O Estado de S. Paulo
TSE planeja barrar o uso de avatares em campanhas por considerar a prática ‘deepfake’
Diga adeus ao laranja e ao boneco de posto: a
temporada é dos candidatos de mentira. Munida de inteligência artificial, a
campanha de Flávio Bolsonaro recriou a imagem e a voz do pai dele para atrair
eleitores. Enquanto isso, o Jair de verdade estava em prisão domiciliar,
proibido de falar sobre política. Foi o primeiro cabo eleitoral virtual de
2026.
Em tese, o artifício pode ser usado não apenas para criar apoiadores, mas para aprimorar a imagem do próprio candidato. Não seria necessário refazer os dentes, substituir a calvície por implante capilar ou dar uma passadinha no cirurgião plástico na tentativa de conquistar mais votos. A IA cuidaria de tudo. E, de quebra, faria um discurso melhor que o do titular da foto na urna.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) planeja
frear essa prática antes que ela pegue. Em uma reunião agendada para hoje, os
ministros pretendem chegar a um consenso sobre o uso de IA nas campanhas.
Integrantes da Corte apostam na proibição de todo e qualquer avatar.
A ideia é julgar a questão em plenário a
partir da próxima semana, quando as campanhas chegarão oficialmente às ruas. A
decisão será tomada no processo sobre o Jair de mentira exibido pela campanha
de Flávio. Como o avatar discursou em uma convenção partidária, não em um ato
de campanha, o mais provável é que o presidenciável seja punido apenas com
multa.
O julgamento, no entanto, vai sedimentar
parâmetros para as campanhas deste ano. Ao fim da sessão, os ministros querem
avisar que o uso de avatar pode ser considerado abuso, com risco de cassação
para o candidato que cometer o ilícito. A Corte deve classificar os avatares
como “deepfake”, que foi banida na resolução do TSE sobre IA. Faltou explicar o
que o termo abrange na prática.
Na mesma reunião, os ministros vão debater
regras para pesquisas eleitorais. Flávio também será parâmetro. Em junho, o
presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, barrou uma pesquisa que mostrava o
candidato em queda. Ele argumentou que, ao apresentar recursos de audiovisual
para os entrevistados, o instituto de pesquisa induziu as respostas.
A tendência é de o Tribunal liberar áudios e
vídeos nas enquetes, desde que o método seja previamente registrado na Justiça
Eleitoral. Há ministros que defendem o uso da ferramenta somente depois que o
eleitor for perguntado, de forma espontânea, em quem vai votar, para evitar
manipulação do resultado.
Com as premissas firmadas, o número de ações
que chegariam ao TSE neste ano poderia diminuir. De quebra, a Corte poupa os
eleitores de parte dos políticos de mentira – ao menos daqueles gerados por IA.
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