Folha de S. Paulo
Polarização e empate virtual colocaram
campanhas em modo vale-tudo
Moderação deixou de ser virtude, mas eleitor
centrista ainda deverá ter palavra final
Sempre gostei da expressão "guerras
intestinas". O adjetivo "intestino" denota com precisão
etimológica que o conflito se dá entre facções "internas" a um país
e, ao mesmo tempo, torna quase inafastável a interpretação conotativa de que se
trata de uma guerra que envolve sujeira e baixarias. Nós quase sentimos o
cheiro ruim da disputa. A campanha presidencial brasileira se tornou uma guerra
intestina.
Os dois campos principais parecem ter perdido o pudor e recorrem a estratégias e truques que provavelmente evitariam num embate menos polarizado. Populismo e mentiras sempre se fizeram presentes em campanhas, mas agora correm quase sem limites. A cara de pau e a hipocrisia, idem. E ambos os lados mobilizam todos os recursos que têm à sua disposição, incluindo suas respectivas bancadas no STF, que vai acumulando mais camadas de degradação institucional.
Quanto a nós, eleitores, vamos dormir na
esperança de acordar com o vazamento que implodirá a candidatura que mais
rejeitamos. Isso não acontecerá. Rodrigo
Tavares mostrou num ótimo artigo que
o mundo em que o grosso do eleitorado reagia de forma uníssona a escândalos não
existe mais. Lulistas e bolsonaristas típicos tudo perdoam a seus ídolos e veem
qualquer indício contra o adversário como prova de crime.
Seria a morte da moderação, que por muito
tempo foi a marca das democracias liberais? Sim e não. A versão virtuosa do
teorema do eleitor mediano, segundo a qual os próprios candidatos assumiam
posições equilibradas para atrair o maior número possível de votantes, saiu de
moda. Mas, com o pleito virtualmente empatado, a definição da contenda
continuará cabendo à fatia dos eleitores que não se identifica organicamente
nem com Lula
nem com os Bolsonaros. São esses cidadãos que as campanhas buscam agora
influenciar com táticas de guerrilha.
A perspectiva de que a palavra final não esteja
com os radicais é positiva, mas é pena que a moderação tenha deixado de ser um
valor democrático para tornar-se mero artefato estatístico.
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