domingo, 30 de janeiro de 2022

Thiago Prado: O nó eleitoral da terceira via

O Globo

Um fato inédito nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência desde a redemocratização indica o tamanho da dificuldade que a terceira via terá para romper a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro: é a primeira vez em oito eleições que o líder e o segundo colocado chegam ao ano da disputa escolhidos por metade da população no chamado voto espontâneo, aquele em que o entrevistado diz quem prefere sem ser apresentado a nenhum nome previamente.

Na sua última pesquisa, em dezembro, o Datafolha aferiu que Lula tem 32% das intenções de voto contra 18% de Bolsonaro nesse item do questionário. A pergunta espontânea sempre precede a estimulada, quando o eleitor aponta o seu preferido vendo uma cartela com os nomes dos candidatos. A soma de 50% dos índices do petista e do presidente está entre 20 e 30 pontos percentuais acima do total alcançado pelos três mais bem colocados nas corridas ao Planalto de 1989 até hoje. “É um sinal de voto cristalizado de ambos. Tem que acontecer algo muito forte na opinião pública para o cenário se alterar”, afirma Mauro Paulino, diretor do Datafolha.

Os dados foram analisados levando em conta sempre a primeira pesquisa do instituto em ano de eleição presidencial e os seus resultados na pergunta espontânea. No Datafolha inaugural da disputa pós-ditadura, Leonel Brizola marcou 9% das intenções de voto; Fernando Collor, 8%; e Lula, 6% (23% somados). Em 1994, antes do início do Plano Real, Lula teve 20%; FH, 7%; e Brizola, 3% (30% somados). Quatro anos depois, FH foi citado por 19% ; Lula, 7%; e Itamar Franco, que sequer concorreu, por 2% (28% somados).

Elio Gaspari: O Trem-Bala morreu, mas sua estatal vive

O Globo

A repórter Amanda Pupo revelou que a Valec e a Empresa de Planejamento e Logística, a EPL, deverão sobreviver à tentativa do ministro Paulo Guedes de fechá-las. Ambas nasceram em torno do Trem-Bala que ligaria o Rio a São Paulo, um sonho de Lula e de Dilma Rousseff, que estaria rodando para atender às torcidas da Copa de 2014. Uma, a Valec, abrigava o projeto; a outra, a EPL, abrigou seus destroços.

A sobrevivência dessas estatais mostra que, como o Fantasma das Selvas, elas são imortais. Do Trem-Bala já não se fala, mas a Valec e a EPL seriam necessárias, para ajudar, como consultoras, no desenho da política de transportes nacional. Em tese, reeditariam o falecido Grupo Executivo de Integração da Política de Transporte, o Geipot, criado em 1965 e extinto em 2008. Na prática, corre-se o risco de criar uma porta giratória.

O Geipot definiu a política de transportes nacional numa época em que predominava a balbúrdia. O czar da economia, Roberto Campos, pôs lá cabeças de primeira que arrumaram a casa, ocupando poucos andares no Centro do Rio. A partir de 1967, ele começou a desandar e, quando acabou, não houve choro nem vela. Em 2022, a máquina federal tem (ou deveria ter) instrumentos para cuidar do planejamento de rodovias, ferrovias e portos. Não precisa de mais uma camada burocrática.

Luiz Carlos Azedo: Inflação dos EUA terá impacto na nossa economia e nas eleições

Correio Braziliense / Estado de Minas

Uma das características de Bolsonaro é sua dificuldade de lidar com as novas contingências de seu governo. Foi eleito muito mais pela sorte do que por suas virtudes

A inflação nos Estados Unidos terá grande impacto na economia brasileira até as eleições, complicando ainda mais a vida do presidente Jair Bolsonaro. Mas não é um problema somente do governo atual. Quem vencer o pleito, terá que lidar com uma nova realidade, que põe em xeque estratégias tradicionais de retomada do crescimento.

Vamos por partes. No ano passado, a inflação norte-americana chegou a 7%, o maior nível desde 1982, segundo o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês). Por essa razão, analistas econômicos estão prevendo quatro aumentos trimestrais na taxa de juros, com base em declarações do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell. Durante a pandemia, a taxa esteve próxima de zero.

A principal causa da alta de preços nos Estados Unidos não difere muito do que ocorre no Brasil e em outros países: a elevação dos custos de produção devido ao encarecimento dos insumos básicos, principalmente o petróleo, que bateu os US$ 80 o barril. Outras causas são o estrangulamento logístico causado pela crise sanitária mundial, agora agravada pela rápida propagação da variante ômicron da covid-19; a escassez de mão de obra, que joga os salários para cima; e o aquecimento da economia com uma política da expansão fiscal, na qual o governo distribuiu vouchers à população e comprou títulos públicos, para injetar dinheiro no mercado.

Hélio Schwartsman: Para que serve a razão?

Folha de S. Paulo

Somos melhores em apontar erros nos raciocínios dos outros do que nos nossos e, por isso, em sociedade, somos capazes de avançar

Segundo uma concepção meio caricatural do Iluminismo, a razão levaria à emancipação do ser humano. Se fôssemos capazes de controlar as emoções e nos guiar apenas pela razão, descobriríamos mais verdades da ciência e encontraríamos as melhores soluções para nossos problemas sociais. Essa concepção está errada de várias formas. A razão não é o contraponto virtuoso das emoções e não leva automaticamente a respostas. Nossos raciocínios são marcados por tantos erros e vieses que fica uma suspeita no ar. Há um intenso debate entre cientistas cognitivos sobre o alcance e o papel da razão.

Um modelo de que gosto bastante é o proposto por Hugo Mercier e Dan Sperber. Para a dupla, a razão evoluiu para o propósito não muito enaltecedor de nos fazer vencer debates e justificar nossas próprias atitudes. É o que explica, por exemplo, a ubiquidade do viés de confirmação, que nos faz encontrar e abraçar rapidamente as evidências em favor de nossas teses e descartar sem exame as contrárias. Essa é uma péssima prática se o objetivo da razão é chegar à verdade, mas muito boa se a meta é só brilhar diante dos pares.

Bruno Boghossian: Um crime em cima do outro

Folha de S. Paulo

Presidente se especializou em desrespeitar a lei para obter ganhos políticos

A Polícia Federal acrescentou mais um crime à ficha de Jair Bolsonaro. A delegada Denisse Ribeiro afirma que o presidente participou, em agosto passado, do vazamento de um inquérito sobre a invasão de sistemas do Tribunal Superior Eleitoral. Além dele, foram enquadrados o deputado Filipe Barros e um ajudante de ordens do Planalto.

O episódio desenhou mais uma peça da máquina de infrações montada pelo presidente e seus aliados. Segundo a polícia, Barros usou o posto de relator da PEC do voto impresso para pedir acesso à papelada sobre o ataque feito ao TSE em 2018. Em seguida, Bolsonaro e o deputado divulgaram numa rádio o conteúdo do inquérito sigiloso.

Janio de Freitas: As eleições armadas

Folha de S. Paulo

Descaso com ações de Bolsonaro para armamento é ameaçador para o futuro

O incompreensível descaso com as medidas de Bolsonaro para armar parte da população, sendo tantas as implicações nocivas daí advindas, é tão ameaçador para o futuro próximo quanto a própria ação armadora de Bolsonaro.

Recente descoberta no Rio indica que armas de combate, modernas e caríssimas, estão entrando em alta quantidade e tomando destinos imprecisos. Chegam em importações dadas como legais, amparadas nos atos a respeito, repletos de lacunas, emitidos por Bolsonaro.

Com permissões para colecionadores, atiradores e outros, um casal jovem importava lotes volumosos de armas, dezenas de fuzis modernos e ainda metralhadoras, pistolas, revólveres e projéteis aos muitos milhares. Dispensadas, agora, as autorizações e a vigilância do Exército. O casal associava operações em Goiás e no Rio, onde foi localizada uma casa cheia de armas em bairro residencial.

As alternativas permitidas pelas liberações de Bolsonaro são tantas —registros pessoais e comerciais sem limite, importações sucessivas, inexistência de fiscalização, entre outras— que um só operador pode armar para combate todo um contingente. É o que está acontecendo. Com quantidades ignoradas de importadores, de armas, munições e de financiadores. Certo é não haver motivo, muito ao contrário, para supor exclusividade do casal no fornecimento de armas bélicas.

Vinicius Torres Freire: A inflação que salva

Folha de S. Paulo

Capitão da extrema direita foi muito tolerado até a carestia fazer estrago crítico na popularidade

Um fato notável dos anos Jair Bolsonaro é que ele foi tolerado; que sua popularidade tenha chegado a uma situação crítica em boa parte por motivos que teriam prejudicado até um governante que não fosse tão incapaz, imbecil e cruel.

Isso dá o que pensar a respeito dos riscos que o país corre daqui até a eleição e depois. Em condições menos azaradas, haveria mais gente, na massa e ainda mais na elite, disposta a apoiar a tirania.

Bolsonaro não foi nem ao menos processado. É ainda menor a chance de ser condenado. O criminoso mais contumaz da República, com exceção talvez de generais-ditadores, foi agasalhado pelo sistema político e pela maior parte das elites econômicas. Tem sido apenas toureado pelo Supremo.

Antonio Claudio Mariz de Oliveira e Fábio Tofic Simantob*: O vale-tudo no combate à impunidade

O Estado de S. Paulo

O presidente do STF passou a ter poder de soltar e prender quem bem entende em território nacional

O somatório de premissas verdadeiras nem sempre conduz a uma conclusão válida. Este é o caso do artigo subscrito pelo procurador-geral de Justiça do Rio Grande do Sul, Caso Kiss: condenação, prisão e atuação do STF, publicado no início de janeiro.

As premissas do artigo podem ser assim resumidas: as decisões do júri são soberanas, o pacote Anticrime introduziu a possibilidade da prisão logo após a condenação no júri, e seria, neste caso, uma afronta ao prestígio do Supremo Tribunal Federal (STF) submeter suas decisões a escrutínio da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

A soberania das decisões do tribunal do júri decorre diretamente do princípio do double jeopardy do direito anglo-saxão: que nada mais é do que a garantia de que ninguém será levado a julgamento duas vezes pelo mesmo fato.

É uma garantia do réu, proteção de que, uma vez absolvido, não poderá ser julgado novamente. Não vale para a acusação.

O leitor, no entanto, arriscaria um palpite acerca de quem é o campeão dos recursos que anulam decisões do júri? Advogados renomados? Defensorias públicas? Não. O campeão é o Ministério Público. Recorre quase sempre. E muitas vezes ganha.

Causa estranheza o Ministério Público invocar agora uma soberania popular do júri em relação à qual raramente aceita se curvar.

Quanto ao “Pacote Anticrime”, tem razão o artigo ao dizer que a lei de 2019 criou a possibilidade de réus serem presos imediatamente após o júri, se a pena for igual ou superior a 15 anos. O respeitado articulista só esqueceu de informar que o STJ vem julgando sistematicamente pela inconstitucionalidade da regra, além de a própria lei prever a possibilidade de suspensão da prisão se, de plano, puder ser verificada a plausibilidade do recurso da defesa.

Alvaro Gribel: Pautas na volta do Congresso

O Globo

A PEC dos Combustíveis é o item prioritário na volta dos trabalhos do Congresso na próxima terça-feira. O presidente da Câmara, Arthur Lira, tem dito a aliados que a ideia do fundo de estabilização está descartada, mas que haverá uma reunião de líderes esta semana para debater o assunto. No Senado, Rodrigo Pacheco também sinalizou que a discussão do projeto será inevitável, embora ninguém saiba ainda sobre qual texto trabalhar. Lira ainda pretende conversar com Pacheco sobre dar andamento à reforma tributária, buscando pontos de consenso entre as duas Casas, mas, por enquanto, o que está acordado no Senado é o início da tramitação da PEC 110, de relatoria do senador Roberto Rocha (PSDB-MA), na CCJ, e não a reforma do Imposto de Renda, já aprovada na Câmara. Nos bastidores, entretanto, deputados e senadores só pensam nas eleições de outubro, o que dificultará a aprovação de qualquer reforma relevante este ano.

Dorrit Harazim: Memória, História

O Globo

George Orwell não ficara inteiramente satisfeito ao colocar um ponto final no manuscrito de “1984”. “O tema central é bom”, escreveu a seu agente literário em 1948, “mas a execução teria sido melhor se eu não estivesse às voltas com a tuberculose”. Foi internado num sanatório pouco depois da publicação do clássico, e morreu tísico aos 46 anos, consciente da importância do que escrevera. Na obra distópica, o protagonista Winston Smith aponta para o perigo maior daquele mundo totalitário descrito por Orwell, ultrapassando em horror a tortura e a morte: o Grande Irmão poderia se apossar do passado, da memória, da História. E decretar que este ou aquele evento jamais ocorrera.

No mundo não fictício de hoje não faltam candidatos a Grande Irmão — indivíduos, regimes, negacionistas doentios — tentados a se apossar do nosso passado para adequá-lo às próprias insânias. Só que, para poder reescrever a história dos mortos, esses agentes do esquecimento precisam conseguir cancelar a memória dos vivos. Nossa função é impedi-los. Daí a importância ardente de se homenagear, a cada 27 de janeiro, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. É preciso relembrar, ano após ano, de geração em geração.

No brutal inverno europeu de janeiro de 1945, faltando poucos meses para a capitulação da Alemanha nazista frente às tropas Aliadas, o Exército Vermelho vindo da União Soviética avançara fundo Polônia adentro. Já haviam libertado Varsóvia e Cracóvia quando olheiros os informaram de que encontrariam algo escabroso a caminho de Oswiecim. Era Auschwitz. Ali encontraram 648 cadáveres, pilhas de cinzas que um dia tiveram formas humanas, e cerca de 7.500 esqueletos ainda com vida. Naquele 27 de janeiro, o Holocausto teve expostas suas primeiras entranhas.

Cacá Diegues: A utopia é aqui

O Globo

A versão de Darcy Ribeiro do povo brasileiro corresponde a um novo modo de ver esse país e a gente que o constrói

Existem várias maneiras de se falar de um país. Mas são poucos aqueles dos quais podemos falar falando de uma civilização especial, uma civilização original que eles por acaso representam. Nosso país começou a ser assim tratado com o Modernismo, um movimento antes de tudo literário e artístico que marcou o jeito de pensarmos sobre nós mesmos.

Mário e Oswald de Andrade, assim como Di Cavalcanti, Villa-Lobos, Jorge de Lima e alguns outros foram, a partir de 1922, marcos indiscutíveis de nossa história cultural. Eles apontaram para um outro modo de narrar nossa História, de ver nosso povo, de discutir seus valores. Como se estivéssemos construindo uma inédita civilização que serviria ao mundo num momento em que o mundo caminhava para se dividir entre formas igualmente autocráticas de pensá-lo. Nenhuma delas conveniente a nosso futuro de povo por nossa conta.

Cristovam Buarque*: Pátria negacionista

Blog do Noblat / Metrópoles

O Brasil atravessa um momento em que seu presidente e seu governo tomam decisões com base em ilusões

É assustador assistir as lideranças do atual governo negando a qualidade das vacinas criadas pela ciência e defendendo a qualidade de remédios sem qualquer comprovação científica. Mais grave, estas não são as únicas manifestações negacionistas do governo, do presidente, seus ministros e muitos de seus seguidores. Eles colocam crenças criadas por instigadores ideológicos como verdade, mesmo que a ciência mostre que são ideias falsas. Acreditam nas fake news, que eles criam. Uma estratégia de enganação que leva as pessoas e seus grupos sociais a negarem a realidade e com isto assustar a população. O Brasil atravessa um momento em que seu presidente e seu governo tomam decisões com base em ilusões que eles próprios criam. Aos poucos vão aumentando mortes e afundam o país.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Vacinação avança, mas índices são desiguais no país

O Globo

Depois de um início marcado por negligência na compra de imunizantes, incompetência no gerenciamento da crise e escassez de doses, a vacinação contra a Covid-19 no Brasil avançou, principalmente a partir do segundo semestre do ano passado, quando os estoques aumentaram. Pouco mais de um ano após o início da campanha, o país tem quase 80% de cidadãos imunizados com a primeira dose, cerca de 70% com o esquema vacinal completo e em torno de 20% com o reforço. A imunização infantil, apesar das barreiras criadas pelos arautos do atraso, está deslanchando. No entanto, esse panorama favorável esconde peculiaridades. Tal qual acontece em outras áreas, o Brasil é desigual também na vacinação.

Se há estados, como São Paulo, Piauí, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Ceará e Santa Catarina, que já vacinaram completamente mais de 70% de suas populações, há outros que se mantêm bem abaixo da média nacional, como Amapá (42%), Roraima (43%), Acre (50%), Maranhão (55%) e Amazonas (55%). Dentro dos estados, também há disparidades. Como mostrou reportagem do GLOBO, há cidades que vacinaram completamente apenas um em cada cinco moradores. De acordo com levantamento do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz, os bolsões de não vacinados se concentram principalmente nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e no norte de Minas Gerais.

Poesia| João Cabral de Melo Neto: Volta a Pernambuco

A Benedito Coutinho

Contemplando a maré baixa

nos mangues de Tijipió

lembro a baía de Dublin

que daqui já me lembrou.

 

Em meio à bacia negra

desta maré quando em cio,

eis a Albufera, Valência,

onde o Recife surgiu.

 

As janelas do cais da Aurora,

olhos cumpridos, vadios,

incansáveis como em Chelsea

veem rio substituir rio,

 

e estas várzeas de Tiúma,

com seus estendais de cana,

vem devolver-me os trigais

de Guadalajara, Espanha.

 

(Culturas de folhas finas

e mais discreta presença,

lá como aqui, dos desertos

possuem a transparência,

 

e o canavial me devolve,

na luz de páramo puro,

um mar sem ilha, os trigais

onde senti Pernambuco.)

 

Mas as lajes da cidade

não me devolvem só uma,

nem foi uma só cidade

que me lembrou estas ruas.

 

As cidades se parecem

nas pedras do calçamento,

artérias iguais regando

faces de vário cimento,

 

por onde iguais procissões

do trabalho (sem ardor)

vão levar o seu produto

aos mercados do suor.

 

Todas lembram o Recife,

este em todas se situa,

em todas em que é um crime

para o povo estar na rua,

 

em todas em que este crime

– traço comum que surpreende –

pôs nódoas de vida humana

nas pedras do pavimento.

Música | Moacyr Luz e Banda - A Reza do Samba

 

sábado, 29 de janeiro de 2022

Oscar Vilhena Vieira*: Confronto deliberado

Folha de S. Paulo

Populistas não sobrevivem sem inimigos, ainda que imaginários

Populistas não sobrevivem sem inimigos, ainda que imaginários. A lealdade canina de seguidores precisa ser constantemente instilada. Não surpreende que um presidente abertamente hostil à Constituição tenha escolhido a instituição responsável pela sua guarda como alvo preferencial de seus ataques.

As investidas contra o Supremo começaram muito antes da posse de Bolsonaro. Quem não se recorda da intimidação perpetrada pelo general Villas Bôas, caso o tribunal concedesse um habeas corpus ao ex-presidente Lula, ou a ameaça feita por Eduardo Bolsonaro de que bastaria "um cabo e um soldado" para fechar o STF, se seu pai fosse impedido de tomar posse.

A escalada de ameaças, que contou com marchas e voos sobre o Supremo, culminou, em 7 de setembro último, com a promessa do presidente da República, em meio a uma série de ameaças a outros ministros do Supremo, de que não mais cumpriria decisões do ministro Alexandre de Moraes.

Nesta sexta-feira (28), para regozijo de seus aduladores, Bolsonaro cumpriu sua promessa. Não compareceu à Policia Federal para prestar depoimento, em inquérito que apura sua participação em vazamento de dados sigilosos.

Hélio Schwartsman: O STF e a bagunça partidária

Folha de S. Paulo

Corte definirá em breve os limites em que as federações poderão funcionar

O Brasil tende à autocomplacência. Se há uma forma de abrandar a regra que nos impõe condutas mais austeras, não hesitamos em abraçá-la. Isso fica nítido na versão brasileira da cláusula de barreira, aqui chamada de cláusula de desempenho.

A proliferação de partidos políticos é um problema. Ela aumenta os custos de formação e manutenção de coalizões governamentais. Se sentar-se com cinco ou seis líderes partidários fortes para fechar acordos já não é fácil, vai ficando muito mais difícil à medida que o número de lideranças aumenta. O Brasil tem hoje 24 partidos com presença na Câmara.

Para reduzir essa balbúrdia, muitas democracias adotam cláusulas de barreira, o limiar mínimo de votos que um partido precisa obter para conseguir sua primeira cadeira no Parlamento. Na Europa, o percentual costuma ficar entre 3% e 5%.

Alvaro Costa e Silva: Caô bolsonarista

Folha de S. Paulo

Menos para o aposentado e o estudante; muito mais para o centrão

O caô vem aí. Durante a campanha eleitoral, ao ser confrontado com o desastre que é seu governo, Bolsonaro vai dizer que não o deixaram trabalhar e depois arrolar os suspeitos de sempre: o STF, os governadores, os prefeitos, a imprensa, sem esquecer os comunistas que, apesar das camisas vermelhas como sangue, têm o dom de se esconder no breu das esquinas, armados com foice e martelo.

Imagine você se ele não pudesse fazer nada, nem passear de moto e jet-ski, nem se engasgar com camarão na praia. Tampouco sabotar a vacinação ou comparecer ao cercadinho num dia cujos compromissos da agenda oficial foram todos desmarcados. Imagine se suas mãos, mesmo atadas com cordas, não tivessem manejado a famosa caneta Bic, gastando toda a tinta dela na destruição do país. Não teríamos, por exemplo, os vetos de Bolsonaro no Orçamento de 2022.

Com seu jamegão, o homem que mostra tanto cuidado com nossas crianças retirou R$ 402 milhões da educação básica, afetando o programa de transporte escolar e a oferta de ensino integral (viva o homeschooling!). O Ministério da Educação sofreu no total um corte de R$ 740 milhões. Acresce o fato de que, com a pandemia, as escolas brasileiras ficaram fechadas por mais tempo do que na maioria dos países.

Carlos Góes: O direito de sonhar

O Globo

Uma das memórias mais fortes da minha adolescência é ser aprovado na universidade. Lembro bem da felicidade de ver meu nome na lista e a mirada orgulhosa de meus pais por eu ter passado na federal. Também lembro de me sentir realizado, como se tudo aquilo ali fosse fruto exclusivo do meu trabalho. Mas eu, adolescente, estava errado: a realidade não é exatamente assim.

Em um sentido muito básico, aquele meu pensamento tinha alguma razão de ser. O provável é que, tudo o mais constante, caso eu não tivesse estudado todo o tempo que estudei, não teria sido aprovado. Existe algum mérito na aprovação.

Mas, nesse caso, manter tudo o mais constante é enganador. Eu cresci numa família de classe média, com um núcleo familiar estável e em que a educação sempre foi vista como prioridade. Se minha circunstância fosse diferente (ou seja, nada mais constante), mesmo que eu me esforçasse o mesmo (ou até mais), é bem provável que o resultado fosse diferente.

Nossas circunstâncias condicionam as chances que temos de alcançar determinados resultados. Alguns anos atrás, publiquei um artigo junto com Daniel Duque, hoje pesquisador da Escola Norueguesa de Economia, em que estimamos que um jovem de uma família com renda familiar de classe média baixa tinha 2% de chance de ingressar numa universidade pública.

Ascânio Seleme: E o Rio, como vota?

O Globo

Pesquisa da GPP mostra a intenção de votos dos eleitores no estado para presidente, governador e senador

Uma pesquisa da GPP não registrada na Justiça Eleitoral mostra como evoluiu a intenção de votos no Rio de agosto do ano passado até este mês. Realizada entre os dias 21 e 24, dispõe sobre as eleições para presidente, governador e senador. Como em todas as pesquisas nacionais, Lula bate Bolsonaro nos dois turnos, mas por margem menos elástica no Rio. O instituto não apresentou ao eleitor outras opções de nomes além dos dois protagonistas, oferecendo duas alternativas: “Nem Bolsonaro e nem Lula” e “Não sabe”. A alternativa “nem e nem” teve quatro pontos percentuais a menos do que Lula e seis pontos a mais do que Bolsonaro.

Pela pesquisa, Lula tinha pouco mais de quatro pontos de vantagem sobre Bolsonaro em agosto do ano passado e empatava tecnicamente com os eleitores “nem e nem”. Em outubro, a distância entre os dois candidatos subiu para nove pontos e manteve-se nesse patamar agora em janeiro. A pequena vantagem de Lula no Rio reflete a força do seu adversário no estado. Mas, se comparado ao resultado de 2018, percebe-se uma grande reviravolta. No segundo turno, de acordo com a pesquisa da GPP, Lula ganharia a eleição com 14 pontos de vantagem. Em 2018, Bolsonaro obteve 67,9% dos votos contra 32,05% dados a Fernando Haddad. Sua queda em três anos é astronômica.

Outros resultados da pesquisa merecem uma análise que ajuda mais a entender o eleitor fluminense do que avaliar as chances dos candidatos. No campo religioso, Lula ganha de Bolsonaro entre os católicos e os que declaram não ter religião. Em ambos os casos, o petista soma quase 20 pontos de vantagem. Já entre os evangélicos do Rio, Bolsonaro lidera com folga de dez pontos percentuais. Mesmo assim, no resultado combinado, os eleitores “nem e nem” e os que não sabem em quem vão votar somam quase cinco pontos a mais do que o total de Lula, que supera Bolsonaro em quase dez pontos percentuais.

No item que o GPP batizou de “Trabalho”, Lula perde por três pontos para Bolsonaro entre os autônomos, profissionais liberais e empresários. Lula ganha em todos os demais. Entre os trabalhadores com carteira assinada, supera o adversário por quatro pontos. Junto aos desempregados, ganha com 17 pontos de vantagem. E entre os que não trabalham (aposentados, do lar ou estudantes), Lula supera Bolsonaro por 12 pontos percentuais. No campo “Instrução”, Lula ganha com mais de 20 pontos entre os eleitores menos escolarizados, empata com Bolsonaro junto aos de ensino médio, e perde por três pontos entre os que têm curso superior.

Demétrio Magnoli: ‘Ir mais fundo que a raça'

Folha de S. Paulo

Braço direito de Luther King nunca abandonou a luta antirracista e rejeitava políticas identitárias

"Hoje, incontáveis ‘remédios’ —como a Teoria Crítica da Raça, a abordagem pós-marxista e pós-moderna da moda que analisa a sociedade como estruturas de poder institucional de grupos (...)— nos conduzem à direção errada: a separação até de crianças da escola elementar em categorias raciais explícitas, enfatizando diferenças ao invés de similaridades. A resposta é ir mais fundo que a raça, que a renda, que a identidade étnica ou de gênero. Ensinar a nós mesmos a compreender cada pessoa não como símbolo de um grupo, mas como um indivíduo singular, especial, no contexto de uma humanidade compartilhada."

Calminha, sacerdotes iracundos da IRUD, a Igreja do Racialismo dos Últimos Dias. Esperem um instante antes de caluniar o autor do texto acima, rotulando-o como supremacista. Contenham-se, ativistas da IRUD nas redes sociais. Não utilizem "brankkko", o termo infame que aprenderam com seus sacerdotes a empregar, para associá-lo à Ku Klux Klan (e, quando descobrirem a cor da sua pele, abstenham-se da rotina de qualificá-lo como "capataz da Casa-Grande"). Aguardem, integrantes do grupo Jornalistas Pela Censura Virtuosa: evitem escrever um manifesto identificando suas palavras à negação do Holocausto.

Cristina Serra: Damares e Queiroga, os dois abutres

Folha de S. Paulo

Tudo há de ser considerado agravante no dia em que forem julgados

Sim, eu sei, o responsável maior por tudo isso é Bolsonaro. Mas quero falar desses dois pelo que fizeram nos últimos dias, com suas notas "técnicas" que são decretos de morte, com seu palavrório "técnico" homicida.

Ao semear confusão proposital sobre as vacinas, os dois abutres sopram o hálito da morte, desestimulam as pessoas a dispor do melhor recurso de proteção neste momento, receber uma injeção no braço, ato corriqueiro até outro dia.

Como nas facções criminosas, os dois abutres competem em vilania para desfrutar das graças do chefe. Agem por motivo torpe, cruel, fútil, sem dar possibilidade de defesa às vítimas. Seus alvos são crianças! Muitas delas talvez já sejam órfãs de pai, mãe ou de ambos, mortos pela Covid. Crianças que poderão ter sequelas da doença. Crianças já tão sacrificadas em dois anos de prejuízos no aprendizado.

João Gabriel de Lima*: Luzes, câmera – e ação pela Amazônia

O Estado de S. Paulo

Mundo quer poucas coisas do Brasil. A mais importante talvez seja o fim do desmatamento

O festival de Sundance, principal mostra do cinema independente americano, exibiu nesta semana o documentário The Territory. O filme narra a saga dos índios jupaús para expulsar invasores de suas terras. A produção é do nova-iorquino Darren Aronofsky, que se consagrou ao dirigir filmes como Cisne Negro e Réquiem Para Um Sonho. Uma das personagens do documentário é Neide Suruí, mãe de Txai Suruí, a brasileira que discursou na abertura da COP de Glasgow.

Em 15 de fevereiro, a nova exposição do fotógrafo Sebastião Salgado chega a São Paulo, depois de passar por Londres, Roma e Paris. Impressionam os registros de populações indígenas, com retratos belíssimos. A exposição vai muito além da fotografia. É praticamente um espetáculo multimídia, que incorpora a música de Villa-Lobos e Philip Glass e depoimentos de líderes de nações.

Bolívar Lamounier*: Da professorinha rural à Petrobras

O Estado de S. Paulo

Uma prática política pode ser considerada imoral em razão das consequências perversas à coletividade

No começo dos tempos, os deputados gastavam boa parte de seu tempo pleiteando a nomeação de parentes e amigos para a agência local dos correios ou para o ensino primário rural.

As coletividades locais não se importavam com isso, pois de alguma forma tais funções haveriam de ser preenchidas, e não sentiam impacto algum em suas vidas, se o fossem pela influência de algum deputado ou por algum outro meio. 

Reparem que a dimensão dos impactos é fundamental. Uma prática política pode ser considerada imoral não só porque incorpora valores que a sociedade condena, mas também em razão do alcance das consequências perversas que pode produzir sobre a coletividade. 

Sérgio Augusto: O imbecil privado

O Estado de S. Paulo

Com panca de caubói, ele transfigurou-se numa usina de mentiras e insultos

Os anticomunistas mais fanáticos e perigosos costumam ser aqueles que já militaram do outro lado, não porque íntimos das entranhas da baleia mas porque raramente se conformam com ter sido “enganados” pelos prosélitos da antiga crença. Passionais e agressivos, apelidei-os, faz tempo, de “cornos ideológicos”, tendo em mente cornudos antológicos como Carlos Lacerda, que foi um inflamado integrante da Juventude Comunista antes de se transformar no mais incendiário anticomunista do País. 

Tudo no Brasil se deteriorou tanto nos últimos anos que o Lacerda que nos coube ter neste início de milênio foi o dublê de professor, “filósofo” e astrólogo Olavo de Carvalho. Se acreditasse em bruxarias, juraria que o guru do bolsonarismo acabou vítima de um canjerê coletivo. Sua morte, no início da semana, foi saudada nas redes sociais até por quem considera a empatia um dever de todos para com todos, sem exceção daqueles que a desqualificam e hostilizam.