segunda-feira, 19 de outubro de 2009

No Globo News Painel, Jungmann debate a falta de uma reforma agrária eficaz no Brasil

Por: Globo News

A concentração de terra e a falta de uma reforma agrária eficaz no Brasil

Como o Brasil está resolvendo os problemas no campo?


A questão da concentração de terra no Brasil é antiga, assim como a desigualdade na distribuição de latifúndio no país. O ex-ministro da Reforma Agrária Raul Jungmann, que hoje é deputado federal (PPS-PE), fala sobre exemplos de distribuição de terras em outros países do mundo. As polêmicas em torno dos números do setor agrícola brasileiro também provoca distorções sobre como está a situação das famílias que vivem no campo. O programa discute também as ações do Movimento dos Sem terra (MST). William Waack debate esses assunto com Raul Jungman, com o secretário de Planejamento de Agricultura de São Paulo, João Sampaio, e com o agrônomo José Maria da Silveira.

Sem vandalismo e sem nostalgia

Entrevista : Rodolfo Hoffmann
Por Ivan Marsiglia
O ESTADO DE S.PAULO / ALIÁS

Percepção sobre a terra mudou; Brasil carece mais de reforma da Previdência do que a agrária, diz especialista


A estrutura fundiária brasileira mantém-se essencialmente a mesma, gerando desigualdades e reproduzindo desequilíbrios históricos, apesar dos avanços na legislação e na ampliação dos direitos do trabalhador rural. É o diagnóstico de um dos grandes especialistas em economia agrária do País.

No momento em que a sociedade brasileira assiste a mais um dos intermitentes episódios de violência no campo - com a destruição de milhares de pés de laranja de uma fazenda do Grupo Cutrale por militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que depois justificaram sua ação pelo fato de a empresa estar supostamente instalada em terras griladas da União -, o debate sobre a reforma agrária volta às manchetes dos jornais. E o tema, uma espécie de tabu nacional, a ponto de historiadores atribuírem ao projeto de mudanças no campo defendido pelo ex-presidente João Goulart o próprio golpe militar de 1964, ressurge em contexto democrático, porém ainda acirrando os ânimos.

Para o agrônomo paulistano Rodolfo Hoffmann, de 66 anos, a questão que se coloca é: de qual reforma agrária o País precisa? "Como cidadão, tenho simpatia pela ideia de facilitar o acesso à terra às pessoas que se proponham a cultivá-la", diz o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), e professor associado do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Por outro lado, é necessário condenar as invasões e, particularmente, o vandalismo."

Com pós-doutorados nas universidades norte-americanas de Berkeley e Yale, Hoffmann põe de lado, na entrevista a seguir, velhas ideias sobre o assunto, inclusive as suas próprias: "Em 1964 eu acreditava que as "reformas de base", incluindo a agrária, eram indispensáveis para o crescimento econômico do País. A história mostrou que isso não era verdade".

Enquanto prepara uma nova edição, atualizada, de seu livro mais conhecido, Distribuição de Renda: Medidas de Desigualdade e Pobreza (Edusp, 1998), o professor defende que as políticas de acesso à terra no Brasil não se restrinjam ao mecanismo da desapropriação - cara e nem sempre eficaz - e sustenta: "Para reduzir a desigualdade da distribuição da renda neste País, uma reforma da Previdência seria mais efetiva do que uma reforma agrária".

Imagens de militantes do MST destruindo pés de laranja numa fazenda da Cutrale em Borebi, no interior de São Paulo, chocaram o País. No seu entender, trata-se de um caso de polícia ou de política?

Não é correto associar a ineficiência do sistema de Justiça apenas a um crime praticado pelo MST. A Justiça brasileira se mostrou eficiente na apuração do assassinato do líder seringueiro Chico Mendes ou da missionária Dorothy Stang? Um crime não justifica outro, mas não tem sentido impor regime de "tolerância zero" apenas ao MST. Cabe assinalar que a eficiência da Justiça não depende apenas do Judiciário, mas também da existência de leis bem elaboradas, nas quais estejam bem claras as penalidades a serem aplicadas a cada tipo de crime. E é óbvio também que uma atitude de leniência do Executivo, diante de abusos, torna ainda mais difícil uma ação incisiva da Justiça.

Com a repercussão negativa das imagens de destruição do laranjal, o MST veio a público dizer que a fazenda da Cutrale estaria em terras "griladas", pertencentes à União, que deveriam estar sendo usadas para a reforma agrária.

Pois cabe à Justiça decidir de quem é a propriedade legal das terras. Há um processo questionando a propriedade legal? A tramitação tem sido retardada por formalismos jurídicos? Bom tema para uma reportagem investigativa.

Como o senhor vê o MST, movimento que completará 25 anos em breve? Acha que ele perdeu a comunicação que tinha originalmente com a sociedade? Deixou de ter apoio da opinião pública? Coopta setores do governo ou é cooptado por ele?

Eu nunca tive ligação com o MST e o movimento não é tema de meus estudos, ainda que eu procure relacionar a estrutura fundiária com o elevado grau de desigualdade da distribuição da renda no Brasil. Como cidadão, tenho simpatia pela ideia de facilitar o acesso à terra às pessoas que se proponham a cultivá-la. Nesse sentido, na década de 1990 cheguei a participar da Abra, a Associação Brasileira de Reforma Agrária. Posteriormente, achei que ela começou a adotar uma posição excessivamente crítica em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso e me afastei. É uma tristeza para o País essa disputa política renhida entre PT e PSDB - partidos que, no fundo, têm várias posições semelhantes. No fundo, Lula não fez tão mais pela reforma agrária do que Fernando Henrique, que era duramente criticado pelo PT, que o acusava de inoperante. Não sei avaliar se, ao longo dos últimos 25 anos, o MST se distanciou da sociedade, mas me parece que o discurso pela reforma agrária antes somava mais apoios. E, de toda forma, é necessário condenar as invasões e, especialmente, o vandalismo.

Um artigo publicado recentemente pelo senhor demonstra a permanência da desigualdade na posse da terra no Brasil. Por que esse quadro se mantém?

Sim, conforme dados coletados pelo IBGE no Censo Agropecuário de 2006, os estabelecimentos com menos de 10 hectares ocupam apenas 2,4% da área de cultivo no Brasil, ao passo que os estabelecimentos com 1.000 hectares ou mais ocupam 44,4% dela. Esses números já seriam suficientes para provar que a desigualdade na distribuição da posse da terra tem se mostrado extraordinariamente estável nas últimas décadas.

Tentativas de se modificar a realidade no campo pouco avançaram?

Eu não diria isso. Embora a desigualdade da estrutura fundiária se mantenha ao longo do tempo, me parece inapropriado dizer que todas as tentativas de mudar esse quadro fracassaram. Hoje há toda uma legislação e órgãos do Estado que, sob fiscalização da mídia e dos sindicatos, garantem ao trabalhador rural direitos praticamente inexistentes há meio século. É notório que a aposentadoria do trabalhador rural, estabelecida em meio salário mínimo no governo militar, que a Constituição de 1988 elevou para um salário mínimo, teve efeitos substanciais na melhoria das condições de vida dos pobres e na redução da desigualdade. Sabe-se, também, que programas de transferência de renda como o Bolsa-Família tiveram efeito benéfico na distribuição da renda na área rural do País.

Mas, enfim, os resultados do Censo Agropecuário apontam alguma mudança nessa estrutura?

Ocorrem, sim, mudanças na estrutura fundiária. Considere-se, por exemplo, o Estado de São Paulo, onde o índice de Gini da distribuição da terra entre estabelecimentos agropecuários era de 0,758 no Censo de 1995/96 e aumentou para 0,804 no de 2006. O aumento do índice de Gini tem sido erroneamente interpretado como aumento da "concentração" da posse da terra em latifúndios. Se tivesse ocorrido apenas o crescimento dos latifúndios, a área média deveria ter crescido. No entanto, ela caiu de 79,8 hectares para 74,1 hectares. Isso mostra que ele aumentou essencialmente devido ao crescimento do número de pequenos estabelecimentos - com menos de 16 hectares. Coisa semelhante aconteceu no Espírito Santo e em Minas Gerais. O que causou o crescimento do número de pequenos estabelecimentos nesses Estados é algo que precisa ser pesquisado. A mecanização das atividades agropecuárias teria o efeito oposto, pois permite que uma família explore uma área maior. Uma hipótese a ser investigada seria o aumento do número de chácaras para lazer.

Mas o senhor diria que a aposentadoria do trabalhador rural já conseguiu alterar a realidade do campo?

Sim. Mas é importante esclarecer que há dois sistemas oficiais de Previdência: o geral (INSS) e o especial dos funcionários públicos estatutários, que ainda se aposentam com o salário integral. Dentro do sistema geral, as aposentadorias de trabalhadores rurais que não contribuíram para o sistema têm o benefício fixado em um salário mínimo. Há grande número de aposentadorias e pensões nesse valor e um número relativamente pequeno de aposentadorias em valores bem maiores - associadas com cargos públicos de alto escalão. E o que se constata é que o sistema como um todo gera aposentadorias e pensões muito desiguais e, portanto, não contribui para reduzir a desigualdade da distribuição da renda, como acontece, em geral, nos países desenvolvidos.

Ou seja, a aposentadoria rural acaba sendo pouco distributiva...

Exato. Um aumento proporcionalmente uniforme nas rendas agrícolas iria contribuir para reduzir a desigualdade da distribuição da renda no país. Tendo em vista isso, de um ponto de vista estatístico, sem levar em consideração aspectos jurídicos e políticos, para reduzir a desigualdade da distribuição da renda no Brasil uma reforma da Previdência seria mais efetiva do que reforma agrária. Esse é o tema de um excelente livro, A Previdência Injusta, do britânico radicado no Brasil Brian Nicholson.

Como comparar a estrutura fundiária no Brasil com a de outros países do mundo?

Os países da América Latina se caracterizam, em geral, por apresentar elevada desigualdade tanto na distribuição da terra quanto na distribuição da renda. A desigualdade na Europa é muito menor. Mas parece mais apropriado comparar o Brasil com países de extensão territorial semelhante, como os Estados Unidos, onde a desigualdade da estrutura fundiária também é menor. Há estudos clássicos mostrando os momentos críticos da história que condicionaram essa diferença estrutural. Enquanto no Brasil a Lei de Terras de 1850 dificultava o acesso a esse bem pelo trabalhador livre, indicando a opção da classe que detinha o poder político em favor da consolidação da grande propriedade rural, nos EUA o Homestead Act, de 1862, estabelecia a distribuição gratuita de terras à razão de 160 acres, cerca de 65 hectares, por família.

A problemática da terra sempre foi um tema sensível no País. Historiadores afirmam que o projeto de reforma agrária do ex-presidente João Goulart foi uma das razões do golpe militar de 1964. Como as gerações mais jovens, que não viveram aqueles tempos, veem a questão?

Mesmo não sendo sociólogo ou antropólogo, me parece claro que a percepção do problema da terra se modifica ao longo das gerações, em função das mudanças na estrutura econômica. Para o meu avô camponês o acesso à terra representava a possibilidade de obter a subsistência para a sua família. Já os meus netos estão sendo criados em apartamento, onde nem mesmo a moradia está associada diretamente a uma área de terra. Portanto, tais percepções vão se transformando ao longo do tempo.

Mas a reforma agrária ainda é essencial ao Brasil ?

Essencial para o quê? Em 1964 eu acreditava que as "reformas de base", incluindo a agrária, eram indispensáveis ao crescimento econômico do País. A reforma agrária seria essencial para dinamizar o mercado interno. A história mostrou que isso não era verdade. No período 1967-1980 houve crescimento econômico rápido associado a um processo de crescimento da desigualdade da distribuição de renda.

A agricultura brasileira é uma das mais pujantes do mundo e hoje o País disputa o mercado mundial de commodities. Qual é o lugar da agricultura familiar, nesse contexto?

O IBGE divulgou uma análise da agricultura familiar no Brasil, que hoje ocupa 80,25 milhões de hectares - 24,3% da área total dos estabelecimentos agropecuários. O estudo revela que a agricultura familiar apresenta uma produtividade da terra relativamente elevada. Ela representa hoje, por exemplo, 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% da produção de leite, 21% do trigo e 16% da soja. Veja que a soja é um dos principais produtos de exportação brasileiros, mas também é a matéria prima do óleo comestível mais consumido no País.

Qual é a melhor definição de reforma agrária que o senhor conhece?

Lembro o conceito defendido por um de meus mestres, José Gomes da Silva (agrônomo paulista, professor da Esalq e pai de José Graziano da Silva, ex-coordenador do programa Fome Zero no governo Lula e atual subdiretor da FAO, organização das Nações Unidas para agricultura e alimentação), ainda em 1967: "Reforma Agrária é um processo amplo e imediato de redistribuição de renda que se opera na agricultura, com a ativa participação dos próprios interessados, a partir da modificação do sistema de posse, uso e gozo da terra, objetivando a elevação humana, social, econômica e política da população que a trabalha como minifundista, precarista ou assalariada".

Continuamos distantes dessa definição?

Estamos longe de uma democracia ideal onde todo cidadão teria o mesmo poder na elaboração das leis e na escolha das políticas públicas. Basta acompanhar o noticiário para saber que o poder econômico é muito importante. Mas é claro que isso se aplica tanto ao setor agrícola como aos grandes capitais da indústria e do setor de serviços. Foi notório, também, o poder do lobby dos funcionários públicos resistindo às reformas no sistema previdenciário. Por outro lado, é claro que o interesse público pode em algum momento sobrepujar o interesse de grandes empresas - como mostram as crescentes restrições ao fumo.

Qual seria hoje, na opinião do senhor, um modelo viável de reforma, que fosse inclusivo, provocasse menos traumas sociais e apontasse para o desenvolvimento sustentável?

Não tenho uma receita. Acredito que devam ser promovidas políticas que facilitem o acesso à terra para os que querem cultivá-la, respeitando as limitações ambientais. A desigualdade no campo não é maior nem menor que a do País em geral: segue o padrão brasileiro. A inércia de nossa herança histórica concentradora faz com que o acesso à terra ainda seja restrito no Brasil. Mas não vejo razão para limitar essas políticas aos assentamentos do programa de reforma agrária, que tem um custo elevado no processo de desapropriação.

Quais são essas alternativas ao alto custo da desapropriação?

Seria preciso colocar tudo na ponta do lápis. Por exemplo: quanto o governo gasta hoje com uma estrutura como a do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)? Quanto custa o processo todo, da aquisição da terra até o assentamento dessas famílias, incluindo a desapropriação, despesas com advogados, etc.? Será que não seria mais produtivo investir esse dinheiro no Bolsa-Família? Ou em um programa de financiamento para aquisição de terra pelo pequeno produtor rural, a juros baixos? Uma medida importante seria aperfeiçoar o imposto territorial rural, tornando-o mais progressivo, para que quem tem mais pague mais do que quem tem menos. E, em muitas áreas deste imenso país é necessário um processo de regularização da propriedade legal das terras. A escolha racional de políticas públicas exige que sejam avaliados tanto os seus benefícios como os seus custos. E aí estou cometendo o velho vício acadêmico: propor mais estudos e pesquisas.

Tiro ao alvo

Fernando de Barros e Silva
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Alvejado no ar, o helicóptero explode ao tentar o pouso e dois policiais morrem, carbonizados. Há feridos, um em estado muito grave. Pela primeira vez, o tráfico derruba um helicóptero da PM no Rio -mais uma barreira foi transposta pelo crime organizado.

A polícia mobiliza entre 2.000 e 3.000 homens, recebidos com barricadas de pneus em chamas. Uma escola pública fica parcialmente destruída pelo fogo e oito ônibus são incendiados pela cidade para desviar a atenção do Morro dos Macacos, na zona norte.

O saldo do sábado é de 15 mortos e oito feridos. Ontem, novos confrontos na Favela do Jacarezinho resultaram em mais dois cadáveres.

Alguém poderia dizer que a Olimpíada no Rio já começou. Pela prova de tiro ao alvo. Mas não há, diante dessas cenas, espaço para gracejos, tampouco para o discurso triunfalista de duas semanas atrás. Se isso não for guerra civil, qual é o nome?

Ainda atônito, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, tentava circunscrever a barbárie: "Isso não é um problema do Rio. Isso é o problema de uma região, está acontecendo num ponto muito específico da cidade".

Parecia fala para inglês ver, como se fosse dirigida a algum fantasma do COI em Copenhague, e não aos moradores, exaustos ou anestesiados, de uma cidade que vive refém de uma rotina de terror intolerável.

A questão, aqui, não é saber se o Rio poderá sediar uma Olimpíada. Vai sediar, na base da maquiagem midiático-militar das suas fraturas expostas. A questão é saber se um dia ainda seremos um país decente.

Até onde a vista alcança, o conflito do tráfico no Rio ficou insolúvel. Sérgio Cabral parece enxugar gelo com seu bangue-bangue após décadas de favelização e omissões criminosas do Estado. Haverá dinheiro e energia social suficientes para reverter a dinâmica histórica de desmanche da vida civilizada? Por ora, vimos só a vingança da vida como ela é sobre o festival de ilusões protagonizado por Lula e sua claque.

A propósito do Nobel de economia

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O prêmio Nobel de economia tem sido outorgado a especialistas de perfil diverso quanto às perspectivas adotadas sobre o instrumental analítico da disciplina e suas consequências para as relações com disciplinas afins. Um perfil se ilustra com Gary Becker (1992), talvez o melhor exemplo de economista a tratar simplesmente de estender os postulados e instrumentos da análise neoclássica tradicional a novas áreas temáticas e a buscar a teoria econômica do crime, da família ou do comportamento humano em geral. Ele contrasta fortemente, por exemplo, com George Akerlof (2001), empenhado em trazer à análise tradicional intuições sociológicas (e psicológicas, antropológicas: fazer uma "psycho-socio-anthropo-economics", como formula ele próprio em texto de 1984), ou com Daniel Kahneman (2002), um dos principais responsáveis pela introdução do que se tornou conhecido como a "economia comportamental", atenta às dificuldades envolvidas na adesão ao postulado de racionalidade dos agentes.

Este ano, a balança pendeu claramente para o lado inclinado a revisões e reorientações. Além de Oliver Williamson, economista que, contra os neoclássicos, salienta os "custos de transação", contrapõe hierarquias a mercados e se dedica a problemas de "governança", temos Elinor Ostrom, que, além de mulher (a primeira a ganhar o prêmio), não é sequer economista, e sim cientista política. Seu trabalho se insere numa linha que, incluindo profissionais de várias áreas e pretendendo mesmo eventualmente unificar as "ciências do comportamento", tem permitido, internamente à ciência política, a oposição criativa à intensa penetração do campo pelos supostos e instrumentos da economia neoclássica ocorrida no último meio século, com a difusão da chamada abordagem da "escolha racional". Um artigo recente ("Policies That Crowd out Reciprocity and Collective Action", 2005) dá acesso, em forma sintética, a aspectos salientes da empreitada.

O ponto crucial pode ser posto em termos de questionar o que se tornou conhecido, desde um trabalho de Mancur Olson que se inscreve entre os pioneiros na afirmação do "imperialismo" da economia ("A Lógica da Ação Coletiva"), como o "dilema da ação coletiva": indivíduos descritos às vezes como "egoístas racionais", aptos ao cálculo orientado pelo interesse próprio, especialmente interesses materiais, tenderão a não agir de maneira condizente com o interesse coletivo, e a realização deste exigiria que eles fossem expostos a "incentivos seletivos" (ou remunerados ou coagidos, em particular pelo Estado) para se obter a conduta apropriada. Em contraste, a perspectiva de Ostrom e outros sustenta que a melhor suposição para explicar o comportamento humano não seria a referida à mera disposição à maximização de ganhos ou utilidades, mas sim a de que existem múltiplos tipos de indivíduos ou agentes. Teríamos especialmente, ao lado dos egoístas racionais, gente guiada pela "lógica da reciprocidade", que manifestaria o que os autores chamam de "reciprocidade forte", ou seja, a disposição, por um lado, de cooperar, mesmo a algum custo pessoal, com outros que mostrem disposição análoga, mas também, por outro lado, a disposição de punir os que violam a norma de cooperação, igualmente mesmo se a punição envolver custos pessoais. Essa lógica é encontrada em operação em variados estudos de campo e investigações experimentais, particularmente em ambientes distintos dos de mercados altamente competitivos. Ela é afim às comunidades caracterizadas por relações face a face, em que os indivíduos podem cada qual observar o comportamento dos outros e em que se têm condições propícias ao surgimento de regras e instituições autônomas, criadas pelos próprios agentes envolvidos. E destaca-se que a intervenção do Estado, que a lógica do dilema da ação coletiva torna fatal, surge aqui como incerta em seus efeitos: ela pode ocasionalmente estimular o ânimo de colaboração, se percebida como complementar e convergente com os mecanismos comunitários, mas pode também opor-se a ele e eventualmente extingui-lo, concorrendo, por exemplo, para colocar em dúvida a disposição cooperativa dos demais.

A perspectiva geral, especialmente em sua articulação com disciplinas como a biologia evolucionária e em suas ambições multidisciplinares ou transdisciplinares, é com certeza promissora. Mas mesmo esta brevíssima apresentação de algumas de suas sugestões já permite visualizar também as dificuldades. Em particular, o problema de escala e certos desdobramentos dele. O dilema da ação coletiva de Olson é formulado com referência explícita a grupos de grandes dimensões, denominados grupos "latentes", onde a impossibilidade da informação e do controle sobre o comportamento dos demais coloca um insolúvel problema de coordenação em que, no limite, se torna também impossível para cada um agir de maneira que viesse a ser coletivamente racional. Se os problemas se dão em escala que ultrapasse a da comunidade de relações face a face, como resolver a dificuldade de chegar a apreender cognitivamente se os outros estão fazendo a sua parte para aplicar a solidariedade condicional da lógica da reciprocidade? Se a disposição confiante que a colaboração exigiria depende de expectativas, com seu componente informacional ou cognitivo, como condicionar expectativas para começar a implantar a confiança em circunstâncias em que a própria lógica da reciprocidade não justificaria presumi-la?

Talvez infelizmente, não há como evitar que o desafio seja justamente o de assegurar que o mercado definido por relações entre estranhos seja também uma comunidade, como quis Max Weber. E se o Estado é o instrumento indispensável disso, tampouco há como escapar, fechando o círculo complicado, do condicionamento do próprio Estado por um substrato de relações mercantis e de enfrentamento de interesses.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Indignação com as laranjeiras

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Por que não nos indignamos com a captura do patrimônio público que ocorre todos os dias em nosso país?

HÁ UMA semana, duas queridas amigas disseram-me da sua indignação contra os invasores de uma fazenda e a destruição de pés de laranja. Uma delas perguntou-me antes de qualquer outra palavra: "E as laranjeiras?" -como se na pergunta tudo estivesse dito.

Essa reação foi provavelmente repetida por muitos brasileiros que viram na TV aquelas cenas. Não vou defender o MST pela ação, embora esteja claro para mim que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é uma das únicas organizações a, de fato, defender os pobres no Brasil. Mas não vou também condená-lo ao fogo do inferno. Não aceito a transformação das laranjeiras em novos cordeiros imolados pela "fúria de militantes irracionais".

Quando ouvi o relato indignado, perguntei à amiga por que o MST havia feito aquilo. Sua resposta foi o que ouvira na TV de uma das mulheres que participara da invasão: "Para plantar feijão". Não tinha outra resposta porque o noticiário televisivo omitiu as razões: primeiro, que a fazenda é fruto de grilagem contestada pelo Incra; segundo, que, conforme a frase igualmente indignada de um dos dirigentes do MST publicada nesta Folha em 11 deste mês, "transformaram suco de laranja em seres humanos, como se nós tivéssemos destruído uma geração; o que o MST quis demonstrar foi que somos contra a monocultura".

Talvez os dois argumentos não sejam suficientes para justificar a ação, mas não devemos esquecer que a lógica dos movimentos populares implica sempre algum desrespeito à lei.

Não deixa de ser surpreendente indignação tão grande contra ofensa tão pequena se a comparamos, por exemplo, com o pagamento, pelo Estado brasileiro, de bilhões de reais em juros calculados segundo taxas injustificáveis ou com a formação de cartéis para ganhar concorrências públicas ou com remunerações a funcionários públicos que nada têm a ver com o valor de seu trabalho.

Por que não nos indignarmos com o fenômeno mais amplo da captura ou privatização do patrimônio público que ocorre todos os dias no país? Uma resposta a essa pergunta seria a de que os espíritos conservadores estão preocupados em resguardar seu valor maior -o princípio da ordem-, que estaria sendo ameaçado pelo desrespeito à propriedade.

Enquanto o leitor pensa nessa questão, que talvez favoreça o MST, tenho outra pergunta igualmente incômoda, mas, desta vez, incômoda para o outro lado: por que os economistas que criticam a suposta superioridade da grande exploração agrícola e defendem a agricultura familiar com os argumentos de que ela diminui a desigualdade social, aumenta o emprego e é compatível com a eficiência na produção de um número importante de alimentos não realizam estudos que demonstrem esse fato?

A resposta a essa pergunta pode estar no Censo Agropecuário de 2006: embora ocupe apenas um quarto da área cultivada, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção e emprega quase três quartos da mão de obra no campo.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, nesta Folha listou esses fatos e afirmou que uma "longa jornada de lutas sociais" levou o Estado brasileiro a reconhecer a importância econômica e social da agricultura familiar. Pode ser, mas ainda não entendo por que bons economistas agrícolas não demonstram esse fato com mais clareza. Essa demonstração não seria tão difícil -e talvez ajudasse minhas queridas amigas a não se indignarem tanto com as laranjeiras.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Agenda de Lina será arma contra Dilma

DEU EM O GLOBO

Oposição quer confrontar ministra

BRASÍLIA e NATAL. A oposição pretende usar a suposta aparição da agenda de Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal, como arma eleitoral contra a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). Segundo reportagem da "Veja", Lina achou a agenda com a anotação sobre o encontro com Dilma, que teria sido em 9 de outubro de 2008. Na agenda haveria a anotação: "Dar retorno à ministra sobre a família Sarney".

Procurada em Natal, Lina não foi localizada. Seu marido, o publicitário Alexandre Firmino, disse que ela não comentaria o caso, já que teve muito desgaste ao tornar público o suposto encontro. A assessoria de Dilma, procurada, não retornou.

Parlamentares do DEM e do PSDB disseram ontem que a ministra terá que se explicar sobre a suposta anotação na agenda. Os oposicionistas aproveitarão o episódio para tentar colar em Dilma um carimbo de mentirosa. São cautelosos, porém, sobre nova convocação de Lina ou da ministra.

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) disse que o caso Lina deve ser lembrado junto com outras polêmicas que envolveram Dilma, como o dossiê sobre gastos sigilosos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a afirmação, em seu currículo, de que ela teria títulos acadêmicos, mas de fato não concluiu os cursos.

- A agenda comprova que a ministra mentiu. Isso reitera que ela usa a mentira como arma para acobertar equívocos e irregularidades do governo - acusou Dias.

O líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), prometeu cobrar uma manifestação da ministra.

- Ela não pode ficar calada. Por que essa veemência toda em negar o encontro? Ou porque teve alguma coisa grave, ou porque o objetivo é inconfessável - disse.

O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) também defendeu que o caso seja explorado pela oposição em 2010.

- Na hora em que a ministra sair da sombra do presidente Lula, a história vai ressurgir. Isso dá um bom material para a campanha - disse.

Apesar das críticas, os parlamentares admitiram que a repercussão do caso no Congresso deve ficar restrita a discursos contra a ministra. Lina depôs em agosto na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas sua fala foi considerada frustrante pela oposição.

PSDB: indefinição prejudica alianças regionais

Bernardo Mello Franco
DEU EM O GLOBO

Tucanos defendem escolha de candidato ainda este ano e alegam perda de aliados em estados como RJ e MS

BRASÍLIA. A indefinição sobre a escolha do candidato do PSDB à Presidência da República preocupa as bases do partido, que temem que a demora atrapalhe a montagem dos palanques regionais para 2010. Tucanos de diferentes estados dizem que a incerteza no plano nacional já prejudica as articulações com legendas de oposição ao governo federal, e até da base governista, e defendem a escolha do candidato até dezembro.

A mesma preocupação foi manifestada pelas bancadas do DEM na Câmara e no Senado, que, em pesquisa publicada ontem pelo GLOBO, elegeram Aécio Neves (MG) como o presidenciável tucano "preferido", mas apontaram José Serra (SP) como o mais "competitivo". Os tucanos consideraram natural a avaliação do DEM, e indicam divisão semelhante no PSDB.

- A demora está provocando constrangimento no partido e entre os aliados. A escolha do nosso candidato a presidente é urgente, porque ele será o principal articulador das alianças regionais. Dependendo do nome lançado, o PSDB terá palanques mais ou menos fortes nos estados - defende o pré-candidato ao governo do Paraná, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR).

Em alguns estados, a demora pode levar aliados a palanques rivais. É o caso de Mato Grosso do Sul, onde o PSDB teme que a incerteza no plano nacional frustre uma possível aliança local com o governador André Puccinelli (PMDB). Se o acordo não for fechado com o PMDB no estado, a senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) pode ser obrigada a lançar uma candidatura de sacrifício para não deixar Serra ou Aécio sem palanque.

- A demora inibe vários candidatos de anunciar apoio a Serra ou Aécio. Estamos chegando ao limite, a escolha não pode passar do fim do ano - diz a senadora, vice-presidente nacional do partido.

No Rio, a incerteza também contribui para o estado de aflição dos tucanos, sem palanque desde que a senadora Marina Silva (PV-AC) se tornou pré-candidata a presidente, forçando o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que uniria a oposição no estado, a apoiá-la.

À espera da fumaça branca de "habemus candidato"

Líder da minoria no Congresso, o deputado tucano Otavio Leite confirma o dilema:

- A indefinição nacional fortalece a inércia regional. É difícil encontrar uma saída sem o candidato escolhido.

Otavio Leite compara a apreensão tucana à dos católicos no conclave, encontro de cardeais que define a escolha do Papa:

- O partido está aflito e angustiado. Serra e Aécio são nossos cardeais, e estamos todos na Praça de São Marcos aguardando a fumaça branca de "habemus candidato".

Aliado de Serra, o deputado Silvio Torres (PSDB-SP) faz coro ao governador paulista para que a decisão não seja precipitada, mas admite que pode ser arriscado esperar até março de 2010, como propõe o governador:

- A ansiedade pode levar a decisões equivocadas, mas março também seria muito distante para mobilizar as bases.

No encontro do PSDB em Goiânia, sábado, Serra repetiu palavras de Aécio, dizendo que o partido não pode desperdiçar a chance de voltar ao poder, mas não falou em data de definição do candidato:

- Não temos o direito de não vencer a eleição no ano que vem.

Sobre a enquete do GLOBO, Otavio Leite disse que o DEM pode opinar, mas ressaltou que a escolha caberá apenas ao PSDB. Alvaro Dias rebateu a declaração do presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), de que Serra não mobiliza a militância:

- Quem não está em campanha não pode mobilizar militantes. Serra está respeitando os prazos da lei eleitoral.

Disputa confortável

Ricardo Brito
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Ao todo, 17 senadores com mandatos até 2015 podem disputar eleições no próximo ano. O desejo, entre outras razões, é se tornar governador ou ter visibilidade política

Mesmo tendo oito anos de mandato, senadores gostam é de disputar eleições. No próximo ano, 54 deles precisam obrigatoriamente lutar pelo voto do eleitorado caso queiram se manter em cargos eletivos. Os 27 restantes têm a confortável situação de poderem assistir à corrida eleitoral de longe, pois seus mandatos terminam apenas em 2015. A maioria deles, contudo, prefere concorrer. Levantamento feito pelo Correio aponta que, no momento, 17 senadores desse grupo não descartam se candidatar ao governo do estado em 2010.

São várias as razões que levam os parlamentares a almejar o cargo de chefes do Executivo estadual. Entre as principais, estão o desejo de realizar projetos e obras, a frustração com os trabalhos do Legislativo, a imposição dos partidos de terem palanques nos estados por causa da disputa presidencial e até mesmo manter visibilidade política de olho na reeleição de 2014. Como é uma fotografia atual, nem todos efetivamente vão concorrer.

Senador de terceiro mandato, Álvaro Dias (PSDB) deseja governar o Paraná, estado que já chefiou entre 1987 e 1991. Para tanto, terá primeiro de passar pelo crivo do partido. Ele disputa a indicação tucana ao cargo contra o prefeito de Curitiba, Beto Richa. A escolha recairá sobre quem estiver melhor nas pesquisas de intenção de voto.

No caso de Dias, parte do projeto de voltar ao Executivo passa pelo descontentamento pessoal com as atividades do Senado. “Aqui, tenta-se mudar a realidade falando. Lá, você muda fazendo”, resume ele, ressaltando que quatro anos de governador “valem por muitos anos de legislativo”. Considera que o peso da campanha no meio do mandato é menor. “Se perdermos, continuamos nosso trabalho no Senado”, disse.

O PSDB tem um motivo a mais para lançar senadores na metade dos mandatos. Ter o maior número de palanques estaduais para que o candidato do partido em 2010 faça campanha. A disputa está entre os governadores José Serra (SP) ou Aécio Neves (MG). Os tucanos avaliam como fundamental esses palanques para contrabalançar os recentes acordos que a candidata do PT a suceder Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra Dilma Rousseff (PT), costurou com partidos da base aliada. Não é à toa que todos os seis senadores do partido em meados de mandato podem concorrer em 2010.

Efeitos

Crítico ferrenho do governo Lula, o senador pernambucano Jarbas Vasconcelos (PMDB) pode entrar na corrida a governador com um triplo objetivo. Primeiro, impedir a reeleição de Eduardo Campos (PSB). Depois ajudar os oposicionistas Sérgio Guerra, presidente do PSDB, e Marco Maciel, ex-vice-presidente, a conquistar mais oito anos de Senado no próximo ano. E, por fim, um palanque para o presidenciável tucano. Porém, Jarbas, bem cotado nas pesquisas, ainda não se decidiu.

A senadora Rosalba Ciarlini (DEM) tende a disputar o governo potiguar. Embora ressalte que não tenha decidido pela candidatura, Rosalba está bem colocada nas simulações ao cargo. Caso concorra, ajudaria a reeleição do ex-presidente do Senado Garibaldi Alves Filho (PMDB) e o líder do DEM na Casa, Agripino Maia — efeito semelhante à candidatura de Jarbas.

Diferentemente de Alvaro Dias, Rosalba afirma que não é tão confortável assim disputar as eleições em meados de mandato. Segundo ela, os parlamentares terão de enfrentar uma dura campanha política ao mesmo tempo em que não podem descuidar do mandato. “Os eleitores também nos cobrarão pelo mandato”, afirma Rosalba.

A mestre em ciências Políticas Vera Lúcia Campos, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), avalia que a tendência de senadores em disputar governos “faz parte da dinâmica eleitoral brasileira”. “Aqui, os movimentos são circulares. O político está no Legislativo, segue para o Executivo e vice-versa”, disse. Sua tese de mestrado estudou esse fenômeno, só que em nível municipal. Segundo a tese, nas eleições de 2008, de 513 deputados, 129 anunciaram que concorreriam para prefeito e vice-prefeito. Desses, 93 participaram. “A disputa ao governo de estado é uma espécie de recall” , conclui.

Negociações sobre restituição de Zelaya recomeçam hoje

Fabiano Maisonnave e Ana Flor
Enviados Especiais a Tegucigalpa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Na Embaixada do Brasil, onde líder deposto está há quatro semanas, há pessimismo sobre acordo

Os delegados de Manuel Zelaya e do governo interino de Roberto Micheletti voltam a se reunir hoje em Tegucigalpa para novamente discutir o impasse sobre um acordo para a restituição do presidente deposto.

Desde a última terça-feira, as negociações estão concentradas numa fórmula para a eventual volta de Zelaya à Presidência. Micheletti insiste em que um acordo entre as partes tem de ser submetido à Suprema Corte, enquanto o presidente deposto defende que a análise seja feita pelo Congresso.

No cálculo de Micheletti, o Judiciário barrará a volta de Zelaya -em agosto, a Suprema Corte já havia rechaçado o Acordo de San José. A proposta, formulada pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias, serve de base para as negociações atuais em Tegucigalpa.

Já Zelaya acredita que o Congresso ratificará a sua volta à Presidência, apesar de a maioria dos deputados (o sistema é unicameral) ter apoiado a sua destituição, em 28 de junho.

Caso não haja acordo hoje, Zelaya, que já havia dado um ultimato vencido na quinta-feira, promete não reconhecer as eleições presidenciais de novembro, posição que vem mantendo desde que foi deposto.

Na embaixada brasileira, onde Zelaya completa hoje quatro semanas abrigado, o clima é de pessimismo sobre um acordo no curto prazo, depois de uma frustrada expectativa na semana passada.

O presidente deposto continua pressionando por uma maior atuação dos EUA, principal parceiro econômico hondurenho. Em recente conversa por telefone com Zelaya, o embaixador americano, Hugo Llorens, prometeu que seu país ainda fará "um gol aos 49 minutos do segundo tempo", em favor da restituição. É uma alusão à vitória de quarta-feira contra a Costa Rica, em que um gol americano no último minuto classificou Honduras para a Copa do Mundo, por meio de uma combinação de resultados.

Anteontem, morreu o líder sindical Jairo Sánchez, ferido em uma marcha da resistência em setembro. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Instituto de Formação Profissional, ele foi atingido por uma bala na cabeça e estava internado em Tegucigalpa.

domingo, 18 de outubro de 2009

Cidade móvel

Maria Alice Rezende de Carvalho
DEU NA FOLHA DE S. PAULO / +MAIS

CHEGADA AO RIO DE JANEIRO É DESCRITA COMO UMA MIRAGEM, SUGERINDO UMA CIVILIZAÇÃO PROVISÓRIA E AINDA POR FAZER

Natureza, brandura e favelas conformariam a alma da metrópole

O Rio de Janeiro não se revela imediatamente. Na entrada da baía de Guanabara veem-se, primeiro, o contorno das montanhas e as pequenas enseadas. Divisa-se, a seguir, Copacabana. À frente, há que ultrapassar o Pão de Açúcar, as praias de Botafogo e Flamengo, a Ilha das Cobras, a Ilha Fiscal para, só então, avistar-se a "massa vertical dos arranha-céus".

O Rio de Janeiro não é como Nova York, que se impõe aos navegantes como um fato.

É, antes, uma sucessão de dobras e miragens, que varia ao sabor das diferentes perspectivas. Com essa descrição da chegada ao porto do Rio, Stefan Zweig traduz sua impressão da cidade e do país: nada, nessa nova civilização, se mostra acabado; tudo é móvel, provisório, tem-se a sensação de viver no que ainda se desenvolve.

Em "Brasil - Um País do Futuro", a questão, portanto, não é a aposta em um ponto de chegada, a profecia do nosso êxito, e sim o destaque das virtualidades contidas naquele deslizar macio da nossa trajetória. Macio, diga-se de passagem, mesmo sob a ditadura de Vargas! E o Rio de Janeiro, espelho da inacabada civilização brasileira, é o lugar de onde se avistariam mais facilmente as potencialidades e vicissitudes dessa jornada.

Bondes e prostíbulos

Em 1941, ano da publicação do livro, eram três, segundo Stefan Zweig, as principais características da capital do Brasil: uma natureza extraordinária, na sua diversidade e harmonia, uma sociedade muito heterogênea, porém branda, e alguns artefatos notáveis, em via de extinção: os bondes, os prostíbulos localizados no mangue e as favelas.

Desses últimos, restaram as favelas, que são a prova da heterogeneidade social do Rio de Janeiro e a consequência de um desenvolvimento urbano deixado à iniciativa de famílias pobres.

Em resumo, natureza, brandura e favelas conformariam a alma da cidade, a fonte de suas possibilidades, sua energia, para dizer o mínimo. Comparada às modernas cidades da Europa, a capital brasileira, para muitos, careceria de civilização.

Mas Zweig avisa que a guerra alterara o sentido e o valor que atribuía àquela palavra. Já não lhe interessavam os números, a matemática inerente ao progresso europeu, pois a mais elevada organização social não impedira a germinação da barbárie. Prendia-se, agora, à esperança de que hábitos simples de cidade regenerassem o mundo devastado.

Essa força moral é o que o atraiu ao Rio e ali o reteve durante um Carnaval -a força da alegria coletiva, da população reunida nas ruas, da dissolução de todas as diferenças, "da liberdade orgíaca de descomedir-se" e voltar ao seu estado anterior, porém mais forte, mais assenhoreado do seu corpo e do seu espaço na cidade. Essa, talvez, a percepção mais aguda de Zweig e aquela que mais fortemente dialoga com o presente, pois a trajetória do Rio de Janeiro evidencia uma perene negociação quanto à forma, a extensão e as traduções desse hábito de cidade "vis-à-vis" a ética prevalecente nas sociedades mercantis de massa.

Alegria, alegria

O que se chama de etos de cidade é, simplificadamente, um modo de vida que não separa, antes amalgama, diferentes dimensões da experiência urbana. No mundo moderno, é possível encontrá-lo nas turbulentas repúblicas italianas, que antecederam em dois séculos a emergência do mercado autorregulado e das formações urbanas, como as conhecemos disseminadas por todo o planeta. Por isso, falar hoje ou no século 20 de hábitos de cidade significa valorizar experiências sociais coletivas e nutridas por paixões diversas, como poder ou lealdade, e não apenas pelo interesse.

A crítica de Zweig à "ambição civilizadora europeia" segue essa trilha e faz do Rio de Janeiro um ambiente encantado. Com valores como a solidariedade e a alegria, "é mais fácil ser pobre aqui do que noutra grande cidade".

Mas, visto da terra, invertida, portanto, após quase sete décadas, a perspectiva de Stefan Zweig, qual é o Rio de Janeiro? Um Rio que se diz idêntico ao que ele inventou. Já não é a capital do país. Mas, em tudo o mais, repete, com as atualizações devidas, a tríade mítica -natureza, brandura e favelas-, fartamente acionada, como se viu, na campanha que o levará a sediar a Olimpíada de 2016.

Com a diferença de que agora, perdida a inocência de todo objeto, nós somos sujeitos dessa nomeação e deveremos ter com ela compromissos mais firmes e democraticamente pactuados.

Assim, oxalá, como país do futuro, o Brasil mantenha aberta sua pauta civilizatória e 2016 não represente um ponto de chegada. Oxalá possamos dizer que é mais fácil viver aqui do que em qualquer outro lugar.

Maria Alice Rezende de Carvalho é professora do departamento de sociologia e política da Pontifícia Universidade Católica (RJ) e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

É preciso abrir o olho

Moacir Góes
Diretor de teatro e cineasta
DEU EM O DIA


Não podemos ter posição dúbia sobre valores como a liberdade de imprensa

Rio - É preciso ficar de olho aberto. Jacaré que dormiu, virou bolsa. Na semana passada, ao apagar das luzes de um parlamento que já foi desqualificado pelas urnas, o governo argentino aprovou uma lei que enfraquece a liberdade da imprensa e a livre iniciativa no mercado de comunicação.

O alvo imediato é o grupo Clarin, considerado como não alinhado ao governo, mas o ato é a expressão da sanha totalitarista. São os ventos que sopram das veias abertas da América Latina, que enchem as velas do comandante Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e as naus de seus parceiros. Por aqui, tem gente vibrando e sonhando com ações semelhantes. É só dar uma lida em vários sites na internet.

O mundo está mudando numa velocidade alucinante; a comunicação e os negócios não mais reconhecem barreiras; o comportamento alarga valores arraigados e a ação política, principalmente na nossa América, ainda é pensada a partir do esclerosado embate entre esquerda e direita, a luta de classes e o ódio antiamericano.

Sempre em nome do povo e da igualdade, todo pensamento totalitário acaba por fazer estragos na democracia e cavar imensas valas para sepultar cadáveres. A liberdade de imprensa e a livre iniciativa incomodam porque são alicerces do Estado de Direito, conquista do indivíduo.

Não há como tergiversar: ou defendemos isso como valores constitutivos ou o que nos espera é o atraso, a fome, a deseducação e o ódio. E é bom lembrar os exemplos históricos nos ensinam que nada é feito da noite para o dia. O processo é comer pelas beiradas até limpar o prato.

Sinuca de bico

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


As ações políticas - todas, portanto - do presidente Luiz Inácio da Silva sempre precisam ser analisadas por prismas diferentes: levando em conta a ética ou considerando apenas a eficácia imediata do gesto.

Pelo primeiro critério, raras passam pelo controle de qualidade. Já pelo segundo, o grau de aproveitamento é bem superior. Nesse caso enquadra-se o revide do presidente a comentário do governador José Serra sobre o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco.

Serra criticou a falta de investimentos federais em projetos de irrigação às margens do rio. Lula bateu com força ironizando a preocupação do governador com o Nordeste - extemporânea e eleitoreira, segundo ele - e mandou que o tucano ficasse "esperto", pois, daqui em diante haverá muitas inaugurações na região.

Foi a primeira vez desde a campanha eleitoral de 2002 que Lula atacou diretamente seu oponente da época. Apresentou as armas e chamou o adversário para a briga.

Criou para a oposição, para José Serra em particular, uma situação assaz complicada: a escolha entre calar, e parecer covarde ante a popularidade presidencial, ou reagir no mesmo tom e fugir do roteiro previsto de só iniciar a campanha propriamente dita no ano que vem.

Num primeiro momento, a opção de Serra foi fazer o elegante: "Se o que eu disse ajudar a ter um metro a mais de irrigação, fico feliz." Um tanto sutil demais, hermético até para a conversa nos termos propostos por Lula.

Setores mais pragmáticos da oposição, como o DEM, saíram a campo pedindo que o tucanato - senhor da candidatura - deixe de manejar floretes e entre logo no embate com luvas de boxe.

Ponto, portanto, para o presidente, que conseguiu fazer a oposição voltar a expor suas divergências em público, discutir uma mudança de agenda adaptando-a ao ritmo que interessa ao adversário e ainda dar margem à interpretação de que reina o desespero nas hostes oposicionistas.

A oposição tem dois candidatos, um deles posicionado na liderança das pesquisas, e em tese sai na dianteira com o apoio dos dois maiores colégios eleitorais do País.

No entanto, se espreme de ansiedade ante um adversário cuja candidatura é construída a poder de artificialismo e sob o risco de, de repente, sofrer impugnação da Justiça Eleitoral, que cassou mandatos de governadores por delitos até menos evidentes no tocante ao uso da máquina.

Por ora, parece que o governador de São Paulo pretende seguir resistindo às pressões dos correligionários. Impõe a regra do cálculo frio e da lógica pura: "Lula não é candidato e eu não sei se serei candidato", diz.

A questão é até quando a oposição resistirá a entrar na guerra quanto antes como parece desejar o presidente Lula. A resposta seria fácil se consequências fossem senhoras obedientes. Como saber se a estratégia de Serra não fará seu favoritismo minguar? Ou se a mudança de rumo é que renderá prejuízos?

Lula joga seu jogo: não tendo cão, resolveu caçar com gato e, para todos os efeitos, conseguiu transferir a angústia de uma situação adversa para o adversário que, em tese, teria tudo para navegar com o vento a favor.

Filosofia

A definição é de autoria do presidente Lula, exposta durante a franciscana - dando (show) que se recebe (voto) - turnê: "No governo você não pensa, não acredita, você faz ou não faz."

Para todos

O senador João Pedro (PT-AM) fez uma "denúncia" na sessão de sexta-feira de manhã: que parte da imprensa faz oposição ao governo.

Por essa ótica, a crítica, a opinião e até a tomada de posições quando exercidas fora do âmbito partidário se configuram uma ilegalidade.

"A imprensa não permite que o presidente visite um canteiro de obras do seu governo", disse o senador João Pedro.

Não. A imprensa critica o uso partidário que o presidente faz do governo de todos os brasileiros.

E a esse tipo de coisa se opõe sim, com a legitimidade que lhe confere o preceito constitucional da liberdade de expressão.

Não fosse o livre exercício do contraditório, deve se lembrar o senador, o PT não faria carreira nem teria chegado à Presidência.

Eike

De neófitos na área que se movimentam em excesso políticos experientes em geral dizem o seguinte: "Para cachorro novo, fulano está entrando no mato com muita pressa."

Sungão

Diante do uso que se faz do artefato - guarda-volumes de dólares não contabilizados e gabaritos de provas fraudadas -, o desfile do senador Eduardo Suplicy de cuecas vermelhas sobre o terno escuro nos corredores do Congresso só seria quebra de decoro se decoro ainda houvesse para ser quebrado.

Ao sabor dos ventos de campanha

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Aperte o cinto porque o piloto sumiu! Aliás, o piloto, o copiloto, a tripulação inteira voa por aí em campanha aberta, deixando Brasília entregue... Entregue a quem mesmo?

O presidente Lula viaja tanto ou mais pelo mundo do que "Fernando Viajando Cardoso", lembra? E passa três dias "fiscalizando" as obras de transposição do rio São Francisco, enquanto tira fotos pescando com a candidata Dilma.

Aliás, Dilma também viaja por aí, enquanto a Casa Civil fica por aqui, em Brasília, com os atos e programas do governo em segundo plano.

Além deles, o ministro Tarso Genro assume a campanha no Rio Grande do Sul e até o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é candidato a alguma coisa, não se sabe exatamente ao quê.

Já há ministros reclamando. Desses ministros chatos, de áreas técnicas, que têm de tomar decisões, assinar atos, tocar o bonde -e não os aviões- adiante. Cadê o Lula? Não está. Cadê a Dilma? Não está. E aí, o que fazer? Fácil: chama o bispo!

Tudo pela campanha, até um recuo atrás do outro. Num dia, o governo diz que pretende taxar a poupança. Dá uma confusão danada, aí recua. No outro, o repórter Leonardo Sousa descobre a mutreta de empurrar com a barriga a devolução do IR da classe média para compensar a queda de arrecadação. Dá uma confusão danada, aí recua.

Nessa campanha descarada, todo recuo vale. Até na Vale mesmo, uma empresa privada. Antes, Lula falava mal da Vale, Dilma cobrava a companhia, ambos deixavam claro que, se dependesse do Planalto, a permanência de Roger Agnelli na presidência estava por um fio.

Até que o megaempresário Eike Batista entregou o jogo: que tal botar no lugar do técnico Agnelli o político Sérgio Rosa, do PT?

Deu no que deu: uma confusão danada. Aí, todo mundo recuou, ficou o dito pelo não dito, e Agnelli ganhou sobrevida. Mas só "no momento", como bem disse Eike.

A ONU em questão

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


O presidente Lula é, entre tantos méritos, o grande pauteiro do debate nacional. Cada discurso, escrito ou improvisado – e eles são diários, incessantes – aciona uma salutar controvérsia mesmo quando motivada por impropriedades.

Nessa quinta, em Floresta, Sertão pernambucano, para onde se deslocou para inspecionar as obras de transposição das águas do Rio São Francisco, Lula pontificou sobre os organismos internacionais, a propósito da recondução do Brasil (pela décima vez) ao Conselho de Segurança da ONU. Ainda impelido pelo triunfo olímpico em Copenhague, o presidente proclamou que "a ONU está superada" e que o Conselho é "como uma fruta madura", prestes a cair.

Ora, se a ONU está superada o Brasil não deveria fazer tanta força para conquistar uma vaga permanente no seu órgão emblemático. Menosprezar a ONU é contrariar o multilateralismo e as grandes entidades reguladoras internacionais. Quem insistia na tese de que a antecessora da ONU, a Liga das Nações, estava superada, era Adolf Hitler que, assim, sentia-se à vontade para destroçar todas as suas convenções.

O Conselho de Segurança continua ímpar, insubstituível, embora a sua composição esteja datada. Parou no tempo: quando a ONU foi criada em 24 de Outubro de 1945, há 64 anos, o mundo foi partilhado entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial: EUA, URSS (hoje Rússia), Reino Unido, França e China que constituíram o núcleo permanente do Conselho de Segurança e habilitados a usar o poder de veto.

A derrubada do generalíssimo Chiang Kai-Shek pelo revolucionário Mao Tse-Tung levou muito tempo para ser assimilada até que o refúgio de Taiwan fosse formalmente substituído pela China continental. Outras imperiosas alterações no quadro institucional jamais foram implementadas, caso da exclusão dos gigantes econômicos Alemanha e Japão, derrotados na guerra e da emergência na Ásia, África e América Latina de novas potências como Índia, África do Sul e Brasil.

Apesar das flagrantes injustiças, o Conselho de Segurança continua como a instância permanente, insuperável, comprometido com a segurança coletiva e a manutenção da paz. Suas recomendações e resoluções são às vezes ostensivamente desconsideradas, mas quando isto acontece fica o registro e este registro pesa diante da possibilidade de sanções econômicas.

A metáfora da fruta madura prestes a cair e apodrecer é de uma rara infelicidade. No momento em que o rodízio dos assentos temporários do CS favorece novamente o Brasil e torna-se evidente a necessidade de uma reengenharia estas bravatas são rigorosamente impertinentes.
Vexame maior no âmbito da ONU foi oferecido pela antiga Comissão de Direitos Humanos, posteriormente transformada em Conselho de Direitos Humanos, e o nosso País jamais estrilou.
Mesmo quando o antigo órgão foi entregue ao Sudão onde ocorria o genocídio de Darfur. A entidade substituta tem entre os seus 47 membros contumazes violadores como Líbia, China, Arábia Saudita, Cuba e Rússia e o presidente Lula não reclama. Entidades internacionais de direitos humanos tem denunciado o controle do novo Conselho de Direitos Humanos por um compacto bloco de nações cujas sensibilidades e compromissos estão a anos-luz da pauta humanitária. Lula não sabe, não viu.

Nosso presidente também erra ao considerar que o maior conflito no Oriente Médio é entre judeus e palestinos. Esta é uma colocação não apenas incorreta como perigosa. O conflito a que ele se referiu é entre israelenses e palestinos e decorre da sábia decisão adotada pela Assembleia-Geral presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha em Novembro de 1947 de partilhar a Palestina em dois Estados e aceita apenas por uma das partes.

O magistrado sul-africano Richard Goldstone é judeu e o seu relatório sobre a Batalha de Gaza no fim de 2008 está provocando uma enorme controvérsia porque condena tanto o Hamas pelo uso intencional de foguetes contra populações civis em Israel como a desproporcional resposta de suas forças armadas.

Estas são frutas que o presidente Lula desconhecia talvez porque não foram cultivadas em seu pomar. Terá que prestar mais atenção a elas quando receber a visita do colega iraniano, Mahmud Ahmadinejad, que vem sendo seriamente advertido por diversas instâncias internacionais a permitir a fiscalização do seu secretíssimo e suspeito programa nuclear.

A ONU ficará efetivamente "superada" quando os países-membros esquecerem as suas responsabilidades no intervalo entre uma Assembleia-Geral e outra.

» Alberto Dines é jornalista

A velha Câmara antes de Brasília

Coisas da Política :: Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


O deputado Oscar Dias Corrêa (1921-2005) tocou vários instrumentos na vida. Foi magistrado, ensaísta, romancista. E mais, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal. E um erudito e poliglota, que aprendeu a falar um italiano para ler no original A Divina Comédia , de Dante Alighieri, que sabia quase todo de cor.

Um excelente deputado federal pela UDN mineira, dos mais moços da brilhante bancada integrada por Milton Campos, Afonso Arinos, Alberto Deodato, Bilac Pinto, da Câmara dos Deputados nos tempos da capital no Rio, antes da mudança para Brasília, em 21 de abril de 1960. Uma seleção dos seus trabalhos foi editada pelo Senado Federal (volume 117), e eu recebi um exemplar do seu filho Oscar, que li de um fôlego, com os olhos míopes da saudade.

Na página 353, no artigo que traça o perfil do deputado Odilon Braga, garimpei a pepita de um dos melhores resumos de evocação da fase de ouro da eloquência, da modéstia e da compostura da antiga Câmara, que ofereço aos senadores e deputados do pior Congresso de todos os tempos.

Jovem, “de todos os privilégios que a vida me concedeu, de um, pelo menos, não me esquecerei nunca, pelo significado moral e intelectual da realização pessoal, de consciência do dever cumprido para com a nação: o de ter ingressado na vida pública na época em que floresceu uma das mais nobres, altivas, competentes e dignas gerações de homens públicos do país, que no Parlamento encontrei, com quem aprendi, no exemplo e no convívio, a amar, ainda mais, o Brasil”.

“Àquela época, no Rio tranquilo dos meados do século, ia para a Câmara de ônibus, que a família crescia e os subsídios de deputado não autorizavam exageros. Não tinha automóvel e, na volta, quase sempre, Odilon Braga, morando na Rua Joaquim Nabuco e eu na Figueiredo Magalhães, vizinho de Aliomar Baleeiro, Afonso Arinos, Adauto Cardoso, Guilherme Machado e Rondon Pacheco – me convidava para o retorno no seu Pachkard já bem usado, mas em bom estado de conservação”.

“Vivíamos todos modestamente numa Câmara que funcionava com todas as comissões instaladas, sessões todos os dias, quorum folgado de presença maciça, salvo quando, no uso do direito sagrado de obstrução das minorias, em defesa do país, estávamos na Câmara, mas negávamos número, forçando a maioria a reexaminar as teses que nos pareciam contrárias aos superiores interesses do país; não tínhamos gabinetes nem assessores, mas os pareceres e votos saíam a tempo e a hora, e ainda tínhamos tempo, e ainda encontrávamos vagar para os estudos e a publicação dos ensaios, como os de Odilon sobre O Estado no direito constitucional moderno, Teoria da composição do Poder Legislativo ; e A opinião pública no momento atual”.

Cita o trecho da análise de Odilon Braga, sobre os problemas produzidos pela 2ª Grande Guerra, em face da democracia, tema difícil àquela hora, em face do governo autoritário que imperava: “Se o Brasil está de armas em punho, ombro a ombro com os cruzados da democracia, prestemos sem subsídios, sem privilégios, sem publicidade, sem condições, aos que arcam com os agora severos e inquietantes encargos dos seus postos de governo e de administração, o apoio e os serviços que lhes prestaríamos”.

Voltamos ao texto e às saudades de Oscar Dias Corrêa: “Tempo de modéstia, trabalho permanente, sacrifício abençoado, pelo bem do povo, nossa única preocupação, nossa ânsia permanente, no qual floresceram estadistas que honram nossa História pelo zelo cívico, pela lealdade democrática, pelo fulgor intelectual, pelo amor ao Brasil”.

Muitas páginas adiante, no perfil do mineiro Milton Campos, que foi deputado federal pela UDN, governador de Minas, candidato a vice-presidente, traído pela manobra do Jan-Jan do conchavo de Jânio Quadros com Jango Goulart, Oscar Dias Corrêa invoca o depoimento de Carlos Drummond de Andrade: “Ele foi o homem que a gente gostaria de ser” e lembra que Carlos Castelo Branco, que o viu de perto desde os tempos em que, estudando em nossa Faculdade de Direito, o seguiu e admirou, afirma que ele foi “a maior figura de homem público e de cidadão que conheci”.

A estratégia de Lula

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva corre contra o tempo. Sabe que esse é o recurso mais escasso de seu governo. Acumula forças em todas as áreas, mas não pode parar a rotação da Terra, não tem como espichar o seu mandato, nem concorrer à reeleição. Precisa traduzir seu enorme prestígio popular em transferência de votos para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), cuja candidatura foi ameaçada pelo ex-ministro Ciro Gomes (PSB), que pretende concorrer ao Palácio do Planalto pela terceira vez, e pela dissidência da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (PV).

Bem-sucedido no combate à recessão, por causa da crise mundial, no plano político, o presidente Lula perdeu um ano dos quatro que tinha para viabilizar a continuidade do seu projeto de poder. Vive o drama de ter acertado a mão em quase tudo, até na escolha do Rio para sede das Olimpíadas de 2016, mas ainda não tem a confirmação de que acertou no nome do sucessor. Desprezou a candidatura de Ciro e sequer percebeu a de Marina. Optou por Dilma, em quem aposta os oito anos de mandato, que larga em desvantagem eleitoral. Enquanto o governador de São Paulo, José Serra, e Ciro Gomes liderarem as pesquisas, a estratégia de Lula só pode ser carregar Dilma Rousseff nos ombros, até que o povo o faça. É simples assim.

Vale

As críticas do presidente Lula à direção da Vale atiçaram parlamentares contra a empresa, principalmente nas bancadas de Minas e do Pará. A mineradora passou a sofrer ataques da tribuna da Câmara e as críticas da oposição à interferência do governo na empresa politizaram ainda mais a questão. Segundo o deputado Arnaldo Jardim (foto), do PPS-SP, as divergências entre o governo e a mineradora — cujo presidente, Roger Agnelli, está na berlinda — estão sendo infladas por motivações político-eleitorais, que “fogem à racionalidade dos interesses nacionais, do mundo das commodities e dos negócios com minérios e siderurgia”.

Pajelança

O PMDB fará uma grande reunião de seus caciques na próxima quarta-feira para mandar a seguinte mensagem ao público interno da legenda, uma aguerrida militância que vive às turras com o PT: está com a candidatura de Dilma e não abre. É que no sábado serão realizadas as convenções que elegerão os novos diretórios municipais e a cúpula da legenda quer esvaziar o discurso de prefeitos e vereadores do PMDB contrários à aliança. Alguns caciques questionam a pressa.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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DEM aposta em Serra, mas prefere Aécio

Adriana Vasconcelos, Cristiane Jungblut, Gerson Camarotti e Maria Lima Brasília
DEU EM O GLOBO

DEM aposta que Serra tem mais chance que Aécio

Enquete com senadores e deputados do partido revela, porém, que mineiro é o preferido do coração dos aliados

Principal parceiro dos tucanos na briga pela tentativa de voltar ao poder no ano que vem, deputados e senadores do DEM revelaram que, se fossem decidir com o coração, o candidato do PSDB preferido pela maioria deles seria o governador Aécio Neves (MG). Como a decisão deve se dar pela razão, dizem que o cabeça de chapa deverá ser o governador José Serra (SP), apontado como o que tem mais chances de vencer o nome do governo. Esse é o resultado de uma pesquisa feita pelo GLOBO com a quase totalidade dos senadores e deputados do DEM. O levantamento foi realizado entre os dias 13 e 16 de outubro.

A pesquisa apontou que, dos 48 deputados e 12 senadores ouvidos, a maior parte (33) é contra o apoio do DEM a uma chapa puro-sangue do PSDB, enquanto 27 consideraram que dessa forma a oposição teria mais chance de vitória. A chapa puro-sangue foi aprovada pelos senadores, mas rejeitada pelos deputados. O nome mais citado pelos parlamentares para compor uma chapa com os tucanos é o do líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN).

Dos 56 deputados da bancada, 48 responderam o questionário. No Senado, dos 13 senadores, apenas uma, Maria do Carmo Alves (SE), se negou a votar.

Na Câmara, 31 dos 48 deputados ouvidos disseram acreditar que Serra é o nome que disputará a eleição presidencial de 2010, e 17 apostaram em Aécio. No Senado, os números são maciçamente favoráveis a Serra, e a aposta de que ele será o candidato foi cravada por 11 senadores, com apenas um voto para Aécio.

O resultado da enquete aponta alguns conflitos de interesses, evidenciando que os parlamentares do DEM, além de divididos, estão inseguros com o futuro da oposição em 2010.

“Gosto do Aécio, mas o Serra tem mais chance”

Quando perguntados sobre qual dos dois governadores tucanos preferiam ter como presidenciável em 2010, o mineiro ganha tanto na Câmara quanto no Senado. Aécio é o preferido de 27 deputados e seis senadores, contra 17 e cinco para Serra, respectivamente.

Serra volta a ter vantagem sobre seu colega de Minas quando a pergunta é sobre qual dos dois nomes do PSDB tem mais chances de vencer em 2010: 26 deputados e nove senadores responderam Serra, contra 19 deputados e três senadores que indicaram Aécio.

— Gosto muito do Aécio, mas o Serra tem mais chance. É um grande gestor — disse a senadora Kátia Abreu (TO).

— Gosto muito do Aécio, mas a candidatura Serra tem uma presença mais forte nacionalmente.

Isso o coloca numa posição mais privilegiada do que a de Aécio — justificou o senador Marco Maciel (PE).

A preferência por Aécio Neves foi explicitada pela maioria dos democratas, principalmente na Câmara, onde ele já foi presidente.

Apontaram seu carisma e simpatia como importantes na briga com o candidato do PT, principalmente se for confirmado o nome da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

— O Aécio é a novidade. Ele pode servir como contraponto ao humor da Dilma. Isso fará diferença.

Aécio levaria os votos de Minas e do Rio, além de não ter dificuldade para entrar em São Paulo. A candidatura dele daria um nó no PT — defendeu o deputado Rogério Lisboa (DEM-RJ).

— A grande vantagem do Aécio é que ele tem o poder de aglutinar e trazer outros partidos, inclusive legendas que hoje estão na base de apoio ao governo Lula — justificou o deputado Vitor Penido (DEM-MG).

Outro mineiro, Jairo Ataíde, reforça: — Ele (Aécio) é uma referência com administrador, político e está pronto para fazer uma administração pós-Lula. É carismático. O próprio presidente Lula já disse que não gostaria de tê-lo como adversário.

A divisão maior no DEM é sobre a possibilidade de uma chapa exclusiva formada por tucanos: 19 deputados e oito senadores aprovaram a chapa puro-sangue; mas a maioria, 29 deputados e quatro senadores, não concorda com a possibilidade de o DEM ficar fora da chapa presidencial.

Parlamentares como José Carlos Aleluia (BA), um dos nomes citados pelos colegas para ser o vice, é enfático: — O DEM não deve abrir mão da chapa com o PSDB. Até porque é o principal parceiro.

Muitos democratas avaliam que neste momento o mais importante é vencer as eleições, e que a chapa puro-sangue tem força.

— O Serra e o Aécio juntos são imbatíveis, com a união dos dois maiores colégios eleitorais, Minas e São Paulo. O DEM discute isso com naturalidade, porque o DEM tem minguado ao extremo com sua exposição fora do governo.

Sua gênese é governista — pondera o deputado Alceni Guerra (PR).

— Sou mineiro, assim, entre Serra e Aécio, fico com Aécio. Mas uma composição entre os dois significaria levar previamente dois terços dos votos de Minas e de São Paulo, uma base muito sólida para começar uma campanha — emenda o senador Eliseu Resende (MG).

Antes de acertar a coligação, PSDB tem de escolher seu candidato, diz DEM

DEU EM O GLOBO

Aliados cobram pressa alegando que Lula, Dilma e Ciro estão abertamente em campanha já

BRASÍLIA. Na semana passada, tanto na avaliação para a enquete do GLOBO como na reunião da Executiva Nacional do DEM foi reforçada a pressão para que o PSDB escolha logo seu candidato. Poucos, como o precavido senador Marco Maciel (PE), consideram um erro a antecipação da campanha eleitoral. Outros reconhecem a dificuldade do PSDB para definir isso logo, como o líder José Agripino.

— A inexistência de um contraponto pode passar ao país uma falsa ideia de vitória (governista) por WO — diz Agripino.

— Estamos querendo fechar coligação com o PSDB, mas está difícil. O PSDB não se define e, enquanto isso, o Lula, a Dilma e o Ciro Gomes estão nadando de braçada, sem adversários.

Assim não dá! — reclama o deputado Arolde de Oliveira (RJ).

Mesmo dividido sobre o prazo para definição da candidatura da oposição, há o reconhecimento no DEM de que é preciso que o PSDB, pelo menos, resolva internamente a disputa entre Serra e Aécio.

— O governador José Serra não precisa entrar agora na disputa. Até porque os instrumentos do governo são poderosos — disse o ex-líder José Carlos Aleluia (BA). — Primeiro, é preciso resolver o problema interno do PSDB, quem é o candidato. Até lá, o candidato tucano tem que se movimentar discretamente, sem entrar no embate com o governo.

Para o líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), está decidido que Serra será o candidato: — Pelos sinais que deram, de que cada um é o plano B do outro, está claro que o candidato é o Serra. Sobre a composição da chapa, o DEM tem que buscar a vice.

Entre os nomes citados como possíveis candidatos a vice do candidato tucano, o líder José Agripino Maia teve a maior votação (21 deputados e senadores). A senadora Kátia Abreu (TO) teve 12 menções, mas só um voto no Senado. O deputado José Carlos Aleluia obteve seis citações; Ronaldo Caiado, cinco; o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, quatro; e o deputado e presidente do DEM, Rodrigo Maia, quatro.

Entre os parlamentares que não responderam à enquete, a deputada Nice Lobão (MA) justificou licença médica e o deputado Walter Ihoshi (SP) está em missão oficial ao Japão. Não responderam ou não foram localizados os deputados Betinho Rosado (RN), Bispo Gê Tenuta (SP), Cláudio Cajado (BA), Fernando de Fabinho (BA) e José Maia Filho (PI). A senadora Maria do Carmo Alves (SE) não quis responder. Todos os parlamentares do DEM no exercício do mandato foram procurados em seus gabinetes pelo GLOBO na semana passada.

´Nossos candidatos governam. Não são como Dilma`

Adriana Vasconcelos
DEU EM O GLOBO

Diante do aumento da pressão de aliados e tucanos pela escolha do candidato tucano à Presidência da República, o presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE), admitiu que o PSDB deu início a uma operação para garantir até o fim do ano entendimento entre seus dois précandidatos: os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG). Na sua opinião, o ideal seria que isso acontecesse sem a necessidade de prévias.

Havendo entendimento entre os dois, diz Guerra, não seria necessário entrar em campanha imediatamente, pois eles precisam continuar governando seus estados.

O GLOBO: O DEM e até tucanos cobram o nome do candidato do PSDB.

SÉRGIO GUERRA:
O DEM, nossos eleitores e nossos quadros indicam que querem um candidato para fazer campanha. Mas não é possível, já que nossos dois pré-candidatos são governadores e governam seus estados com responsabilidade. Não são como a Dilma.

Quais as chances de Serra e Aécio se entenderem? Ou o PSDB vai ter prévias?

GUERRA: Se os dois não se entenderem neste semestre, em janeiro ou fevereiro haverá prévias.
Atuamos para que o entendimento aconteça até o fim do ano. Evitaria as prévias. O lançamento de candidaturas não precisaria ser antes, mas no tempo adequado (abril).

Os governistas estão em campanha, diz o DEM.

GUERRA: Temos de cumprir o nosso papel.
A sociedade vai verificar que não tem governo Lula, mas campanha da Dilma. Que não tem obra, mas festa. Nem discurso governamental ou adminitrativo, mas eleitoral.

Em enquete feita pelo GLOBO, a maioria do DEM deixa clara a preferência por Aécio, embora considere Serra mais competitivo.

GUERRA: Aécio é extremamente simpático, cordial e cativante. Serra é um grande administrador e tem desempenho nas pesquisas bastante positivo. Isso se reflete nesse resultado.

Serra e Dilma perderam pontos nas últimas pesquisas. Por quê?

GUERRA: As candidaturas colocadas apontam para o segundo turno. A queda da ministra tem relação com o fato de ter aparecido menos (lá atrás), ela depende das vezes que aparece na TV. No caso de Serra, temos convicção que estamos no patamar de sempre. Isso sem termos candidatos nas ruas ou lançados. E sem termos publicidade sobre eles. Faz muita diferença.

O que muda com a entrada de Marina Silva e de Ciro Gomes na disputa?

GUERRA: A candidatura Marina Silva, se tiver maior escala, atingirá mais o eleitorado do PT.
Mas se ficar apenas como uma manifestação das elites, que é por onde caminha atualmente, danificará o PT e a nós também.

E Ciro, dará trabalho aos tucanos?

GUERRA: Tem sido colocado como forma de danificar o PSDB e José Serra. Até agora não tem política. Só bater é pouco. É garganta pura. Qual o projeto do Ciro para São Paulo? O que fez em São Paulo? Não me parece projeto razoável. A proposta que Ciro pode ter é levar a eleição ao 2º turno.
Estamos preparados para disputar a eleição no 1º e no 2º turno.

Contornos de jogo de xadrez

Tiago Pariz
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Indefinição do candidato ao Planalto deixa PSDB com dificuldades em distribuir as peças no tabuleiro da disputa de 2010. Entrave complica viabilização dos palanques nos estados e irrita o DEM

O PSDB tem problemas em fechar palanques fortes para disputar a Presidência da República. E para o DEM isso é resultado da indefinição de quem será o candidato em 2010: o governador de São Paulo, José Serra, ou de Minas Gerais, Aécio Neves. Os principais entraves estão localizados em estados das regiões Sul e Nordeste, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Siva(1) tem os maiores índices de popularidade.

Entre os democratas, só crescem as insatisfações com os tucanos. Alijados do processo de definições de estratégias para a eleição presidencial, querem que o PSDB se resolva. É praticamente consenso que, enquanto o governo tem Lula como impulsionador da campanha da ministra Dilma Rousseff, a oposição patina.

A insatisfação chegou dentro do PSDB. O presidente da legenda, Sérgio Guerra (PE), já admitiu que a candidata governista terá o apoio dos principais partidos e, portanto, mais tempo de televisão durante a propaganda eleitoral gratuita. Ele, agora, está incomodado com o fato de Lula e sua candidata estarem nadando de braçada no período pré-eleitoral e passou a pregar um acordo entre Serra e Aécio ainda este ano para sepultar a indefinição. Um jantar marcado entre ele, o senador Tasso Jereissati e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na próxima terça-feira, em São Paulo, deve apontar uma solução para o impasse.

Sem saber quem será o candidato, os tucanos esbarram em dificuldades de fechar palanques competitivos, o que pode acarretar problemas em locais onde o partido historicamente tem votações significativas nas eleições presidenciais. É o caso de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. E não ajuda nos estados em que, desde 2002, na primeira eleição de Lula, o partido não tem votação expressiva. Nessa lista entram Rio de Janeiro, Maranhão, Paraíba, Ceará, Pernambuco e Sergipe. Nesses cinco dos nove estados nordestinos, o PSDB quebra a cabeça para forjar alianças significativas capazes de transferir votos em larga escala para Serra ou Aécio.

As turbulências na política gaúcha isolaram os tucanos na polarização entre PMDB e PT. Os peemedebistas estão divididos entre o senador Pedro Simon, presidente da legenda, e o deputado Eliseu Padilha, que comanda os votos do partido. Com a aliança nacional que os peemedebistas pretendem fechar com o PT na próxima quarta-feira, a ministra Dilma Rousseff poderá ter vantagem no estado que a lançou para a política nacional.

É justamente disso que o presidente do PSDB reclama. O impasse engessa as discussões sobre políticas de aliança. No Sul, ainda não é certo se a governadora Yeda Crusius (PSDB) disputará a reeleição ou abdicará do posto para apoiar outro candidato. Os caciques tucanos desejam que ela apoie um nome do PMDB, que deve ser o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça.

Cabo de força

Essa tensão com o PMDB repete-se em Santa Catarina. PSDB e DEM fecharam acordo com o governador Luiz Henrique Silveira e apontaram três pré-candidatos: o ex-senador Leonel Pavan (PSDB), o senador Raimundo Colombo (DEM), e o ex-vice governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB). Como num cabo de força triangular, ninguém abre mão da cabeça de chapa e o acordo pode fazer água.

No Paraná, a situação é mais confortável, mas nem por isso menos complicada. Os tucanos têm como pré-candidatos o prefeito de Curitiba, Beto Richa, e o senador Álvaro Dias. Só que estão também com as miras voltadas para o pré-candidato do PDT, o senador Osmar Dias, que flerta com o apoio de Dilma.

A situação é também complicada no Rio de Janeiro. Com a candidatura à Presidência da República da senadora Marina Silva (PV-AC), fecharam-se as portas para um acordo com os verdes e os tucanos ficaram sem candidato. O secretário-geral do PSDB, Rodrigo de Castro, disse que ainda é cedo para o quadro dos estados estar definido.

Manobra

O presidente Lula quer diminuir a força do PSDB em São Paulo ao empurrar o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) — que deseja ser candidato ao Palácio do Planalto — para a disputa do governo paulista. Em Minas, ele tenta fechar aliança com o PMDB, mas esbarra nas dificuldades do PT, que quer ter candidato próprio e não aceita apoiar o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB).

Definição do perfil

Enquanto persiste o xadrez regional do PSDB, o partido volta os debates para a definição do perfil de seu candidato à Presidência da República em 2010. Se o critério for o maior percentual nas pesquisas de intenção de votos, a escolha será pelo governador de São Paulo, José Serra. Mas se a opção for por alguém capaz de agregar outras forças políticas além de DEM e PPS, a balança pesará para o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Esse é um tema que deve ser debatido no encontro entre Sérgio Guerra, Tasso Jereissati e Fernando Henrique Cardoso, na terça.

“Precisamos saber escolher o que é melhor: quem está bem colocado nas pesquisas ou quem tem capacidade de crescimento e de aglutinar forças. Esse debate está sendo travado dentro do partido de maneira bastante franca”, disse o secretário-geral do PSDB, Rodrigo de Castro. Ele, no entanto, não vê movimento de acerto entre os dois pré-candidatos até o fim do ano, antecipando a escolha que hoje está marcada para o primeiro semestre de 2010, como quer o governador paulista.

Trunfos

Apesar das dificuldades enfrentadas na formação de palanques fortes, os tucanos têm um trunfo, ou melhor, dois. Ser bem superior em São Paulo, onde o PT pasta para voltar a ter papel de protagonista, e ser forte em Minas Gerais — os dois maiores colégios eleitorais do país. Os paulistas têm quase o mesmo número de eleitores de todos os estados da Região Nordeste e Minas supera de longe os eleitores do Norte. “Se o Aécio e o Serra estiverem unidos em 2010, eles serão muito fortes, apesar de todos os problemas no Sul e no Nordeste”, disse um deputado governista que tem trânsito junto ao presidente Lula.

O PSDB aposta no governador mineiro para conter o efeito da popularidade de Lula e a transferência de votos para Dilma no Nordeste. “Aécio agrega mais e tem discurso fácil. Tem fala forte regional e isso vai pesar muito no Norte e no Nordeste”, completa Rodrigo de Castro.

Tucanos cautelosos

Daniela Lima
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Em Goiânia, Aécio Neves e José Serra mostram unidade. E reafirmam que o nome do partido para disputar a Presidência da República só será escolhido adiante, apesar das pressões

Goiânia - O PSDB não pretende deflagrar uma crise interna só para oferecer rapidamente ao eleitorado o nome que encabeçará a chapa do partido na disputa presidencial em 2010. Pressionados por caciques de legendas aliadas, como o Democratas, os tucanos preferem os panos quentes. Na manhã de ontem, os dois pré-candidatos da legenda, os governadores de Minas Gerais e de São Paulo, Aécio Neves e José Serra, apresentaram-se à militância goiana em seminário realizado na capital do estado. Chegaram debaixo de fogos de artifício, falaram sobre o desemprego, a economia e a assistência social, e deixaram o debate sobre os aliados políticos em segundo plano.

O partido deve manter essa orientação pelo menos até o fim do ano. Aécio acha que o PSDB precisa dar um nome ao eleitor até janeiro de 2010. Serra defende que o partido espere até março. Já o presidente da legenda, senador Sérgio Guerra (PE), espera a definição de uma candidatura até o fim deste ano. Portanto, só em dezembro a disputa interna deve apresentar movimentos mais claros.

Até lá, os dois governadores continuarão investindo no discurso da unidade partidária e da elaboração de um programa de governo. Foi o que fizeram ontem em Goiânia. Diante da militância, Aécio elencou conquistas de seu governo, criticou a concentração de renda nas mãos da União e defendeu aquilo que se tornou uma bandeira de seu pleito: a ousadia na gestão pública. Em 20 minutos de discurso, pronunciou variantes da palavra ousar por pelo menos seis vezes. Disse, ainda, que estará ao lado de Serra durante a campanha presidencial independentemente da escolha do partido.“Nós não temos o direito de perder essa eleição. Para isso, vamos unidos até a vitória”, disse, arrancando aplausos acalorados.

Serra, dono de perfil mais contido, subiu ao palanque logo depois. Antes de pegar o microfone, tomou um longo gole de refresco. Dividiu com o público a angústia. “Caminho para encerrar o evento e ao mesmo tempo tenho que falar depois do Aécio, o que não é fácil”, disse.

Depois, usando a diversidade do futebol paulista como metáfora disparou: “Lá não é como aqui. Aqui todo mundo é Goiás”. Torcedores do Atlético Goianiense e do Itumbiara protestaram.

Em tom mais ameno que o antecessor, lembrou que muitos dos programas sociais do governo Lula são adaptações de ações implementadas por gestores tucanos. Sobre os que cobram a definição de um nome por causa das movimentações da ministra da Casa Civil Dilma Rousseff e do deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) rumo ao Planalto,foi incisivo. “Não vamos nos pautar porque o presidente Lula fez uma viagem com um ministro de estado”. “O Brasil não voltará a ser uma capitania hereditária. O presidente Lula pode ter um candidato, isso não quer dizer que ele será escolhido pelo povo”, completou o governador paulista.

A cúpula do PSDB também minimizou as cobranças de aliados. Decidiu tratar as críticas do Democratas como frutos de uma disputa interna entre os aliados. E nada mais. “Qualquer que seja a decisão, DEM e PSDB vão estar juntos. Isso é certo”, encerrou Aécio