sábado, 23 de abril de 2016

O tempo de Temer - Igor Gielow

- Folha de S. Paulo

O tempo corre contra Michel Temer, político analógico em uma era digital. O virtual presidente do Brasil é dado a conversas para formação de consensos, mas a pressão das duas semanas que tem para montar seu gabinete até o hoje certo afastamento de Dilma sugere um risco aumentado de erros.

E errar é tudo o que o peemedebista não poderá se quiser atravessar o estreito de Messina da política brasileira até 2018 sem ver seu barco tragado pelos monstros que margeiam o caminho. Emplacar uma agenda crível para seus primeiros meses na cadeira, especialmente se Dilma cumprir a promessa de resistir até o fim de seu julgamento no Senado, é a condição básica para a empreitada.

O nó para Temer é afiançar a ideia de que em sua embarcação cabe uma tripulação que terá o que ganhar. Em favor do vice estão a terra arrasada vigente e a baixa expectativa sobre seu provável mandato-tampão: é fácil faturar em cima de base zero.

É sobre isso que tucanos e figuras como Henrique Meirelles, que neste sábado apresenta suas credenciais, debatem agora. É um dilema e tanto, já que um fracasso de Temer implica o naufrágio coletivo e uma vitória, contudo, não é garantia do proveito da melhor parte do butim.

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O pedaço da ciclovia Tim Maia arrancado por uma onda é símbolo eloquente da miséria da gestão pública do Brasil. Obra malfeita por empresa da família de uma autoridade municipal, a pista já parecia a olhos leigos uma intervenção frágil e alienígena numa paisagem deslumbrante.

A essa impressão soma-se a certeza da tragédia, adicionando a morte de inocentes ao legado da Rio-2016. Se o prefeito Eduardo Paes é mesmo a grande esperança de renovação dos quadros de um PMDB à beira de conquistar a Presidência de vez, é o caso de citar seu xará e correligionário Cunha e rogar a misericórdia divina para a nação.

Farofa, Ustra e Marighella - Demétrio Magnoli

- Folha de S. Paulo

"Em nome da gente de bem da minha querida Passa Quatro, da memória de meu pai, da esposa que eu amo, para quem mando um beijo, e dos meus dois filhos adorados, eu voto sim!". Meus amigos discutem história, arquitetura, música, literatura, cinema e até o Big Bang. Eles ficaram deprimidos com o espetáculo do 17 de abril, na Câmara. Também achei mais constrangedor que pitoresco. Contudo, devo dizer a eles que estão errados: o domingo da farofa evidenciou, essencialmente, as virtudes de nossa democracia.

Fala-se nas "traições", nos encontros furtivos no lupanar do Royal Tulip e nas procissões ao Jaburu. Há, sem dúvida, tudo isso. Mas a evolução dos "placares do impeachment" publicados nos jornais revela escassas mudanças bruscas nas posições dos deputados. Nas duas semanas anteriores à deliberação, entre 513, apenas 11 moveram-se do "não" para o "sim" e dois fizeram o inverso. Mesmo se traição for o nome certo para isso, a taxa ficou em torno de 2,5%. Por outro lado, registraram-se algo como 132 ou 133 casos (26%) de "indecisos" que se decidiram pelo "sim" ou pelo "não". Sugiro tomar as declarações de voto como um indício razoável das motivações que conduziram à deliberação.

Haverá deputados "comprados", mas os dois contendores tinham balas equivalentes nas suas agulhas. Temer contou com a expectativa realista de poder; Lula, com edições do "Diário Oficial" que usou além da fronteira do abuso. A família, os netinhos, a "República de Curitiba", os médicos, os agricultores, os ferroviários, os maçons, os fiéis dessa ou daquela igreja e essa gente da amável cidade "que me trouxe até aqui" são um animal diferente: o mundo lá fora, com suas ansiedades, expectativas e, sobretudo, votos. Na farofa do domingão, funcionavam os motores da democracia representativa.

A Ágora grega era a praça do mercado e do debate público. Nela, trocavam-se mercadorias e ideias. No fundo, a democracia é um intercâmbio entre representados e representantes. Paga-se, na moeda do voto, por um serviço político prestado. Os deputados farofeiros que berravam ao microfone queriam ser escutados por seus eleitores. Estavam dizendo, num idioma precário, que sua bússola não era Lula nem Temer, e nem mesmo seu partido ou sua consciência, mas o desejo de quem "me trouxe até aqui". O impeachment triunfou nacionalmente com 71,5% dos votos, mas empatou no Acre e perdeu no Amapá, no Ceará e na Bahia. Faz sentido.

Uma minoria de deputados, dos dois lados, mas especialmente na trincheira governista, preferiu a picanha ao franguinho frito, envolvendo o voto num celofane "ideológico". Surgiram "nãos" em nome do Bolsa Família, dos quilombolas ou da infinita bondade de Lula, bem como "sins" derivados da liberdade ou dos "valores cristãos". Valem tanto quanto os outros, claro. Entretanto, a democracia é o governo da plebe, não dos iluminados. Nela, não seria mais legítima a obediência ao eleitor, cuja referência é a circunstância, que a lealdade perene a um Partido ou uma Ideia?

Como miasmas do núcleo "ideológico", surgiram as declarações de voto de Glauber Braga (PSOL) e Jair Bolsonaro (PSC), inteiramente consagradas ao passado. O primeiro invocou Carlos Marighella, um profeta da morte; o segundo, o covarde torturador Brilhante Ustra. No mundo inteiro, há deputados assim: representam as franjas extremas das sociedades abertas, povoadas por zumbis.

A denúncia do impeachment nasce de um fundamento jurídico. O processo, contudo, é político –só por isso, aliás, corre no Congresso, não nos tribunais. Nosso Congresso, ao contrário do que assevera o senso comum, não "reflete a nação", mas um sistema político e eleitoral torto. Mesmo assim, para o bem ou o mal, ele escuta a algazarra externa. A farofa "é um pouquinho de Brasil, iá iá". A alternativa chama-se Ustra ou Marighella: ditadura.

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Demétrio Magnoli é sociólogo

Dilma muda tom para não perder guerra como na ditadura - Dora Kramer

- O Estado de S. Paulo

Do ponto de vista da guerrilha, o PT acertou ao escolher o cenário internacional para aplicar o truque o “golpe”. Provocou transtorno e preocupação no campo adversário que, pego de surpresa, precisou de última hora empreender esforços para tentar desmontar uma versão que parece fazer sentido àquela imprensa estrangeira que enxerga o Brasil sob a ótica do exotismo institucional.

À luz da normalidade democrática, no entanto, a presidente Dilma Rousseff teria patrocinado um voo de bumerangue se não tivesse, na ONU, mudado o tom dos discursos dos últimos dias. As palavras mais amenas da presidente nos Estados Unidos frustraram petistas, mas a salvaram de um vexame maior. Queira o bom senso que não seja apenas um texto para estrangeiro ver.

Caso pretendam retomar a narrativa anterior, Dilma e o PT perderão. Talvez os conselheiros da presidente tenham percebido o equívoco quando levaram ministros do Supremo Tribunal Federal a se pronunciar colocando as coisas em seus devidos lugares. “Gravíssimo equívoco”, disse o decano da Corte, Celso de Mello, delimitando em duas palavras a fronteira entre a realidade e o realismo de ocasião. Na mesma linha, posicionaram-se os ministros Gilmar Mendes e Antônio Dias Toffoli.

Não fossem afobados, não estivessem tão atordoados a ponto de falar qualquer coisa na falta de ter algo consistente a dizer, os petistas poderiam ter ido dormir na quarta-feira sem essa enquadrada. Foram eles que provocaram a reação vinda do STF, fornecendo ao grupo de Michel Temer a plataforma de defesa ideal que, naquela altura, ainda não haviam encontrado.

Aliados do vice mobilizaram parlamentares e embaixadores para rebater no exterior a falácia, mas não tinham segurança de que conseguiriam êxito até que, involuntariamente e por provocação do adversário, ganharam a defesa perfeita. Isso, sem que fosse necessário recorrer a instrumentos jurídicos.

Enquanto a presidente e seus companheiros disseminavam estultices por aqui mesmo, o STF avaliava que os fatos cuidariam de desmenti-las. Mas, quando a presidente da República mostrou-se disposta a aproveitar compromisso de Estado em Nova York para transformar perante a ONU seu processo de impeachment em denúncia de quebra da legalidade, Celso de Mello houve por bem se pronunciar em prol da Constituição.

Passou em Dilma uma carraspana em regra: “Ainda que de uma perspectiva eminentemente pessoal (a presidente) veja a existência de um golpe, na verdade, há um grande e gravíssimo equívoco, porque o Congresso, por intermédio da Câmara e do STF, deixou muito claro que o procedimento destinado a apurar a responsabilidade política respeitou, até o momento, todas as fórmulas estabelecidas na Constituição”. Bingo.

Dias Toffoli foi mais fundo e específico à questão ao apontar a contradição entre a alegação da presidente da República e a atuação do governo, cuja defesa tem sido atendida em seus pedidos para se manifestar e recorrido sistematicamente ao Supremo. Bingo 2.0. Ora, se vai a um órgão que originalmente reafirmou a legalidade do processo com base na Carta em vigor, o governo desmente o mérito da própria acusação.

Os dois papéis - Míriam Leitão

- O Globo

A presidente, Dilma Rousseff, soube separar, na tribuna da ONU, os papéis que tem. Falou como chefe de Estado e sobre as escolhas permanentes do Brasil. Desafinou um pouco na parte em que fez alusão ao problema interno, mas nada próximo do vexame que se desenhava a partir das declarações do seu entorno político, e dela própria, nas vésperas da viagem aos Estados Unidos.

Um presidente é chefe de Estado e chefe de governo e seria intolerável que ela, da tribuna da Organização das Nações Unidas, misturasse os dois papéis e fosse tratar de brigas conjunturais nas quais sua administração está envolvida. Pesaram na acertada decisão de Dilma as reações antecipadas ao que estava sendo arquitetado pelo seu grupo, principalmente as declarações de ministros do Supremo. Não teria cabimento transformar a sede da ONU em palanque para sua versão dos fatos, como tem feito sistematicamente com a sede do governo.

Sua interpretação do episódio político vivido no Brasil é tão fora de propósito que só a sua ida já nega o que ela diz. Ninguém que esteja de fato sendo ameaçado de golpe deixa o país e entrega a Presidência a quem está, na sua visão, liderando a conspiração. Sete dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal foram indicados pelos governos Lula e Dilma. Sua versão de que está em curso a derrubada inconstitucional do governo não conversa sequer com seu discurso, no qual, na menção breve que fez à crise interna brasileira, sustentou que a democracia é pujante e que o país venceu o autoritarismo.

O Acordo de Paris foi uma conquista importante para o mundo e por isso a presidente fez bem em vencer sua hesitação inicial de estar presente junto a outros chefes de Estado. Até 48 horas antes, o Itamaraty não tinha ainda a confirmação da viagem da presidente, apesar de a casa que a receberia já ter sido preparada com antecedência. Fez bem também em deixar de lado os conselhos de que deveria usar aquele momento para dar mais um passo na sua estratégia política de enfrentar o processo de impeachment.

Ela se disse orgulhosa do trabalho do seu governo no esforço pelo Acordo de Paris. A democracia é mesmo poderosa. Ela vai empurrando os governantes para mudarem suas posturas e convicções. O governo que inicialmente era contra assumir quaisquer compromissos de redução dos gases de efeito estufa veio mudando nos últimos anos nas negociações internacionais. Internamente, o governo Dilma defendeu projetos que foram altamente lesivos ao meio ambiente, como a Usina de Belo Monte, e inverteu a tendência de queda do desmatamento. Não foram aprovadas regras favoráveis à energia fotovoltaica, a energia eólica cresceu pela insistência da indústria, e houve um aumento da presença de fósseis na matriz.

Mesmo assim, ela pôde apresentar o compromisso de reduzir 37% de redução dos gases de efeito estufa em relação a 2005. Grande parte dessa redução já foi conseguida pela diminuição do desmatamento que houve na gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente. As decisões que a ex-ministra tomou inverteram a tendência do desmatamento. O ex-ministro Carlos Minc, que a sucedeu, manteve a mesma tendência. O desmatamento voltou a crescer nos últimos anos, mesmo assim está bem abaixo do nível de 2005.

Dilma falava na meta de desmatamento ilegal zero em 2030, o que é um absurdo porque, lido ao inverso, significa conviver com a ilegalidade por uma década e meia. Ontem, felizmente, a palavra ilegal saiu do discurso, e a meta passou a ser o desmatamento zero.

Os ambientalistas acham que ela poderia ter aproveitado o momento e ampliado os compromissos brasileiros. Foi o que disse o Observatório do Clima, que reúne um grupo de ONGs, em nota divulgada logo após o discurso. Nela, o Observatório lembra que neste momento de recessão há projetos que são ao mesmo tempo bons para o meio ambiente e bons para a economia. De fato, no governo Obama, o investimento em novas fontes e na economia de baixo carbono foi alavanca para sair da recessão.

O Brasil podia fazer mais, mas não fez feio no Acordo de Paris. E ontem evitou o pior. Seria uma confusão institucional e um erro de protocolo usar um acordo multilateral para expor um conflito local. Ainda mais divulgando uma visão que deprecia de forma injusta as instituições brasileiras.

Isso, sim, é golpe – Editorial / O Estado de S. Paulo

O caos político como o País enfrenta é ambiente propício para o vicejar de ideias que, embora à primeira vista pareçam democráticas, atentam contra a mesma democracia que parecem querer preservar. Em alguns casos, não é exagero qualificá-las de tentativas de golpe, ao dar como aceitável que se impeça a posse do vice-presidente Michel Temer no caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

É assim que se pode interpretar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) de número 20/2016, apresentada recentemente por um punhado de senadores de diversos partidos para justificar a convocação de eleições presidenciais antecipadas para outubro deste ano. Diz a PEC que “os atuais ocupantes dos cargos de presidente e vice-presidente da República encerrarão os seus mandatos em 1.º de janeiro de 2017, e os eleitos exercerão mandato de dois anos, até 1.º de janeiro de 2019”, sendo então substituídos pelo presidente e o vice eleitos em outubro de 2018.

A justificativa da PEC, como é previsível, é defender a cláusula constitucional segundo a qual “todo o poder emana do povo”. Com isso, é claro que os parlamentares esperam despertar a simpatia do eleitorado e constranger o mundo político, pois ninguém, obviamente, haverá de discordar desse princípio basilar da democracia. Então o texto segue: “E é nos momentos de crise, quando o sistema político não consegue oferecer respostas aos desafios que se apresentam, que devemos, na maior medida possível, chamar ao centro do processo decisório o povo, legítimo detentor do poder”.

Ora, o poder emanado do povo se manifesta na forma da Constituição, elaborada por representantes eleitos democraticamente e aceita por todos, e na forma da representação política, consubstanciada pelo voto direto. A Constituição prevê a posse do vice-presidente Michel Temer – eleito pelos mesmos 54 milhões de votos dados à presidente Dilma Rousseff em 2014 – em caso de impeachment da petista. Qualquer outra solução que não seja essa representará uma ruptura da ordem constitucional.

Ademais, mandatos não podem ser encurtados, conforme se depreende do artigo 60 da Constituição, que trata das cláusulas pétreas, entre as quais a periodicidade das eleições. E faz todo sentido; afinal, que segurança jurídica teria um país com tamanha instabilidade institucional e com esse nível de desrespeito ao voto?
A explicação dos senadores mal esconde o caráter autoritário da proposta. “Na presente quadra histórica, somente quem passe pelo julgamento popular nas urnas contará com a legitimidade necessária para unificar uma nação dolorosamente dividida e corrigir os rumos da economia.”

Eis aí a grande impostura. Temer, assim como os senadores que querem impedir sua posse, passou devidamente pelo “julgamento popular nas urnas”, mas, na opinião de Suas Excelências, os votos que o vice-presidente recebeu não valem nada, pois não lhe conferem a “legitimidade necessária”. Quem são esses parlamentares para decidir quem tem e quem não tem legitimidade? Apenas pesquisas de opinião bastam? Se for assim, já que estamos no terreno das inovações criativas, por que então não se dissolve também o Congresso? Afinal, seus integrantes são muito malvistos pelos brasileiros, conforme muitas pesquisas.

Mas os defensores da convocação de eleições parecem não se importar nem com a Constituição nem com o ridículo. Para eles, como disseram os senadores na PEC, já está claro que “a população não aceitará, da parte de nenhum outro ator político, a convocação para superar os problemas, mormente quando isso significar impor-lhe sacrifícios adicionais aos já experimentados”.

Resolveram então os nobres parlamentares que “o povo” já decidiu que Temer não pode tomar posse. Não é à toa que teses semelhantes a essa já encontram simpatia entre os petistas. Com o jogo praticamente perdido, a tigrada não hesitará em abraçar causas que lhe deem alguma vantagem na disputa pela opinião pública, mesmo que sejam inexequíveis, como é o caso da antecipação das eleições.

Embusteiro por natureza, o lulopetismo já batizou a iniciativa de “Diretas Já”, para comparar o atual momento à luta pelo fim do regime militar. É o típico golpe publicitário que prepara terreno para o golpe de fato. E gente que se diz de bem já encampa essa tese liberticida.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Opinião do dia – Roberto Freire

“Os mais de 70% de deputados que votaram pelo impeachment na Câmara e os muitos milhões de brasileiros que tomaram as ruas em todo o país já deram o seu recado: é preciso encerrar o governo que aí está, autor de uma série de crimes de responsabilidade, e escrever um novo capítulo de nossa história. Em nome da esperança, do destino das novas gerações, da democracia e da Constituição, chegou a hora de o Brasil se livrar daqueles que se locupletaram do Estado e o tomaram de assalto em prol de um mero projeto de poder. Precisamos virar essa página e não devemos ter medo do futuro, que pede passagem.”

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Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS. ‘O futuro pede passagem’. Diário do Poder, 21/4/2016

Discurso de golpe prejudica imagem do País, diz Temer

Para Temer, chamar impeachment de golpe prejudica o Brasil

• Vice-presidente disse estar pronto para assumir o governo caso o impeachment vença também no Senado

- O Estado de S. Paulo

O presidente em exercício do Brasil, Michel Temer (PMDB-SP), criticou a caracterização do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff como um golpe. À agência de notícias Dow Jones, ele declarou que está pronto para assumir o governo caso o impeachment vença também no Senado. O peemedebista afirmou também que tem "na cabeça" nomes para seu eventual gabinete.

Temer, que assumiu como presidente em exercício durante a viagem de Dilma a Nova York, nesta quinta-feira, 21, afirmou que os procedimentos do impeachment estão em linha com a Constituição do Brasil e que falar sobre golpe de Estado prejudica a imagem do País no exterior.

"Vou retornar ao meu posto assim que ela voltar", disse durante a entrevista. O retorno de Dilma está previsto para domingo, 24. "Cada passo do impeachment está de acordo com a Constituição", acrescentou. "Como isso poderia ser chamado de golpe?"

A agência destaca que as falas de Temer vêm em um momento histórico de "profunda crise", com recessão econômica e tensão política. Um porta-voz do Planalto disse que o governo não iria comentar as declarações de Temer.

'Apoio do PSDB está definido', afirma Jucá

'Apoio parlamentar do PSDB a Temer está definido', diz Jucá

• Para presidente do PMDB, Temer começará governo com base de 367 deputados federais

Pedro Venceslau - O Estado de S. Paulo

FOZ DO IGUAÇU - O senador Romero Jucá (RR), presidente nacional do PMDB, minimizou nessa quinta-feira, em um evento com empresários em Foz do Iguaçu organizado pelo empresário tucano João Doria, a resistência do PSDB em integrar o ministério de um eventual governo Michel Temer. "O fundamental é ter o PSDB na base parlamentar, e isso está definido".

A avaliação dele é que, se a presidente Dilma Rousseff for afastada do cargo, o próximo governo contará com uma base parlamentar de 367 deputados federais. Ou seja: o mesmo número de deputados que apoiaram o impedimento na Câmara.

Maior partido de oposição, o PSDB tende a manter distância institucional da gestão Temer. Por isso o dirigente do PMDB faz as contas contando com o apoio em peso dos tucanos nas votações mais importantes. "A base começa a se desenhar com 367, que é mais que os 302 necessários para aprovar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional)", diz Jucá.

O senador também falou sobre a ação do PSDB que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pede a cassação da chapa Dilma-Temer. "Se houver a cassação de Dilma, haverá perda de objeto da ação cirminosa que a questão do PT. O vice presidente não pode ser penalizado por causa disso".

O dirigente peemedebista fez críticas ao PT. "O PT tem que sair do poder e se reciclar para depois se credenciar e disputar novamente". O aguardado discurso de Dilma Rousseff na ONU também foi tema da conversa dele com os jornalistas em Foz do Iguaçu.

"O apoio que o governo tem em nível internacional é a Venezuela com o Maduro, a Bolívia com o Evo, o Equador com o Rafael Correa e na Argentina a ex-presidente Cristina Kirchner. Espero que Dilma no avião possa rever essa posição. Seria muito triste esse vexame externo".

O Fórum Empresarial, que é realizado há 16 anos em Comandatuba, dessa vez foi em Foz do Iguaçu e reuniu apenas políticos de oposição. Estão presentes os governadores tucanos Beto Richa (PR) e Pedro Taques (MT), os senadores José Agripino (RN), presidente do DEM, Antonio Anastasia (PSDB-MG), e os principais líderes oposicionistas na Câmara.

Durante o evento, Taques e Richa deram declarações contrárias a participação do PSDB em um eventual ministério de Temer.

Temer reage a Dilma e nega acusações de golpe

• Antes de assumir a Presidência, vice critica declarações do governo

Poucas horas antes de assumir interinamente a Presidência, o vice Michel Temer lançou mão de ofensiva internacional para se contrapor ao discurso da presidente Dilma Rousseff, que vem associando o processo de impeachment a um golpe. Em entrevista ao “The Wall Street Journal”, Temer disse que a associação é ruim para o Brasil. Dilma chegou ontem a Nova York, onde deverá repetir o discurso.

Vice contra-ataca

• Temer tenta neutralizar acusações de Dilma a golpe; manifestantes protestam contra ele em SP

Lauro Neto - O Globo

-SÃO PAULO- Em uma entrevista de 24 minutos concedida na manhã de ontem ao jornal “The Wall Street Journal”, o vice-presidente Michel Temer criticou a associação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff a um golpe de Estado e demonstrou incômodo com a acusação de ser traidor. A entrevista a veículos estrangeiros é parte da estratégia de comunicação para uma contraofensiva ao discurso de golpe adotado pela presidente e pelo PT. Aliados do peemedebista têm demonstrado grande preocupação com a fala de Dilma na ONU, marcada para hoje, e com a possibilidade de que ela faça circular entre chefes de Estado a ideia de que é vítima de um processo forjado de impedimento. Há evidências de que, principalmente no exterior, essa versão tem ganhado adesões. Temer assumiu ontem interinamente a Presidência pela primeira vez desde que foi aprovado, na Câmara, o prosseguimento do processo de impeachment de Dilma.

— Ela diz que sou o chefe do golpe, o que obviamente é uma perturbação para mim e para a Vice-Presidência da República — disse Temer ao “Wall Street Journal”, completando: — Cada passo do processo de impeachment está de acordo com a Constituição. Como isso pode ser um golpe?

Além de criticar o tratamento que os petistas têm dado ao processo de impeachment, o vice disse ao jornal que estará pronto para assumir o governo caso o afastamento de Dilma seja aprovado e que, “quando for a hora, terá nomes na cabeça para compor um Ministério”. Ele confirmou que tem conversado com possíveis nomes aos cargos para compor um governo de coalizão, mas que isso não significa qualquer disposição de atropelar o rito processual do impeachment.

— Eu vou retornar ao meu posto (de vice-presidente) assim que ela voltar — ressaltou Temer.

Na manhã de ontem, cerca de cem manifestantes do Levante Popular da Juventude, que não é ligado ao PT, fizeram um protesto em frente à casa de Temer em São Paulo. No ato, conhecido como escracho e normalmente feito contra torturadores de regimes militares na América Latina, os militantes de esquerda bradaram que o vice é golpista e pintaram com tinta branca a frase “QG do golpe” no chão da rua. A manifestação de 30 minutos fez com que Temer cancelasse os planos de passar o feriado e o fim de semana na capital paulista com a mulher, Marcela, e o filho Michelzinho, e seguisse para Brasília. No Palácio Jaburu, continuará as articulações políticas e comandará o país até o retorno de Dilma.

Por orientação de sua segurança e alegando temer incomodar os vizinhos do bairro nobre Alto de Pinheiros (Zona Oeste de São Paulo) com a movimentação de manifestantes em frente à sua casa, Temer embarcou para Brasília por volta das 16h de ontem. Durante o protesto, além de pintar o chão, os manifestantes estenderam uma faixa com a inscrição “Temer Golpista”, distribuíram cópias de notas de US$ 100 com o rosto do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e espalharam no chão réplicas da capa da Constituição. Foram colados ainda cartazes nas lixeiras com a foto do vice e a frase “Temer Golpista”. Mais de dez seguranças acompanharam a manifestação, que transcorreu sem incidentes.

Medo de criar imagem de traidor
Para fortalecer o discurso externo, peemedebistas recrutaram a ajuda do ex-ministro da Comunicação de Dilma Thomas Traumann, que tem bom trânsito com a imprensa internacional. Internamente, correligionários procuram minimizar o impacto desse tipo de protesto. O presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, que esteve na casa de Temer na manhã de ontem, negou que a ida do presidente interino para Brasília tenha sido motivada pelo protesto.

— (A viagem de Temer para Brasília) Não atrapalha a articulação política. Pelo contrário, facilita — disse rapidamente na saída da casa de Temer, minimizando os efeitos da mudança de planos. A presença do vice em São Paulo era considerada estratégica para a composição da equipe econômica e a definição das políticas que devem ser adotadas. Essa é a prioridade dos aliados, já que contam com relativa folga de votos para o pleito no Senado que definirá o afastamento da presidente.

O vice foi poupado de ver a pichação “QG do Golpe” em frente à sua casa. Antes que partisse para o aeroporto, a empresa de limpeza Inova apagou a inscrição feita na rua com um jato d’água lançado de caminhão-pipa. A empresa presta serviços à prefeitura de São Paulo, que nega ter dado a ordem para a remoção da tinta. De acordo com a gestão municipal, a própria Polícia Militar, que reforçou a segurança da área, acionou a empresa. A velocidade da limpeza causou estranheza em moradores da região.

— Nunca vi lavarem essa rua com tanta rapidez. E olha que estamos em plena crise hídrica — afirmou a aposentada Urania Kipriadis.

No início da noite de ontem, uma nova mobilização contra o impeachment e que acusava Temer de golpista tomou corpo no vão livre do Masp, na Avenida Paulista. Mas, a essa altura, Temer já estava no Palácio do Jaburu, isolado do burburinho das ruas. (Colaborou Mariana Sanches)

Dilma chega a Nova York para reafirmar discurso de golpe

• Presidente aproveita evento climático para denunciar risco à democracia

Henrique Gomes Batista*, Catarina Alencastro e Eliane Oliveira - O Globo

-NOVA YORK E BRASÍLIA- A presidente Dilma Rousseff desembarcou na noite de ontem em Nova York, onde deverá apresentar a sua defesa contra o processo de impeachment. No discurso de cinco minutos, durante a assinatura do acordo climático na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), a previsão é que Dilma fará uma breve citação à situação política do país. Na entrevista que dará a seis veículos de imprensa internacional, a presidente deve explorar com mais detalhes o discurso de que foi vítima de um golpe. Dilma terá ainda conversas paralelas com outros líderes mundiais, como os presidentes Barack Obama (EUA) e François Hollande (França).

Cerca de 50 brasileiros aguardavam a chegada da presidente em frente à residência oficial do embaixador Antonio Patriota em Nova York. O grupo se manifestou a favor de Dilma com palavras de ordem contra o impeachment, cartazes, tambores e flores.

— A gente pensou nessa história depois que a presidente Dilma recebeu flores no Palácio do Planalto de um grupo de mulheres. Foi um gesto muito bonito — afirmou Flavia Fontes, brasileira radicada em Nova York.

De acordo com os manifestantes, o movimento foi organizado pelas redes sociais.
— Não ficamos temerosos de encontrar protestos a favor do impeachment. Os golpistas preferem se manifestar na Times Square, lugar turístico — disse a gaúcha Patricia Matzbacher, que mora nos EUA há dez anos.

O discurso de Dilma deverá focar no papel decisivo que o Brasil teve para que a 21ª Cúpula das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 21) chegasse ao acordo mais importante sobre redução de gases de efeito estufa desde o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997. Auxiliares da presidente a aconselharam a tratar do impeachment durante a entrevista coletiva, para evitar desconforto entre os líderes mundiais reunidos para tratar de um tema ambiental.

Em algum momento, Dilma apresentará os argumentos de que as pedaladas fiscais foram feitas por outros presidentes antes dela e não deveriam configurar crime de responsabilidade. Dirá também que os decretos orçamentários não serviram para beneficiá-la pessoalmente, que mais uma vez é vítima de uma injustiça e que o impeachment é um golpe na democracia.

A decisão de participar do evento da ONU, tomada pouco mais de 24h antes de embarcar, levou em conta a agenda positiva que o acordo climático representa para Dilma e a chance de ela demarcar sua versão na esfera internacional. O Planalto vem monitorando a cobertura da imprensa estrangeira sobre a crise brasileira e avalia que os veículos de fora têm dado mais espaço para os argumentos de defesa da presidente. Em seu editorial, esta semana, o New York Times afirma que o problema contra Dilma não são as manobras fiscais, feitas por outros governantes brasileiros, mas sim a culpa que ela está levando pela crise econômica, que se soma às investigações que envolvem boa parte da classe política. Segundo o jornal americano, o impeachment é na verdade um referendo sobre a gestão do PT. Para um negociador climático do Brasil, é vantajoso para Dilma se apresentar num momento crítico como este:

— Dilma está vindo aqui porque esta é a grande contribuição da gestão dela para o mundo.

Rubens Barbosa, embaixador aposentado e presidente do Instituto de Relações Internacionais e de Comércio Exterior, acredita que, se Dilma falar sobre impeachment e golpe, será algo gravíssimo.

— Seria algo lamentável, prejudicaria a imagem do Brasil — disse Barbosa.
Já o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Thiago Galvão, acha que dificilmente Dilma falará diretamente sobre o tema.

— Se a presidente da República trouxer à tona a questão, será em conversas paralelas com autoridades americanas e de outros países.

As propostas dos negociadores brasileiros na COP 21, em dezembro passado, foram decisivas no acordo fechado por 195 países em Paris, no qual o mundo concordou em caminhar para uma economia de baixo carbono.

— Dilma não poderia ficar fora dessa foto. O Brasil foi muito importante para termos o acordo de Paris — disse ao GLOBO a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que está nos EUA com Dilma. (*Correspondente)

Temer lança ofensiva fora do país contra tese de golpe

Contraofensiva de Temer tenta desmontar no exterior tese de golpe

Graciliano Rocha – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - No dia em que Dilma Rousseff viajou para os EUAcom a intenção de denunciar o que chama de golpe de Estado representado pelo processo de impeachment, o vice-presidente Michel Temer lançou uma contraofensiva na imprensa internacional para rebater a tese de que o possível afastamento da presidente represente ruptura da ordem institucional do país.

Temer concedeu entrevistas separadamente ao "The New York Times" e a duas das principais publicações especializadas em finanças do mundo –o nova-iorquino "The Wall Street Journal" e o londrino "Financial Times"– para rejeitar a pecha de golpista que Dilma tem lhe atribuído. O peemedebista também diz que revelará os integrantes de seu ministério quando o momento chegar.

Foram as manifestações públicas mais aprofundadas do peemedebista desde que 367 dos 513 deputados da Câmara aprovaram a continuidade do processo de impeachment, no domingo (17).

"Se cada etapa do impeachment está de acordo com a Constituição, como pode ser golpe?", disse Temer ao "The Wall Street Journal".

"Estou muito preocupado com a intenção da presidente de dizer que o Brasil é uma República de menor importância onde há golpes", afirmou ao "The New York Times".

Se o Senado der continuidade ao processo iniciado pela Câmara, Dilma será afastada por até 180 dias, sendo substituída por Temer. Em caso de condenação, o peemedebista fica no cargo até a posse do sucessor escolhido pelas urnas em 2018.

Dilma pretende dizer nos EUA que as chamadas pedaladas fiscais não constituem motivo suficiente para seu afastamento e que ela não é alvo de acusações de corrupção, diferentemente de grande parte dos congressistas que votaram para destituí-la.

Ao internacionalizar o discurso de que o impeachment solapa a democracia brasileira, Dilma busca minar a legitimidade de Temer aos olhos da comunidade internacional.

Falando na condição de presidente interino devido à viagem de Dilma ao exterior, Temer disse que deixará o cargo com a volta da titular, no sábado (23), o que prova do funcionamento regular das instituições no país.

O peemedebista expressou descontentamento com as recentes acusações de que esteja conspirando para destituir a presidente e, assim, tomar o lugar dela. "O fato de ela estar dizendo que eu sou um golpista é obviamente perturbador para mim e para a Vice-presidência", disse.

Ele criticou a companheira de chapa com quem foi eleito em 2010 e reeleito em 2014. Segundo ele, Dilma deveria cuidar da sua defesa no Senado, etapa seguinte do processo de impeachment, ao invés de criar problemas para o Brasil fazendo "falsas declarações" no exterior.

"O que ela deveria fazer, na minha opinião, é defender-se no Senado, com argumentos sólidos e então o Senado não vai julgá-la nem afastá-la", disse ao "Financial Times".

Também ao diário britânico, Temer relatou que Dilma perdeu, simultaneamente, base de sustentação no Congresso e apoio da população.

Segundo pesquisa Datafolha do início de abril, o governo Dilma é avaliado como ruim ou péssimo por 63%.

"Quando ela me acusa de ser um conspirador ou um golpista, eu me pergunto se eu realmente teria a capacidade de influenciar 367 deputados e 70% da população brasileira. Trata-se de algo sem o menor fundamento", afirmou Temer.

O vice também reclamou de ter sido isolado pelo Planalto. "Eu passei quatro anos em absoluto ostracismo", disse.

Novo governo
Temer também se disse preparado para montar um novo governo no caso de o Senado aprovar a continuidade do processo de impeachment, mas evitou mencionar nomes.

"Quando o tempo chegar, eu terei o governo na minha cabeça e só então vou anunciar os nomes", disse.

Na mesma pesquisa Datafolha, realizada em 7 e 8 de abril, a taxa dos que defendiam também o impeachment de Michel Temer era muito semelhante à dos que queriam ver Dilma longe do Palácio do Planalto: 58% a 61%.

Em diferentes simulações da disputa presidencial de 2018, o atual vice-presidente alcança entre 1% e 2% das intenções de voto.

Propostas dificultam adesão do PSDB

• Tucanos discutem obrigar filiados a se licenciar do partido e não concorrer em 2018 caso queiram integrar eventual governo de Temer

Pedro Venceslau, Alberto Bombig - O Estado de S. Paulo

FOZ DO IGUAÇU - Peça importante no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o PSDB permanece distante de se acertar com o vice Michel Temer (PMDB) sobre uma participação no eventual governo dele, a poucos dias da votação decisiva no Senado.

Caso o partido não aceite integrar o novo governo, umas das propostas em discussão pretende obrigar filiados que queiram ocupar cargos oferecidos por Temer a se licenciar da legenda e sob o compromisso de não concorrer à Presidência em 2018.

Se a ideia vingar, será uma barreira para que tucanos com pretensões eleitorais aceitem compor um governo Temer, caso ele assuma. O PSDB marcou para 3 de maio a reunião da Executiva que definirá se o partido ocupará cargos em eventual governo.

A tendência no colegiado é contra a adesão. Secretário-geral do partido, o deputado Silvio Torres (SP) vai defender a licença de quem aceitar cargos se a adesão institucional for recusada. “O PSDB tem compromisso e dever moral de tirar o Brasil da crise, mas tem um caminho próprio, que é o projeto apresentado ao País nas eleições de 2014, quando o senador Aécio Neves foi derrotado”, diz.

Para Torres, quem desobedecer ao que for decidido pela Executiva terá também de se comprometer a não ser candidato em 2018. Na terça-feira o partido reunirá a bancada na Câmara para debater o tema. Depois consultará senadores e governadores.

O senador José Serra, tucano com boa interlocução com Temer, é apontado por aliados do vice como o mais cotado para assumir um ministério importante – na área econômica, infraestrutura ou Saúde. A posição de Serra é de que o PSDB tem um compromisso com o Brasil. “Michel Temer assumindo, eu diria que deveria se batalhar para se formar um governo de união e reconstrução nacional, com todas as forças interessadas na recuperação do País”, disse Serra ao Estado em março. Para ele, o PSDB deveria participar do novo governo “sem abdicar de propostas e convicções”. Serra descarta adesão pessoal motivada por pretensões eleitorais.

Se a adesão institucional for vetada e a proposta de Torres aprovada, a participação de Serra, considerada importante para o sucesso de eventual novo governo, se tornaria mais difícil. É mais um problema para Temer, que nesta semana ouviu um não do economista Armínio Fraga, seu plano A para a Fazenda.

Grupos do governador Geraldo Alckmin e de Aécio rejeitam a ideia de ocupar espaços na máquina pública. Dirigentes lembram que a ação em curso no Tribunal Superior Eleitoral pedindo a cassação da chapa Dilma-Temer seria um constrangimento para um eventual ministro do PSDB, autor da ação.

Além de Alckmin, outros dois governadores tucanos se manifestaram contrários à adesão do PSDB à gestão Temer. “Sou contra ter cargo no governo. O apoio programático não precisa disso”, disse Pedro Taques, de Mato Grosso. Para Beto Richa, do Paraná, não há “necessidade” de a legenda ocupar ministérios. Taques e Richa participam, em Foz do Iguaçu, do Fórum Empresarial, evento organizado pelo empresário João Doria.

Causou desconforto entre os tucanos paulistas o convite de Temer ao secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes (PSDB), para integrar o novo Ministério. Temer não consultou Alckmin nem a direção nacional antes da sondagem.

Pauta. Apesar da resistência, o PSDB não se colocará na oposição e promete apoiar eventuais reformas de Temer. Aécio se reuniu em São Paulo com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e apresentou a ele uma lista de demandas que deve ser levada ao vice. O documento defende a simplificação do sistema tributário, compromisso com programas sociais, reforma política e blindagem da Operação Lava Jato.

Em reunião, PSDB deve decidir ficar de fora de eventual governo Temer

Paulo Gama, Thais Arbex – Folha de S. Paulo

FOZ DO IGUAÇU, SÃO PAULO - Em reunião de sua Executiva Nacional no dia 3 de maio, o PSDB deve fechar questão sobre não participar do provável governo Michel Temer (PMDB).

Parte dos tucanos vinha defendendo nos bastidores que o partido apoiasse Temer no Congresso, mas não aderisse ao governo. Deputados do PSDB ouvidos pela Folha defendem que, dessa forma, o partido não corre o risco de "entrar em uma embarcação que pode naufragar", o que colocaria em fisco o projeto tucano para o país.

Há hoje no PSDB três nomes dispostos a concorrer à Presidência em 2018: o presidente nacional, senador Aécio Neves (MG), o governador Geraldo Alckmin (SP) e o também senador José Serra, este último cotado para integrar o governo Temer.

Na noite desta quinta-feira (21) governadores tucanos engrossaram publicamente discurso que vinha sendo repetido nos bastidores, defendendo que o PSDB não tenha cargos no provável governo Michel Temer.

Pedro Taques (MT) e Beto Richa (PR) que participam do Fórum Empresarial, promovido pelo Lide em Foz do Iguaçu, afirmaram que começa a se firmar um consenso entre tucanos nesse sentido.

"Sou contra ter cargos. Acho que podemos apoiá-lo no Congresso Nacional em cima de propostas. Lutamos pelo impeachment, não podemos deixá-lo só", disse Taques.

"Não há necessidade de ocupar cargos", afirmou Beto Richa.

Nesta semana, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, seguiu na mesma linha, ao afirmar que "não vê razão" o PSDB ter cargos no governo peemedebista.

A Executiva, no entanto, não impedirá que integrantes do PSDB assumam espaço na Esplanada de Temer na cota pessoal do peemedebista.

"Nada impede que alguém participe mas como cota pessoal", afirmou Pedro Taques. "O Serra, por exemplo, pode assumir como cota de competência", disse o governador sobre o senador José Serra (SP), cotado para ser ministro de Temer.

Na reunião da Executiva Nacional, será apresentada à instância máxima do partido uma carta elaborada pela bancada tucana no Senado para ser levada a Michel Temer. Ela reúne um conjunto de "princípios e medidas" que o partido considera essencial para dar apoio no Congresso a um possível governo do peemedebista.

Os tucanos reuniram onze pontos para, segundo diz o texto, a "formação de um entendimento partidário que promova a conciliação nacional e a construção de um ambiente político-institucional que permita ao país superar este grave momento de sua história".

Temer diz que Dilma prejudica o Brasil


Por Andrea Jubé e Camilla Veras Mota – Valor Econômico

BRASÍLIA e SÃO PAULO - A tensão entre a presidente Dilma Rousseff e o vice Michel Temer (PMDB) aumentou ontem e deu à disputa um caráter de crise institucional. Com a intenção de neutralizar a estratégia de Dilma de propagar no exterior a ideia de que seu impeachment é um golpe de Estado, Temer deu ontem entrevistas a jornais estrangeiros para rebater a tese e disse que Dilma prejudica o país ao falar que seu afastamento é uma ruptura da ordem democrática. No cargo de presidente interino, o pemedebista afirmou que está pronto para assumir o comando do país e disse que já está preparando seu ministério.

"Ela diz que sou o chefe do golpe, o que obviamente é perturbador para mim e para a vice-presidência da República", disse Temer ao jornal "The Wall Street Journal". "Se cada etapa do impeachment está de acordo com a Constituição, como pode ser golpe?", declarou o pemedebista.

"Não há golpe de forma alguma acontecendo no Brasil", afirmou Temer ao Financial Times.

As entrevistas para rebater a pecha de golpista, concedidas de forma separada aos jornais "The Wall Street Journal" e "Financial Times", foram divulgadas ontem, na véspera do discurso que Dilma deve fazer hoje na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, para denunciar o golpe no país. Temer assumiu ontem a presidência interinamente e ficará no cargo até sábado, quando Dilma deve retornará dos Estados Unidos.

Ao "Financial Times", o vice-presidente afirmou que "vários ministros do Supremo Tribunal Federal" disseram que o possível impeachment da presidente da República "não representaria um golpe". "Este é um processo constitucional", disse. Nas entrevistas divulgadas ontem, o pemedebista afirmou que "vai retornar a seu posto" assim que Dilma retornar o país, na tentativa de mostrar que não dará um golpe.

Temer afirmou que está conversando com potenciais ministros e que espera construir um governo de coalizão para o país durante o julgamento de Dilma no Senado. "Quando chegar a hora, vou ter um ministério formado na minha cabeça e só então vou revelar nomes", afirmou ao "The Wall Street Journal".

Ao "Financial Times", disse que a presidente perdeu, simultaneamente, base de sustentação no Congresso e apoio da população. "Quando ela me acusa de ser um conspirador ou um conspirador ou um golpista, me pergunto se realmente teria a capacidade de influenciar 367 deputados e 70% da população. Trata-se de algo sem o menor fundamento".

Temer desembarcou ontem em Brasília, acatando a recomendação de sua segurança pessoal e os conselhos de auxiliares de que deveria assumir a Presidência interina na capital federal, para confrontar da sede do Executivo o discurso de Dilma. O pemedebista não vai despachar do gabinete de Dilma no terceiro andar do Planalto. Segundo auxiliares, vai manter o estilo discreto e, como das ocasiões anteriores, permanecerá na Vice-Presidência, onde receberá aliados.

Para os próximos dias são aguardadas duas importantes reuniões, com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que comanda o processo de impeachment, e com o economista Henrique Meirelles, executivo da holding J&F e ex-presidente do Banco Central, cotado para o Ministério da Fazenda. Com Meirelles o encontro pode ocorrer amanhã.

Para um eventual governo Temer, são nomes confirmados, embora os cargos ainda não estejam definidos: o ex-ministro da Aviação Civil Eliseu Padilha, cotado para a Casa Civil, o ex-ministro Moreira Franco, o presidente em exercício do PMDB, senador Romero Jucá (RR), e o ex-ministro Geddel Vieira Lima. O senador José Serra (SP) é cotado, mas o PSDB resiste. O PP terá dois ministérios, e o PSB pelo menos um.

Depois da votação do impeachment na Câmara, o pemedebista passou a semana em São Paulo, onde se reuniu com aliados para discutir a formação do novo governo. Ontem, reuniu-se com o ex-ministro Moreira Franco, um de seus principais aliados.

A segurança de Temer recomendou que o pemedebista trocasse São Paulo por Brasília depois que cerca de 80 jovens protestaram ontem m frente à casa dele, em São Paulo. Integrantes do "Levante Popular da Juventude" escreveram no asfalto diante da casa do pemedebista "QG do golpe", rasgaram cópias da Constituição Federal e gritaram palavras de ordem. Mais de 20 seguranças foram acionados e a casa foi cercada por barreiras de proteção de metal.

Se o Senado acolher o processo de impeachment, Dilma será afastada por até 180 dias, e será substituída por Temer. Se a presidente for condenada, o peemedebista ficará no cargo até a sucessão de 2018. (Colaborou Gustavo Brigatto, de São Paulo. Com agências noticiosas)

Petista custará em obter apoio dos EUA

Por Juliano Basile e Daniela Chiaretti – Valor Econômico

NOVA YORK e SÃO PAULO - A viagem da presidente Dilma Rousseff a Nova York para participar hoje da Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) e denunciar o processo de impeachment que está sofrendo no Congresso deverá ter pouco impacto sobre os países membros e não deverá alterar a posição do governo dos Estados Unidos sobre o assunto.

A expectativa é a de que o Departamento de Estado americano permaneça distante das disputas políticas internas do Brasil e de que não adote posicionamentos contrários nem favoráveis ao impeachment. Essa posição foi adotada na segunda-feira, quando o porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, disse que o Brasil vive "um momento político desafiador", mas possui instituições "suficientemente maduras para endereçar os desafios do país".

A ONU também se manifestou de forma diplomática e apartidária sobre o impeachment através do secretário-geral, Ban Ki-moon, que pediu uma "solução harmoniosa" aos líderes brasileiros, se disse preocupado com a instabilidade política no país e pediu que o Judiciário fosse respeitado. "Acho que poucos países vão fugir muito desse roteiro", avaliou o professor da American University e pesquisador do Conselho de Relações Internacionais (CFR na sigla em inglês), Matthew Taylor.

O professor acredita que o governo americano vai evitar qualquer interferência sobre a situação política brasileira e o impeachment. "O governo dos Estados Unidos não deve se intrometer, já que sabe que qualquer sinal de favoritismo poderá acarretar impacto de longo prazo nas relações bilaterais", disse. "O governo americano demorou para apreender, mas ao longo das últimas duas décadas, a política externa americana tem procurado não dar a impressão de excessiva intervenção na autonomia dos sistemas políticos latino-americanos, especialmente nos países de grande porte", continuou o professor. Ele se declarou cético quanto ao impacto da viagem. "Se, de um lado, a imagem da presidente como líder global discursando em Nova York pode ajudá-la a mudar o foco das atenções dentro do Brasil, do outro lado, acho que um discurso qualificando o impeachment como golpe em nada ajudará a presidente no plano internacional e pode até repercutir mal na imprensa brasileira", justificou Taylor.

Após a Assembleia da ONU, a presidente deverá fazer uma ofensiva junto à imprensa americana, concedendo entrevistas para contestar o que qualifica como um "golpe". De maneira geral, os jornais dos Estados Unidos estão adotando uma postura crítica ao fato de o processo de impeachment ter sido conduzido pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) onde responde a duras acusações de envolvimento em episódios de corrupção na Petrobras e de outros parlamentares suspeitos terem votado contra Dilma. Por outro lado, a imprensa americana também publicou declarações de ministros do STF de que o processo de impeachment segue ditames da Constituição e ressaltou o fato de a Corte ter indicado um rito que está sendo seguido pelo Congresso.

O vice-presidente Michel Temer também iniciou uma ofensiva a jornais estrangeiros e concedeu entrevista ao "The Wall Street Journal" para dizer que "cada passo do impeachment está de acordo com a Constituição".

Dilma fará um discurso na Assembleia da ONU sobre mudanças climáticas em sessão que será iniciada às 9h30, horário de Brasília. Depois, participará da assinatura do acordo do clima, que foi acertado em Paris, em dezembro, e terá um almoço com chefes de Estado.

O acordo poderá ter a maior adesão de um tratado internacional na história das Nações Unidas. A ONU espera representantes de mais de 160 países e mais de 60 chefes de Estado e de governo na Assembleia.

O evento deverá marcar a última viagem internacional de Dilma como presidente, caso o impeachment seja confirmado pelo Senado. Dias antes da votação do processo na Câmara, a expectativa era a de que o Brasil seria representando pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e que Dilma não iria a Nova York por causa da crise política em Brasília.

O acordo, que pretende colocar as economias mundiais na trilha do baixo carbono, só entra em vigor quando se tornar lei em 55 países que signifiquem 55% das emissões mundiais de gases-estufa. No caso brasileiro, tem que passar pelo Congresso.

Se por um lado o governo brasileiro se empenhou em atuar diplomaticamente para que o texto pudesse ser fechado em Paris, o acordo pode não se tornar prioritário na agenda do Legislativo, onde tem ocorrido duros embates em pautas ambientais. O Protocolo de Nagoya, criado em conferência internacional em 2010, no Japão, e que versa sobre o acesso a recursos genéticos e repartição de benefícios da biodiversidade, ainda não foi ratificado pelo Brasil por oposição da bancada ruralista.

FH: PSDB precisa repudiar Bolsonaro

• Para ex-presidente, é ‘inaceitável’ que ainda haja quem defenda tortura

Stella Borges - O Globo

-SÃO PAULO- O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que o PSDB, partido do qual é presidente de honra, precisa repudiar afirmações como as do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Durante a votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara, no último domingo, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, e primeiro militar a ser reconhecido como torturador pela Justiça.

“O PSDB precisa repudiar com clareza essas afirmações, que representam uma ofensa aos cidadãos do país e, muito especialmente, aos que sofreram torturas”, disse o ex-presidente em nota publicada ontem, em uma rede social.

Processo “mais conveniente”
Fernando Henrique afirmou que espera que a votação do processo de impeachment no Senado se processe “de forma mais conveniente, sem declarações estapafúrdicas como algumas que testemunhamos na Câmara dos Deputados”. FH disse que especialmente a declaração do deputado Bolsonaro lhe desagradou.

“É inaceitável que tantos anos após a Constituição de 1988 ainda haja alguém com a ousadia de defender a tortura e, pior, elogiar conhecido torturador”, completou o ex-presidente.

Leia a íntegra da nota do expresidente:
“O processo do impeachment começa agora a tramitar no Senado. Esperamos que os trâmites legais sejam todos cumpridos, sem delongas. E quando chegar o momento da decisão dos senadores, que a votação se processe de forma conveniente, sem declarações estapafúrdicas como algumas que testemunhamos na Câmara dos Deputados. Especialmente uma me desagradou, aquela proferida pelo deputado Bolsonaro. É inaceitável que tantos anos após a Constituição de 1988 ainda haja alguém com a ousadia de defender a tortura e, pior, elogiar conhecido torturador. O PSDB precisa repudiar com clareza essas afirmações, que representam uma ofensa aos cidadãos do país e, muito especialmente, aos que sofreram torturas”.

PGR analisa denúncias
Depois de receber mais de 17 mil pedidos de providências contra Bolsonaro, o procurador-geral da República, Rodrigo Janto, analisa se abre uma investigação ou se faz uma denúncia contra o deputado do PSC.

Legendas como PSOL e PV já se manifestaram contra Bolsonaro, assim como o Instituto Vladimir Herzog, que pediu aos deputados federais que expulsem o colega da Câmara.

Ao 'NYT', Temer afirma que ficou no 'ostracismo absoluto' por quatro anos

Ao 'NYT', Temer diz que falou com Dilma pela última vez no fim de janeiro

• Jornal americano questionou o vice sobre as menções a ele em delações premiadas, como do senador Delcídio Amaral (ex-PT); Temer afirmou que conexões com executivos envolvidos na Petrobrás se deveram às responsabilidades burocráticas como presidente do PMDB

- O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - No mesmo dia em que Dilma Rousseff deve denunciar o "golpe" em curso no Brasil às Nações Unidas, em Nova York, o presidente em exercício Michel Temer voltou a negar ilegalidades no processo de impeachment da petista e afirmou que esteve em "ostracismo absoluto" nos últimos quatro anos. Depois de falar ao Wall Street Journal e ao Financial Times, ele concedeu uma entrevista ao The New York Times.

Segundo Temer, Dilma e ele nunca foram amigos, mal se cumprimentando com cerimônia, e a última vez que se falaram foi no final de janeiro. "Nós não somos amigos porque ela não se considerava minha amiga", afirmou na entrevista.

Temer voltou a defender a legalidade do impeachment da presidente. "Estou muito preocupado com a intenção da presidente de dizer que o Brasil é alguma republiqueta onde golpes acontecem", afirmou, em referência ao discurso do governo e do PT de que o processo de afastamento de Dilma - que após aprovação da Câmara tramita agora no Senado - é uma "fraude política".

O vice também voltou a dizer que não pretende interferir nas investigações de corrupção e defendeu seus aliados das suspeitas de irregularidades. Temer disse que não pediria a Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para renunciar à presidência da Câmara. "Esse é um assunto para o Supremo Tribunal Federal decidir", afirmou.

O jornal americano questionou o vice sobre as menções a ele em delações premiadas, como do senador Delcídio Amaral (ex-PT). Temer se disse inocente e afirmou que suas conexões com executivos envolvidos no esquema de corrupção na Petrobrás se deveram às suas responsabilidades burocráticas como presidente do PMDB.

O jornal destaca que Temer assumiria o maior país da América Latina enfrentando uma crise econômica, uma epidemia de zika, um furioso clima político e uma Olimpíada - tudo ao mesmo tempo. Apesar disso, o peemedebista diz que mantém esperança de promover uma espécie de catarse, reunindo um "governo de unidade nacional". Citando Juscelino Kubitschek, Theodore e Franklin Roosevelt, Temer disse que quer criar um "governo de otimismo". "É preciso fazer nascer de novo a esperança", afirmou.

A publicação ressalta ainda que Temer, segundo pesquisas, teria 2% das intenções de voto se houvesse uma eleição hoje e esteve tão raras vezes no foco nacional que muitos brasileiros o conheciam por sua mulher, Marcela. Mais de 30 anos mais nova, ela chamou a atenção na posse de Dilma e tem uma tatuagem com o nome do vice na nuca, lembra o jornal.

O vigia do PMDB

Por Maria Cristina Fernandes – Valor Econômico

"À Mesa com o Valor", Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) diz a Maria Cristina Fernandes que, depois de votar sim pelo impeachment de Dilma, o próximo alvo é Eduardo Cunha. O deputado também defende que um eventual governo Temer deva buscar diálogo até com o PT.

Cunha tem de ser o próximo, diz Jarbas Vasconcelos

BRASÍLIA - "Voto sim, senhor presidente, mas quero dizer do meu desconforto de ter uma pessoa como Vossa Excelência presidindo esta Casa. O processo de impeachment fica profundamente maculado com sua presença." A sorte da presidente Dilma Rousseff já estava selada quando o deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) proferiu o 348º voto, um dos últimos da sessão iniciada 63 horas antes pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

A sobriedade contrastava com a algazarra provocada, minutos antes, pela definição do placar. O papel picado era o mesmo que, nos dias que antecederam o impeachment, encerrava as reuniões da oposição de monitoramento de votos, mas os empurrões e cotoveladas que se seguiram foram inéditos em sua vida parlamentar. Encerrada a sessão já depois da meia-noite, a maioria dos deputados rumou para as festas de comemoração e Jarbas foi para casa dormir. Às 9h do dia seguinte, uma segunda-feira, chegou a uma Câmara deserta, com os elevadores funcionais ainda desligados, para ler a crônica do confete.

Na véspera do impeachment, durante um café da manhã em seu apartamento na Asa Sul, ele avisara do cravo e da ferradura: "Sou daqueles que acredita que na vida é preciso ter prioridades. A nossa agora é o impeachment. Mas a prioridade é Dilma agora e ele [Cunha] amanhã ".

Alessandra Cordeiro, a cozinheira pernambucana herdada do ex-ministro do Tribunal de Contas da União José Jorge serve tapioca com manteiga e coco, milho cozido, ovos mexidos, presunto, queijo prato e iogurte com gelatina. O deputado dá início aos trabalhos pelas frutas e pelo apartamento funcional que ocupa em prédio reservado ao Senado, Casa que lhe deu assento por oito anos até dezembro de 2014.

Depois de indicar o vice na chapa que sucederia Eduardo Campos no governo de Pernambuco, pensou em se aposentar, mas teve medo de endoidar. A reeleição não dava, então resolveu tentar a Câmara. De volta a Brasília, ligou para o presidente do Senado, Renan Calheiros, o correligionário de quem já havia pedido a renúncia em 2007 durante outra temporada de escândalos.

"Você vê alguma extravagância em eu ficar morando onde estou? Lá tem três ministros do STJ e dois do TCU." Renan foi afável. Disse que ele poderia ficar no apartamento, mas não havia como formalizar a permanência. Jarbas recuou. Não abriria o flanco. "Tenho uma tese de que em política tudo aquilo que você tem que explicar é complicado."

Nesse momento, a bola rolou para seus pés. O senador Romário Faria (PSB-RJ) havia reformado às suas expensas o apartamento funcional da Câmara que ocupou em seu mandato anterior como deputado e queria ficar por lá. Jarbas sugeriu uma permuta e Renan editou um ato formalizando-a.

Aos 73 anos, no exercício do seu quinto mandato parlamentar (três de deputado federal, um de senador e o primeiro, de deputado estadual), intercalados entre os quatro no Executivo (dois de prefeito do Recife e dois de governador de Pernambuco), Jarbas é o aliado que o vice-presidente gostaria de ver sentado na cadeira de Cunha.

Cinco dias antes do impeachment, Michel Temer pediu que Jarbas reunisse, em seu apartamento, um grupo de parlamentares cuja lista ficaria a cargo do anfitrião. Alessandra preparou o cardápio: filé mignon ao molho madeira, frango recheado e um galo do alto, peixe de águas profundas.

Do Recife vieram o bolo de rolo e a goiabada e da turma de Jarbas chegaram os deputados Heráclito Fortes (PSB-PI), Benito Gama (PTB-BA), Darcísio Perondi (PMDB-RS), Rubens Bueno (PPS-PR), Mendonça Filho (DEM-PE) e os pemedebistas Osmar Terra (RS), Carlos Marun (MS), Baleia Rossi (SP) e Lelo Coimbra (ES). "Na condição de presidente do PMDB", esclarece, veio o senador Romero Jucá, o conterrâneo do partido que fez carreira em Roraima, mas nunca tocou por sua partitura. Cada um falou um pouco. "Ainda não tínhamos atingido o quórum do impeachment, mas todos concordamos que havia uma longa e penosa travessia pela frente e, para dar uma resposta ao Brasil, o porvir não poderia ser do PMDB. Tinha que ampliar." Temer saiu de lá à meia-noite. "Não houve nem de longe essa coisa de participação em governo. Era uma discussão sobre o país."

• Sou daqueles que acredita que na vida é preciso ter prioridades. A nossa agora é o impeachment, mas a de amanhã tem que ser o Cunha

Na liturgia de Brasília, o jantar foi um signo de prestígio. O desejo de Temer cumpriria o vaticínio de Ulysses Guimarães, que considerava Jarbas, presidente do partido durante sua campanha presidencial de 1989 e único pemedebista com quem rivalizava na sisudez, seu sucessor na política.

Tratava-o como filho. Em 1990, ao ser derrotado na primeira vez em que disputou o governo do Estado, Jarbas recebeu um telefonema do velho pemedebista, preocupado com seu estado de ânimo. "Não sou viúva de eleição, dr. Ulysses", disse-lhe. O amigo não acreditou. Dali a alguns dias, baixou com a mulher, Mora, no Recife. Chegaram com uma caixa de papelão toda furada. Dentro estava Vick, filhote de fox terrier. O pemedebista nunca fora muito chegado a cachorro, mas era muito festejado pelo fox terrier do casal Guimarães, que julgou o filhote um presente de consolação ao amigo derrotado nas urnas.

O deputado encara o mamão e o melão antes de relatar as premissas de sua campanha anti-Cunha. Há dois meses as expôs, pela primeira vez, na presença do senador Aécio Neves (PSDB-MG), ao pelotão pluripartidário da frente pró-impeachment na casa do deputado Heráclito Fortes (PSB-PI). "Meu nome tem sido colocado para presidir a Câmara. Então quero colocar para vocês o seguinte: não sou candidato. Isso me dá liberdade para dizer que esse camarada é uma excrecência. É uma desmoralização que presida o processo de impeachment."

É possível que os presentes tenham acreditado mas, nas alas que desembarcaram nas últimas semanas do Planalto e querem fazer uma clonagem de Cunha para sua sucessão, o bombardeio sobre o deputado já começou. Do senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, partido recordista em réus da Lava-Jato, vem a provocação: "Se for candidato, não terá mais que 30 votos".

Jarbas era favorável a que se reabrisse a peça acusatória para incluir a denúncia da OAB que abrigava a delação do senador Delcídio do Amaral contra a presidente da República e daria mais robustez ao crime de responsabilidade. Credita a pressa a Cunha. "Quando o PT diz que ele agiu por vingança, não está inventando. É uma inteligência voltada para o malfeito. A única regra que ele quebra é que todo amoral é simpático. Ele é um gelo. Não tem amigos, tem seguidores. Não sabe o que é o alvorecer, o pôr de sol, o sentimento de família."

Jarbas filia Ulysses e Egídio Ferreira Lima, ex-deputado federal pelo PMDB de Pernambuco, na escola da política que não se precipita nem cria inimigos. A ojeriza a Eduardo Cunha, acredita, não o deixará de segunda época. Assume ter errado em dar seu voto para elegê-lo presidente da Câmara: "Eu o tinha por lobista e regimentalista. Votei nele para evitar PT. Não dava para deixar que Dilma se reelegesse e ainda tivesse a Câmara na mão. Mas estava desinformado sobre ele e sou responsável por isso".

Agora pretende agregar a sua campanha contra o presidente da Câmara aqueles que temem ver o eventual governo Temer vítima das mesmas chantagens que açodaram a gestão Dilma Rousseff. Como parece provável que o Senado confirme o placar da Câmara, as manobras que o presidente da Casa já começou a fazer em torno da pauta fiscal, impactarão diretamente o sucessor de Dilma.

Naquela manhã, Brasília havia amanhecido sob o bombardeio de informações de que os governistas haviam virado o jogo, colocando 20 votos à frente da oposição. O vice-presidente, que havia viajado na véspera para São Paulo, decidira retornar a Brasília para a contraofensiva. Jarbas não parecia se abalar com as notícias.

Era seu primeiro impeachment. No de Fernando Collor, estava no Recife, sem mandato, para disputar a prefeitura. Neste, acompanhara as reuniões do comitê do impeachment e ficou seguro de que não deixariam escapar a votação. "É amadorismo ficar inquieto." Nas reuniões, os nomes eram esquadrinhados um a um. Para cada parlamentar indeciso havia um outro, da oposição, para monitorar, com lances dignos de espionagem: "Esse aí não está seguro, não. Vi um vice-líder do governo saindo do seu apartamento ontem. Volta o nome dele para a coluna do meio e vamos atrás", diziam os mais aguerridos.

Jarbas mais participou como observador e consultor da turma que ainda o olha com a reverência de quem tem de idade o que o deputado tem de vida pública (46 anos). Quando voltou para a Câmara, no início do ano passado, os colegas ora o chamavam de governador, ora de senador, diziam que o pai - ou o avô - tinha sido seu colega na Casa e mencionavam de cor entrevistas da década passada em que já desancava lideranças de seu partido como o ex-presidente José Sarney.

Afastado da cúpula do PMDB há mais de dez anos, Jarbas tem divergências ainda mais antigas. Egresso da esquerda do partido, foi um dos primeiros a visitar o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, preso no início da abertura. Um dos "autênticos" do PMDB, foi contra a maioria ao recusar voto em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1985. E foi um dos primeiros do PMDB a subir no palanque de Lula no segundo turno de 1989. O ex-presidente ainda tentou, sem sucesso, fazer de Jarbas um interlocutor no PMDB, mas a ideia não prosperou: "O PT foi eleito há 14 em cima de duas pernas que empolgaram o país, a ética e a mudança. Hoje não é mais capaz de fazer uma coisa nem outra".

Sua origem à esquerda justifica o desconforto com a pauta que Eduardo Cunha, apresentou à Câmara nesta legislatura. Discorda do açodamento com o qual a terceirização foi aprovada ("saiu pior do que entrou na Casa") e ficou inconformado com a tramitação dada à redução da maioridade. "Os dois lados tinham pontos robustos e fomos obrigados a votar numa madrugada com o argumento de que 80% da população era favorável. O mesmo percentual deve querer o fechamento do Congresso. E é por isso que vamos fechá-lo?"

• Um governo do PMDB seria um desastre. É um erro do PSDB querer apoiar pela metade, sem participar. Michel deve buscar até o PT

O terceiro desserviço que diz ter sido prestado ao país pela Câmara dos Deputados foi a reforma política. Votou pelo fim do financiamento de campanha, mas sabe que ainda não se descobriu um jeito de fazer política sem dinheiro. E chama de arremedo qualquer reforma política que não imponha cláusula de barreira ou acabe com coligações proporcionais. Estava na Alemanha na década de 1980 quando os Verdes, finalmente, chegaram ao Parlamento depois de sucessivas eleições em que se aproximavam, mas não alcançavam os 5% de representação. "Hoje é um dos bons partidos de lá, se consolidou porque conquistou." Não acredita que Temer, um dos maiores defensores do "distritão" leve à frente a ideia de implantá-lo depois da derrota já sofrida pelo projeto na Câmara.

O afogadilho dessas votações tirou dos deputados as noites de terça e quarta. Jarbas, que sempre gostou de oferecer jantares aos colegas e de frequentar aqueles para os quais é convidado, passou a bater ponto na Câmara até a madrugada. "Somos operários, mas no sentido de aperfeiçoar o processo legislativo. Inicia a sessão mais cedo e termina até as 20h. Política não se faz apenas na ordem do dia, mas também na livre troca de ideias fora do Parlamento."

É dessa política que pretende se ocupar agora para ampliar a aliança em torno de um eventual governo Michel Temer. Não tem boas recordações de seus dias no Executivo, quando todo mundo soprava no seu ouvido o que tinha que ser feito. Por isso prefere bradar aos quatro ventos: "Um governo do PMDB é um desastre". A busca de composição deve incluir até mesmo o PT. Sabe que o partido do governo, se derrotado, vai resistir a aproximações, mas vê as pontes como inadiáveis para conter a radicalização política em que o país se meteu neste impeachment com ameaça de movimentos sociais de não dar sossego ao vice. "É uma coisa delicada essa. O grande nome do Michel para essa intermediação é o Paulinho [da Força]. Não quero atacar ninguém, mas não é ideal. Não faltam pontes, faltam nomes mesmo."

Se o PT não tem razão alguma para participar de um eventual governo Temer, o PSDB deveria ter todas. É o que tem dito a seus amigos tucanos. Acha um erro o partido optar por apoio sem participação sob o risco de comprometer o projeto que se iniciou com o impeachment.

Concorda que as divisões do PSDB derivam, em grande parte, de suas disputas internas e assume com todas as letras seu lado na briga alheia: "Serra é o quadro político mais qualificado do país e é com os melhores que o Temer tem que governar". Diz que Temer não terá como escolher ministro da Fazenda sem pactuar com o PSDB. E que o partido erra em querer aderir pela metade - vota, mas não participa.

Jarbas já parara de comer há muito tempo. O insumo ali era a política. E o sentido que lhe quer dar é de urgência: para não se inviabilizar, o governo que vier a assumir tem que tomar as medidas impopulares e cortar na carne logo de cara.

E a Lava-Jato, é parte dessa desestabilização? "É uma das coisas mais exitosas que aconteceram no país nos últimos anos. O que eu concordo é que ela tenha tempo para terminar como o juiz Sérgio Moro já sinalizou. Que se façam outras, mas esta não pode ficar aberta por tempo indeterminado."

Para que não pairem suspeitas de que Michel Temer esteja sendo pressionado a colocar panos quentes sobre a operação, Jarbas defende que o PMDB venha a público defender o apoio à Lava-Jato. "Não se pode dizer que a operação atrapalhou o país. Da mesma maneira que a força-tarefa, em Curitiba, foi pra cima das empreiteiras, o Ministério Público e o Supremo têm que ir em cima da classe política. Há um descompasso."

Para cima de quem? O primeiro da lista, claro, é Eduardo Cunha. Ciente do acordo para livrar o presidente da Câmara no Conselho de Ética, defende pressão redobrada sobre o Supremo por seu afastamento. Acha que o ex-ministro Nelson Jobim, pela amizade mantida com o vice-presidente, pode ajudar, ainda que não vire ministro da Justiça. "É uma área difícil. Mesmo que não seja uma pessoa afeita à área jurídica, tem que ser desenvolta. Capaz de sentar com um ministro para conversar. Não se pode errar aí."

Já se aproximam de duas horas que o café da manhã começou. Sua coleção de arte popular, que estava no cardápio, ainda permanecia intocada e, pela premência, dos fatos, assim permaneceria. A joia de sua coleção de 1.118 peças são as de mestre Vitalino, ceramista de Caruaru, considerada por especialistas como a maior do artista em mãos privadas. Jarbas lhes desconhece o valor. "Me falam que uma ou outra peça foi vendida em leilão por R$ 5 ou R$ 6 mil, mas este não é um assunto que me interesse. Não vendo minha coleção de jeito nenhum." À sua declaração de bens, na Justiça Eleitoral, indicou um valor total de R$ 288 mil. Ainda amadurece a sugestão do amigo jurista Joaquim Falcão de fazer uma fundação para abrigar a coleção. Por enquanto, a maior parte está abrigada nos dois apartamentos do Recife que foram conjugados para recebê-las. Ficam, naquelas que são conhecidas como as "torres gêmeas", espigões de 42 andares que, há três anos, modificaram a paisagem do Cais de Santa Rita, no bairro de São José, um dos primeiros núcleos urbanos do país que guarda nichos do traçado holandês do século XVII.

Divorciado, depois de dois casamentos, Jarbas tem quatro filhos e cinco netos. O caçula dos filhos, que leva seu nome, disputou, aos 23 anos, uma vaga na Câmara de Vereadores, nas últimas eleições, sem sucesso. Hoje trabalha numa secretaria municipal no Recife. Numa quadra em que tantos penhoraram o futuro do Brasil na conta da gratidão para com os filhos, mulheres, pais, avós e todos os santos, Jarbas é econômico em falar do filho. Prefere que ele termine o curso de administração de empresas e siga carreira na iniciativa privada.

Ao fim dos três anos, sete meses e um Eduardo Cunha que lhe restam, planeja se aposentar da vida pública. Se não mudar de ideia antes, pretende se afastar da política como ela é para cuidar de seus bonequinhos de barro. Terá 77 anos.