Não foi a primeira vez, não será a última. A disputa de poder entre o ex-superministro da Economia Paulo Guedes e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, se desenvolve no terreno pantanoso da crise econômica que mais uma vez vivemos. Não há dinheiro para investimentos, para programas sociais, e a disputa entre os “desenvolvimentistas” e os “monetaristas” volta à tona, como acontece com freqüência quando há crise econômica.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 3 de outubro de 2020
Merval Pereira - Há lugar para os dois?
Daniel Aarão Reis - O beco tem saída
Enquanto
os sábios analisam alternativas, a sociedade despenca num buraco sem fundo
‘Nada de puxadinhos’, zangou-se o ministro, o
mesmo que leu oito livros — no original — sobre os processos de reorganização
da economia mundial. “Precisamos de um programa social robusto, consistente e
financiado.” Foi fácil encontrar acordo quanto aos dois primeiros adjetivos,
mesmo porque, no governo, é unânime a opinião de que o país precisa de
programas sociais “robustos e consistentes”. Nem tanto para aliviar a miséria
dos que têm fome ou para mitigar o desespero dos desempregados. Nem tanto para
estimular o consumo da sociedade ou o dinamismo da economia, mas porque um
programa “robusto e consistente” é essencial para a reeleição do salvador da
pátria, que precisa salvar-se a si mesmo para continuar posando como salvador
de todos. Calou-se o coro dos que denunciavam o Bolsa Família como um programa
demagógico e populista, feito sob medida para preguiçosos e para dar votos a
seu criador. Entretanto o bicho está pegando quanto à terceira palavra do
enunciado do douto ministro: como financiá-lo?
Ascânio Seleme - Uma andorinha só
Indicação
de Kassio Marques para o STF é uma indicação do movimento de Bolsonaro para o
cento: o centrão
Trata-se
de uma questão de
ponto de vista, mas não se pode negar que o presidente Jair Bolsonaro evoluiu
desde a sua posse. No dia 1º de janeiro de 2019, o capitão era a imagem do mal
usando faixa. Era um extremista de direita disposto a dar um golpe. Foi assim
até outro dia, quando deslocou-se para o centro, digo, para o centrão. Até a
chegada de Bolsonaro ao poder, o centrão era o que havia de mais nefasto na
política. O presidente andou uma casa, se moveu do pior para o ruim.
A
indicação de
Kassio Marques para a vaga de Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal é uma
indicação do movimento de Bolsonaro. Nenhuma dúvida que se trata de uma ação de
natureza política, mas é com essa argamassa que se constrói entendimentos,
pontes e saídas. O presidente está buscando consolidar para si uma posição mais
confortável, uma alternativa viável para o seu governo, que mais patina do que
anda para frente.
O fato
novo neste
e em outros episódios recentes é que Bolsonaro tem ouvido mais. A escolha de
Kassio Nunes é o melhor exemplo disso. Mostraram ao presidente que a indicação
de um extremista, de um terrivelmente evangélico ou de um amigo despreparado
para o Supremo serviria apenas para irritar os demais ministros da Corte.
Sozinho, o novo ministro não conseguiria ajudar a Bolsonaro, aos seus filhos ou
às suas causas. Ao contrário, sua presença de um lado poderia acabar empurrando
ministros simpáticos para o outro lado. Uma andorinha só não faz verão,
lembraram a ele.
Bolsonaro
ouviu seus
novos interlocutores, refletiu, o que, convenhamos, é coisa rara em se tratando
dele, e concluiu que uma indicação errada atrapalharia mais do que ajudaria.
Conseguiu rapidamente encontrar um magistrado maleável, bem aceito por todos os
lados, mas ainda assim um garantista, anti-lavajatista e conservador. A
indicação deixou irados os terraplanistas e ultradireitistas que o guiavam até
outro dia, como o falso guru Olavo de Carvalho. Bolsonaro fez um gol.
Não se
espantem se
outros movimentos forem feitos. Claro que não se pode esperar evolução muito
maior do que a nomeação de um moderado para o STF, mas ainda há espaço para
Bolsonaro se mexer. Se ele quisesse ganhar mais alguns pontos com o grande
público, poderia aproveitar e passar logo a boiada toda, demitindo os
vergonhosos ministros do Meio Ambiente e das Relações Exteriores, o
recém-empossado ministro da Educação e o secretário de Cultura, por exemplo.
Mas não vai acontecer. O capitão gosta dos odiados e odeia os bem-amados.
Míriam Leitão - Bastidores de uma nova confusão
Por
Alvaro Gribel (interino)
A
confusão envolvendo os ministros Rogério Marinho e Paulo Guedes, ontem, começou
na verdade na quarta-feira, com uma conversa entre o líder do governo na Câmara,
Ricardo Barros, e investidores. Barros queria entender a reação negativa do
mercado à proposta do uso de precatórios para financiar o Renda Cidadã e ouviu
que, se o governo seguisse por esse caminho, o presidente Bolsonaro enfrentaria
uma crise econômica tão severa quanto a que derrubou a presidente Dilma
Rousseff. Rogério Marinho resolveu, então, ter o mesmo tipo de conversa para
tentar, na visão dele, “acalmar” o mercado. Acabou colhendo o efeito contrário.
É
preciso entender a razão para a desenvoltura do ministro do Desenvolvimento,
Rogério Marinho. Na quinta-feira, ele havia levado o presidente Jair Bolsonaro
ao interior de Pernambuco para a inauguração de uma adutora de água na pequena
cidade de São José do Egito. Bolsonaro fez o que mais gosta: usou a festa
preparada por Marinho para exercer a função de líder populista, contar piada e
angariar votos. A aproximação entre os dois faz Marinho se sentir mais forte, a
ponto de extrapolar funções de sua pasta e invadir território que seria do
ministro da Economia.
Na
reunião com economistas da Ativa Investimentos, Marinho teria dito que a ideia
do uso de precatórios foi da equipe de Paulo Guedes. A ala econômica, por sua
vez, bate o pé e diz que havia apenas estudos. Marinho também afirmou que
Guedes tem a confiança do presidente Bolsonaro e que o governo mantém
compromisso com a agenda fiscal. Mas afirmou que o ministro da Economia, apesar
de entender de assuntos macroeconômicos, tem menos traquejo político e peca em
detalhes na formulação de alguns projetos.
Marco Antonio Villa - Bolsonaro e a elite rastaquera
No
Brasil da barbárie, o chique é falar palavrões, desprezar a cultura, reduzir os
complexos problemas nacionais a frases marcadas pelo senso comum
Ricardo Noblat - Paulo Guedes tornou-se obsoleto
Bolsonaro
não o mandará embora, nem o impedirá de sair
De repente, o governo ficou pequeno demais para abrigar ao mesmo tempo os ministros Paulo Guedes, da Economia, e Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional. Uma dos dois acabará sobrando, e se depender do presidente Jair Bolsonaro, e dos militares que o cercam, não será Marinho.
Quem
mais agrada um governante que só pensa em se reeleger? O ministro que diz: não
pode gastar tanto assim ou o ministro que diz o contrário? Até quando Bolsonaro
conseguirá se equilibrar entre Guedes e Marinho? Ou melhor: até quando
conseguirá manter os dois no governo em meio a tanta turbulência?
Em
conversa reservada, ontem, com investidores e economistas em São Paulo, Marinho
criticou a política de Guedes e disse que ele foi o autor da proposta de dar um
calote no pagamento de dívidas judiciais do governo para financiar o programa
Renda Cidadã. Dias antes, Guedes negou que tivesse algo a ver com isso.
A
reação de Guedes às críticas de Marinho foi imediata e dura. Mal desceu do
carro à porta do seu ministério, Guedes foi logo dizendo que não acreditava que
Marinho o tivesse criticado, mas se de fato o fizera, não passava de um
“despreparado, desleal e fura-teto”. Se não acreditava porque atacou seu colega
de governo?
Faltou
o general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de governo, para
puxar Guedes pelo braço e tirá-lo de cena como fez na semana passada. Marinho
está para a reeleição de Bolsonaro como Guedes esteve para a eleição. Bolsonaro
não mandará Guedes embora, mas não o impedirá de sair.
Resta
saber se Guedes adotará a “receita Mandetta”. Ao concluir que seus dias como
ministro estavam no fim, Henrique Mandetta decidiu que não pediria demissão. Se
quisesse, que Bolsonaro o demitisse. Foi o que Bolsonaro acabou fazendo. Sérgio
Moro, não, demitiu-se e aparentemente não se deu bem por ter agido assim.
Luiz Paulo Costa* - O populismo autoritário e as eleições municipais
Mas a Constituição Cidadã de 1988 foi mais
conclusiva com a cidadania ao incluir o município como um ente federativo e o
seu direito à auto-organização através de suas Cartas Próprias, a Lei Orgânica
Municipal. Se a Constituição Federal garante o Estado Democrático de Direito a
todos os viventes do País e a Constituição estadual dos federados, a
Constituição Municipal leva os seus princípios passíveis de serem exercidos
pela cidadania em seu habitat natural: o município. Dizia Franco Montoro que as
pessoas vivem no município e é aí que devem exercitar os seus deveres e
direitos consagrados pelas Constituições da União e dos Estados.
Cristina Serra - A despedida do decano
Celso
de Mello é exemplo que deveria ser seguido por seus pares
Celso
de Mello chegou ao Supremo Tribunal Federal em agosto de 1989, quando
a Constituição ainda nem completara um ano de promulgada. Seus 31 anos na corte
se entrelaçam com dramas e tensões da nossa história contemporânea que, em anos
mais recentes, têm levado a um desgastante confronto do tribunal com os outros
dois Poderes.
O
julgamento do mensalão quebrou a redoma que protegia o STF da refrega
político-partidária e acentuou disputas entre os ministros, agravadas sobremaneira
pela Lava Jato. O excelente livro "Os Onze", de Felipe Recondo e Luiz
Weber, mostra que, nestes tempos tumultuados, Celso de Mello atuou como vetor
de alguma acomodação e equilíbrio sempre que procurado por pares menos
experimentados em crises, como o primeiro relator da Lava Jato, Teori
Zavascki, já morto.
Demétrio Magnoli* - Um milhão, muito ou pouco?
Marcos redondos têm valor simbólico, mas pouco significam na análise estatística
Marcos
numéricos redondos têm valor simbólico, mas pouco significam para a análise
estatística. Dias
atrás, mundo afora, as manchetes destacaram a (falsa) ultrapassagem da
fronteira do milhão de mortos por Covid-19. Certamente o limite foi rompido
antes, mas não enxergamos a placa graças à subnotificação generalizada. De
qualquer forma, é um sinal da escala da pandemia —e, ainda, um alerta sobre a
arrogância humana.
Um
milhão é muito ou pouco? Não vale comparar a pandemia com fenômenos cujas
causas, temporalidades e espacialidades são distintas, como guerras, atentados
terroristas, mortes no trânsito ou tsunamis. Pandemias devem ser cotejadas com
pandemias; doenças com doenças.
A
tuberculose mata, anualmente, cerca de 1,5 milhão; a diarreia infecciosa, 1,4
milhão; a Aids, 950 mil; a malária, 620 mil; as gripes comuns, 650 mil. A OMS
estima até mais um milhão de óbitos pelo coronavírus antes da vacinação em
massa —e isso com o cortejo de restrições sanitárias aplicadas pelos governos.
É muito.
Miguel Reale Júnior* - Organizar a oposição
Não há que entregar o jogo, asfaltando o caminho do autoritarismo digital
Recente
pesquisa de opinião pública atribuiu a Bolsonaro 40% de aprovação, isso na
mesma semana em que o Brasil passou pela vergonha de discurso irresponsável do
presidente da República na ONU, no qual disse ter a Justiça atribuído aos
governadores a condução das medidas no campo da saúde pública, além de culpar
“índios e caboclos” pelos incêndios na Amazônia. O resultado da pesquisa revela
a consagração do embuste como expediente para enganar uma população que admira
mais o histrionismo do governante do que a realidade visível.
Membros
da imprensa e da sociedade civil se manifestaram contra o desplante do
discurso. Mas grande parte de nosso povo não quer ler nem ouvir manifestações
revestidas de racionalidade e não alimenta interesse em se informar e minimamente
avaliar os fatos.
Em
maio, quando 30% consideravam o governo Bolsonaro bom ou ótimo, foram lançados
vários manifestos tradutores do sentimento e pensamento dos demais 70%,
destacando-se o documento editado pelo movimento Estamos Juntos. Do manifesto
realçam dois parágrafos. “Somos a maioria e exigimos que nossos representantes
e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da
devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país”; e
“Temos ideias e opiniões diferentes, mas comungamos os mesmos princípios éticos
e democráticos. Queremos combater o ódio e a apatia com afeto, informação,
união e esperança”.
João Gabriel de Lima - Duas noites na ópera e uma briga de rua
É inevitável a sensação de que algo se perdeu nas duas maiores democracias das Américas
Em setembro de 2015 Fernando convidou Fernando para ir à ópera. Um Fernando, o Haddad, era prefeito de São Paulo, e gostava trocar ideias com outro Fernando, o Henrique Cardoso, que havia sido presidente da República. Os dois tinham algo em comum além do nome. Eram intelectuais formados na esquerda movendo-se na selva da política. Em uma das conversas entre ambos, Haddad lembrou que Cardoso gostava de ópera, e o convidou para assistir à Manon Lescaut, de Puccini, no Teatro Municipal.
Ruth
e Antonin também gostavam de ir juntos à ópera, no Metropolitan de Nova York.
Ruth era Ruth Bader Ginsburg, juíza liberal nomeada por Bill Clinton. Ela
defendia a igualdade de gêneros brandindo argumentos da Constituição americana.
Antonin era Antonin Scalia, remanescente do conservadorismo com base
intelectual dos tempos de Ronald Reagan. Amicíssimos para além das
divergências, a liberal e o conservador se igualavam no brilho jurídico, na
ironia – e no gosto pela ópera. O escritor Paulo Nogueira, colaborador do
Estadão, lembroume que o compositor Derrick Wang homenageou em música a verve e
a inteligência dos dois juízes da Suprema Corte americana. A ópera
Scalia/ginsburg estreou em 2015, o mesmo ano em que um Fernando convidou o
outro para ir ao Municipal.
Cinco
anos se passaram. Em 29 de setembro de 2020, terça-feira passada, o mundo
assistiu ao debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos, Donald
Trump e Joe Biden.
O
republicano interrompia o democrata a todo momento para provocá-lo. Irritado,
Biden chamou Trump de “mentiroso”, “palhaço” e “cachorrinho de Putin”. Foi uma
briga de rua em live streaming.
Adriana Fernandes - Encrenca geral
O
que mais preocupa nessa confusão é que o desenho do Renda Cidadã está
escanteado
Está
tudo parado ou rodando em círculo: Renda Brasil (ou Cidadã), reforma tributária, Orçamento de 2021,
PECs fiscais de cortes de despesas, reforma
administrativa e votação de vetos importantes, como a
prorrogação da desoneração da folha
para 17 setores.
A
cada bate-cabeça em torno das medidas e novos sobressaltos – como o desta
sexta-feira entre os ministros Paulo Guedes e Rogério Marinho – a piora dos
indicadores do mercado se acentua.
A
articulação que acontece no momento, e deve prosperar, é tirar o Renda Cidadã
do teto de gastos, mesmo que temporariamente.
Se
não houver algum tipo de entendimento nos mais urgentes pontos elencados acima,
o Brasil vai entrar em 2021 num voo cego com os efeitos da pandemia da covid-19 ainda mostrando a sua
cara.
Até
aqui não há o que comemorar do novo eixo de articulação política com o Centrão montado para avançar a
pauta econômica em três etapas de validação: acerto Ministério da
Economia-líderes do governo; Líderes-Palácio;
Bolsonaro-validação; e, por último, Palácio-líderes dos partidos aliados.
Como a doença de presidente afeta a eleição? - ‘The Economist’
Trump disse que a pandemia estava no fim, mas sua contaminação agora manterá assunto em destaque
Raul Jungmann* - Qual o projeto nacional para a Amazônia?
No
primeiro debate nacional com o Presidente Trump, o candidato democrata Joe
Biden disse que amealharia 20 bilhões de dólares para em conjunto com outros
países “resolver” (sic) o problema do desmatamento da Amazônia. Falou bobagem,
naquele que foi um dos piores debates televisivos já vistos.
A
soberania do Brasil sobre o seu território é intocável, inegociável e não está
em discussão ou aberta a quaisquer negociações. Desde o início do fim do
neo-colonialismo, após a 1ª guerra mundial, o direito internacional não admite
o mandato de outros países sobre nações e territórios soberanos – caso do
Brasil.
Já
após a II Grande Guerra, alguns temas e questões ganharam status de
direito internacional positivo, como é o caso do fundo dos oceanos, espaço, o
Ártico e Antártida, refugiados e direitos humanos, em graus variados de
extensão e adimplência.
Mesmo
o direito internacional que sustenta a imposição da paz e/ou a estabilidade das
nações pela ONU, não incide sobre a tutela do território das nações em conflito
ou em guerra civil. Entretanto, é inequívoco, o direito internacional tem
evoluído, sobretudo numa era de globalização acelerada, para a mitigação,
compartilhamento e/ou responsabilização da soberania das nações, em temas como,
por exemplo, o direito das gentes e o meio ambiente.
Em
especial nesse último caso, e no que toca as mudanças climáticas, a
internacionalização do direito e as responsabilidades comuns, ainda que
assimétricas, têm sido progressivas e inexoráveis.
Marcus Pestana* - Orçamento, tributos e renda mínima
Para quem não se alinha a perspectivas demagógicas há a consciência de que o orçamento não é um saco sem fundo. Há a famosa, e às vezes frustrante para muitos governantes, restrição orçamentária. A sociedade admite certo nível de carga tributária sancionada politicamente e sabemos que ela no Brasil já é alta. E se as receitas são finitas, as despesas não podem ser ilimitadas.
Isto impõe inevitavelmente um conflito distributivo embutido no orçamento. Ao se destinar muito a salários e previdência, sobra menos para as políticas de educação. Se gasto muito com incentivos e subsídios fiscais, os recursos disponíveis para a saúde e a segurança serão menores. E assim por diante. Governar é fazer escolhas. E não adianta apelar para palavras mágicas como “vontade política”. Déficits e endividamento irresponsáveis são irmãos gêmeos da inflação, da fuga de investimentos e de juros altos.
O que pensa a mídia – Opiniões / Editoriais
De
um governo se espera que governe. Do atual governo, contudo, a conclusão, perto
da metade do mandato de Jair Bolsonaro, é que seria esperar demais que ele se
dedicasse à faina.
De
um governo se espera que governe, ou seja, que dê uma direção à administração,
com planos bem definidos e disposição de negociar com o Congresso sua
implementação. Do atual governo, contudo, a conclusão, perto da metade do
mandato de Jair Bolsonaro, é que seria esperar demais que ele se dedicasse à
faina.
É
tão evidente que o governo Bolsonaro não consegue articular nenhuma política
concreta, apenas lampejos e arroubos desconexos, que mesmo a crítica a esse
incrível estado de coisas perdeu o sentido. Pois a crítica presume, da parte do
crítico, a expectativa de que o criticado venha a se emendar e passe a fazer o
que deve ser feito. E isso não vai acontecer, pois o governo Bolsonaro é
essencialmente isso aí.
Há
ilhas de excelência em meio a esse mar de profunda mediocridade, claro. Quando
o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, diz num encontro com
investidores que os juros vão imediatamente subir se o teto de gastos for
desrespeitado, colocando o Brasil no caminho da insolvência fiscal, indica que
há gente de muito bom senso em posições estratégicas no governo. Vai na mesma
linha o secretário do Tesouro, Bruno Funchal, que afirmou recentemente que
“aumentar despesa gera um resultado socialmente ruim, destrói empregos”,
enfatizando o que deveria ser óbvio.
Poesia | Antonio Machado - O crime foi em Granada
(A Federico García Lorca)
por
uma longa estrada,
sair
ao campo frio,
ainda
com estrelas, madrugada.
Mataram
a Federico
quando
a luz já se elevava.
O
pelotão de verdugos
não
ousou olhar sua cara.
Todos
fecharam os olhos;
rezaram:
nem Deus te salva!
Morto
caiu Federico
–
sangue na fronte e chumbo nas entranhas –
...Foi
lá em Granada o crime,
sabei
– pobre Granada – , em sua Granada.
sem
temer sua gadanha.
–
Já o sol de torre em torre; e já os martelos
na
bigorna – metal, metal das fráguas.
Falava
Federico,
galanteando
a morte. Ela o escutava.
“Porque
ontem no meu verso, companheira,
soava
o golpe de tuas secas palmas,
e
deste o gelo ao meu cantar, e o gume
de
tua foice de prata à minha desgraça,
te
cantarei a carne que não tens,
os
olhos que te faltam,
teus
cabelos que o vento sacudia,
os
rubros lábios em que te beijavam...
Hoje
como ontem, morte, minha cigana,
que
bom estar só contigo ,
por
estes campos de Granada, minha Granada!”
Talhai,
amigos,
de
pedra e sonho, lá no Alhambra
um
túmulo ao poeta,
sobre
uma fonte na qual chore a água,
e
eternamente diga:
foi em Granada o crime, em sua Granada!
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Fernando Gabeira - Beco sem saída
O
que o Brasil precisa, no meu entender, os economistas do governo não conseguem
oferecer
A
economia, para mim, é apenas uma disciplina fascinante. Ainda assim, em certas
biografias dos grandes economistas, como a de Keynes por Robert Skidelsky,
outros traços intelectuais acabam me atraindo mais do que o próprio talento
econômico.
Como
leigo me interrogo sobre as grandes opções pós-pandemia no Brasil. Uma delas é
a retomada da produção. Já escrevi aqui que um dos mistérios, para mim, é o
sentido da retomada.
Sobretudo
após a pandemia, ficou evidente que uma das tendências internacionais é
valorizar a natureza, escapar da velha concepção de que o progresso significa
necessariamente o esgotamento dos recursos naturais. De certa forma, a pandemia
acentuou outra tendência que poderia ser um dos fundamentos da reforma do
Estado: o crescimento do mundo virtual.
Os
projetos de recuperação econômica do governo passam longe das duas tendências.
No caso da natureza, então, a perspectiva é radicalmente reacionária: destruir
rapidamente, antes que percebam, como manda a teoria de passar a boiada
enquanto todos se concentram na pandemia.
Não
se sabe o que será da economia quando recuperada, se isso realmente ocorrer. O
que se discute hoje é principalmente uma continuidade da ajuda emergencial.
A
pandemia revelou 11 milhões de invisíveis, que nem estavam nos registros do
governo. Isso implica a necessidade de ampliar um programa como o Bolsa
Família, até aumentando a quantia mínima para a sobrevivência. Como resolver? O
governo elegeu-se com plataforma ultraliberal. Foi atropelado pela pandemia. O
ministro Paulo Guedes passou a pensar com outras coordenadas.
Bolsonaro,
com medo de perder a reeleição, tende a desejar um projeto de renda cidadã, que
já se chamou Renda Brasil. No passado os nomes iam sendo trocados até chegar a
Brasil: Vera Cruz, Santa Cruz. Agora decrescem a partir de Brasil.
O
ultraliberalismo de Guedes não aprova esse tipo de programa. O próprio
Bolsonaro chamava o Bolsa Família de “bolsa farinha” e dizia que seu objetivo
era criar um eleitorado de cabresto.
Estão
perdidos no seu labirinto. Guedes tentou tirar dinheiro dos pobres para cobrir
os gastos. Uma heresia eleitoral, e Bolsonaro não quis. Outra tentativa era dar
o calote nos precatórios, que já são uma dívida em atraso. Ou, quem sabe, tirar
dinheiro do fundo da educação.
Não
há saída, porque não há dinheiro legalmente disponível. Certamente vão rodar em
torno de si próprios. Possivelmente vão até desistir parcialmente do projeto.
Bolsonaro já ensaiou uma retirada do tipo raposa e as uvas: ajuda permanente é
coisa que só interessa a comunistas, disse.
Merval Pereira - O controle da Justiça
Alon Feuerwerker - Troca no STF
Um fanático pela Carta faria bem ao tribunal, ao governo e ao país
Não é novidade a hipertrofia no Judiciário, em particular no Supremo Tribunal Federal. Aliás, começar uma coluna com “não é novidade” talvez devesse ser evitado. Mas, infelizmente, é a pura verdade. No caso específico do STF, já faz algum tempo que ele se sente tentado a operar como uma espécie de assembleia constituinte não formalizada.
Outra
coisa que não é novidade: ficaram para trás os tempos quando se sabia de cor a
escalação dos onze da seleção brasileira de futebol, mas não se tinha a menor
ideia de quem eram os onze do STF. Hoje isso se inverteu. Cada um que julgue se
melhoramos ou pioramos.
Importa
menos saber como chegamos a esta situação, o fato frio é que nas próximas
semanas um nome deverá passar pelo trâmite no Senado Federal para ocupar a vaga
do ministro Celso de Mello, que se aposenta. Dadas as circunstâncias jurídicas
e políticas, trata-se de um baita momento.
Vamos
ao retrospecto. A experiência de governantes indicarem nomes por critérios
identitários não foi propriamente um sucesso para quem indicou. E o histórico
das decisões e opiniões de antes da ascensão à Suprema Corte não tem sido
garantia de coerência no voto, uma vez o ministro instalado na cadeira.
E
exposição aos holofotes tem trazido casos de mudança radical nas ideias.
Mesma
coisa o “Q.I.” (quem indica). Se pelo menos um ministro dos indicados por Dilma
Rousseff tivesse votado para soltar Luiz Inácio Lula da Silva antes da eleição,
o ex-presidente teria sido solto e ficado disponível para subir nos palanques
do PT e aliados. Não aconteceu.
O
que explica isso? Independência? Cada um, novamente, que faça seu juízo.
Dora Kramer - Arte do impossível
O que quer o presidente é que lhe apresentem uma fórmula mágica imune a prejuízos eleitorais
Seguia o Bolsa Família sua vidinha de filho mais ou menos enjeitado até que veio a pandemia e revelou-se a prodigalidade do rebento: forte produtor de votos, ao qual Jair Bolsonaro se dispôs de imediato a oferecer paternidade. A conta do custo-benefício a princípio pareceu simples, baseada na proverbial lógica de que é dando (aos pobres) que se recebe (também dos paupérrimos).
No
entanto, a realidade, esta madrasta, revelou que as coisas são bem mais
complicadas. Lá se vão mais de quarenta dias desde que o presidente manifestou
intenção de imprimir sua marca em programa de transferência de renda
robustecido e ampliado, e até agora não conseguiu achar uma solução. Pegou
vários atalhos, trilhou diversos caminhos e hoje se vê perdido no labirinto por
onde enveredou por vontade própria, no afã de construir uma porta de entrada na
luta pela reeleição em condições ultravantajosas.
Sua
equipe econômica faz esforços inúteis para agradar ao chefe, cuja noção de
aritmética não leva em conta as relações de perdas e ganhos contidas nas
operações de soma, subtração, multiplicação e divisão. Isso não apenas no
tocante a números, mas também a implicações legais e políticas.
O
presidente da República quer dispor de mais recursos sem cortar despesas, dar
mais a quem precisa sem desagradar a quem de tantos benefícios não necessita.
Não pretende enfrentar estruturas arraigadas com reformas profundas nem encarar
questões espinhosas como extinção de auxílios ineficientes ou revisão do teto
de gastos. Portanto, o que quer o presidente é que lhe apresentem uma fórmula
mágica imune a prejuízos eleitorais. Em resumo, almeja o impossível, e aí Bolsonaro
tromba com a política, a arte do possível.
Eliane Cantanhêde* - ‘Não tem de onde tirar’
Num redemoinho, Guedes não
agrada a Bolsonaro, ao Congresso, ao mercado e à opinião pública
Com a mesma obsessão com
que defende os filhos da PF, do MP, da mídia e da verdade, o presidente agora
trata da sua própria campanha e mandou Guedes se virar e arranjar recursos para
o “seu” Bolsa Família, com o
nome de Renda Cidadã, maior
valor e mais abrangência, sem mexer no teto de gastos nem criar novo imposto.
Dinheiro, porém, não cai do céu nem dá em árvore – mesmo que desse, as árvores
estão virando carvão.
Luiz Carlos Azedo - O melhor negócio do mundo
A venda de refinarias servirá para reduzir o endividamento da Petrobras, que consome 35% do caixa gerado por suas operações. Em juros, isso equivale a um sistema completo de exploração
O
famoso magnata norte-americano John Davison Rockefeller começou a trabalhar com
16 anos, em 1855, como contabilista de um armazém de retalhos. De família
modesta e religiosa, quando completou 19 anos, pediu demissão e partiu para seu
próprio negócio: abastecer o Exército da União. Durante a Guerra Civil
americana (1861-1865), vendeu uniformes, farinha, sal, sementes e carne de
porco, concorrendo com o antigo patrão. Com o fim da guerra, mudou de ramo e
comprou uma refinaria de petróleo, na qual fabricava querosene para iluminação.
Em 1985, fundou a Standart Oil Company.
Chegou
a controlar 90% das refinarias dos Estados Unidos, mas a Suprema Corte, em
1911, resolveu acabar com o monopólio da empresa e ordenou a criação de mais 30
companhias petrolíferas, origem das gigantes Exxon, Chevron, Atlantic, Mobil e
Amoco, que continuaram sob seu controle acionário. Nessa época, Rockefeller era
o homem mais rico do mundo, com uma fortuna pessoal de US$ 318 bilhões,
transformando-se num mecenas das artes e patrono da educação e da pesquisa.
Criou a Universidade de Chicago, museus, bibliotecas e um instituto de
pesquisas médicas que leva seu nome. É dele a frase “o melhor negócio do mundo
é uma empresa de petróleo bem administrada; o segundo melhor negócio, uma
empresa de petróleo mal administrada”.
A
Petrobras, durante o governo Lula, conseguiu transformar uma refinaria de
petróleo num péssimo negócio, com a compra da refinaria de Pasadena, nos
Estados Unidos, segundo depoimento da ex-presidente da empresa Maria das Graças
Foster, no Senado, quando a operação virou mais um caso do escândalo do
petrolão. A ex-presidente Dilma Rousseff, que presidia o Conselho de
Administração da Petrobras por ocasião da compra, alegou que aprovou a decisão
sem saber dos anexos do contrato, com cláusulas muito desvantajosas para o
comprador, negociadas pelo então diretor Nestor Cerveró, um dos condenados na
Lava-Jato.
Ricardo Noblat - Bolsonaro é desmentido em tempo quase real
Retratos
de um desgoverno
Bolsonaro disse que estava proibida a discussão sobre o programa Renda Cidadã até o fim do seu governo. Depois anunciou que o programa será enviado em breve para votação no Congresso. Então o ministro Paulo Guedes, da Economia, vetou as fontes de financiamento do programa – dinheiro da Educação e calote no pagamento de precatórios.
Em
menos de uma semana, descobriu-se que por enquanto não há como se lançar o
programa e que é melhor deixar para fazê-lo depois das eleições ou em 2021 Quer
retrato melhor do desgoverno Bolsonaro? Tem outro também que acabou de ser
revelado. A Amazônia teve o segundo pior setembro de queimadas da última
década, e o Pantanal o pior mês de sua história.
O
presidente conseguiu ser desmentido quase que em tempo real. Na última
quarta-feira, em vídeo destinado à Cúpula da Biodiversidade das Organizações
das Nações Unidas, ele disse que não pode aceitar o que classifica de
“informações falsas e irresponsáveis” que desconsideram “as importantes
conquistas ambientais” alcançadas pelo Brasil em benefício do mundo.
Pois
é. Quem nega realidade passa vergonha, mas ele não liga. Está acostumado.
Nosso
Kássio virou um peão na mão dos seus patrocinadores
Bolsonaro
é obrigado a defender-se nas redes sociais
Bom
de faro, o senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista (PP) e um
dos líderes do Centrão, aliado de todos os governos que passaram por ele e os
que um dia ainda possam passar, conterrâneo e avalista número um do próximo
ministro do Supremo Tribunal Federal, Kássio Nunes Marques.























