quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Demétrio Magnoli: Dois Brasis, quase

- O Globo

Os dois Brasis – o título é célebre; o autor, pouco conhecido. Publicada em 1957, nos anos áureos de JK, a obra do francês Jacques Lambert contrapunha o "novo" ao "arcaico", esboçando os rumos de uma modernização pela qual o primeiro contaminaria o segundo até dissolvê-lo no caldo do progresso. A linguagem binária da sociologia do desenvolvimento, um eco de polaridades antigas (litoral versus sertão, cidade versus campo), projetava-se como geografia econômica: Sudeste versus Nordeste. Mais de meio século depois, a tese dualista parece se refletir como mapa eleitoral: Aécio triunfou no Centro-Sul; Dilma, no Norte-Nordeste.

A hegemonia lulopetista na "sua" região é avassaladora. Na Bahia, Dilma obteve 61% dos votos; no Ceará, 68%; no Maranhão e no Piauí, 70%. As derrotas coagulam singularidades: Pernambuco, terra de Eduardo Campos, escolheu Marina, assim como o Acre, terra de Marina; Roraima, estado de colonos traumatizados pela política indígena, sufragou Aécio. O Brasil que depende do poder central, das transferências públicas, dos programas de renda, teme a mudança. Lambert tinha razão? Não: a modernização reiterou o arcaísmo, atualizando-o.

A fronteira entre os "dois Brasis" atravessa o Centro-Sul. São Paulo deu a Aécio 29% de sua votação nacional. O tucano levou o Sul (mas não o Rio Grande do Sul), triunfou em todo o Centro-Oeste e venceu no Espírito Santo – mas perdeu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. É que a "fronteira lambertiana" passa dentro dos estados. O Norte de Minas Gerais, cujos indicadores sociais assemelham-se aos do Nordeste, inclinou-se em massa para Dilma, tanto quanto a deprimida "metade Sul" do Rio Grande do Sul. No Rio de Janeiro, Aécio levou a capital e a Região Serrana, enquanto Marina levou Niterói, mas Dilma ficou com a Baixada Fluminense e o interior do estado. Até em São Paulo a presidente-candidata obteve vitórias esparsas, quase restritas aos municípios pobres do Pontal do Paranapanema e do Vale do Ribeira.

O PT nasceu e cresceu nas grandes cidades do Centro-Sul, entre os jovens, a classe média e os trabalhadores qualificados, mas trocou de eleitorado depois de chegar ao poder. Hoje, esse universo é terra estrangeira para o lulopetismo: todas as capitais do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste alinharam-se com Aécio. Somados, Aécio e Marina tiveram algo entre 70% e 80% dos votos de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Brasília. No Nordeste, pelo contrário, entre as cidades mais importantes, Dilma só perdeu em Recife, Caruaru e Maceió (para Marina) e em Campina Grande, polo tecnológico e acadêmico (para Aécio). Os principais centros industriais viraram as costas ao PT, que perdeu no ABC Paulista, seu berço original, em Volta Redonda, no cinturão siderúrgico mineiro e na maioria das cidades manufatureiras do Sul. A "classe trabalhadora" vota contra o "Partido dos Trabalhadores".

Nos polos opostos do espectro político, sob as lentes do dualismo, emergem interpretações eleitorais rasteiras. "Luta de classes", diz uma esquerda caricata, oportunamente esquecida de que a antiga Arena tinha suas fortalezas eleitorais nasregiões e camadas mais pobres. "Desinformação", replica uma direita primitiva, incapaz de entender as assimetrias da razão: a lógica dos outros. A rígida divisão regional do mapa eleitoral não é uma boa notícia política, mas o problema real se expressa nesse tipo de leituras do cenário nacional.

Há um mês, em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente da Vale, Murilo Ferreira, um preposto do lulismo alçado pelo bloco acionário composto pelo BNDES e pelos fundos de pensão, ecoou a melodia da campanha de Dilma atribuindo as críticas ao governo a empresários rancorosos "da Faria Lima". São Paulo esteve, ao lado de Porto Alegre, entre os primeiros grandes municípios administrados pelo PT, de 1989 a 1993 – e, depois de Luiza Erundina, voltou a eleger uma prefeita petista, Marta Suplicy, em 2001. O antipetismo registrado na onda de votos em Aécio não é um dado inerente aos paulistas, mas o fruto de uma longa experiência política. O núcleo central do empresariado, constituído por bancos, empreiteiras e companhias financiadas pesadamente pelo BNDES, dirigiu a maior parcela das doações legais de campanha para a presidente-candidata. A "elite branca paulista" é um álibi, tecido com a linguagem abominável da raça, para justificar o recuo do lulopetismo rumo ao Norte-Nordeste.

Na outra ponta, o mapa do voto é um convite à irrupção do preconceito antinordestino, que associa os sufrágios em Dilma à "ignorância" e ao "cabresto". Não há nada de surpreendente na circunstância de que as escolhas eleitorais da população de escolaridade e renda inferiores são atraídas pela força gravitacional do poder de Estado. No passado, o tradicional voto de cabresto beneficiava os "coronéis", chefes políticos locais que intercambiavam apoio eleitoral por favores pessoais, derramando dentaduras entre os habitantes de seus "currais". O Bolsa Família não é uma "bolsa esmola" – como o qualificou Lula quando, nos idos do governo FHC, ainda se chamava Bolsa Escola. O voto nas políticas de renda distingue-se positivamente do antigo voto de cabresto pois circunda os "coronéis", inscrevendo-se de algum modo no campo do debate público sobre as políticas de combate à pobreza.

O conceito de "dois Brasis" é uma explicação sedutora, mas superficial, da cena eleitoral reiterada no domingo. Os "dois Brasis" estão em todas as regiões, como provam Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Além disso, crucialmente, a meta de superação da pobreza forma uma ponte política entre os "dois Brasis", como prova o triunfo eleitoral de Lula em 2002, obtido com os votos majoritários do Centro-Sul, inclusive de São Paulo. Tanto um Brasil como o outro merecem mais que a exumação oportunista de uma ossada sociológica.

Demétrio Magnoli é sociólogo.

O que se pode esperar agora: O Estado de S. Paulo - Editorial

Uma campanha eleitoral serve para oferecer aos eleitores uma visão tão clara, ampla e profunda quanto possível daquilo que se propõem a fazer, uma vez eleitos, aqueles que disputam seu voto. No que estão implícitas, especialmente no caso de candidatos oposicionistas, as críticas e correspondentes alternativas às políticas em vigor e das quais discordam.

É também a oportunidade que os candidatos têm de apresentar as credenciais que os habilitam a cumprir o que prometem. São assim as campanhas civilizadas, que honram e elevam o debate político e resultam no aprimoramento do sistema democrático e da gestão da coisa pública. Infelizmente, não é o que se tem visto no Brasil, de modo muito especial desde que o PT passou a disputar eleições.

Diante do retrospecto da campanha do primeiro turno desta eleição presidencial, para ficar nos exemplos mais recentes, é difícil de imaginar que a propaganda eleitoral que recomeça hoje fuja do padrão "fazer o diabo" preconizado por Dilma Rousseff e fielmente cumprido pelo portentoso aparato montado pelo PT para manipular números, inventar mentiras e alimentar ilusões.

Por essa razão, são até animadoras, mesmo analisadas com a devida cautela, as declarações de dois importantes líderes petistas estampadas nos jornais desta semana, nas quais afirmam discordar da radicalização da campanha eleitoral como Dilma Rousseff fez no primeiro turno.

Os petistas Fernando Pimentel, governador eleito no primeiro turno em Minas Gerais, e Jaques Wagner, governador que chega ao fim de seu segundo mandato na Bahia garantindo, também em primeiro turno, a eleição de seu sucessor, em entrevistas separadas ao jornal Valor, consideraram "um erro" eventual tentativa de repetir, contra Aécio Neves, a tática do terror empregada contra Marina Silva.

Com o prestígio acumulado junto à cúpula do PT com as importantes vitórias que obtiveram em seus Estados, Pimentel e Wagner entendem que a campanha de Dilma Rousseff neste segundo turno precisa ser propositiva, baseada na comparação dos governos petistas com os dos tucanos.

Deve-se, contudo, dar um desconto para os bons modos dos dois próceres petistas, que se manifestaram de alma leve, no embalo da euforia pelas significativas vitórias eleitorais que conquistaram. Não é essa a disposição geral entre os lulopetistas. No calor da disputa do segundo turno, principalmente se as primeiras pesquisas de intenção de voto não lhes trouxerem boas notícias, os petistas de truz não hesitarão em apelar para o que sabem fazer de melhor: reduzir o discurso ao nível mais baixo possível e partir para o ataque aos "inimigos do povo" com muita maldade e nenhum escrúpulo.

A verdade é que de quem assim age pouco se pode esperar qualquer contribuição importante para o aprimoramento da democracia, única via segura para a conquista do progresso com a eliminação das injustiças sociais, porque o argumento central do discurso imposto ao partido pelo pragmatismo populista de Lula é falso como uma nota de três reais: o que está em jogo, permanentemente, é a luta de "nós", o povo humilde e sofrido, contra "eles", a elite perversa.

Esse substrato da retórica petista, facilmente identificável, nem sempre está claramente exposto nos discursos oficiais ou na propaganda eleitoral, mas é abertamente usado pela militância petista, que não hesita em atemorizar o eleitorado dependente de programas sociais como o Bolsa Família com a falácia de que os adversários do PT, se eleitos, acabarão com esses programas.

Até mesmo Fernando Pimentel, que se diz contra campanhas eleitorais de baixo nível, pratica o discurso lulista do bem contra o mal. Em sua entrevista ao Valor, garantiu que o PT, generoso, defende "um modelo comprometido com o bem-estar da população", enquanto a oposição, insensível, "tem a preocupação clara com a livre circulação do capital financeiro, com o processo mais de acumulação do lucro das empresas do que da distribuição de renda". Vem muito mais por aí.

Carlos Alberto Sardenberg: Troquem pelo tomate

- O Globo

Um bom azeite, cebola, um tantinho de sal - é o que basta para cozinhar muita coisa boa, inclusive um bom bife. Mas a cebola está cara, subiu muito durante o ano, e a carne bovina mais ainda. Qual o problema? Troquem por tomate, recomenda o secretário de Política Econômica da Fazenda, Márcio Holland.

Não deve ser bom cozinheiro. Churrasco sem carne bovina não vale, mas, vá lá, o combo coxa/asa de frango quebra o galho em dias de orçamento apertado. Tudo bem com o tomate, mas só neste momento. O produto não é confiável a médio prazo, pois o preço costuma ter altas espetaculares a qualquer problema climático. Pode-se tentar a batata, também baratinha por ora.

Agora, sem cebola não dá. Alguns sugerem o alho, erradamente. O alho vai bem com a cebola, não em vez dela. Além disso, o alho também não é confiável. Sabiam que o maior produtor mundial é a China? Pois então, quando a safra chinesa é boa, o preço cai por aqui, por causa da importação. Quando dá algum problema por lá, como aconteceu no início deste ano, o preço local dispara. Além disso, o governo brasileiro não acha errado tocar imposto no alho chinês, tornando-o mais caro, para ajudar os produtores locais.

Pois é, não tem jeito. Solta daqui, aperta dali. E quando esse tipo de conversa é colocado por uma autoridade como o secretário de Política Econômica, encarregado de definir as grandes linhas, é sinal de que a inflação está espalhada, é persistente e o governo não encontra nada melhor que um tomate para combatê-la.

Cozinheiros e consumidores têm até o direito de se sentirem ofendidos. Não fazem outra coisa senão procurar as alternativas mais em conta. Macarrão caro? Vamos de batata. A carne pelo frango, o frango pelo peixe, o feijão pela mandioca e assim se toca o orçamento doméstico. Não precisa o secretário explicar. O ambiente fica desconfortável, como agora, quando a alta de preços é muito espalhada, o que estreita as margens de escape.

Tudo considerado, isso quer dizer o seguinte: o governo não sabe o que fazer para derrubar a inflação. Também parece que não sabe muito bem a causa. Já disse que era só uma inflação de alimentos. Só comida?

Depois disse que estava todo mundo enganado. Na verdade, sustentavam a presidente Dilma, o ministro Mantega e o secretário Holland, não havia inflação, pois o índice oficial de preços, o IPCA, estava dentro da meta. A presidente chegou a dizer, em debates do primeiro turno, que a inflação era zero. Zero! Baseava-se no índice de um único mês, que todo mundo sabia ser um acontecimento único.

Nem era zero, nem estava na meta. Esta, definida pelo Conselho Monetário Nacional, é de 4,5% no ano, com margem de tolerância de dois pontos. Logo, 6,5% é o teto tolerado para situações excepcionais - e não por quatro anos seguidos. Muito azar, não é mesmo?

Depois, quando a inflação estourou mesmo os 6,5%, como agora... ora, por que não comem tomate?

Repararam na sequência? É só alimentos; está na meta; não comam carne bovina. Neste momento, portanto, eis o que sugere o secretário, o índice só furou o teto porque a população não sabe fazer compras.

Será que eles acreditam nisso ou seria mais uma dessas "coisas de campanha"? É difícil para a presidente que busca a reeleição admitir que tem inflação. Mas, se ela sustenta que sua política econômica está correta, então deveria ter como explicar o fenômeno. Às vezes, problemas ocorrem mesmo quando se aplica a política conveniente. E o segundo turno poderia ser um momento adequado para se explicar isso.

Poderia.

No lado da oposição, se Aécio diz que a inflação alta é culpa do governo, então precisa informar como pretende combatê-la, com quais instrumentos (juros? Corte de gastos públicos?) e em qual prazo pode alcançar a meta.

Digamos que no debate preliminar - tem ou não tem inflação - a oposição leva. Na fase seguinte, o governo sai com essa do tomate. A oposição não pode simplesmente dizer que a cebola é insubstituível.

PIADA
Sugerida por uma ouvinte da CBN, a Tatiana. Qual o eufemismo petista para privatização? Concessão.

E o tucano para racionamento de água? Administração de recursos hídricos.

Armínio refuta comparações 'rasteiras'

• Salários devem crescer com a economia, diz Arminio


• "O crescimento no segundo mandato FHC foi maior do que o do governo Dilma e em circunstâncias bem piores"



• "A qualidade dos serviços públicos é número 1; é o que fará o país entregar igualdade de oportunidades"


Claudia Safatle e Alex Ribeiro  - Valor Econômico


BRASÍLIA - Chamado ao debate pela presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, o ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga, escolhido para ser o ministro da Fazenda de um eventual governo Aécio Neves, afirma que tal como proposto pela campanha do PT, tal comparação é "rasteira" e uma tentativa de "fugir do debate".
O cerne da questão é recuperar a capacidade do país de crescer. "Para os salários continuarem a crescer, para os programas sociais continuarem a crescer, é preciso que a economia cresça". Para ele, apesar de todos os progressos o Brasil continua a ser um país "tremendamente desigual".

Em entrevista ao Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, ele propõe um "novo regime" de política econômica que vai além do retorno ao tripé representado pela meta de inflação, superávits primários das contas públicas e taxa de câmbio flutuante. O modelo se traduz em três eixos: o reequilíbrio macroeconômico, o aumento dos investimentos e o crescimento da produtividade.

De início será preciso dar maior transparência à contabilidade fiscal. Isso vai exigir a inclusão, no Orçamento da União, de todos os subsídios concedidos pelo atual governo às empresas nos empréstimos dos bancos públicos federais.

"Não sou radicalmente contra as políticas de subsídios, mas sou a favor de critérios bem definidos de concessão e avaliação de custos e benefícios para que tenham ganhos sociais e não privados", disse.

O segundo é aumentar os investimentos dos atuais 16,5% do PIB para 24% do PIB. O reforço da política macroeconômica ajudaria a queda dos juros e tiraria a pressão sobre a taxa de câmbio. Seria preciso, também, ter estabilidade nas regras do jogo e mobilização de capitais privados para alavancar a infraestrutura.

Para aumentar a produtividade da economia, a terceira vertente é desmontar, gradualmente, a chamada "nova matriz econômica" do governo Dilma, sustentada por subsídios, desonerações de impostos e proteção à concorrência externa.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: O programa do PSDB propõe a volta do tripé macroeconômico levado a sério ou se trata de um novo regime?

Arminio Fraga: Considerando o que está acontecendo hoje, é as duas coisas. É a volta do tripé com o reforço da transparência. Hoje isso virou um aspecto importante, porque o governo está levando a criatividade a um extremo que começa a ser altamente relevante, não só por uma questão de princípio, mas pelo tamanho. Temos o tema da dívida líquida versus bruta e o início da discussão sobre a trajetória de crescimento do gasto público.

Valor: O governo destacou o ministro Aloizio Mercadante, que se licenciou da Casa Civil, para cuidar do debate econômico da campanha. O que o senhor acha disso?

Arminio: Para mim, tanto faz. Estava fazendo falta aparecer gente para debater. Acho saudável. Espero que seja um debate de alto nível e que respeite os fatos e os contextos.

Valor: A presidente disse que o momento é de fazer comparações do governo dela com o de FHC, há doze anos. Citou a inflação de 12,5% em 2002, quando da sua gestão no BC. É uma boa comparação?

Arminio: A comparação deve ser feita dentro do contexto do que cada governo encontrou e o que deixou. Não é mais do que obrigação de um governo deixar as coisas melhores do que encontrou. Eu diria que esse governo vai deixar as coisas piores do que encontrou. A comparação de nível, com frequência feita em termos nominais, é rasteira. Mas se você quiser olhar um indicador, só um, seria por exemplo a taxa de crescimento. Eu acho errado, não gosto de fazer isso, mas a taxa de crescimento do segundo mandato de FHC foi maior do que a taxa de crescimento do governo Dilma, e em circunstâncias significativamente piores.

Valor: E em 1999, quando o Sr. assumiu o BC?

Arminio: As expectativas de inflação em 1999 oscilavam muito, entre 20% e 50%, depois da flutuação do câmbio. As expectativas eram de uma queda de 4% do PIB. O ano acabou com a inflação de 9% - ou seja, não se perdeu a âncora - e o crescimento foi positivo, em torno de 0,5%. Essa é uma discussão desenhada para fugir da situação real que a economia brasileira se encontra hoje, que é o 7 x 1 (inflação próxima de 7% e crescimento abaixo de 1%). Uma situação maquiada e com a taxa de investimento muito baixa, de 16,5% do PIB, um novo recorde de baixa. Acho que eles estão tentando fugir do debate.

Valor: O governo tem dito que, se Aécio Neves ganhar, vocês vão combater a inflação com arrocho e desemprego. O que o Sr. tem a dizer sobre isso?

Arminio: Primeiro, seria interessante entender o que o governo está tentando fazer, já que eles estão se propondo a ficar mais tempo. A condução da política macroeconômica, especialmente nos últimos três ou quatro anos, foi muito distorcida, esquizofrênica. Enquanto o Banco Central tentava segurar a inflação, o governo expandia a política fiscal e a política creditícia, principalmente de seus próprios bancos, o que acabou gerando essa situação esdrúxula de pouco crescimento e muita inflação. O que está faltando é mais investimento. É possível reequilibrar o tripé e, com isso e várias outras políticas, recuperar a confiança na economia, que está paralisada, e fazer o ajuste de forma virtuosa. Acredito que isso é possível. Foi possível em 1999, como citei.

Valor: A continuação da política em curso nos levaria ao rebaixamento pelas agências de rating?

Arminio: Acho que sim. Não estou dizendo que essa é a minha expectativa. Espero que não seja esse o governo que vai lidar com essa questão. Se for, espero que eles acertem, mas, infelizmente, não há nenhum sinal de que isso vá acontecer. Há uma recusa total de se encarar a realidade e se partir para propostas consistentes. Estão aí há vários anos e a economia só vem piorando. Seria razoável fazer uma autocrítica, ainda que discreta, pois ninguém pode exigir mais do que isso em um ano de eleição, mas pelo menos sinalizar algo pelo bem do país.

Valor: Quais seriam os elementos básicos de uma política econômica progressista?

Arminio: Esse é um tema fascinante e da maior importância. Primeiro, a despeito de vários programas sociais de boa qualidade, tem muita coisas básica que as pessoas deveriam ter e não têm. A qualidade dos serviços públicos no Brasil em geral deixa muito a desejar. Essa é a base, é algo que faz parte de um país que consegue entregar igualdade de oportunidades. Isso é numero um. Temos que continuar com os programas de combate à pobreza extrema, mas é preciso ir muito além. E nisso o governo tem tido muita dificuldade. Depois, há todo esse modelo chamado de "nova matriz macroeconômica" que nada mais é do que uma tentativa de resolver com paliativos situações que são de natureza mais estrutural, fundamental. O governo está subsidiando empresas com volumes imensos de recursos, sem qualquer justificativa social, as desonerações foram feitas sem nenhum critério que se possa identificar e até proteção contra a concorrência externa.

Valor: O que é estrutural?

Arminio: Um pacote desses só existe porque o governo não consegue entregar um custo de capital mais baixo, um sistema tributário mais razoável, que não onere as exportações e os investimentos. O governo não consegue desenvolver a infraestrutura do país, que hoje é um tremendo problema para todos os setores, do agronegócio à indústria. Então ele tenta dar esses subsídios quando o que os empresários querem, na verdade, é um país mais arrumado, com regras mais claras, menos ideológicas e menos corruptas. Dá para imaginar, também, coisas menores, mas de muita importância para reduzir o custo Brasil.

Valor: Por exemplo?

Arminio: A tributação no Brasil é, em geral, bastante regressiva. Isso merece uma revisão completa. Pode-se imaginar as revisões das desonerações, que hoje são tremendamente regressivas. Tem muitas coisas a fazer. O Brasil, apesar de todos os progressos que fez, com o fim da hiperinflação, com o Bolsa Família, continua a ser um país tremendamente desigual. Acho que a base está na qualidade do gasto público, que é onde há espaço muito grande para avançar sem prejuízo dos outros.

Valor: O programa fala em limitar o aumento do gasto público....

Arminio: A proposta é casada com a ideia de que o Brasil tem uma carga tributária alta para um país de renda média como o nosso e que, portanto, isso precisa ser discutido. Mas não é possível discutir o tamanho da carga tributária sem discutir o tamanho do gasto.

Valor: O programa do PSDB garante a manutenção de todos os programas do governo, Pronatec, Bolsa Família, Mais Médicos, e Aécio Neves colocou a revisão do fator previdenciário. Cabe tudo na conta?

Arminio: Não tem porque, em um ambiente populista como esse, listar qualquer sugestão. O governo tende a colocar esse problema como se houvesse um jogo de soma zero. Porque? Porque não estão com o crescimento na cabeça. Já esqueceram que isso é possível. Em uma economia que cresce, você pode resolver isso da forma que estou colocando. Basta controlar a taxa de crescimento do gasto, para que seja inferior ao crescimento do PIB. Outro ponto a respeito desse governo é que não há avaliação de coisa alguma.

Valor: Como assim?

Arminio: Não há transparência e, portanto, não há avaliação. Teve um momento em que o Ministério do Planejamento colocou brevemente no seu site, na gestão do Paulo Bernardo, uma avaliação, mas rapidamente tiraram. Esse país não avalia nada. Essas coisas que estão aí certamente merecem o rótulo de regressivas ou não progressista. Por isso tenho repetido que é fundamental dar transparência, consolidar tudo no orçamento. Você força esse debate que hoje não existe. As pessoas tem a sensação de que tem aqui um dinheirinho barato do BNDES que não precisa ir para o orçamento. Não é verdade. Tudo sai de algum lugar.

Valor: O baixo crescimento não é cíclico, ligado à fraqueza da economia mundial, ao aumento dos juros para baixar a inflação e à queda na confiança provocada pela acirrada disputa eleitoral?

Arminio: Tem um lado que não se pode esquecer. Para os salários continuarem a crescer, para os programas sociais continuarem a crescer, é preciso que a economia cresça.

Valor: Mas e a questão cíclica?

Arminio: Claro que chama a atenção o Brasil crescendo zero e a economia mundial crescendo 3,3%. Mas de fato cabe essa questão: será que é cíclico? Se você olhar a média do crescimento do Brasil com a média da América Latina nos quatro anos do governo Dilma, usando a projeção do Focus para esse ano, o Brasil ficou aproximadamente dois pontos percentuais abaixo. É bom lembrar que a América Latina inclui Argentina, Venezuela, que não estão indo bem. Se você comparar só com os países que estão mais arrumados, Peru, Colômbia, que crescem 4% ou mais, não faz sentido. Eu estava olhando as relações de troca do período Dilma versus o governo FHC. Caiu um pouco ao longo desse período, mas ainda está em um nível alto comparado com a média histórica. Não acho que seja um problema cíclico. Os problemas que existem são auto-impostos e podem ser corrigidos.

Valor: O BC diz que o país está em um período de transição, que há uma mudança estrutural com menos consumo e mais investimentos e exportações, aumento da produtividade puxado por mais escolaridade, pelas concessões e desvalorização cambial. Esse ciclo virtuoso vai aparecer em breve?

Arminio: O Banco Central vem falando dessa transformação há bastante tempo e ela não tem aparecido porque tem problemas. Alguns desses temas de fato tem impacto positivo, mas é preciso olhar o agregado quando, ao mesmo tempo, há aspectos que estão indo na outra direção. O número de investimento do último trimestre, 16,5% do PIB, é muito baixo. Essa "nova matriz econômica", a meu ver, não gera crescimento. Infelizmente foi testada no passado, não deu certo, e cá estamos outra vez. O próprio ministro Mantega, quando assumiu, se não me falha a memória, em uma reunião ministerial - esse documento sumiu do site- falava de um crescimento médio em torno de 5%, indo para 6,5%, nesse governo. O sonho de crescer, todos nós temos. Tem que mudar o modelo.

Valor: Onde a abertura comercial ajuda nesse novo regime?

Arminio: Estamos discutindo a importância de ter o Brasil conectado com as melhores cadeias produtivas do mundo. Queremos um país tão produtivo, tão próspero e tão justo quanto os países mais avançados do mundo. Essa conexão é muito importante. Nossa proposta não é fazê-la da noite para o dia, mas ir aos poucos abrindo, na medida em que se resolvem as questões estruturais. Um ponto que precisa ser mencionado, além disso, é a alocação do capital. Está se politizando o investimento e, com certeza, o país perde.

Valor: O senhor defende uma abertura unilateral do Brasil?

Arminio: Sempre pensamos de maneira multilateral, mas a partir de determinado momento perdemos o bonde. O mundo inteiro começou a fazer acordos regionais, bilaterais, e nós ficamos para trás. Penso que isso foi uma grande desculpa para manter o protecionismo, que certamente não resolveu o problema da nossa indústria. Olha o estado dela hoje.

Valor: O plano do Aécio é levar a inflação para a meta de 4,5% em dois ou três anos. O BC tem um cronograma semelhante. Qual é a diferença em relação ao que já está sendo feito?

Arminio: O BC está falando isso há três anos. Há uma divergência entre o discurso e o realizado. Não nego que o resto do governo dificulta esse trabalho, porque tem uma expansão fiscal ao longo do caminho e expansão de crédito. É muito difícil o BC remar contra essa corrente.

Valor: O BC não tem que se preocupar com o emprego e a renda?

Arminio: Com certeza o BC tem que fazer política anticíclica, mas é consenso de que não se consegue eliminar o ciclo totalmente. Achar que inflação mais alta vai trazer mais bem estar para as pessoas não faz o menor sentido. E, se alguém sabe disso, somos nós no Brasil, que vivemos um período de inflação alta. Não houve no Brasil nada que prestasse a partir desse caminho. Inflação alta sempre foi ruim para o crescimento e para a distribuição da renda.

Valor: Mas o país está com pleno emprego e ganho de renda e talvez seja por isso que a presidente Dilma liderou o primeiro turno das eleições...

Arminio: O fato de o desemprego estar baixo é muito bom. O problema é para onde estamos indo.

Valor: Como rever o tamanho do BNDES, que cresceu à base de endividamento do Tesouro Nacional?

Arminio: Estamos falando de dinheiro subsidiado, e isso é algo que tem que estar disputando com outros itens do orçamento. A sensação de que existe aqui um espaço especial para o gasto é muito ruim para a economia e considero um desrespeito à democracia. Com certeza o BNDES tem um papel importante para cumprir em várias áreas, na infraestrutura, mas isso tem que ser feito com critério, transparência e contabilizando os subsídios. Não tenho dúvida de que isso vai gerar uma transição suave.

Valor: A opção do PSDB é por arrumar a casa de maneira gradual?

Arminio: Tem dois itens macro que devem ser ajustados de forma gradual. Um é o saldo primário, outro é a trajetória da inflação. Porque acredito que com isso será possível nós nos beneficiarmos das melhorias nas expectativas, da confiança em geral. Esse ajuste tem tudo para ser virtuoso, apesar do que dizem por aí. Ponto. O resto, dar transparência, revisar o sistema tributário, repensar nossa política de integração ao mundo, agilizar tudo que tenha a ver com investimentos e infraestrutura, tem que feito com a máxima urgência. Não confunda as coisas. Quando você combina uma resposta macro correta, diminuindo a incerteza, com um lado estrutural, microeconômico, o resultado é bom. Essa agenda micro/estrutural é preciosa e pode ser feita na máxima velocidade possível.

Valor: Haverá uma política de reindustrialização?

Arminio: Eu diria que sim. A indústria está passando momentos extremamente difíceis. E nos acreditamos que o modelo que vai reduzir o custo do capital, tirar a pressão da taxa de câmbio, fazer a reforma tributária e investir muito em infraestrutura vai melhorar a vida da indústria e permitir que aos poucos sejam removidas essas cortisonas que se tem por aí.

Valor: Sempre que se entra na campanha eleitoral, volta o assunto da privatização. Que o candidato do PSDB vai privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e assim opor diante. Haveria alguma nova privatização?

Arminio: A ideia é de reestatizar o Estado. A leitura do Aécio é que a Petrobras está aparelhada, está capturada, com interesses partidários e privados e que isso tem que acabar.

Marisa Monte- Esqueça

Joaquim Cardozo:Recordações de Tramataia

I
Eu vi nascer as luas fictícias
Que fazem surgir no espaço a curva das marés
Garças brancas voavam sobre os altos mangues
De Tramataia.
Bandos de jandaias passavam sobre os coqueiros
                                                                 [ doidos
De Tramataia.
E havia um desejo de gente na casa de farinha e
                                        [ nos mocambos vazios
De Tramataia.
Todavia! Todavia!
Eu gostava de olhar as nuvens grandes, brancas
                                                             [e sólidas,
Eu tinha o encanto esportivo de nadar e de
                                                       [ dormir.

II

Se eu morresse agora,
Se eu morresse precisamente
Neste momento,
Duas boas lembranças levaria:
A visão do mar do alto da Misericórdia de Olinda
                                               [ ao nascer do verão.
E a saudade de Josefa,
A pequena namorada do meu amigo de
                                              [ Tramataia.

1934

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Opinião do dia: Roberto: Roberto Freire

Além do reencontro histórico com a esquerda democrática e os projetos comuns, um dos argumentos fundamentais para o PPS apoiar a candidatura de Eduardo Campos e Marina Silva foi que isso ajudaria a viabilizar o segundo turno das eleições. E, evidentemente, que, se nós é que fôssemos para o segundo turno, Aécio nos apoiaria. O fundamental é derrotar o governo do PT para o bem do país. Lutamos para que a nossa candidata fosse para o segundo turno. Não chegando, e o outro candidato sendo Aécio, com a maior naturalidade apoiamos a candidatura. Não teve nenhuma voz dissonante. A sociedade deu um recado claro nas urnas contra o governo. Defendemos a união das oposições para derrotar o lulopetismo.

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente nacional do PPS, em entrevista logo após a reunião da Executiva nacional do PPS. O Globo, 8 de outubro de 2014.

Mantega usa tática do medo contra PSDB na economia

• Mantega falta à reunião do FMI e, ao lado de Dilma, diz que programa tucano causará desemprego

Fernanda Krakovics, André Coelho, Martha Beck, Simone Iglesias e Luiza Damé – O Globo

BRASÍLIA - Depois de desconstruir Marina Silva (PSB) no primeiro turno, a campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff investe agora em uma campanha do medo contra seu atual adversário Aécio Neves (PSDB). O ministro Guido Mantega (Fazenda), que cancelou viagem a Washington e deixou de participar da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), a pedido da presidente, afirmou que a política econômica defendida pela oposição causará desemprego e cortes em programas sociais, além de poder provocar uma recessão. Já a presidente, classificou ontem como "fantasmagórica" a situação do Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

- O que nós temos é a possibilidade de uma política conservadora neoliberal. É uma volta ao passado. A oposição só pensa em política monetária e fiscal austera. Aumentar o superávit primário (economia feita para o pagamento de juros da dívida pública), se for muito forte, será cortar os programas sociais. Eu desconfio que tem gente que gostaria de cortar os programas sociais. Isso vai aumentar desemprego. Política tradicional. Vai ter desemprego alto (&) É a volta ao passado que eu acredito que a população brasileira não vai querer - afirmou Mantega.

Os repórteres pediram que o ministro explicasse qual a diferença entre a política fiscal mais austera defendida pela oposição e a prometida pela atual equipe econômica para 2015, que projeta uma elevação do superávit primário para 2% a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Mantega disse que o discurso da oposição se tornou mais suave depois que ele próprio começou a apontar que haveria choque na economia:

- A oposição tinha um discurso de ajuste fiscal forte, e depois eu vi que houve uma mudança sutil. Eu tenho certeza que a nossa política fiscal é diferente da defendida pela oposição.

Programas sociais sem escala
Numa referência a Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, escolhido por Aécio como seu futuro ministro da Fazenda, se eleito, Mantega disse temer que a tentativa de derrubar a inflação no país seja feita com um choque de juros, o que prejudicaria o crescimento.

- Me preocupa muito que o mesmo gestor da política monetária possa voltar e vá querer derrubar a inflação com um choque monetário como foi feito no passado. Uma taxa de juros dessa magnitude acabaria com o mercado imobiliário porque ninguém vai querer investir em imóveis, pois vai ter um lucro tranquilo aplicando em títulos públicos. Vai ser uma maravilha. Ninguém vai querer trabalhar. Ninguém que tem dinheiro, naturalmente. Você vai provocar uma recessão da economia - disse o ministro.

A presidente reforçou a artilharia econômica:

- Do governo anterior, do Itamar (Franco), até o final do deles (tucanos), dobraram a dívida. As reservas deles eram de US$ 37,8 bi. Desses, US$ 20 bi eram empréstimos, portanto US$ 17,8 bi eram reservas mesmo. A situação do Brasil era fantasmagórica, não é retórica. A situação social também era ruim - disse Dilma, em reunião com governadores e senadores da base aliada eleitos domingo.

A presidente, que também comparou taxa de desemprego e poder de compra do salário mínimo, disse que as políticas sociais dos tucanos têm dimensão de "projeto piloto", porque, segundo ela, o Bolsa Escola atendia 5 milhões de pessoas e o Bolsa Família atinge 50 milhões. Dilma afirmou que "a escala faz toda a diferença".
- O mais dramático disso tudo é que o outro projeto simplesmente não fez políticas sociais e quando fez, fez em pequena escala, não compatível com a dimensão do país - argumentou Dilma, na reunião, que foi fechada à imprensa.

Após o encontro, Dilma ainda ironizou Aécio, em entrevista coletiva, pela derrota em Minas, seu reduto eleitoral, onde foi governador duas vezes. A presidente disse quem a conhece votou nela.

- Fiquei muito feliz por ter ganhado no meu estado natal (Minas). E no Rio Grande do Sul (onde fez sua carreira política) eu também tive boa votação. Então quem me conhece votou em mim - disse a presidente.

Sobre sua derrota em São Paulo, inclusive no ABC paulista, berço do PT, a petista não quis arriscar um diagnóstico ao ser perguntada:

- Minha querida, meu diagnóstico é assim simples: eu não tive voto. Não tem diagnóstico mais simples e humilde.

Ainda na ofensiva contra a oposição, a presidente classificou como "lamentável e elitista" a declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) de que o PT cresceu nos grotões e que tem os votos dos "menos informados":

- Eu acho lamentável, porque é uma visão elitista do país. (&) Escutei ao longo da minha vida que o povo não sabia votar. Quando achavam que o povo não sabia votar, não tinha eleição. Essa história de que o povo não sabe votar porque não estudou em uma universidade é uma falácia.

Durante a reunião, o marqueteiro João Santana fez uma exposição sobre as estratégias da campanha para o segundo turno. Ele considerou como ponto negativo o desempenho da candidata à reeleição em São Paulo. Santana reconheceu que a diferença grande de votos entre ela e Aécio não era esperada. O marqueteiro pediu aos aliados que demarquem bem a diferença entre PT e PSDB.

- Aécio é candidato da elite - disse Santana de acordo com participantes do encontro.

Ele também avaliou que o tucano precisa tirar uma diferença muito grande de Dilma para vencer a eleição.

- Um candidato que sai com oito milhões de votos atrás do primeiro colocado tem forte dificuldade de buscar a liderança, e somos um governo com muitas e grandes realizações. Só conseguiria se fosse um fenômeno e Aécio não é um fenômeno - afirmou Santana na palestra aos participantes.

Conquistar votos de Aécio
O marqueteiro também acha possível conquistar votos dados a Aécio no primeiro turno, porque entende que muitos eleitores decidiram migrar de Marina para o tucano, sem muita convicção, na reta final da disputa.

De acordo com participantes da reunião, ele tentou injetar ânimo, dizendo que não é verdade a versão corrente de que quem vai para o segundo turno de virada, como Aécio, vence a eleição. Depois da reunião, Santana disse aos jornalistas que fará uma campanha demarcando claramente as diferenças entre os governos petistas e tucanos:

- Será uma campanha mais propositiva, uma campanha a favor de Dilma e não contra Aécio.

Questionado se terá muita pancadaria contra o tucano, respondeu:

- Pra que? Não precisa.

FMI reduz de 1,3% para 0,3% previsão para o PIB do Brasil este ano

FMI piora projeções para Brasil em 2015

• Brasil amarga maior corte nas previsões de crescimento. Fundo aponta fatores internos

Flávia Barbosa – O Globo

WASHINGTON, RIO e BRASÍLIA - Estagnado, sob a incômoda nuvem da recessão técnica do primeiro semestre de 2014, o Brasil enfrentará em 2015 um período pós-eleitoral repleto de desafios econômicos. Considerando "relativamente fraca" a perspectiva de crescimento do país, que caminha "abaixo da capacidade potencial de médio prazo" devido à crise de confiança de empresários e consumidores, ao aperto dos juros para combater a inflação e aos gargalos estruturais que afetam a competitividade, o Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou ontem a estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) do ano que vem, de 2% para 1,4%, revisão de maior magnitude entre as principais economias do planeta.

A projeção consta do último relatório trimestral Panorama da Economia Mundial, divulgado ontem, às vésperas do encontro anual do FMI, na sexta-feira e no sábado. Para este ano, o Fundo ceifou a previsão de expansão brasileira em 1 ponto percentual, para 0,3%, também a maior redução registrada. O mercado financeiro, segundo o boletim semanal Focus, do Banco Central (BC), prevê 0,24% em 2014 e 1% no ano que vem. Embora muito cauteloso, o vice-diretor de Pesquisas do Fundo, Gian Maria Milesi Ferretti, não descartou a possibilidade de o Brasil viver uma recessão no conjunto de 2014.

A recuperação em 2015 dependerá muito da resolução da incerteza política associada à eleição presidencial. O conjunto de ações a serem implementadas pelo novo governo será determinante para reanimar os investimentos, a geração de empregos, o crédito e o consumo das famílias, que movem o PIB. O FMI acredita que os juros altos, que elevam o custo de financiamentos e empréstimos, continuarão a travar o crescimento por algum tempo, dada a persistência das pressões inflacionárias.

- É um panorama de crescimento modesto, claramente abaixo da capacidade potencial de crescimento do Brasil a médio prazo - afirmou Ferretti. - Queremos focar, em vez de se o crescimento é de mais ou menos 0,1%, na perspectiva geral de crescimento, e esta permanece relativamente fraca para o Brasil. Esperamos que a resolução da incerteza política e uma inflação mais controlada pela política monetária ajudem na recuperação da confiança, favorecendo a retomada da atividade econômica.

Para o diretor do Centro de Economia Mundial da FGV e ex-presidente do BC, Carlos Langoni, a projeção de expansão de 1,4% da economia brasileira em 2015 pode ser considerada até otimista:

- O próximo governo terá que enfrentar o desafio da estagflação, que é uma situação de baixo crescimento com inflação elevada.

Ferretti advertiu que o cenário externo - com, entre outros fatores, menor demanda global por Commodities - já não é tão favorável ao Brasil. Mas ele frisou que não se pode culpar o cenário internacional pelo desempenho desapontador do país:

- Os termos de troca ainda continuam fortes. Nós achamos que as principais fraquezas realmente vêm de fatores domésticos.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, convocou ontem a imprensa para rebater as projeções do FMI, que considerou pessimistas. Ele, que cancelou a ida à reunião do Fundo por causa do segundo turno das eleições, ressaltou que o mundo inteiro enfrenta baixo crescimento, já que o relatório reduziu a estimativa para a expansão global de 3,7% para 3,3%:

- A estimativa de 0,3% me parece um pouco pessimista por parte do Fundo. Daqui a um mês, quando tivermos a reunião do G-20, eles podem alterar essas previsões. No Brasil, tivemos um primeiro semestre mais fraco, mas, no segundo, estamos observando um crescimento maior.

Mantega atribuiu o fraco desempenho da economia à política monetária contracionista do BC para conter a inflação. Ele manteve em 0,9% a projeção de crescimento para este ano, afirmando que as recentes ações para incentivar o crédito, como a redução do compulsório, estão surtindo efeito.

O ministro admitiu que existe hoje um problema de confiança no Brasil, mas ressaltou que isso se repete no resto do mundo em função do baixo crescimento. Segundo Mantega, aqui o cenário se agrava em função das eleições:

- No fim do ano haverá retomada da confiança.

Recessão na Argentina e na Venezuela
Há ainda o risco global da alta dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano), esperada para meados de 2015. Se mal comunicada, pode-se repetir a turbulência registrada no ano passado.

- Com o cenário internacional, nosso crescimento dependerá do ambiente interno. E o cenário de 2015 será muito desafiador: será preciso administrar uma economia com alguma desvalorização cambial, que afeta a inflação, ao mesmo tempo em que se estimulam investimentos. Seja qual for o governo, terá um abacaxi pela frente - afirmou o professor do Instituto de Economia da UFRJ Luiz Carlos Prado.

O professor do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Rossi, por sua vez, afirmou ser possível crescer acima de 2% em 2015, desde que o ajuste fiscal não seja tão grande:

- Com a economia ainda desaquecida, não é o momento de um grande ajuste fiscal. O indicado seria mais uma arrumação das contas públicas, via transparência.

Seja qual for a mudança na política econômica, o país deve enfrentar pelo menos dois anos de crescimento baixo, segundo o economista Joaquim Elói Cirne de Toledo:

- Não se pode fazer ajustes muito bruscos, já que a economia brasileira é um transatlântico. É um processo gradual para aumentar paulatinamente a taxa de investimento.

A forte revisão dos números brasileiros teve impacto significativo na projeção para a América Latina, que caiu de 2% para 1,3% este ano e de 2,6% para 2,2% em 2015. Dois países terão recessão neste ano e em 2015: para a Argentina, projeta-se retração de 1,7% e 1,5%, e, para a Venezuela, de 3% e 1%.

Inflação oficial em 12 meses sobe a 6,75%, a maior desde outubro de 2011

• Puxado por alimentos, que ficaram mais caros após três meses em queda, IPCA subiu 0,57% em setembro

Clarice Spitz – O Globo

RIO - A inflação oficial brasileira, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), registrou alta de 0,57% em setembro, informou o IBGE nesta quarta-feira. Em agosto, o avanço havia sido de 0,25%. No acumulado em 12 meses terminados em setembro, o indicador avança 6,75%, o maior neste tipo de comparação desde outubro de 2011, quando subira 6,97%. No ano (entre janeiro e setembro), o índice já avança 4,61%.

A forte aceleração no acumulado em 12 meses, que havia ficado em 6,51% em agosto, veio acima do esperado pelo mercado. Segundo a Reuters, a mediana das projeções de analistas estava em 6,64%. Com o aumento, o IPCA se distancia muito do teto da meta do governo para a inflação, que é de 6,5%.

O avanço de setembro foi puxado pelo grupo alimentação e bebidas, que, após três meses em queda, registrou alta de 0,78% A categoria teve o maior impacto sobre o resultado, respondendo por 0,19 ponto percentual do índice. Entre as maiores altas, destacam-se a cebola, que subiu 10,17% e a farinha de mandioca, que avançou 2,52%. Já o tomate recuou 9,42%. Os alimentos são responsáveis pela maior parcela das despesas de consumidores.

Carnes têm o maior impacto
A alta na categoria foi influenciada pelo avanço no preço das carnes, de 3,17%. O resultado teve peso de 0,08 ponto percentual sobre o IPCA, o maior impacto individual sobre o índice. É a maior alta das carnes desde outubro de 2013, quando o grupo também avançou 3,17%. Eulina afirma que há uma combinação de razões para a alta do produto:

— Os pecuaristas argumentam que os pastos ainda estão secos por conta da seca do início do ano. Além disso, esse período do segundo semestre é de entressafra. O Brasil é o principal exportador de carne, a arroba do boi vem subindo desde o início do ano e os mercados estão favoráveis ao mercado brasileiro. Há ainda quem diga que há especulação.

Ela explica que não se pode dizer que a alta de alimentos é generalizada, já que produtos como tomate, batata e feijão carioca têm queda.

Passagens aéreas sobem mais de 17%
O segundo maior peso veio do grupo de transportes, que acelerou a alta de 0,33%, em agosto, para 0,63%, em setembro. O grupo teve impacto de 0,12 ponto percentual sobre o índice. O resultado foi influenciado pelos preços das passagens aéreas, que subiram 17,85% no mês, com uma contribuição de 0,07 ponto percentual. Já os combustíveis caíram 0,05%. O preço do litro da gasolina recuou 0,07% e o do etanol, -0,01%. A maioria das regiões teve queda nos preços de combustíveis. A exceção ficou por conta de Salvador, onde a gasolina ficou 10,98% mais cara e o etanol subiu 12,12%.

— Foi uma alta considerável, mais que dobrou o IPCA de agosto para setembro — afirma Eulina Nunes dos Santos, da Coordenação de Índice de Preços do IBGE.

No Rio, o grupo alimentação e bebidas sobe 9,86%. Segundo o IBGE, o cenário ainda é impactado por um prolongamento do efeito Copa do Mundo.

— Rio e São Paulo vêm sendo pressionados por alimentação fora de casa. Esse movimento de Copa propiciou aumentos — afirma Eulina.

Serviços aceleram
Os serviços aceleraram os preços em setembro. Em agosto tinham subido 0,59% e agora avançam 0,77%. A alimentação fora de casa acelerou de 0,71% para 0,81%. Já aluguel residencial passou de 0,66% em agosto para 0,57% em setembro. Nos últimos 12 meses, os serviços sobem 8,58%.

Já os itens administrados passaram de 0,50% em agosto para 0,40% em setembro. Nos últimos 12 meses, avançam 5,32%.

FMI alertou sobre inflação alta
Na terça-feira, o relatório trimestral “Panorama da Economia Mundial”, divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), mostrou que o Brasil foi a economia, entre as principais do planeta, com o maior corte na previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014. A expansão, projetada até então em 1,3%, caiu 1 ponto percentual, para apenas 0,3%, o que configura estagnação. O Japão teve revisão de 0,7 ponto, de 1,6% para 0,9%.

Segundo o organismo, a inflação continuará próxima do teto da meta em 2014 e 2015, “refletindo persistência inflacionária, constrangimentos de oferta e pressão reprimida de preços administrados”. Agora o FMI projeta a inflação ao consumidor em 6,3% em 2014 e em 5,9% em 2015, contra 5,9% e 5,5% respectivamente no relatório anterior.

Rede descarta apoiar Dilma, mas não se decide por Aécio

• Grupo de Marina Silva faz reunião para definir posicionamento no segundo turno; alas mais jovens resistem em aliança com o PSDB

Ana Fernandes e Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Marina Silva, que ficou em terceiro na disputa presidencial, encontra dificuldades de convencer a Rede Sustentabilidade de apoiar a candidatura do tucano Aécio Neves. Apesar da cúpula do seu projeto de partido já ter decidido que esse seria melhor caminho, dado o cenário atual, a base da Rede, em grande parte formada por pessoas mais jovens, ainda resiste em se aliar ao PSDB.

Em reunião da Executiva Nacional da Rede na noite dessa terça-feira, 7, que durou mais de quatro horas, o único consenso a que conseguiram chegar é que não há como apoiar a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). "A posição é pela não continuidade do atual governo. Nós queremos uma mudança, mas uma mudança qualificada, com conteúdo, com substância", disse o deputado licenciado Walter Feldman, que coordenou a campanha e é porta-voz nacional da Rede.

Feldman disse também que neutralidade não é uma opção, pois o grupo entende que a alternância de poder é algo fundamental à democracia e que o PT deu golpes muito duros ao atacar Marina durante a campanha e ao evitar a criação formal da Rede Sustentabilidade, no ano passado. "Não podemos deixar em aberto também, como se querer o PT fosse uma opção. Temos que tirar uma posição", afirmou.

Feldman admitiu que ainda há uma resistência forte à menção direta do nome do tucano, tanto que não foi possível colocar o nome de Aécio no documento indicativo que será levado da Executiva, composta por 24 membros, para o Diretório Nacional da Rede, de 120 membros, na reunião de hoje à noite. "A decisão não está madura para isso", avaliou Feldman. Além da Rede, os demais partidos que compuseram a coligação de Marina no primeiro turno também tiram suas posições individuais hoje para levar a uma reunião das lideranças da coligação nesta quinta-feira, 9.

Os principais argumentos de resistência ao tucano são a consideração de que o partido não sinaliza avanços na área social e o argumento de que os tucanos, assim como os petistas, trabalharam para desconstruir a imagem de Marina durante a campanha. Além da questão central de a coligação de Marina e a própria Rede terem se fundado no conceito de terceira via, contra a polarização tradicional de PT e PSDB.

Nos bastidores, membros da Rede ligados à cúpula marineira admitem que a demora em haver uma definição mais clara se deve aos processos internos de decisão - o grupo trabalha com o conceito de consenso progressivo, em que se chega às decisões por convencimento em torno de ideias e não por votação tradicional, mas que a tendência é a Rede acabar seguindo Marina no apoio ao tucano. "Há toda uma 'ritualística', mas é apenas uma questão de tempo o apoio ao Aécio", disse um membro da Executiva. Outros integrantes consultados pela reportagem indicaram que o objetivo é também conseguir sinais mais claros da candidatura do tucano de compromisso com os pontos centrais defendidos pelo programa de Marina - reforma política e propostas ligadas à sustentabilidade, educação e saúde.

Grupo de deputados do PMDB defende apoio a Aécio Neves

• Cerca de 40% do partido defendeu rompimento com o PT durante convenção da legenda

Fábio Brandt – O Estado de S. Paulo

Após Aécio Neves (PSDB) terminar o 1.º turno com mais votos do que esperado até por seus aliados, parte dos deputados reeleitos pelo PMDB tenta convencer a bancada do partido na Câmara, em reunião marcada para esta quarta-feira, 8 em Brasília, a declarar apoio ao tucano.

Esse grupo vai apresentar dois argumentos. O primeiro é de que ficou longe da unanimidade a entrada do PMDB na coligação da candidata do PT à reeleição, Dilma Rousseff. O outro é que, em seu primeiro mandato, a petista deu pouco espaço para os deputados do PMDB participarem do governo.

"A gente vai operar pesado pela mudança", afirmou Darcísio Perondi (PMDB-RS), que apoiou Marina Silva (PSB) no 1.º turno e já embarcou na candidatura tucana.

Michel Temer, atual vice-presidente da República, foi indicado em junho pelo PMDB para continuar como companheiro de chapa de Dilma neste ano com apoio de 60% da convenção da legenda, porcentual abaixo do esperado pela própria cúpula partidária. Os outros 40% defenderam o rompimento com o PT.

A ideia do grupo anti-PT é pelo menos equilibrar a divisão e já preparar a bancada para o caso de uma eventual vitória de Aécio. Para isso, esses rebeldes contam com o apoio de representantes dos Estados em que PMDB e PT foram adversários na eleição para governador, como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Goiás, entre outros. Nesta campanha, houve menos acordos regionais entre as duas siglas, na comparação com 2010.

Para os peemedebistas descontentes com Dilma, Aécio seria um presidente com melhor diálogo com o partido, já que tem experiência como deputado e exerce desde 2011 o mandato de senador por Minas. "Ele, inclusive, já presidiu a Câmara dos Deputados. Convive bem com o Senado. E terá mais facilidade para aprovar as reformas de que o País precisa", afirmou o deputado Danilo Forte (PMDB-CE).

O PMDB, assim como em 2010, elegeu neste ano a segunda maior bancada da Câmara. Ficou com 66 deputados. O PT, com 70. Nesse sentido, a articulação também é considerada uma "reserva de segurança" para a próxima legislatura. Isso porque o líder da bancada, Eduardo Cunha (RJ), tem interesse em se candidatar a presidente da Câmara em 2015. No entanto, ele ainda não se posicionou sobre esse debate interno da sua bancada.

Aparte
Ontem, no Senado, Ricardo Ferraço (PMDB-ES) também manifestou seu desacordo com o apoio de sua legenda à reeleição de Dilma. O presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), fez um discurso em que exaltou o desempenho da sigla no 1.º turno das eleições e disse que o partido "acertou" ao apoiar o projeto dos petistas que, segundo ele, "está mudando o Brasil".

O senador capixaba, que apoia Aécio, pediu a palavra e disse a Renan que o PMDB não está unido em torno da reeleição de Dilma. "Estive ao lado da mudança no 1.º turno e manifesto minha confiança de que o Brasil votou pela mudança", disse.

PSB de Campos e PPS vão apoiar Aécio

• Posição nacional deve sair hoje, levando em conta opinião da viúva Renata Campos

Júnia Gama – O Globo

BRASÍLIA - O grupo do PSB de Pernambuco, que reúne os herdeiros políticos do ex-governador Eduardo Campos, deverá apresentar hoje, na reunião do partido em Brasília, posição favorável ao apoio da legenda a Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da disputa presidencial. Integrantes da cúpula socialista no estado debatem desde o domingo como será o posicionamento da sigla, e a avaliação geral é de que é improvável estar com Dilma Rousseff (PT). Mas, o grupo ressalta que a decisão final dependerá da Executiva Nacional do partido.

O presidente do PSB, Roberto Amaral, diz que a posição de Pernambuco não tem papel decisivo na decisão nacional, mas admite que uma manifestação da viúva de Campos, Renata Campos, terá peso sobre a escolha do PSB em Brasília.

- Em princípio, essas coisas não pesam. A Executiva tem uma composição anterior, eleita em agosto, e não há essa tradição de Pernambuco influenciar. Mas a posição de Renata pesa. Ela é muito respeitada e querida no partido.

O grupo pernambucano passou a segunda-feira reunido na casa de Renata Campos, no Recife, debatendo o apoio do partido no segundo turno. Aécio teria ligado e conversado com Renata, com o governador eleito Paulo Câmara (PSB) e com o prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), para parabenizá-los pela ampla vitória de seu partido no estado. Os dois últimos foram ontem a São Paulo acompanhados do senador eleito, Fernando Bezerra Coelho, do presidente estadual, Sileno Guedes, e do governador João Lyra, que já declarou apoio a Aécio, para conversar com Marina Silva.

O governador João Lyra, que logo no domingo divulgou nota defendendo o apoio à candidatura de Aécio no segundo turno, está tentando organizar um evento de apoio ao tucano em Pernambuco para o fim desta semana. Mas, o andamento da organização vai depender da decisão do PSB nacional. O irmão de Eduardo Campos, o advogado Antonio Campos, também defendeu publicamente apoio a Aécio.

A primeira reunião de avaliação sobre o quadro eleitoral de integrantes do PSB com Marina ocorreu no domingo, antes mesmo do resultado das urnas. Quando ficou claro que a candidata não iria para o segundo turno, a cúpula dos partidos da coligação passou a defender a possibilidade de ter um acordo conjunto para o segundo turno, que dê sobrevida à aliança.

Após a decisão da Executiva Nacional do PSB hoje, a direção do partido deve se encontrar na manhã de quinta-feira com os presidentes dos partidos da Coligação Unidos pelo Brasil que, além do PSB e dos integrantes da Rede, tem PHS, PRP, PPS, PPL e PSL, para tentar fechar uma posição unitária de toda a coligação. O PPS já declarou ontem formalmente apoio a Aécio.

Maioria do PSB já é favorável a apoiar Aécio Neves no 2º turno

• Apenas quatro diretórios regionais ainda não haviam tomado decisão de estar ao lado de tucanos: Acre, Amapá, Bahia e Paraíba

João Domingos - O Estado de S. Paulo

A Executiva nacional do PSB deverá aprovar nesta quarta-feira o apoio do partido à candidatura do tucano Aécio Neves no 2.º turno da eleição presidencial. Dos 27 diretórios regionais do partido, só quatro ainda não haviam se decidido até esta terça-feira por esta opção: Acre, Amapá, Bahia e Paraíba.

Entretanto, desses quatro, é provável a mudança de posição em três deles, todos a favor da aliança com Aécio. A exceção deve ser a Paraíba, onde PSB, com o governador Ricardo Coutinho, e PSDB, com o senador Cássio Cunha Lima, disputam o 2.º turno da eleição para governador.

“Teremos uma posição. Não vamos ficar em cima do muro”, disse ao Estado o deputado Júlio Delgado, presidente do partido em Minas Gerais. Delgado acredita que a tendência é o partido mostrar unidade de todos os diretórios regionais, ressalvando que, na Paraíba, há uma questão excepcional.

Resistências. Próximo a Aécio, Delgado está em contato com diretórios que ainda não se decidiram pelo apoio ao tucano. “Estou pessoalmente conversando com Davi Alcolumbre (DEM), senador eleito no Amapá. É possível que apoie a reeleição do governador Camilo Capiberibe (PSB) e, nesse caso, resolveremos logo a situação no Estado”, afirmou o deputado.

Os dirigentes do PSB também consideram vencida a resistência do presidente interino do partido, Roberto Amaral, ao apoio a Aécio Neves.

A princípio, por se dizer amigo da presidente Dilma Rousseff (PT), adversária de Aécio no 2.º turno, Amaral chegou a defender a neutralidade do partido. Mas cedeu porque poderia ver aumentar as resistências à eleição dele para a presidência do PSB, o que só será decidido em reunião do diretório do partido marcada para o dia 13.
“Nós queremos manter nossa aliança partidária em torno do nosso programa de governo, que passará a ser o projeto de contribuição para o 2.º turno da eleição”, disse Amaral.

Segundo ele, a pedido da ex-ministra Marina Silva - que ficou em terceiro lugar na disputa à Presidência -, os seis partidos que fizeram parte da aliança que a apoiou no 1.º turno (PSB, PPS, PSL, PPL, PHS, PRP, além de representantes da Rede, com funcionamento ainda informal) também vão se reunir hoje para tentar chegar a uma posição comum em relação ao apoio neste 2.º turno.

A própria Marina já fez consultas aos presidentes de todos os partidos sobre o que pretendem fazer. Eles deixaram claro que preferem Aécio a Dilma na segunda rodada das eleições.

O PPS, legenda que integrou a coligação de Marina, decidiu nesta terça-feira pela aliança com o candidato tucano. Para Roberto Amaral, isso não atrapalha o desejo de que a decisão seja tomada pelo bloco partidário.
“O PPS já havia nos comunicado que ficaria com o Aécio. Não há problema nenhum. Vamos nos reunir e tomar a decisão conjunta na quinta-feira (amanhã)”, afirmou Amaral. / Colaborou Daiene Cardoso

À espera do anúncio do apoio de Marina, Aécio diz que representa a ‘nova política’

• Em claro gesto para sensibilizar os eleitores da ex-ministra, candidato do PSDB adota discurso ‘marinês’

Pedro Venceslau e Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O candidato do PSDB ao Palácio do Planalto, Aécio Neves, incorporou nesta terça-feira o “marinês” em seu discurso para sensibilizar os eleitores da ex-ministra Marina Silva, que ficou de fora do 2.º turno. Em seu primeiro evento de campanha nesta fase final da eleição, Aécio disse em São Paulo que pretende liderar uma “nova política” no País.

O candidato do PSDB visitou operários de uma obra da construção civil na capital paulista ao lado do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do senador eleito José Serra (PSDB). “Estou pronto para liderar um projeto em favor do Brasil, em favor de uma nova política, em favor de uma construção coletiva. Nossa proposta de governo é sempre aberta a novas contribuições. É uma obra que não termina. Uma construção permanente”, afirmou.

Marina adotou o conceito de “nova política” como peça-chave do seu discurso no 1.º turno e disse reiteradas vezes que o programa de governo é uma construção plural e permanente. O afago de Aécio foi feito depois de a ex-ministra ter decidido pelo apoio ao candidato em troca de um “acordo programático”. A ideia de Marina é criar convergências das propostas dela com as do tucano, pedindo pequenas alterações no plano de governo de Aécio. A declaração de Aécio sobre a “nova política” se encaixa nessa tentativa de convergência.

A ex-ministra do Meio Ambiente, que é ex-petista, deve anunciar o apoio ao tucano em evento marcado para amanhã.

Marina e Aécio tem programas de governo parecidos, principalmente na economia. A principal divergência está na questão da maioridade penal. O tucano é a favor da redução em casos de crimes gravíssimos. A ex-ministra ainda não falou sobre isso.

Em sua fala de na terça-feira, o tucano destacou “convergências importantes” nos programas . Ambos defendem no papel, por exemplo, o fim da reeleição.

O tucano, porém, desconversou na terça-feira ao ser questionado se colocará a proposta em prática já para as eleições de 2018. “É uma questão para ser discutida. Não morro de amores pela reeleição, mas estamos falando em teses”, disse Aécio.

Vice. Enquanto visitava a obra ao lado de correligionários na terça-feira na capital, Aécio recebeu um celular das mãos do deputado Paulinho da Força (SDD), presidente licenciado da Força Sindical e membro da coordenação política da campanha tucana. Do outro lado da linha estava Beto Albuquerque (PSB), candidato a vice na chapa de Marina.

Os dois conversaram brevemente. Em outro momento na mesma caminhada, foi o presidente do PPS, Roberto Freire, que apoiou Marina no 1.º turno, quem telefonou para o tucano.

Depois da atividade com os operários, Aécio reuniu-se com o presidente do PSB paulista e vice-governador eleito na chapa de Alckmin, Márcio França, que já defendeu publicamente que os pessebistas subam oficialmente no palanque do tucano.

Em outra frente, Aécio escalou o ex-deputado Fábio Feldman, que apoiou Marina na eleição presidencial de 2010, para entrar em contato com os “marineiros”. Coordenador de meio ambiente no programa de governo tucano, Feldman procurou Sérgio Xavier - ex-secretário de Meio Ambiente de Pernambuco e ativista histórico da causa ambiental. Ele é muito próximo de Marina e passou a terça-feira o dia em São Paulo reunido com a ex-ministra e o grupo dela.

Segundo integrantes do núcleo político da campanha aecista, o movimento de aproximação com Marina está sendo intenso, mas tem sido feito com cautela.

O PSDB e as siglas que apoiam Aécio realizarão hoje, em Brasília, um ato político em defesa do tucano. Estarão reunidos todos os candidatos a deputado, senador e governador eleitos e não eleitos no 1.º turno. O local escolhido foi o Memorial JK. / COLABOROU LUIZ GUILHERME GERBELLI

Marina ouve aliados e amanhã anuncia posição neste 2º turno

• Interlocutores da ex-senadora negociam as condições para apoiar Aécio

Sérgio Roxo – O Globo

SÃO PAULO e RIO - Embora já tenha dado declarações sinalizando que deve apoiar Aécio Neves (PSDB) no segundo turno, e seus aliados tenham reconhecido que esse é o caminho natural, a terceira colocada no primeiro turno das eleições presidenciais, Marina Silva (PSB), procurou mostrar ontem que a aliança com o tucano ainda não está sacramentada. Ela informou que a sua posição só sairá amanhã.

Em nota divulgada ontem, a assessoria da coligação da candidatura diz que "as opiniões individuais de cada partido, dirigentes e lideranças políticas das agremiações neste momento de construção devem ser respeitadas mas não refletem em nenhuma hipótese a opinião da ex-candidata". A coligação frisou que os partidos promoverão até hoje "reuniões de suas instâncias deliberativas para definirem os pontos que consideram relevantes para a formulação de posicionamento conjunto das legendas aliadas".

"Na quinta-feira, dia 9, Marina Silva e as demais lideranças dos partidos aliados participarão de encontro para construir um posicionamento comum da coligação sobre a continuidade da disputa pela Presidência da República", diz o texto.

Em plenária virtual, neutralidade vence
Na nota divulgada pela Rede, o partido que Marina tentou criar ano passado, mas teve o registro negado pela Justiça Eleitoral, também é reafirmado que a definição do futuro da candidata derrotada não está certo. "Ao contrário do que tem sido afirmado no noticiário nacional, nem a Rede Sustentabilidade, nem Marina Silva definiram seu posicionamento político sobre o segundo turno das eleições presidenciais".

A Rede informou que, no momento, a prioridade são as conversas. "Tanto a Rede quanto Marina, neste momento, estão dedicados a ouvir e dialogar com seus pares para que, juntos, possam chegar a um consenso sobre qual posição tomar diante do cenário nacional. Portanto, as notícias divulgadas até o momento não passam de especulações."

Ontem à noite, Marina participou de uma conferência virtual com dirigentes nacionais da Rede em todo o país. Numa consulta informal sobre a posição a ser adotada no segundo turno, 30 integrantes da cúpula do movimento votaram a favor da neutralidade, postura adotada por Marina em 2010. Outros 17 votaram favoravelmente a um apoio formal a Aécio e só um dirigente apoiou a aliança com a presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT).

Hoje, Marina vai se reunir com dirigentes dos partidos que fizeram parte de sua coligação. A decisão oficial sobre a posição no segundo turno vai ser divulgada amanhã.

Domingo à noite, após divulgado o resultado da eleição, Marina afirmou que o resultado das urnas indicam que "o Brasil sinalizou claramente que não concorda com o que está aí" e que "não dá para tergiversar com o sentimento do eleitor". Também deu indícios de que não deve ficar neutra, como fez no segundo turno da eleição de 2010, entre Dilma e José Serra (PSDB).

Ao chegar ontem à casa de Marina, Sérgio Xavier, um dos principais interlocutores da ex-senadora, disse que um acordo com Dilma é muito difícil devido aos ataques duros que a petista fez à candidata do PSB no primeiro turno.

- A campanha (de Dilma) foi muito dura, muito grosseira, com muitas mentiras, que não foi bom para a democracia. Isso gerou um certo afastamento - afirmou Xavier.

Interlocutores de Marina deram sequência ontem às negociações com tucanos para a adesão de Aécio a pontos do programa de governo do PSB. O grupo da candidata derrotada exige que o presidenciável do PSDB se comprometa com pontos como o fim da reeleição, a agenda da sustentabilidade e a antecipação da meta de investimento de 10% do PIB em Educação.

Executiva do PPS formaliza apoio a Aécio no segundo turno

Aguirre Talento – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A executiva nacional do PPS formalizou nesta terça-feira (7), após reunião em Brasília, o apoio à candidatura de Aécio Neves (PSDB) no segundo turno das eleições presidenciais, que será disputada pelo tucano e pela presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição.

No primeiro turno, o PPS fez parte da coligação da candidata Marina Silva (PSB), terceira colocada no pleito com 21,3% dos votos. Com a definição do apoio a Aécio, os integrantes da cúpula da legenda dizem esperar que Marina e os demais partidos da coligação sigam o mesmo caminho.

"O que o PT fez é algo que macha toda história das eleições brasileiras, da forma suja e virulenta que atuou contra Marina. O que tentaram contra ela foi destruí-la", afirmou o presidente do PPS, Roberto Freire.

Ele afirmou existir uma identidade entre propostas de Marina e de Aécio, como o fim da reeleição e as ideias econômicas, que facilitam o apoio ao tucano.

"A decisão do apoio foi consensual entre a executiva", relatou o deputado Rubens Bueno (PPS-PR), líder da legenda na Câmara.

A candidata do PSB, porém, já afirmou em nota que só definirá posição sobre o segundo turno após uma reunião na quinta-feira (9) com os líderes dos partidos aliados. Ela deve discutir a exigência da inclusão de pontos programáticos na campanha de Aécio para apoiá-lo. Por parte do PPS, porém, o apoio já foi definido sem a necessidade dessas exigências.

Ao fim da reunião, o partido formalizou uma resolução, que será encaminhada a Aécio e a Marina. Leia abaixo a íntegra:
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Resolução Política do PPS
A Comissão Executiva do Partido Popular Socialista, reunida em Brasília, no dia 7 de outubro de 2014, em defesa dos compromissos do partido com a democracia, os valores republicanos, o desenvolvimento sustentável, a inclusão social, a reforma política e a retomada do crescimento, conclama todas as forças favoráveis à mudança, em especial aquelas que apoiaram, no primeiro turno, Marina Silva (PSB), à unidade em torno da candidatura de Aécio Neves (PSDB) à Presidência da República.