O Globo
Ficou assim: a sua turma é mais corrupta que
a minha. Nessa disputa de quem tem o mais corrupto, os pecados se anulam
A corrupção é tão antiga quanto a
administração pública. Mas não se dá sempre da mesma maneira. Há momentos em
que prevalece o sentimento de respeito ao bem público. Forma-se um ambiente de
honestidade entre os que participam ou se relacionam com os governos e a população
em geral. Daí derivam a indignação com o roubo e a vergonha de ser apanhado.
Há momentos em que a roubalheira desanda. Os
episódios se multiplicam no noticiário e, pior, o público parece não se
importar com isso. Quem é apanhado não se arrepende de seus atos. Ao contrário,
mostra-se indignado por ser acusado e responde com desculpas as mais
esfarrapadas.
O Brasil vive um desses momentos. Acontece à direita, à esquerda e nesse ajuntamento chamado de Centrão. Tudo diante de um público que ou não se incomoda — “política é assim mesmo” — ou simplesmente perdeu o ânimo de protestar.
Tome-se o caso do senador Flávio Bolsonaro.
Depois de ter negado qualquer envolvimento com o tóxico Daniel Vorcaro, foi
surpreendido pelo vazamento de um áudio em que pede milhões de reais ao então
banqueiro. “Qual o problema?” — respondeu mais ou menos assim. Disse que se
tratava de uma transação privada — o financiamento para o filme “Dark Horse”,
que santifica seu pai.
Mas, se era algo tão banal, por que o
dinheiro precisou dar tantas voltas entre empresas e fundos de investimento até
chegar ao destino? Aliás, que destino? O dinheiro foi todo para os Estados
Unidos? Voltou em parte ao Brasil? Como foi distribuído? Tem recibo?
Uma transação privada não precisa ser
explicada publicamente. Mas, quando um candidato a presidente da República pede
dinheiro a um banqueiro que comprou, digo, financiou tanta gente em Brasília,
aí já não é um negócio particular. Por isso precisava ficar escondido. Continua
assim, mal explicado, enquanto o senador já se ocupa de outros enroscos, como
aqueles em que aparece seu companheiro de chapa, o deputado Alfredo Gaspar.
Tome-se, do outro lado, o caso de Marco
Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Lula. Foi apanhado
recebendo dinheiro da lobista Roberta Luchsinger, ativa na promoção de negócios
junto ao governo federal. Ela pagou boletos de um funcionário de que dependia
para marcar alguns encontros com integrantes da administração. A resposta foi a
mesma de Flávio. Tratava-se de negócio particular, um empréstimo pessoal feito
por Luchsinger. Lula confirmou:
— Quem aqui nunca pediu empréstimo para um
amigo?
Não pode, presidente. Não nesse caso. Mesmo
que Luchsinger e Marcola sejam as pessoas mais honestas do mundo, um
funcionário público que abre portas da Presidência não pode receber um tostão
de quem precisa passar por aquelas portas. Se fosse tão simples quanto alega o
presidente, não teria sido preciso afastar Marcola do governo e de sua
campanha.
Flávio manteve-se competitivo nas pesquisas
eleitorais que saíram depois de conhecidas suas relações com Vorcaro. Terá
perdido alguns poucos pontos, mas continua aí, na cola de Lula. O presidente
também passou batido pelos problemas envolvendo seu pessoal. Como o caso do
senador Jaques Wagner, apanhado pedindo um favorzinho a um sócio de Vorcaro, o
também banqueiro Augusto Lima. Um negócio de R$ 2,5 milhões. Lima compraria um
apartamento em Salvador, com diversas manobras contábeis, e passaria o imóvel
ao senador. E este pagaria quando pudesse. De novo, uma pequena transação
privada.
Um dos filhos do presidente Lula, Fábio Luís
Lula da Silva, o Lulinha, amigo de Roberta Luchsinger, é alvo de três
inquéritos no STF, investigado por tráfico de influência. Nesse caso, nem
Lulinha, nem Luchsinger deram explicações públicas. Por ora, vão levando.
Em toda campanha eleitoral no Brasil há
denúncias de corrupção. Desta vez ficou assim: a sua turma é mais corrupta que
a minha. Nessa disputa de quem tem o mais corrupto, os pecados se anulam. O
eleitor parece deixar passar, ou por tolerância ou por desânimo.

2 comentários:
cARLINHOS
cARLINHOS: teu artigo faz parecer q a corrupção só existe entre os agentes públicos. Ignora que ela é uma via de mão dupla. E se esquece de dizer q a corrupção em empresas e negócios privados grassa à solta...
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