Folha de S. Paulo
Legislativo é o único dos Poderes cuja
composição depende 100% das escolhas da sociedade
Exceção são os senadores reservas, que não
passam pelo crivo do eleitor e distorcem a representação dos estados
Pesquisa recente Atlas/Estadão sobre a
confiança do público nas instituições traz a esperada queda no conceito do
Supremo Tribunal Federal e confirma que o Congresso
Nacional tem o mais baixo índice no quesito: só 8% confiam nos
próprios representantes.
O Parlamento e os partidos sempre figuraram nos últimos lugares nesse tipo de levantamento. Dessa realidade emerge um paradoxo: o Poder Legislativo é o único dos três pilares da República cuja composição depende 100% das escolhas da população.
Portanto, uma hipotética e idealística tomada
de consciência coletiva do eleitorado poderia levar à decisão de fazer da Casa
legislativa um ambiente à altura das expectativas de confiabilidade. Tal
enunciado teórico esbarra no fato de que, bem ou mal, os congressistas são o
espelho da sociedade —que lhes repudia o desempenho, mas não leva em conta os
critérios de qualidade na hora da votação.
Problema do sistema proporcional, o distrital
resolveria? Talvez, mas e o Senado
formado por eleição em voto majoritário?
Os pesquisadores dizem que os representantes
da chamada Casa alta são os últimos a serem escolhidos. Ora, se isso é feito
praticamente na boca da urna com relação aos titulares, a desatenção é total
quando se trata dos suplentes.
Os dois estepes não passam pelo crivo do
eleitor. Entram nas chapas parentes, financiadores
de campanha, amigos, políticos aposentados, funcionários ou qualquer
pessoa que atenda às conveniências dos candidatos.
Esse ponto está longe de ser irrelevante.
Primeiro, porque as substituições não acontecem apenas por motivo de força
maior. Muitas vezes ocorrem por acertos de cessão do lugar de senador acidental
por meses e, a depender do trato, por boa parte do mandato.
Houve períodos em que quase metade —mais de
40%— do Senado foi ocupado por gente sem voto. Além de distorcer a
representação dos estados, isso remete ao senador biônico criado pela ditadura
militar em 1977, extinto na abertura, mas na prática em vigor até
hoje.

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