Folha de S. Paulo
Principal projeto relatado pelo senador em
oito anos quase tirou direito do consumidor a indenização mais alta por
problemas em viagens
Judicialização no setor aéreo é alta, mas
representa só 1% dos custos, e redução de direitos do consumidor não baixará
preço das passagens
Flávio Bolsonaro (PL) participou pouco das
discussões legislativas no Senado. Em oito anos, teve dois projetos
aprovados como coautor e menos de uma dúzia como relator. Um
deles dá uma pista de para qual lado pende o 01.
Há dois anos, ele foi o responsável por negociar a nova Lei Geral do Turismo. As 19 páginas de alterações legislativas eram propícias aos acordos de bastidores típicos do Congresso: um lobby influente atua nos gabinetes, sugere mudanças técnicas indecifráveis no meio de um texto mais amplo, e a população só se dá conta quando já perdeu (mais) um direito.
O projeto não tratava disso, mas Flávio
resolveu incluir artigos para reduzir indenizações por problemas em voos. A
mala desapareceu durante a viagem? Perdeu o casamento de um amigo ou o show de
sua banda favorita? Lamentamos, a indenização ficaria limitada a
"compensar o dano comprovado".
Hoje, a lei é mais flexível sobre o valor das
indenizações. Pelas mudanças propostas pelo senador, esses processos deixariam
a esfera do Código de Defesa do Consumidor e seriam regulados pelo CBA (Código
Brasileiro de Aeronáutica) —que, veja só, protege as empresas.
Flávio não agiu sozinho, e a mudança contava
com o apoio de parte dos ministérios do governo Lula (PT).
Havia argumentos: as empresas pagam R$ 1 bilhão em indenizações no Brasil todos
os anos, com o maior volume de processos no mundo, o que afasta outras
companhias.
As consequências só não eram populares, e
Flávio preferiu omitir de seus discursos no Senado a alteração que estava sendo
feita. Passou despercebida na Casa, mas foi rejeitada pela Câmara após a imprensa revelar o impacto para os passageiros.

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