Donald Trump, o bolsonarismo, que nele se espelha, dê sinais tão contundentes de vitalidade, como o alcance das assinaturas necessárias para a urgência do projeto que anistia os golpistas do 8/1, protocolado na tarde desta segunda na Câmara.

O recado da Câmara aos golpistas: - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Anistiar quem participou do 8/1 é um convite para que eles tentem de novo

Lula não chega a dormir com o inimigo, mas o recebe na sala oferecendo salgadinhos e uma cervejinha. Mais de cem deputados da base do governo assinaram o requerimento de urgência para a tramitação do projeto de lei que concede anistia aos envolvidos no 8/1. O União Brasil —cujo líder na Câmara, Pedro Lucas, irá assumir o Ministério das Comunicações— aderiu com mais da metade de seus parlamentares. E ainda há a proposta de um acordão.

Os profanadores do regime democrático e a impossibilidade constitucional de anistiá-los - Celso de Mello*

A data de 08 de janeiro de 2023 (“um dia que viverá eternamente em infâmia”, como enfatizou a eminente Ministra Rosa Weber, então Presidente do STF) representa, por efeito da invasão multitudinária e criminosa nela perpetrada contra os Poderes do Estado, o gesto indigno, desprezível e estigmatizante daqueles que, agindo como delinquentes vulneradores da ordem constitucional, não hesitaram em dessacralizar os símbolos majestosos da República e do Estado democrático de Direito.

Relembrar, sempre, a data de 08/01/2023, para repudiar o ultrajante vilipêndio cometido por mentes autoritárias contra o Estado de Direito — e para jamais esquecê-la –, há de constituir expressão de nosso permanente e incondicional respeito à Lei Fundamental do Brasil e de reafirmação de nossa crença na preservação do regime democrático, na estabilidade das instituições da República e na intangibilidade das liberdades essenciais do Povo de nosso País!

Naquele verdadeiro (e vergonhoso) “dies irae”, a escumalha radical, impulsionada por um inadmissível sentimento de fúria selvagem, invadiu, criminosamente, além das sedes do Congresso Nacional e da Presidência da República, o edifício do Supremo Tribunal Federal, neste provocando atos de vandalismo que SEQUER pouparam o busto de Ruy Barbosa, “Patrono dos Advogados Brasileiros”, contra quem tais delinquentes desferiram golpes que deixaram, em sua fronte, a marca de sua infame agressão!

A crise complica cenário do Brasil - Míriam Leitão

O Globo

A economia brasileira está desacelerando por conta dos juros altos. Com a guerra tarifária de Trump, o perigo fica maior

Para o Brasil, a crise atual das tarifas complica bastante a situação econômica. No melhor cenário, haveria queda do ritmo de crescimento, porém com desinflação, o que permitiria parar de subir os juros mais rapidamente. Em outro cenário, a desaceleração do PIB ou até recessão, viria com aversão a risco, desvalorizando o real diante de outras moedas. E, mesmo com a queda dos preços das commodities, a inflação permaneceria alta, não dando espaço para reduzir taxa de juros. Na política econômica, a guerra de Donald Trump inaugura um ciclo de maior perigo.

Brasil perde US$ 1,97 bilhão na guerra EUA-China - Assis Moreira

Valor Econômico

São Paulo e Minas seriam os maiores perdedores, enquanto Cento-Oeste e Rio Grande do Sul ganhariam

Brasil pode perder US$ 1,970 bilhão (R$ 11,5 bilhões) de exportações com a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, conforme simulação feita por economistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Na primeira simulação da equipe, levando em conta apenas as tarifas anunciadas por Donald Trump no começo do mês, incluindo taxação adicional de 10% sobre o Brasil, o país perderia cerca de US$ 7 bilhões de exportações, essencialmente de produtos industriais.

Caminho da diplomacia brasileira no século 21 - Gustavo Buttes*

Correio Braziliense

O Brasil possui um legado na diplomacia reconhecido globalmente, mas precisa se reinventar para ampliar sua influência e refletir na arena externa as demandas de uma sociedade plural

"Por que as nações fracassam?" — a pergunta central de Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson, vencedores do Prêmio Nobel de Economia em 2024, ecoa como um alerta para países que negligenciam o fortalecimento de suas instituições. Em tempos de crise global, em que autoritarismos avançam e democracias vacilam, a resposta está na construção de instituições inclusivas — aquelas que distribuem poder, incentivam a participação e se renovam sem perder solidez. O Serviço Exterior Brasileiro, diante dos desafios do século 21, encarna esse dilema: como preservar sua tradição de excelência sem se tornar refém de estruturas engessadas que, paralisadas pelo tempo, podem levar ao declínio? 

A carreira diplomática sempre esteve em constante evolução. Se, por um lado, a tradição garante a solidez institucional e a continuidade de princípios fundamentais, por outro, a inovação é indispensável para que a diplomacia responda aos desafios de um mundo em transformação. O Brasil possui um legado reconhecido globalmente, mas precisa se reinventar para ampliar sua influência e refletir na arena externa as demandas de uma sociedade plural. 

Cruzamento de crises e eleição no Equador - Gustavo Menon*

Correio Braziliense

Caberá ao campo progressista equatoriano, neste cenário de divisão, não apenas comprovar as teses de fraude e corrupção nos próximos dias, mas também se realinhar com as demandas dos setores populares

A reeleição de Daniel Noboa como presidente do Equador no último domingo, 13 de abril, com cerca de 55% dos votos válidos, foi marcada por acusações de fraude e questionamentos políticos por parte da oposição. Liderada por Luisa González, candidata do Movimento Revolução Cidadã (RC) e herdeira do capital político do ex-presidente Rafael Correa, que governou o país entre 2007 e 2017, a oposição rejeitou os resultados e denunciou irregularidades no pleito. Entre as denúncias, estão o estado de exceção decretado pelo atual presidente às vésperas do segundo turno e atas eleitorais que não foram devidamente preenchidas. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE), autoridade máxima da justiça eleitoral no país, declarou os resultados como "matematicamente irreversíveis", mas as acusações continuam a alimentar tensões políticas e agravam o cenário de cruzamento de crises no país.

Falta luz e o centro no fim do túnel - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro é réu, inelegível e doente, Lula beira os 80 anos, cansado e impopular; 2026 é grande incógnita

A nova cirurgia de Jair Bolsonaro, de 12 horas, joga luzes sobre a grande incógnita da eleição presidencial de 2026, quando os dois principais líderes políticos do País, Bolsonaro, pela extrema direita, e Luiz Inácio Lula da Silva, pela esquerda, dão sinais de que terão dificuldades para se candidatar e, portanto, para manter a sólida polarização brasileira.

Bolsonaro, 70 anos, tem sofrido efeitos colaterais bastante graves da facada que quase o matou durante a campanha de 2018, que ele venceu, e não se pode dizer que tenha exatamente uma saúde de ferro.

Insegurança absoluta - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O brasileiro está exausto e Brasília não percebe, a ilha da fantasia de todo desligada dos anseios do ser real. Brasília é Barroso flanando na Sapucaí. Todo mundo baleável nas grandes cidades – e o governo se organizando para combater roubo de celular. Todo mundo baleável – e a oposição unida pelo perdão a um golpista. Todo mundo baleável – e ministro de Corte constitucional comparando operação que pegou corruptos de bilhões ao PCC.

Os dias são Toffoli. Brasília, essa imagem, sendo a elite política cuja atividade consiste em convescotes pela manutenção do próprio poder-privilégio – em defesa da democracia. Brasília é quando Moraes encontra Pacheco, quando Dino encontra Alcolumbre. Quando a solução é Motta, o vip do orçamento secreto que respeita os ritos – um Lira democrata. Quando o dissenso é Fux.

O mundo que minha filha vai encontrar - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Ela não poderá ser uma espectadora passiva do que virá; terá que lutar por seu espaço

Na quarta-feira passada nasceu minha filha mais nova. Talvez seja o caos global do governo Trump; talvez sejam os meus 40 anos se aproximando; o fato é que só nesta, que é minha filha número 4, me dei conta de como o mundo que a espera é diferente daquele em que eu cresci.

Na minha adolescência nos anos 1990 e início dos anos 2000, parecia haver consenso. E não era para menos: por um breve período de uns 20 anos, os EUA não tinham quem lhe fizesse frente. A Rússia parecia se democratizar e entrar na ordem liberal e da China se esperava que, conforme enriquecesse, também se liberalizasse.

A culpa é de quem? - Ranier Bragon

Folha de S. Paulo

Terceiro mandato do petista abriga partidos infiéis, mas parece não haver muito para onde escapar

Há cerca de um ano discute-se uma reforma ministerial no governo Lula.

A data parecia definida: o fim de 2024, após as eleições municipais. Seria a hora de realocar partidos, privilegiar vencedores e montar a equipe da segunda metade do mandato.

Um time que, essencialmente, marcharia em busca de um quarto mandato para o petista em 2026.

O tempo passou, 2024 acabou, lá se vão três meses e meio de 2025 e até agora Lula só mexeu peças do próprio PT.

Projeta-se apenas uma troca em pasta do União Brasil, mas porque o titular se enrolou com acusação de desvio de emendas.

Contra argumentos, não há fatos - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Governo Trump põe em postos-chave pessoas que rejeitam método para reconhecer o que é e o que não é fato

Fãs que somos do Iluminismo, gostamos de imaginar a História como um processo pelo qual a razão e a ciência avançam paulatina, mas irresistivelmente. Ao fazê-lo, vão banindo os preconceitos e as superstições que colonizam as mentes das pessoas, num jogo que culminará na emancipação da humanidade.

Isso, é claro, nunca passou de "wishful thinking". O homem não é nem nunca será um ser perfeitamente racional, e a própria razão tem seus limites. Não obstante, nos últimos dois séculos, obtivemos grandes conquistas civilizatórias baseadas em avanços científicos e filosóficos. Reduzimos drasticamente a mortalidade infantil e reconhecemos a existência de direitos humanos universais, para dar apenas dois exemplos.

Três vidas difíceis - Ricardo Marinho*

Em memória de W. E. B. Du Bois (1868-1963)

Ocasionalmente, livros com temas improváveis se revelam fascinantes, rompendo barreiras temáticas e explorando regiões raramente investigadas. Leo Spitzer escreveu uma obra assim. À primeira vista, suas histórias familiares da Áustria, Brasil e Serra Leoa pareceriam desconexas. Os progenitores eram pessoas modestas, nascidas no judaísmo e em sociedades embebidas na escravidão. As gerações posteriores lutaram para alcançar a respeitabilidade, apenas para encontrar outros obstáculos à mobilidade sociocultural. No entanto, viveram em mundos marcadamente diferentes, e suas trajetórias nunca se cruzariam. Quem imaginaria que uma história conectada pudesse emergir dessas vidas díspares?

Humanismo e Frente Ampla – Ivan Alves

Aprendi com a vida o quanto é importante assimilar o sentido profundo daquela frase do psiquiatra da Martinica Frantz Fanon – ou seja, procurei fazer de mim mesmo um “homem que se interroga”. Perguntar vem do latim percontare, e nesta palavra há o termo contus, isto é, uma ripa comprida de madeira com a qual é possível remexer uma superfície até tocar o fundo. Procurei conhecer a marcha e seguir em frente, como está dito na bela canção de Renato Teixeira e Almir Sater.