terça-feira, 29 de março de 2022

Merval Pereira: Novas peças no tabuleiro

O Globo

A decisão do governador do Rio Grande do Sul de permanecer no PSDB, em vez de aventurar-se numa candidatura à Presidência da República pelo PSD, implica também aceitar a decisão do partido de ter o governador João Doria como seu candidato oficial. A não ser que até junho, quando os partidos envolvidos na negociação para um candidato único que possa derrotar Bolsonaro e Lula se decidirão, Doria não tenha saído da posição secundária em que aparece hoje na pesquisa eleitoral do instituto Datafolha.

Eduardo Leite, por sua vez, terá de aparecer na mesma pesquisa à frente de Doria para poder reivindicar o apoio de seu partido. Se conseguir isso, mesmo tendo deixado o governo do Rio Grande do Sul, terá argumentos para se impor à maioria do partido, que continua sob o controle de Doria. Terá atingido duas das três metas acordadas para a definição do candidato único: estar melhor na pesquisa e ter mais capacidade de aglutinação.

Míriam Leitão: O intangível valor da cultura

O Globo

O ambiente era de defesa da cultura. Não houve panfleto ou referência ao governo anticultura que nos arruína. Era apenas um subtexto, uma certeza parada no ar. Os convidados se entreolhavam certos de ter o mesmo amor pelas artes. A pessoa central da noite invocou todos os monstros do teatro, dos gregos a Molière, dos franceses a Augusto Boal e Nelson Rodrigues. O primeiro papel no teatro encarnado por Fernanda Montenegro foi Antígona. Sófocles, eterno, pairava no ambiente com aquela mulher imortal. Antígona incorpora o sentimento feminista mais profundo. O da mulher que, por ser radicalmente livre e profundamente cívica, é condenada à morte eterna.

Estávamos no centro do Rio. Uma cidade despossuída. Foi capital, não é mais. Foi corte, perdeu a majestade. Permanece bela. E lá estavam o prefeito e seus secretários da Cultura e da Educação, respeitados e à vontade porque são autoridades que entendem do que se falava no Petit Trianon. A Academia Brasileira de Letras (ABL) pode ser vista de diversas formas. Eu acho mais justa a visão clássica. Machado de Assis nos recebe na entrada. Foi dele a ideia dos ritos que devem cumprir os que entram naquele teatro.

Fernanda Montenegro parecia encaixar-se tão perfeitamente que a única dúvida que surgia é por que não estava desde antes. O antigo dono da cadeira 17 previu sua própria sucessão. E recomendou à atriz que escrevesse um livro para entrar na Academia. Ela obedeceu. E assim Fernanda sucedeu ao diplomata, escritor, humanista Afonso Arinos de Mello Franco.

Carlos Andreazza: Mundo paralelo impõe gabinete paralelo

O Globo

Exonerado Milton Ribeiro, agora ex-ministro da Educação. O cargo é mui cobiçado. Não sejamos ingênuos sobre os interesses em jogo. A forma como os pastores abrigados por Ribeiro venderiam facilidades para furar a fila de liberação de recursos do MEC contrariava o ritmo com que os donos do FNDE partilham a distribuição discricionária dos dinheiros. Não tardaria até o vestiário rachar.

Rachou sobre os mais fracos. Quiseram garimpar fora de Brasília. Ficaram com o mercúrio. Prefeito que ora abre o jogo, sempre inocente, tende a já ter novo padrinho. Os mais fortes, os profissionais, querem o MEC todo. Faz sentido, se já estão dentro do Planalto e se já gerem o Orçamento.

Tampouco sejamos ingênuos sobre a gravidade do que se revelou. Gravíssimo. Cobiças à parte, o ministro deveria estar demitido desde a semana passada. Demorou. O governo, entretanto, tinha — tem — uma propaganda de honestidade a defender. Buscou modalidade dissimulada de demissão. Especulava-se uma licença. Ribeiro se afastaria até que as investigações fossem concluídas.

Eliane Cantanhêde: Mal na foto

O Estado de S. Paulo.

Milton Ribeiro cai, mas foi ele quem pôs os dois pastores no MEC e engendrou o esquema?

O presidente Jair Bolsonaro definiu as eleições de 2022 como “luta entre o bem e o mal”, mas foi um tiro pela culatra, porque deixou uma dúvida estimulada pelas próprias imagens do milésimo lançamento de sua candidatura à Presidência ao arrepio da lei eleitoral: o que é o bem e o que é o mal, quem é santo e quem é demônio?

A aliança do ex-presidente Lula com o ex-tucano Geraldo Alckmin é o quê? E o palanque de Bolsonaro com o general Augusto Heleno ao lado do ex-presidente Fernando Collor, que sofreu impeachment por corrupção, e o mandachuva do PL, Valdemar Costa Neto, preso no mensalão do PT?

Se o Lollapalooza é do mal e merece multa por “campanha antecipada” pela estridência do “Fora Bolsonaro”, estranha o ministro do TSE Raul Araújo achar que outdoors de campanha do presidente são do bem, bacanas. E as motos, jet skis, cavalos e palanques de Bolsonaro são o quê? Carnaval eleitoral fora de época pode?

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro exonera ministro para salvar a reeleição

Correio Braziliense

As pesquisas de opinião também revelaram que as denúncias já estavam começando a contaminar a imagem do presidente da República, além de a crise ter saído de controle

O presidente Jair Bolsonaro exonerou, ontem, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, o quarto titular da pasta em seu governo. Pastor presbiteriano e professor, no comando do ministério desde julho do ano passado, não suportou o desgaste provocado pelas denúncias de que havia um gabinete paralelo no MEC, no qual dois pastores evangélicos supostamente distribuíam verbas oficiais em troca de propinas.

Ribeiro nega as acusações, que foram corroboradas por denúncias de prefeitos abordados pelos pastores Gilmar Santos, presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil Cristo Para Todos (Conimadb), e Arilton Moura, ligado à Assembleia de Deus. A queda do ministro ocorre uma semana após a revelação de uma gravação, pelo jornal Folha de São Paulo, na qual o ministro disse repassar verbas do ministério para municípios indicados por dois pastores, a pedido do presidente Jair Bolsonaro.

Hélio Schwartsman: Legislação eleitoral brasileira é maluca e autoritária

Folha de S. Paulo

Ministro do TSE errou, mas o erro traduz bem o espírito da legislação

O ministro Raul Araújo, do TSE, deu um show ao tentar proibir manifestações políticas de artistas durante o Lollapalooza. A liminar expedida por Araújo é tecnicamente indigente, como mostrou meu amigo Uirá Machado, contraria decisão recente e unânime do STF, que considerou inconstitucionais atos da Justiça Eleitoral que proíbam a livre manifestação de cidadãos mesmo em espaços públicos como universidades, e ainda produziu o efeito inverso ao pretendido pelos requerentes, já que, na prática, "obrigou" quase todos os artistas e o público do Lollapalooza a fazerem manifestações contra Bolsonaro.

Cristina Serra: Obrigada, Pabllo Vittar!

Folha de S. Paulo

A tentativa de censura do ministro do TSE é alerta inquietante do que vem por aí

A decisão do ministro Raul Araújo, do TSE, de impor censura em um festival de música, é um alerta inquietante do que vem por aí. Confundir atos de expressão individual de artistas com "propaganda político-eleitoral" já preocupa bastante por ignorar direito garantido pela Constituição. Mas não surpreende, considerando despacho anterior do mesmo juiz, mantendo painéis de rua com propaganda do candidato à reeleição.

Bolsonaro faz campanha todos os dias. Cada vez que abre a boca é para minar a democracia, as instituições republicanas e as eleições, atacar ministros do STF e do TSE, infringir a lei. Tudo às claras, como fez ao convocar para o "lançamento da pré-candidatura" dele. Mas o juiz apressou-se em tentar calar artistas. A percepção de que a Justiça tem lado é muito perigosa.

Alvaro Costa e Silva: O Lollapalooza é só o começo

Folha de S. Paulo

Bolsonaro não poderá impedir que sua rejeição vá para as ruas

Há gente horrorizada com o escândalo do MEC, que se revelou um balcão para a liberação de verbas, sendo a moeda corrente a compra de Bíblias ou o recebimento de barras de ouro (afinal, o garimpo é coisa nossa). Em essência, é um velho golpe de corrupção tantas vezes praticado, mais um "desvio de merenda", agora com a participação de pastores lobistas que têm trânsito livre no Palácio do Planalto.

Pensando bem, ninguém deveria estar surpreso. Bolsonaro não poderia oferecer o que não tem e o que despreza: educação.

Até agora quatro foram os ocupantes da pasta; cada um pior que o outro. O olavista Ricardo Vélez ficou três meses, mas teve tempo de mandar que alunos fossem filmados cantando o Hino Nacional e recitando o lema "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos". Entrou Abraham Weintraub, animador de auditório da extrema direita, mais interessado em prender ministros do STF, a quem chamou de "vagabundos", antes de se esconder nos EUA. O economista Carlos Decotelli apresentou um currículo cheio de informações falsas e teve a nomeação cancelada.

Joel Pinheiro da Fonseca: A riqueza do liberalismo brasileiro

Folha de S. Paulo

A imagem do movimento pode estar suja, mas não faltam liberais dispostos a limpá-la

A reputação do liberalismo no Brasil está manchada. E quem a manchou foi a parcela (infelizmente expressiva) dos liberais que embarcaram de corpo e alma no projeto bolsonarista. Inicialmente extasiados, vislumbravam uma "primavera liberal" no governo de um presidente que defendia abertamente tortura e grupos de extermínio, exaltava a ditadura militar e dizia preferir um filho morto a um filho homossexual.

Não é que eles gostassem da truculência e da ignorância de Bolsonaro (alguns, é bem verdade, gostavam sim). É que, em nome da prometida liberalização econômica, topavam tudo. Assim, a acusação do professor Rodrigo Jungmann em seu artigo de domingo está correta: "Nossos liberais são em grande parte responsáveis eles mesmos por este estado de coisas [a noção distorcida que o público tem do liberalismo]. E o são em razão do que bem poderia ser chamado de obsessão pela economia."

Felipe Salto*: A receita de bolo para as contas públicas em 2023

O Estado de S. Paulo.

Limite tendencial para a dívida, acoplado às metas de resultado primário e ao teto de gastos, é caminho para desatar o nó fiscal

As regras fiscais não devem ser prócíclicas, isto é, permitir uma montanha de gastos, em período de crescimento do PIB e da arrecadação, e limitar a atuação do Estado em períodos de vacas magras. É preciso buscar, por assim dizer, duas diretrizes fundamentais: 1) a sustentabilidade da dívidapib como objetivo central; e 2) a garantia de algum poder discricionário pelos governos, desde que sujeito à diretriz anterior. A Constituição de 1988 e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) são as bases para uma estratégia de endividamento civilizada a partir de 2023. O limite tendencial para a dívida, acoplado às metas de resultado primário e ao teto de gastos, é a receita de bolo para desatar o nó fiscal.

O procurador do Ministério Público de Contas no Tribunal de Contas da União (TCU), Rodrigo Medeiros de Lima, publicou recentemente o livro Regras fiscais e o controle quantitativo da dívida pública federal no Estado Democrático de Direito (Editora Blucher, 2021). O livro combina os conhecimentos do Direito Financeiro e das Finanças Públicas. No capítulo 3, o autor mostra como a construção do atual arcabouço fiscal, na Constituição federal de 1988, guiou-se pelo desejo de estabelecer mecanismos de controle, vigilância e transparência sobre o Executivo.

Andrea Jubé: Ato do PL foi aperitivo do horário eleitoral

Valor Econômico

Campanha começa a testar slogan “o capitão do povo”

Cena interna. Domingo de manhã. Imagens do auditório repleto de apoiadores, quase todos de verde e amarelo. O espaço que comporta até quatro mil pessoas, está cheio, mas não lotado. É possível circular sem esbarrões, há cadeiras livres. Uma minoria usa máscaras.

Centenas foram levados pela equipe da ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (PL), que deixará o cargo na próxima semana. Esposa do ex-senador e ex-governador José Roberto Arruda, Flávia disputará uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal. Se for eleita, voltará 22 anos depois ao palco onde o marido renunciou ao mandato, para evitar a cassação. Em 2000, Arruda, então líder do governo, envolveu-se na violação do painel do Senado durante a votação da cassação do então senador Luiz Estevão.

Os telões instalados no local promovem o Partido Liberal (PL), legenda do presidente Jair Bolsonaro: “Movimento Filia Brasil - É com ele que eu vou” e “PL, o maior partido do Congresso Nacional”.

Márcio G. P. Garcia*: Duas cartas

Valor Econômico

Ataques a instituições de Estado, na esteira da disputa eleitoral, são ataques à democracia e devem ser repudiados.

Numa época em que e-mail já passou a ser considerado fora de moda, cartas parecem formas jurássicas de comunicação. Não obstante, duas delas estiveram no centro das atenções nos últimos dias.

A primeira foi escrita pelo diretor presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres1 para defender a Anvisa, e a si mesmo, das insinuações feitas por Bolsonaro de que a aprovação da vacinação para crianças teria sido determinada por interesses escusos. Termina desafiando o presidente da República a determinar investigação ou então a se retratar.

A segunda carta foi escrita pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ao ministro da Economia, após a divulgação da inflação de 20212. A carta do presidente do BC é uma exigência da sistemática de metas para a inflação, quando a taxa de inflação anual fica fora da banda fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional). Para 2021, a banda era de 2,25% a 5,25%, centrada em 3,75%, a meta para a inflação do ano passado. Como a inflação (medida pelo IPCA) foi de 10,06%, o presidente do BC teve que escrever a carta.

Entrevista | ‘O trabalho e a democracia estão intimamente ligados’

Yolanda Díaz, hoje a política mais popular do seu país, diz que a ortodoxia econômica se esgotou e que, apesar da polarização política, a maioria da população quer acordos e calma

Henrique Gomes Batista / O Globo

BRASÍLIA — “Apesar da polarização, a maioria das pessoas quer acordos, calma e previsibilidade”, disse ao GLOBO Yolanda Díaz, segunda vice-primeira-ministra e ministra do Trabalho da Espanha, responsável por articular a reforma trabalhista aprovada em seu país no final do ano passado, que reverteu em parte a liberalização do mercado de trabalho implementada em 2012 pelo então governo conservador. Segundo Díaz, a reforma resultou em um aumento de 139% nos empregos formais, na comparação entre fevereiro deste ano e o mesmo mês do ano passado.

Díaz deu a entrevista exclusiva às vésperas de sua chegada ao Rio, onde fala amanhã em um encontro promovido pela Uerj e o Grupo de Puebla, formado por lideranças de esquerda, e que terá a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois, irá a São Paulo, onde se reunirá com empresários. A ministra contou como se alcançou o acordo que pôs a Espanha na agenda política brasileira, ao ser mencionado pelas campanhas da oposição ao presidente Jair Bolsonaro. “Estou convencida de que podemos chegar a acordos entre entidades e pessoas que pensam diferente”, disse.

Aos 50 anos, Díaz é a política mais popular da Espanha, segundo uma pesquisa deste mês do CIS (Centro de Investigações Sociológicas), e tem sido apontada como possível sucessora do primeiro-ministro Pedro Sánchez. O premier, do Partido Socialista Operário Espanhol (Psoe), de centro-esquerda, governa em coalizão com a frente de esquerda Unidas Podemos, à qual a ministra, integrante do Partido Comunista da Espanha (PCE), pertence. Díaz também atuou na legislação que regulamenta plataformas como o Uber e de entrega de comida, que provocaram um boom do trabalho informal. “Em todos os casos, o futuro do trabalho será o que queiramos que ele seja, porque o trabalho e a democracia estão intimamente unidos”, afirmou. 

Edu Lyra: Colaboração a única saída

O Globo

A humanidade enfrenta uma das maiores encruzilhadas da História. A desigualdade global vem crescendo, assim como a pobreza e o número de favelas. Cresce também a devastação da natureza, com consequências ainda imprevisíveis sobre o clima do planeta, a agricultura e a segurança alimentar de toda a nossa espécie. Somam-se a isso os desafios impostos pela tecnologia, como o advento da automação, que pode empurrar milhões de pessoas para o desemprego.

Temos no horizonte enormes questões sociais e ambientais que só poderão ser encaradas por meio da colaboração. Instituições globais, governos, empresas, organizações sociais e cidadãos comuns precisam se juntar para produzir soluções novas, mais eficazes, para nossos problemas concretos.

Mirtes Cordeiro*: Uma Escola Profissionalizante e Pública por 1 kg de ouro

O direito de aprender de uma criança não pode ser trocado por moedas, sobretudo por ouro vindo dos garimpos irregulares, porque representam propina, suborno, corrupção e obscurantismo.

Uma boa Escola Pública vale mais que um quilo de ouro; vale o esforço desenvolvido por professores, crianças e jovens durante anos de suas vidas para o desenvolvimento de sua aprendizagem e para o fortalecimento democrático. Por isso, não tem preço!

O Brasil começou a existir com o regime de capitanias hereditárias. Ao tomar posse das terras do novo continente, D. João VI concedeu as terras aos denominados donatários que deveriam desenvolver a colônia com investimentos privados, considerando a preocupação com fé e moral no desenvolvimento do empreendimento.

Os donatários deveriam pagar os impostos e prover o povoamento. As terras eram hereditárias, o que acontece até hoje. Neste sistema os donos das terras serão sempre os ricos. O Brasil nunca fez a reforma agrária para resolver essa questão da posse da terra.

As capitanias duraram apenas 16 anos, tendo fracassado a grande maioria.

A primeira centralização do governo português em solo brasileiro aconteceu em 1548, com a implantação do Governo Geral, tendo sido nomeado o primeiro governador-geral Tomé de Sousa, fundador da primeira capital do Brasil, Salvador, em 1549.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Mais um

O Globo

O PASTOR Milton Ribeiro demorou a entender que não tinha mais condição de continuar como ministro da Educação depois das denúncias de corrupção na pasta envolvendo pastores alheios aos quadros do MEC.

SUA SAÍDA, anunciada ontem à tarde numa carta de demissão, acontece menos por desaprovação do presidente — Jair Bolsonaro defendeu Ribeiro nas redes sociais — do que pelo potencial de estrago que poderia causar na campanha à reeleição.

O MINISTÉRIO da Educação, depois de mais uma gestão que misturou ideologia, inépcia e involução na qualidade do ensino, vai para o quinto titular em três anos e três meses de governo. O retrospecto de Bolsonaro sugere que não necessariamente a mudança será para melhor.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Música | Guantanamera: Grupo Sintesis (Cuba)

 

segunda-feira, 28 de março de 2022

Fernando Gabeira: Mentiras, bíblias e redes sociais

O Globo

Fake news é uma expressão nova, tida como o maior perigo para as eleições e a democracia em geral. A tradução é “notícia falsa”. Não pode ser qualificada como uma simples mentira. A palavra mentira é mais genérica, envolve todas as relações humanas, inclusive as amorosas. Mentiras que calam na alma, fazendo sofrer (...)/Mentira, cansei de ilusões.

Será uma tarefa complexa combater as fake news. Uma de suas características é a velocidade. Mark Twain dizia que, enquanto a mentira corre o mundo, a verdade está apenas amarrando o cordão do sapato.

Grandes fake news entraram para a História. Uma delas são os célebres Protocolos dos Sábios de Sião, um plano atribuído aos judeus para dominar o mundo. Outra, aqui no Brasil, na década dos 1950, foi a Carta Brandi, que estaria preparando uma rebelião armada das esquerdas brasileiras e argentinas.

As fake news de hoje talvez não tenham o mesmo impacto, mas se impõem pela quantidade. A maneira de tratar o tema sem resvalar para o autoritarismo seria dividi-las entre inofensivas e potencialmente criminosas.

Miguel de Almeida: O mocotó dos pastores

O Globo

No delicioso “Rato de redação: Sig e a história do Pasquim”, de Márcio Pinheiro, com histórias do hebdomadário Pasquim, há registro de uma cena — ocorrida no final de 1970! — que mostra a definitiva atualidade do renitente atraso brasileiro.

No quadro “Independência ou morte”, de Pedro Américo, o cartunista Jaguar aplicou um balão em cima da figura de Dom Pedro I, como se fossem seus dizeres: “Eu quero mocotó” — e seguiam dois pontos de exclamação.

O novo Grito do Ipiranga emulava o estribilho da canção homônima de Jorge Benjor, defendida no V Festival Internacional da Canção por Erlon Chaves e sua Banda Veneno. Por causa da sensualidade de seu coro feminino, Erlon teve de dar explicações na delegacia.

A irreverência de Jaguar custou-lhe uma cana. Boa parte da redação do Pasquim seguiria também para a mesma cela por quase três meses.

Marcus André Melo*: Partidocracia sem partidos?

Folha de S. Paulo

Partido multimilionários, fortes no Congresso, mas que não importam para os eleitores

A pesquisa Eseb 2010/Unicamp/Michigan University pediu aos entrevistados do estado de São Paulo para analisar a afirmação "Alckmin é filiado ao PTB". 56% deles afirmaram que não sabiam, enquanto 12% responderam que sim. O ESEB 2018 não replica a questão. Sim, é surpreendente que quase 70% dos eleitores paulistas não soubessem a afiliação partidária do governador recém-eleito. E mais: na esteira da eleição presidencial fortemente polarizada de 2006, na qual ele disputou a Presidência, obtendo 52% dos votos no estado.

A pergunta foi feita em um contexto em que pesquisa comparativa (Shane and Thornton 2018) conclui que o partidarismo teria adquirido máxima saliência na opinião pública no período imediato após eleições.

O quadro mais amplo revela também desconhecimento político generalizado. No ESEB 2018, 42% não sabiam "o que é democracia?", em resposta livre; 1 em cada 5 não sabia se o Brasil "havia se tornado mais ou menos democrático"; dentre os que responderam sim, 57% não sabiam porque o país havia se tornado mais democrático.

Celso Rocha se Barros: Quanto dura o Carnaval do centrão?

Folha de S. Paulo

Bloco vive seu auge sob Bolsonaro, mas situação não é estável

centrão vive uma era mais dourada do que suborno no MEC de Bolsonaro. Saqueiam dinheiro público com o orçamento paralelo, vivem impunemente desde que Jair desmontou as instituições de controle, vendem caro apoio aos candidatos presidenciais. O tanto de azar que o Brasil teve nos últimos anos, eles tiveram de sorte.

Eles parecem achar que isso vai durar para sempre, que a mudança no equilíbrio político é permanente. Já planejam racionalizar a coisa toda inventando um novo sistema, o semipresidencialismo, em que o presidente eleito perderá as funções de chefe de governo. Ficará, apenas, com as funções de chefe de Estado e de otário que vai preso quando a polícia pegar o esquema.

Também estão vendendo caro os apoios aos candidatos presidenciais. Olham para LulaBolsonaro e, com a ajuda de binóculos, para a terceira via, com uma cara de "Dessa vez não vai ser só 10%. Dessa vez eu quero tudo".

Mesmo assim, se eu fosse eles, baixaria minha bola.

O centrão se consagrou, em primeiro lugar, porque Bolsonaro nunca teve qualquer interesse em governar como presidente normal. Deixou a articulação no Congresso às moscas e rachou o próprio partido. Você vê que o sujeito não se importa com um problema quando o deixa a cargo do Onyx. Enquanto isso, Bolsonaro tentava articular nos quartéis, imagino que com algum general melhor que o Onyx. Nesse vazio, o centrão governou.

Lygia Maria: Que falta faz Millôr Fernandes

Folha de S. Paulo

O debate político brasileiro precisa de humor e ceticismo

Filho de imigrantes, nascido no subúrbio carioca do Meyer em 1923, Millôr Fernandes começou a escrever na revista "O Cruzeiro" aos 16 anos e teve uma das carreiras mais longevas do jornalismo brasileiro. Foi desenhista, dramaturgo e tradutor, mas preferia ser chamado de jornalista: "para evitar qualquer pretensão", dizia. Faleceu há dez anos, em 27 de março de 2012, e deixou um vácuo na imprensa e no debate público. Que falta faz Millôr nesses tempos polarizados. Que falta faz seu ceticismo.

Falo do ceticismo analisado por Michael Oakeshott, aquele que se contrapõe à fé extrema na política: ceticismo como dúvida constante sobre construções racionais que se arvoram a criar sociedades perfeitas. Segundo Millôr: "Se uma pessoa estava no governo, eu ficava contra. Isso em qualquer época".

Mas o ceticismo milloriano não se aplicava apenas ao poder institucional, e sim a ideologias de um modo geral. Após ser demitido de O Cruzeiro (por causa de uma sátira à Bíblia), Millôr publicou a "Pif-Paf" um mês após o golpe militar. A revista criticava a ditadura, óbvio, mas também se opunha à esquerda dogmática. Tiradas irônicas como "Os comunistas são contra o lucro, nós somos apenas contra os prejuízos" ou "Esta revista será de esquerda nos números pares e de direita nos números ímpares" permeavam as edições. Imagine essa postura em plena Guerra Fria, comunismo versus capitalismo: quando todos tomam partido, é preciso coragem para não tomar partido algum.

Bruno Carazza*: Valdemar e Jair

Valor Econômico

Quem se dará melhor no casamento do presidente com o PL e o Centrão?

Jair Bolsonaro já virou a página. Sabe que as condições que o levaram ao Palácio do Planalto em 2018 não se repetirão neste ano. Os gritos de “Mito! Mito!” nos aeroportos não são mais uníssonos, sendo entrecortados por “Genocida!” dependendo da localidade visitada. As redes de proliferação de mensagens, embora ainda atuantes, vêm sendo combatidas pelas mídias sociais. A Lava-Jato acabou e, com ela, o sentimento antipolítica arrefeceu. Acima de tudo, Lula teve seus processos anulados pela Justiça e lidera as pesquisas.

Bolsonaro se elegeu em 2018 rasgando todas as páginas do manual das campanhas eleitorais no Brasil: sem doações milionárias de campanha, sem marqueteiros, sem coligações ou palanques regionais, sem tempo relevante nos programas eleitorais no rádio e na TV.

Passados quase quatro anos de governo, com o desgaste natural que o cargo traz, agravado pelos efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia, Bolsonaro correu para colar com fita adesiva as folhas dilaceradas há tão pouco tempo.

Entrevista/ Bahia: 'Pleito para o Senado tende a ser o mais acirrado', diz especialista

Paulo Fábio Dantas Neto diz que Lula terá, sim, um papel importante na campanha de Jerônimo Rodrigues

Guilherme Reis e Paulo Roberto Sampaio / Tribuna da Bahia

SalvadorPara o cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Paulo Fábio Dantas Neto, a disputa pelo Senado, uma vez confirmada a polarização entre os candidatos Otto Alencar (PSD) e João Leão (PP) tende a ser mais acirrada do que a eleição para governador “pela rivalidade entre PSD e PP no interior onde há anos emulam, com relativo equilíbrios de forças municipais, no âmbito da hoje cindida aliança governista estadual”. “Essa rivalidade agora tem conexão nacional pela batalha renhida que esses dois partidos travam, além de outros, para turbinar suas bancadas federais”, pontua, em entrevista à Tribuna.  

Em relação à disputa para o governo da Bahia, Dantas diz que Lula terá, sim, um papel importante na campanha de Jerônimo Rodrigues (PT). “Essas incertezas todas não anulam o fato de que Lula aparece hoje, sim, como o grande influenciador de votos para Jerônimo e é plenamente racional que a campanha governista aposte nesse potencial. Sem subestimar a capacidade de transferência de votos de Lula, avalio que fazer Jerônimo pular, de fato, de 4 para 37% é um desafio e tanto”, avalia.  

TSE veta ato político em festival e gera crítica de censura

Proibição do TSE a manifestações políticas no Lollapalooza gera onda de críticas nas redes

Lucas Mathias e Lucas Altino / O Globo

Depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibir manifestações políticas durante as apresentações do festival Lollapalooza, o tema dominou as redes sociais e chegou a ocupar cinco entre os dez assuntos mais comentados no Twitter. As reações foram, em sua maioria, contrárias à decisão da Corte, que atendeu pedido feito pelo PL, partido do presidente Jair Bolsonaro, depois que a cantora Pablo Vittar levantou, durante seu show no evento, uma bandeira com a foto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Outros artistas, como Emicida, Jão, Silva, Detonautas e a cantora britânica Marina Diamandis também já haviam se manifestado politicamente na edição deste ano do Lollapalooza. O festival tem neste domingo seu último dia de apresentações.

Por volta do meio-dia, o termo mais comentado sobre o assunto era um xingamento ao presidente Jair Bolsonaro, que acumulava cerca de 21,7 mil menções. Outro, com a hashtag #ForaBolsonaro, chegou aos 20 mil tuítes na plataforma, seguido pela palavra “CENSURA”, mencionada em torno de 60 mil vezes. A tag #LULApalooza, uma ironia ao nome do evento, teve 25 mil tuítes. Mas o mais utilizado foi “O TSE”, com 93 mil citações. Os usuários da rede questionaram a decisão do tribunal.

O apresentador Luciano Huck foi um dos que se manifestou dessa forma. Ele afirmou que, em um festival de música, “quem decide se vaia ou aplaude a opinião de um artista no palco é a plateia e não o TSE”, antes citar o AI-5, um dos decretos mais duros da ditadura militar, utilizado para a repressão da população.

A cantora Teresa Cristina também publicou sobre o tema. Ao compartilhar uma foto de Pablo Vittar, ela escreveu: “Como assim não pode manifestação política em um festival privado?”.

Bolsonaro eleva pressão sobre TSE, que tenta censurar festival

Bolsonaro eleva pressão sobre TSE com clima de campanha e Lollapalooza

Apesar de restrições da legislação, presidente discursa como candidato, e especialistas veem 'comício antecipado'

Marcelo Rocha / Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - presidente Jair Bolsonaro (PL) participou de evento partidário em clima de comício antecipado neste domingo (27), apesar das orientações da equipe jurídica diante dos riscos de se enquadrar em crime eleitoral.

Com ataques ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Bolsonaro discursou como candidato, um dia após anunciar que esse encontro do PL seria como um lançamento de sua pré-candidatura à reeleição.

A conduta do presidente elevou a pressão sobre integrantes do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) diante das restrições legais, no mesmo fim de semana em que seu partido questionou suposta propaganda eleitoral irregular em benefício de Lula no festival do Lollapalooza.

ministro Raul Araújo, do TSE, concedeu liminar classificando como propaganda eleitoral as manifestações políticas de Pabllo Vittar e da cantora galesa Marina e determinou multa de R$ 50 mil para a organização do evento se houver outras. Advogados do PT, por sua vez, recorreram ao tribunal contra a decisão.

A legislação eleitoral só permite campanha a partir de 16 de agosto. Comícios não são autorizados até lá. Eventos públicos de lançamento de pré-candidatura, situação não prevista na lei e semelhante ao de Bolsonaro neste domingo, também são vetados.

Especialistas ouvidos pela Folha, incluindo um ex-ministro do TSE que pediu anonimato, identificaram no evento deste domingo com Bolsonaro elementos de campanha antecipada.

Para eles, apresentar-se como candidato, fazer menções ao pleito e a seu principal adversário e pedir apoio da plateia são elementos que, fora do cronograma eleitoral, configuram a campanha extemporânea.

O evento pode motivar apuração por abuso de poder econômico, procedimento que, embora improvável na prática, em tese poderia ser capaz de inviabilizar uma candidatura e ser avaliado em conjunto com outros atos de Bolsonaro típicos de campanha ao longo dos últimos meses, como as motociatas.

TSE proíbe ato político em festival; Bolsonaro faz ‘comício’

Decisão, tomada a pedido do PL, fere jurisprudência, dizem especialistas

O Estado de S. Paulo*

A decisão do ministro Raul Araújo, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de proibir manifestações políticas no festival de música Lollapalooza, gerou críticas de artistas, políticos, como João Doria, pré-candidato do PSDB à Presidência, e especialistas em Direito Eleitoral. Araújo deferiu pedido do PL, partido do presidente Jair Bolsonaro,

e julgou que manifestações no festival como a do artista Pabllovittar, que criticou Bolsonaro e exaltou o ex-presidente Luiz

Inácio Lula da Silva (PT), caracterizam “propaganda políticoeleitoral”. Ministros do TSE, consultados pelo Estadão, manifestaram desconforto com a liminar, que, segundo especialistas, fere a jurisprudência do tribunal. Ontem, o PL organizou ato de filiação de ministros com ares de comício, em que Bolsonaro disse que a eleição presidencial será a “luta do bem contra o mal”.

“Por vezes, me embrulha o estômago ter que jogar nas quatro linhas (da Constituição)”

Jair Bolsonaro

“(R$) 50 mil? Poxa... Menos uma bolsa. Fora Bolsonaro. Essa lei vale até fora do País? Porque meus festivais são só internacionais.”

Anitta

Cantora “Quem decide se vaia ou aplaude é a plateia e não o TSE. Ou ligaram a máquina do tempo, resgataram o AI-5 e nos levaram para 1968?”

Luciano Huck

Apresentador “Lamentável a censura. Queremos um País livre e democrático.”

João Doria

Governador de SP

O ministro Raul Araújo, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acolheu pedido do partido do presidente Jair Bolsonaro, o PL, e proibiu, em decisão liminar, manifestações políticas no festival de música Lollapalooza. A decisão provocou a reação de artistas, como a cantora Anitta, e foi criticada por políticos, como o pré-candidato à Presidência João Doria (PSDB). Especialistas em direito eleitoral disseram que a medida contraria jurisprudência da Corte. Consultados pelo Estadão, ministros do TSE demonstraram desconforto com a liminar.

Denis Lerrer Rosenfield*: A mentalidade russa

O Estado de S. Paulo.

Vladimir Putin não previu que os ucranianos não se reconheceriam em sua ‘russidade’, preferindo abraçar os valores atlantistas

Decisões políticas, geopolíticas, diplomáticas e militares são tomadas conforme as ideias que os decisores, as autoridades púbicas, têm em mãos. Decisões não são tomadas no vácuo, envolvendo assessores, ministros e responsáveis civis e militares, que não apenas se fazem presentes, mas também veiculam propostas e concepções de mundo. Eis por que, a propósito da guerra na Ucrânia, se torna importante pesquisar quais são as ideias que presidiram a invasão russa, para além dos interesses geopolíticos em jogo.

Um dos ideólogos mais importantes da Rússia atualmente, com influência direta no debate de ideias naquele país, tendo, inclusive, influência sobre Putin, chama-se Alexander Dugin. Sua grande inspiração é o pensador nazista Carl Schmitt, e utiliza, a propósito, duas de suas obras: 1) O Conceito do Político, em que apresenta sua concepção deste a partir da distinção amigo/inimigo, o primeiro termo designando os aliados e o segundo, os adversários, que devem ser literalmente eliminados, não apenas verbalmente, mas fisicamente; e 2) The Grosssraum Order of International

Law with a Ban on Intervention for Spatially Foreign Power, focando em países imperiais que precisam de grandes espaços, não podendo sofrer qualquer limitação externa, nenhuma legalidade internacional sendo reconhecida.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O Brasil na nova ordem mundial

O Estado de S. Paulo.

A democracia liberal e a globalização econômica enfrentam a sua maior prova desde o fim da guerra fria. Mas o destino do Brasil está nas mãos dos brasileiros

A guerra na Ucrânia é o evento geopolítico mais importante desde a queda do Muro de Berlim. A disseminação do liberalismo por meio da retroalimentação entre a democracia e a economia de mercado está ameaçada: em 30 anos, o mundo nunca esteve tão distante do Fim da História, na fórmula otimista de Francis Fukuyama, e tão próximo do Choque de Civilizações, na visão pessimista de Samuel Huntington. Como disse ao Estadão o economista Martin Wolf: “Começamos a nos mover para uma era de conflitos geopolíticos entre democracias e autocracias”. A questão é quão longos, amplos e profundos eles serão.

No pior cenário, o mundo será rachado em dois blocos, o democrático, liderado por EUA e Europa, e o autocrático, liderado por China e Rússia. A desconfiança, não só entre esses blocos, mas em seu interior, pode intensificar o populismo e a corrida nacionalista, balcanizando a economia global. As hostilidades podem escalar para uma 3.ª guerra mundial e, no limite, uma hecatombe nuclear: não o “Fim da História”, mas algo muito próximo do fim do mundo.

Por outro lado, os blocos podem se equilibrar. Sem abrir mão de seus regimes políticos, ambos poderiam combinar segurança e abertura econômica, e cooperar em objetivos como a paz mundial e o combate à crise climática ou à fome. No melhor cenário, a crise pode dar um novo senso de propósito à democracia, a ordem liberal pode ser revigorada no Ocidente e, gradualmente, as forças liberais nas potências autocráticas podem desencadear a erosão do totalitarismo.

Poesia | Mariana Milani: O Elogio da Dialética (Bertolt Brecht)

 

Música | Morena Son: El Muerto se fue de Rumba

domingo, 27 de março de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto*: Sinais amarelos e conversas de cozinha

Em artigo publicado há poucos dias na revista Política Democrática, n.41 transmiti, de modo sucinto, três impressões. Primeiro a de que pesquisas recentes indicam que se forma uma nova conjuntura pré-eleitoral, na qual reacendem-se, para Jair Bolsonaro, algumas esperanças, ainda que oscilantes, de reeleição; segundo a de que as oposições (tanto a de esquerda quanto aquela que tenta se colocar como “terceira via”) ainda não reagiram a esses sinais, seja por uma aproximação entre ambas para formar uma unidade já no primeiro turno, ou por uma efetiva e resoluta política de “conquista do centro” por parte de Lula, duas variantes do que poderia ser uma estratégia voltada a sepultar, no primeiro turno, as chances de reeleição do presidente.  Menos ainda se vê esboço de sucesso de um sempre ensaiado processo, no chamado centro e na centro-direita, de entendimentos agregadores com vistas a uma candidatura convergente própria - cada dia mais improvável – capaz de tirar Bolsonaro do até aqui confortável segundo lugar, ou pelo menos, de impedir que chegue ao segundo turno em posição competitiva.

A terceira impressão é a de que a lenta e ainda incerta recuperação de Bolsonaro - combinada à conservação desse “ponto morto” oposicionista na disputa presidencial - aponta a uma consequência que suponho ser a mais temível para forças políticas e sociais comprometidas em salvaguardar o processo eleitoral e a própria democracia. Refiro-me, é óbvio, ao “segundo turno sangrento” entre direita e esquerda, embate de extrema tensão (por falta de um centro moderador influente, mesmo como força coadjuvante) e de resultado imponderável, entre Lula e Bolsonaro, com o país cindido de cima a baixo, isto é, da elite política ao eleitorado. Nessas condições específicas, a vitória de Lula poderia evitar o desfecho, digamos, mais trágico. Mas o imponderável se transferiria ao exercício do governo, tanto na hipótese de Lula tentar cumprir o que tem dito até aqui na pré-campanha, quanto na dele manter esse dito na campanha e tentar fazer o não-dito no governo. A aventura populista e o estelionato eleitoral seriam atitudes igualmente temerárias e conversíveis em fatores tendentes, na melhor das hipóteses (a da célebre habilidade do presidente evitar a pura e simples ingovernabilidade), a prolongar, por mais quatro anos, a crise de múltiplos níveis em que o país foi metido desde 2013/2014.