segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Míriam Leitão - Lula venceu o debate. Foi por pontos, não por nocaute

O Globo

Bolsonaro, que ficou atrás no primeiro turno e continua atrás na pesquisa, precisava mais da vitória

Lula foi o vencedor claro da primeira rodada porque fez Bolsonaro falar durante quase todo o tempo do bloco de pandemia, e ficou na defensiva. Não há resposta possível para uma fala como a do Lula.

–Mas vou perguntar de pandemia. O Brasil tem 3% da população mundial. E o Brasil teve 11% das mortes da pandemia no mundo. Por que houve tanta demora para se comprar vacina? O senhor não se sente responsável? O senhor não carrega nas costas um pouco do sofrimento dos brasileiros de ser responsável pelo menos por 400 mil mortes nesse país?

Essa é uma pergunta sem resposta. Bolsonaro conseguiu piorar ainda a sua situação porque recentemente disse que a “molecada” não morre de Covid. Lula deu o número de duas mil mortes de crianças. Bolsonaro voltou a defender o “off label”. Lula traduziu: “você virou defensor de remédio que não serve para nada”. E acrescentou “eu sei o que é perder alguém para a Covid”. Nesse ponto Lula se coloca ao lado de cada brasileiro que perdeu alguém. Lula o acusa de nunca ter visitado um hospital. Bolsonaro alega que foi e ninguém viu. Bolsonaro voltou a mentir: disse que vacina é só para quem não teve Covid. Bolsonaro permanece o anti-ciência que nos levou a ter muito mais mortes do que no resto do mundo.

Alvaro Gribel - O golpe mais baixo no debate entre Lula e Bolsonaro

O Globo

Pressionado por Lula sobre as ações do governo na pandemia, Bolsonaro baixou o nível e disse que Lula "fez discurso sobre o caixão da esposa"

Coube a Jair Bolsonaro o golpe mais baixo do debate com Lula, na noite deste domingo. Ainda no primeiro bloco, pressionado pelas perguntas do candidato petista sobre as mortes na pandemia, Bolsonaro evocou o enterro da ex-primeira-dama Marisa Letícia, que faleceu em fevereiro de 2017. Segundo Bolsonaro, Lula "fez discurso em cima do caixão da esposa".

- Fez discurso em cima do caixão da esposa e está se comovendo pela sogra. Sr. Lula, entenda uma coisa, Sr. Lula? entenda uma coisa, por favor: os enterros eram com caixão lacrado, ninguém podia ir ao enterro, nem familiares. E eu visitei hospitais, sim, e o senhor não tem conhecimento. Só que eu não preciso fazer propaganda do que faço. Me comovi. Me preocupei com cada morte no Brasil - disse Bolsonaro.

Lula não caiu na provocação e manteve Bolsonaro na defensiva ao falar de pandemia. O primeiro bloco do debate foi tão favorável ao candidato petista que, ainda que Bolsonaro tenha equilibrado nos dois restantes, o saldo acabou positivo para Lula.

Bela Megale - Os altos e baixos do debate para as campanhas de Bolsonaro e Lula

O Globo

Campanhas tiveram avaliações similares sobre melhores e piores momentos dos candidatos no debate da Band

Coordenadores das campanhas de Lula e de Bolsonaro apontaram os melhores e piores momentos para os candidatos no debate da Band realizado neste domingo.

Na avaliação de integrantes da equipe de Bolsonaro, o presidente teve um desempenho pior no primeiro bloco, quando Lula conseguiu pautar boa parte do tempo com temas desgastantes para o presidente, como a pandemia. Carlos Bolsonaro chegou a se aproximar do palco e fazer gestos para que o pai mudasse de assunto.

Há, no entanto, a avaliação de que Bolsonaro terminou melhor o último bloco do programa, ao controlar o tempo e falar por mais de seis minutos sem que Lula tivesse direito de se pronunciar por já ter gasto os minutos que tinha direito.

Um dos momentos mais celebrados pelo QG do presidente foi quando ele tocou no ombro de Lula, que se esquivou. Os coordenadores da campanha também consideraram que Bolsonaro conseguiu pautar a parte final do programa com temas como os desvios da Petrobras, o que, na visão deles, ajudou a fazer o petista perder a noção do tempo.

Maria Cristina Fernandes - Sem acuar Bolsonaro, Lula desperdiça vantagem

Valor Econômico

Dificilmente um momento da campanha poderia sintetizar melhor a campanha do que o debate da Band. O presidente Jair Bolsonaro saiu de uma situação de desvantagem, acuado que estava pela abordagem às adolescentes venezuelanas, para pautar a corrupção como eixo. Já o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, que tem uma vantagem de seis milhões de votos e agregou a mais ampla frente de apoio já obtida por um candidato em segundo turno, gastou tempo demais para se defender e propagar seu governo demonstrando pouca agilidade para explorar as vulnerabilidades da atual gestão.

Contribuiu para o desempenho de Bolsonaro a decisão do presidente do TSE, Alexandre de Moraes, que mandou suspender a veiculação do vídeo em que o presidente da República diz ter “pintado um clima” com as adolescentes. Moraes foi o ministro com quem Bolsonaro mais antagonizou até hoje, chamando-o de "canalha". Ao mencionar o episódio, Lula excedeu-se na ironia, que é pouco clara para quem o assiste. A decisão de Moraes não o impediria de perguntar por que Bolsonaro, se constatou a prostituição de adolescentes, não tomou qualquer providência. Mas Lula não o fez.

Acuado pela exploração que Bolsonaro fez do “petrolão”, Lula bateu na tecla da corrupção que poderia ter sido punida sem quebrar a empresa sem mencionar a parcialidade do juiz do caso. Demorou-se tanto em se defender e em listar todos os feitos da Petrobras sob seu governo que deixou cinco minutos livres para Bolsonaro repisar os velhos temas das ditaduras latino-americanas e da ideologia de gênero.

Fernando Exman - Quem venceu o debate da Band? Encontro tem empate técnico

Valor Econômico

No debate da noite deste domingo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou melhor. Explorou bem um tema que deixa o presidente Jair Bolsonaro (PL) na defensiva, diante da catastrófica gestão da pandemia pelo governo federal. Conseguiu reforçar a imagem de que o adversário não se preocupou com as vidas perdidas durante a crise sanitária, abordou as denúncias de corrupção na compra da vacina e recordou da demora na imunização da população.

Lula perdeu-se, contudo, quando foi perguntado sobre o petrolão por um dos jornalistas que apresentaram questões durante o debate. Na sequência, demonstrou nervosismo e deu espaço para Bolsonaro insistir no tema. Nesse contexto, perdeu muito tempo e acabou dando espaço para Bolsonaro repisar o aumento do valor do Auxílio Brasil, a relação do petista com governos estrangeiros, combate às drogas e religião.

Bolsonaro ainda contou com um reforço de peso, o apoio do ex-ministro Sergio Moro, com quem havia rompido e pode lhe ajudar nesta reta final da campanha a reforçar o tema do combate à corrupção. Até agora, Lula não conseguiu explorar com eficiência as fragilidades de seu adversário nesse campo.

Bruno Boghossian - Lula e Bolsonaro focam desgaste de rival para atrair últimos votos

Folha de S. Paulo

Petista saiu na frente no debate, mas presidente aproveitou melhor oportunidades do bloco final

Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) foram ao debate Folha/UOL/Band/TV Cultura mais interessados em reforçar os conhecidos pontos de desgaste do adversário do que enaltecer as próprias qualidades. O atual presidente conseguiu aproveitar melhor as oportunidades.

As características do segundo turno favorecem uma aposta de atrair votos por rejeição. Numa disputa cristalizada há vários meses, os movimentos decisivos a partir de agora devem depender de eleitores que parecem inclinados fazer uma escolha para evitar a vitória de um ou outro candidato.

A troca de acusações feita no debate mexe com as paixões dos eleitores, mas não chega fundo o suficiente para provocar uma migração em massa para um dos lados.

Lula saiu na frente no primeiro bloco ao tentar reativar o tema da pandemia, que anda dormente na cabeça do eleitor. O ex-presidente ditou o ritmo do confronto inicial com Bolsonaro ao tentar vincular o rival à demora para a compra de vacinas e ao alto número de mortes por Covid registrado no Brasil.

O objetivo do petista era dar destaque a marcas negativas que "colaram" em Bolsonaro ao longo dos anos de governo, sendo a pandemia uma das mais fortes.

Carlos Pereira* - Risco de ‘morte’ do populista

O Estado de S. Paulo

Populistas extremos morrem quando tentam se tornar mais poderosos

Receios de fragilização da democracia brasileira diante de um possível, mas cada vez menos provável, segundo mandato do presidente Bolsonaro parecem ter chegado a um patamar elevadíssimo.

Mesmo sem evidências científicas sistemáticas que suportem tal expectativa, muitos acreditam que, se a democracia governada por um populista extremo não se fragilizar no primeiro mandato, certamente se fragilizará no segundo. Preferem sempre acreditar mais em ameaças futuras do que na trajetória de evidências robustas de resistência institucional e social.

Tais receios foram catapultados a partir de um suposto plano de Bolsonaro de aumentar o número de ministros da Suprema Corte por meio de uma emenda constitucional a ser apresentada no início de 2023, caso seja reeleito. O próprio presidente, em tom mais ameno, mas nem por isso menos ameaçador, disse que podia desistir da ideia, mas apenas se o Supremo baixasse a bola.

Bruno Carazza* - Os recados dos microdados eleitorais

Valor Econômico

Dados das urnas revelam preferência do eleitor

A mordaça imposta por Jair Bolsonaro aos militares que fizeram a auditoria do funcionamento das urnas eletrônicas vale mais do que qualquer relatório para atestar a segurança e a confiabilidade do sistema brasileiro de votação, registro e contagem de votos.

Com milhões de bolsonaristas mobilizados, bem como diversos órgãos civis e militares dos Três Poderes e ainda dezenas de entidades representativas da sociedade, não houve relato de nenhum incidente capaz de colocar em dúvida o resultado das urnas. Como acontece há décadas, a Justiça Eleitoral triunfou mais uma vez.

Para além da eficiência e da segurança, nosso sistema eleitoral também é referência mundial na transparência e na qualidade dos dados divulgados. Qualquer cidadão pode acessar com relativa facilidade informações pessoais, arrecadação e despesas de candidatos, assim como o perfil do eleitorado e o resultado da votação. Tudo isso nos permite ter uma visão mais detalhada sobre os movimentos do jogo político e a preferência dos eleitores.

Sergio Lamucci - A luta pela credibilidade fiscal em 2023

Valor Econômico

Definição de nova âncora para as contas públicas será essencial

Coordenar as expectativas sobre as contas públicas será um dos primeiros grandes desafios do próximo governo. Além de definir o montante da licença para elevar gastos em 2023, será preciso desenhar uma nova regra fiscal que assegure uma trajetória confiável de estabilização e queda da dívida pública como proporção do PIB ao longo do tempo. Se for bem sucedido nessa tarefa, quem vencer as eleições neste ano reduzirá incertezas importantes, num ano a ser marcado pelo impacto pleno do ciclo de alta da Selic sobre a atividade e por um cenário externo mais adverso, com juros mais elevados no mundo desenvolvido e o risco de uma recessão global.

Ex-secretário do Tesouro nos governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro, Mansueto Almeida avalia que o país tem como se destacar no ambiente complicado que se desenha para os emergentes em 2023, desde que mostre sinais “de responsabilidade fiscal e compromisso com as reformas, como a tributária”. Na semana passada, Mansueto esteve em Nova York para reuniões com investidores. Segundo ele, todos olham com “curiosidade” para dois emergentes - o México, pela proximidade com os EUA, e o Brasil.

Mathias Alencastro* - Guerra contra os debates

Folha de S. Paulo

Para seguidores do atual presidente, maior pecado nos embates políticos é excesso de civilidade

É normal políticos escolherem os seus palcos, mas há algo espantoso na decisão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) de cancelar de uma só vez todas as suas participações em debates e sabatinasincluindo o Roda Viva desta segunda-feira (17). Afinal, o programa da TV Cultura, que há décadas faz e desfaz carreiras, é um patrimônio cultural do estado de São Paulo.

Nada é coincidência no bolsonarismo, e a posição de Tarcísio segue a estratégia de cancelamento de embates públicos adotada por candidatos trumpistas nos Estados Unidos durante a campanha para as eleições de meio de mandato, em novembro.

Partido Republicano deu o mote em abril, quando formalizou a sua retirada do comitê bipartidário que organiza debates presidenciais. A pressão veio do próprio Donald Trump, que se diz vítima de uma armação. Por conta das restrições sanitárias de 2020, ele foi incapaz de repetir com Joe Biden a receita de intimidação física e moral, com direito a ameaça de prisão, usada contra Hillary Clinton em 2016.

Celso Rocha de Barros - Antipetistas devem votar em Bolsonaro?

Folha de S. Paulo

Se os antipetistas bancarem Bolsonaro, o farão traindo seus melhores argumentos

O antipetismo tem suas razões, mas nenhuma delas é razão para votar em Jair Bolsonaro.

Muitas vezes "antipetismo" é só preferência pela direita. Não há nada de errado em ser de direita, mas nessa eleição esse não é um bom argumento para votar contra o PT. Depois que Bolsonaro transformou a eleição em plebiscito sobre o golpe, toda a elite dos economistas liberais brasileiros já declarou voto em Lula.

O antipetismo é mais comum na direita, mas se manifesta também no centro e até na esquerda. Em geral, trata-se de uma aversão aos escândalos de corrupção que ocorreram durante os governos do PT, ou ao apoio do PT a ditadores de esquerda como Nicolás Maduro.

O apoio a Maduro é mesmo indefensável. É o equivalente do apoio de Margaret Thatcher a Pinochet, uma afirmação de preferências ideológicas em detrimento dos valores democráticos. Se você não votar no PT contra, digamos, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer ou João Amoêdo por esse motivo, é seu direito legítimo.

Marcus André Melo* - Orçamento secreto e crédito político

Folha de S. Paulo

A lógica política das transferências discricionárias do governo federal

O chamado orçamento secreto suscita questões. Por que surgiu? O que é novo no padrão orçamentário? Quem se beneficia? Quem captura o crédito político? Qual sua relação com a corrupção? A mudança no padrão deu-se no bojo da transformação radical do governo Bolsonaro. A rejeição do presidencialismo de coalizão deu lugar à formação de alianças com o centrão. O Leitmotiv foi a necessidade de um escudo Legislativo contra o risco de impeachment e os impasses na aprovação de agenda.

O Executivo delegou a barganha em torno da parcela discricionária do orçamento às lideranças partidárias da coalizão. Antes, cabia a Casa Civil junto com os ministérios: a barganha era intra-ministerial em uma lógica partidária de distribuição de pastas.

Ana Cristina Rosa - O Brasil e o Mito da Caverna

Folha de S. Paulo

Metáfora criada pelo filósofo grego pode ser entendida como uma crítica a quem aceita tudo

Parte significativa da sociedade brasileira parece ter sido capturada pelo obscurantismo de maneira que a indolência tem conseguido se sobrepor à busca pela verdade. Por mais aterrorizantes, contundentes e ameaçadores que sejam os fatos e as declarações, na maioria das vezes a retórica e a apatia têm prevalecido diante de versões e desmentidos que não se sustentam nem se justificam.

Coisa que lembra —e reveste de atualidade perturbadora— um dos textos filosóficos mais conhecidos da humanidade: O Mito da Caverna ou a Caverna de Platão. A metáfora criada pelo filósofo grego pode ser entendida como uma crítica a quem aceita tudo o que é posto pelo grupo dominante sem questionar a realidade. A filosofia, segundo autores clássicos, é o "amor pela sabedoria, experimentado apenas pelo ser humano consciente de sua própria ignorância".

Fernando Gabeira - Os subterrâneos da campanha

O Globo

Não é a primeira vez que Damares é acusada de fake news

Analisar uma campanha política implica trabalhar muitas variáveis: pesquisas, ação de candidatos, arco de alianças e redes sociais, estas não apenas para definir a popularidade, mas para seguir as grandes lendas que propagam.

O trabalho de análise das redes sociais é mais difícil, não só pela sua extensão, como também pelos instrumentos que definem sua eficácia. Às vezes, tento colocar a seguinte pergunta: o que dizem essas notícias escandalosas sobre o estado mental de um país?

Compreendo que essa expressão é muito vaga, seria quase como perseguir algo que a antropologia descarta com razão: o caráter nacional.

Já escrevi um artigo sobre a importância do diabo não só na campanha, como na cultura . Satanás continua sendo um personagem dominante nas lendas que circulam nas redes. Num país muito religioso, é natural que isso aconteça.

Demétrio Magnoli - Política externa fora da lei

O Globo

Crimes de guerra — assim Josep Borrell, o diplomata-chefe da União Europeia, classificou a chuva de mísseis russos lançada sobre cidades e infraestruturas civis ucranianas. Simultaneamente, na Assembleia Geral das Nações Unidas, uma larga maioria aprovava resolução condenando as anexações russas (143 contra cinco, com 35 abstenções). O Brasil, que escolheu a abstenção diante de texto similar apresentado ao Conselho de Segurança, acabou votando favoravelmente. Entre a incoerência e a vergonha absoluta, o governo Bolsonaro escolheu a primeira.

Será o fim da cínica “neutralidade” mantida ao longo de mais de sete meses? Improvável. Sob Bolsonaro, nem mesmo crimes de guerra em série convenceram o Brasil a apoiar, ainda que verbalmente, as sanções contra a Rússia e a assistência financeira e militar à Ucrânia. A “solidariedade” prometida a Vladimir Putin expressa-se na prática, sob a forma de oposição às iniciativas concretas destinadas a proteger a nação invadida.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões 

Condenável atuação do Estado contra institutos de pesquisa

Valor Econômico

Deve-se ficar atento a sinais de que o Estado possa estar sendo empregado para intimidar um setor econômico

Assistiu-se na semana passada, a poucos dias do segundo turno, a mais uma tentativa de usurpação de uma instituição de Estado. O alvo da vez foi o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão cujo bom funcionamento é fundamental para qualquer país que vislumbre ser chamado, legítima e inquestionavelmente, de “economia de mercado”.

São claras as atribuições do Cade. E todas elas estão definidas em lei ou no regimento interno da autarquia.

Em caso de dúvida, é possível encontrar com facilidade um resumo delas no site da própria instituição na internet.

O conselho age, por exemplo, de forma preventiva. Ou seja: analisa e depois decide sobre fusões, aquisições de controle, incorporações e demais atos de concentração econômica entre grandes empresas. Neste caso, o objetivo é evitar iniciativas que possam colocar em risco a livre concorrência.

Ele pode atuar, também, de forma repressiva: investigar e julgar cartéis e outras condutas lesivas à livre concorrência. Noutra frente, tem função educativa - em outras palavras, trabalha pela instrução da sociedade a respeito das condutas que possam prejudicar a livre concorrência, incentiva estudos acadêmicos e edita publicações ou cartilhas.

Poesia | Capinan - Te esperei ( Voz do autor, com violão de Gerado Azevedo)

 

Música | Roberta Sá - Sem Avisar (com Dilo Paulo e Lenna Siqueira)

 

domingo, 16 de outubro de 2022

Luiz Sérgio Henriques* - O espírito dos navegadores

O Estado de S. Paulo

Há evidente mal-estar nas democracias e, com a perda do centro, os sistemas políticos e a própria vida social parecem à deriva – e em mar aberto.

Efeitos de perda de referência política – de descentramento – estão à mostra por toda parte, comprovando que este não é um tempo de cabotagem, quando se pode navegar olhando para a costa e consultando os mapas de sempre. O fenômeno, espantoso à primeira vista, atinge realidades diferentes, mas emblemáticas, como Suécia, Itália ou Estados Unidos, e obviamente não nos poupa. Sua generalidade requer algum tipo de explicação para além das particularidades de cada caso. É que há um evidente mal-estar nas democracias e, com a perda do centro, os sistemas políticos e a própria vida social parecem à deriva – e em mar aberto.

Situação arriscada, como se sabe, e propiciadora de excentricidades e patologias. Não por acaso, retorna o paralelo com tragédias que aconteceram há cem anos, com a irrupção dos totalitarismos e a desconfiança quase universal que rodeava as poucas e frágeis democracias de então. Algumas experiências social-democráticas engatinhavam em âmbito nacional restrito, antes de se espalharem no segundo pós-guerra, especialmente na Europa Ocidental. E nos Estados Unidos as reformas do New Deal começavam a redesenhar o capitalismo depois da catastrófica depressão que aparentemente decretara o colapso daquele tipo de sociedade.

Processos, todos eles, lentos e contraditórios, à moda das revoluções passivas, mas de sinal positivo. Neles, ao fim e ao cabo, a mudança abria brechas significativas no muro do passado e as sociedades abertas se projetavam à frente, mais além do horror nazifascista e da distopia stalinista. Foi um movimento tão forte que durou por décadas a fio, parecendo domesticar os instintos animais dos mercados, até que o economicismo bruto das políticas de Reagan e Thatcher lançasse ao mar como carga inútil o compromisso alcançado. E não por coincidência os projetos iniciais do presidente Joe Biden aludiram explicitamente a Roosevelt, tentando recuperar a audácia reformista do ícone democrata por excelência.

Celso Lafer* - A agenda de Bobbio e o momento brasileiro

O Estado de S. Paulo

A temperança se contrapõe à violência. É a virtude que se exige para conter a onipresença atual doânimo dos extremos.

É relevante a ressonância da obra de Bobbio entre nós. Amplamente acessível em português, ocupa espaço próprio na lúcida clarificação da Política e do Direito. Conjuga-se com o papel de Bobbio, que transcende a Itália, de intelectual público voltado para a afirmação da democracia, dos direitos humanos e da paz.

Acaba de ser publicada a edição brasileira de Norberto Bobbio – uma biografia cultural, de Mario Losano, eminente professor emérito italiano de Filosofia e Direito. São características de Losano o admirável escrúpulo da pesquisa e a medida no julgar e apreciar a complexidade das coisas. Foi o que norteou a elaboração desta biografia cultural na qual traçou com precisão cartográfica o mapa de sua abrangente obra e os significativos caminhos de sua vida.

Instigado pelo livro de Losano e pela minha conhecida dedicação a Bobbio, vou elencar alguns dos temas recorrentes de sua agenda que são um pano de fundo relevante para o Brasil nesta antevéspera de segundo turno das eleições presidenciais. Começo pelo fascismo.

Cristovam Buarque* - Eleitores x Povo

Blog do Noblat / Metrópoles

Um busca voto pela solidariedade com quem passa fome, o outro propõe vingança contra criminosos

O jornal Correio Braziliense de ontem, 14 de outubro, trouxe na primeira página, fotos dos dois candidatos à Presidência da República. Embaixo do Lula, a manchete “Promessa de combate à fome”, embaixo do Bolsonaro, a manchete “Pela redução da maioridade penal”. Estas duas posturas demonstram a diferença moral entre as propostas dos dois candidatos: o primeiro, preocupado com o povo, especialmente sua parcela pobre; o segundo, sua preocupação com o eleitor que se sente ameaçado pela violência e a impunidade de menores de idade. O primeiro busca voto pela solidariedade com quem passa fome, o segundo propõe vingança contra criminosos.

Só no dia 30 vamos saber o efeito destes comportamentos e suas bandeiras eleitorais. Mas já é possível perceber o dilema das forças progressistas, antes chamadas de esquerda, entre defender as propostas que interessam ao povo, no seu conjunto e longo prazo, ou falar para o eleitor e seu interesse específico do momento.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Votar para valer, não para ficar em paz com os próprios botões

Voto nulo é um voto legítimo, em qualquer situação. Mesmo em momentos de alto perigo, como esse que atravessamos, ninguém pode ser censurado moralmente por não se sentir à vontade com o cardápio que lhe foi oferecido nesta eleição, primeiro pelos partidos, depois pela maioria de eleitores que decidiu quem disputará o segundo turno. O direito à dieta eleitoral faz parte da democracia.

Posto isso, quero conversar com quem quer fazer dieta nessa eleição por rejeitar igualmente Lula e Bolsonaro. E com quem está admitindo votar em Bolsonaro tapando o nariz. É conversa política, democrática, de igual pra igual, não conversa moralista ou professoral. Sou brasileiro tanto quanto quem quer votar nulo ou de nariz tapado e não sou mais sábio ou mais ético do que quem fazer dieta.

A democracia precisa do seu voto válido em Lula. Ela - não Lula - é o endereço de um voto político nessa hora difícil. Sei que através de votos válidos em Lula é ele e não outra a pessoa que governará. E que o seu partido, o PT, terá papel importante no governo. Papel maior ou menor, a depender do tamanho da frente que apoiar o candidato. Como ela ficou ampla, temos razões para pensar que o PT não poderá, mesmo que queira, governar sozinho. E seja como for, numa democracia nada obriga quem votou num candidato a apoiar seu governo depois. A oposição é livre e necessária na democracia. O voto que defendo não é ideológico, nem de facção. No dia 30 vamos votar também pelo direito a haver oposição.

Merval Pereira - A guerra das rejeições

O Globo

Nunca uma eleição teve nível tão baixo, com agressões dos dois candidatos na tentativa de aumentar a rejeição do adversário

O debate de hoje entre Bolsonaro e Lula na Band, o primeiro cara a cara somente entre os dois candidatos, pode deslindar a incógnita que nos consome nessa campanha eleitoral, tão curta e que parece não terminar nunca. O que pode acontecer de novo para fazer com que a eleição se esclareça?

Nunca uma eleição nos tempos recentes teve uma campanha de rádio e televisão de tão baixo nível, mesmo se levarmos em conta que o então candidato Collor foi pioneiro em introduzir o aborto como tema político. Assim como o aborto, outros temas que nada têm a ver com nossos problemas imediatos, como satanismo e pedofilia, entraram na luta pelo aumento da rejeição dos candidatos.

Agora mesmo, uma declaração do presidente Bolsonaro está provocando reações indignadas. Relata ele em vídeo que, estando em uma periferia pobre de Brasília, viu meninas de uns 13, 14 anos “bonitinhas, arrumadinhas", e, segundo seu relato, “pintou um clima”. Pediu para ir à casa delas e constatou que lá estavam diversas outras crianças, todas venezuelanas, também arrumadinhas, para “ganhar a vida”.

Elio Gaspari - Os debates elegerão o presidente

O Globo

Estima-se que 17 milhões de eleitores poderão decidir seu voto na última semana. Disso resulta que o desempenho de Lula e Bolsonaro nos debates será decisivo.

Os estrategistas dos candidatos dizem que nas cartucheiras não há balas de prata. Tudo bem, mas se as tivessem, não avisariam.

Seja qual for a opinião que eleitores têm de Lula ou de Bolsonaro, as candidaturas estão demarcadas com uma clareza nunca vista. Ambos governaram o país e mostraram a que vieram.

O mínimo que se pede a ambos é que apareçam nos debates sem o espírito dos ringues de MMA.

Até hoje nenhum dos dois apresentou ideias ou projetos para um país que está andando de lado há quase uma década, com nove milhões de desempregados. O comissariado petista zanga-se quando Lula é cobrado por clareza nessa questão. Já o entorno de Bolsonaro oferece um tênue sinal de que, se Paulo Guedes quiser, irá embora. Ele não há de querer, mas se isso acontecer, coisa melhor não virá.

A falta de ideias embaralhou a disputa de tal forma que Bolsonaro acusa Lula de ter na Venezuela um farol, mas, olhando-se para os últimos meses de seu governo, ele ficou parecido com o finado Hugo Chávez. Noves fora sua cooptação de militares e PMs, basta lembrar sua generosidade fiscal, bem como a agressividade com que desafia o Judiciário.

Uma boa ideia seria pedir aos dois candidatos que, durante um debate, assinem compromissos de não mexer na estrutura e na competência do Supremo Tribunal Federal.

Míriam Leitão - O real no meio das dissonâncias

O Globo

O ultradireitismo é fabricado por Bolsonaro com falsas questões, e a economia melhora, porém não há alivio para os mais pobres do país

Há duas teses circulando: o brasileiro é mais conservador do que se imaginava e a economia está melhorando, o que levará a mais votos para Bolsonaro. Será? Minha convicção é que há um ultraconservadorismo fabricado pela extrema-direita que sempre cresceu inventando falsas questões. A economia tem sim indicadores melhores, mas a sensação de conforto econômico não é uniforme nem disseminada. A maioria dos eleitores de Lula e de Bolsonaro é contra a liberação do aborto e contra a facilidade na compra de armas, segundo a última pesquisa Quaest, e isso mostra que há menos diferença entre eles do que se imagina.

O brasileiro pode não ser majoritariamente liberal no comportamento, mas essa não é uma agenda pela qual ele estaria disposto a hipotecar o futuro do país e romper laços familiares, se não fosse a manipulação a que está submetido pelo governo Bolsonaro. É parte do jogo da extrema-direita criar falsos conflitos para mobilizar multidões. E isso se faz criando uma grande mentira e repetindo-a insistentemente. Por exemplo, a de que o adversário político teria um plano de, nas escolas, impor a sexualização precoce às crianças e induzi-las à troca de gênero. Chamaram a isso “ideologia de gênero” e criaram a mentira do “kit gay”. Isso foi parte da vitória de 2018 e foi reativada agora para socorrer o candidato que está perdendo as eleições. No QAnon americano foi criada a visão conspiratória de que os adversários de Trump faziam parte de uma organização de pedófilos. É isso que Damares tenta repetir aqui. É mentira criminosa para ter efeitos eleitorais.

Luiz Carlos Azedo - A “alma imoral” das mulheres rejeita o machismo de Bolsonaro

Correio Braziliense

A moralidade é oposta às forças transgressoras da alma, que vive do que a sociedade reconhece como imoral, diz o rabino. Em todas as famílias, a mulher ou a filha votam com a alma, em quem quiser

Simone Lucie-Ernestine-Marie-Bertrand de Beauvoir (1908-1986), como seu próprio nome sugere, nasceu em berço de ouro, foi educada por professores particulares e estudou filosofia na Sorbonne, onde conheceu o filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980), seu companheiro, com quem foi sepultada seis anos após a morte do “marido”. Viveram juntos, mas nunca se casaram. Considerada a “mãe do moderno movimento das mulheres”, quando escreveu O Segundo sexo, sua obra seminal, não se via como feminista. Sua motivação foi responder à pergunta “O que é uma mulher?”.

A primeira onda do feminismo foi a luta pelo sufrágio universal, desde o final do século XIX, porque as mulheres não tinham o direito de votar; a segunda, foi a luta contra a discriminação no lar, no trabalho e os preconceitos, que não podiam ser alterados apenas pela letra da lei. Simone de Beauvoir elevou o movimento feminista, do qual não fazia parte, a um novo patamar na década de 1960, ao trazer ao debate questões subjetivas que estavam associadas ao existencialismo. Ela diferenciava o ser fêmea do ser mulher.

Eliane Cantanhêde - Um passa, mas o outro vem para ficar

O Estado de S. Paulo

Lula é o passado que projeta um futuro melhor; Bolsonaro é um futuro que traz de volta o pior do passado

Lula é passado e Bolsonaro é futuro, certo? Depende... O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva traz a biografia de retirante nordestino e de líder sindical na ditadura, mais as credenciais de seus dois mandatos, e quer abrir horizontes, juntar os cacos dos vários desmanches do atual governo e construir um projeto, não só do PT, mas de transição.

Já o presidente Jair Bolsonaro carrega o fardo de ter sido um “mau militar’, como dizia o general Ernesto Geisel, e um político do baixo clero, como todo mundo sabe, para aprofundar os desmanches, moldar as instituições e edificar um projeto autoritário de 20 anos.

Beirando os 80 anos de idade e sem futuro na política, Lula não tem (ou não deveria ter) planos de reeleição e precisa consolidar um amplo leque de forças políticas, preparar-se para passar o bastão e enfrentar o desafio de identificar lideranças para além do PT e bem diferentes de Dilma Rousseff, José Dirceu e Antônio Palocci.

Antonio Corrêa de Lacerda* - Desafios e estratégias para o Brasil

O Estado de S. Paulo 

Sob o ponto de vista da política econômica, superar nossas mazelas implicará uma profunda mudança de rumos

A semiestagnação do crescimento econômico e o baixo nível de investimentos no Brasil geraram um passivo social imenso: 24,3 milhões de brasileiros estão fora do mercado de trabalho (subutilizados), o que corresponde a cerca de um quarto da população economicamente ativa; enquanto 125,2 milhões de pessoas convivem com algum grau de insegurança alimentar e outros 33 milhões passam fome diariamente.

A elevação do custo de vida e a deterioração fiscal também são aspectos importantes. Sob o ponto de vista da política econômica, superar nossas mazelas implicará uma profunda mudança de rumos. Os desafios da pandemia de covid-19, os reflexos da guerra entre Rússia e Ucrânia, com nova configuração geopolítica e implicações para as cadeias internacionais de suprimentos, representam também oportunidades.

Bernardo Mello Franco - A tática da guerra santa

O Globo

Sem argumentos para defender seu governo, presidente recorre a terrorismo religioso

O relato foi feito num templo da Assembleia de Deus em Goiânia. “Vou contar uma coisa para vocês que agora eu posso falar”, disse a pastora, com ar compungido. “Temos imagens de crianças nossas, brasileiras, com 4 e 3 anos”, prosseguiu. “Quando cruzam as fronteiras, sequestradas, os seus dentinhos são arrancados para elas não morderem na hora do sexo oral”.

Damares Alves acrescentou outros detalhes cruéis ao testemunho, que envolveria menores da Ilha de Marajó. Em poucos dias, soube-se que a história não parava em pé. O Ministério Público, que combate a exploração de menores na região, informou que nunca soube de práticas parecidas. A polícia do Pará também disse ignorar as denúncias da senadora eleita.

Dorrit Hazarim - Alegria, ódio, medo

O Globo

A campanha por um Brasil mais democrático tem veio alegre, a do adversário tem o peso de uma cruzada messiânica

Um presidente da República em busca da reeleição, que precisa do socorro de um coach preferencialmente amoral, sinaliza o quê? Seu estado de pavor das urnas. Todas as pesquisas de opinião que Jair Bolsonaro gostaria de excomungar teimam em apontá-lo como provável/possível derrotado no segundo turno. Daí o recurso emergencial. Foi com semblante bastante desgrenhado que ele participou de uma live em que havia uma segunda estrela. Era Pablo Marçal, o deputado federal do PROS que obteve quase 250 mil votos no primeiro turno. Apresentado pelo presidente como seu coach particular, Marçal elencou uma série de instruções dirigidas a influenciadores e devotos, a ser seguidas até a reta final. Alguns trechos do que não deveria ter ido ao ar acabaram vazando.

Primeiro, o recurso ao medo de quem tem o que esconder:

—As pessoas vão bater em todos que se levantarem para defender o presidente. Vai ser um por um. Vão revirar a vida de todo mundo... — alertou o coach.

Marçal também engatou numa inevitável menção ao perigo de um apocalipse:

—Vocês estão sendo convocados por mim... É convocação. Pra gente um dia não precisar pegar em arma, pra um dia a gente não ficar louco, pra querer o país de volta...

E para a eventualidade de algum agitador bolsonarista alimentar resquícios de pruridos, garantiu absolvição prévia:

—Este não é o momento para ficar olhando para moral... Não é melhor nesses próximos 15 dias todo mundo suspender a própria reputação para defender esta nação? Colocar sua reputação um pouquinho de lado?

Vinicius Torres Freire - O desânimo dos bolsonarista

Folha de S. Paulo

Eleitor do presidente tem menos expectativa de que sua vida melhore sob Bolsonaro 2

Na eleição de 2018, Jair Bolsonaro, ora no PL, venceu Fernando Haddad (PT) por 55,1% a 44,9% dos votos válidos do segundo turno. A pesquisa Datafolha da véspera da votação daquele ano dava 55,7% dos votos para Bolsonaro e 44,3% para Haddad.

"Se a eleição fosse hoje", quais seriam as diferenças importantes entre o Datafolha desta semana e o da véspera da votação de 2018? A divergência de voto de maior relevo e até agora menos notada é a dos homens. A mudança das escolhas de quem fez até o ensino médio, dos moradores do Sudeste e, claro, dos mais pobres importa também.

Antes de continuar: não, a pesquisa divulgada nesta sexta-feira NÃO É UM PROGNÓSTICO do que vai acontecer na véspera do segundo turno deste ano ou na urna. Trata-se aqui apenas de indicar diferenças notáveis entre a pesquisa do voto à beira do segundo turno de 2018 e as intenções de voto desta semana.

Bruno Boghossian - Terrorismo eleitoral nas fábricas

Folha de S. Paulo

Bolsonarismo nunca escondeu que encara as relações de trabalho como uma arma política

Na campanha de 2018, Jair Bolsonaro fez um giro por associações empresariais e prometeu que os patrões teriam um governo amigável. Nesses eventos, ele disse que os trabalhadores deveriam fazer uma escolha: preservar seus direitos e enfrentar o desemprego ou aceitar menos direitos para manter o emprego.

O bolsonarismo nunca escondeu que encara as relações de trabalho como uma arma política. Segundo essa filosofia, a ameaça de fechamento de vagas (de forma velada ou explícita) pode ser usada tanto para reduzir os mecanismos de proteção aos empregados como para conseguir votos na eleição.

Janio de Freitas - O ataque de mudez

Folha de S Paulo

Ministério da Defesa deve aos eleitores conclusão sobre o sistema eleitoral

Desde que adotou como ministro o general e hoje político Braga Netto, em 2021, o Ministério da Defesa se coloca, ora como retaguarda, ora como parte ativa na desestabilização geral provocada por Bolsonaro. É o oposto da função que lhe cabe e da atribuída às Forças que deve coordenar. A impressão que oferece é a de um ministério de ação política, não política do Estado e nem mesmo de governo, mas de uma facção prisioneira de pré-ideias caóticas e propósitos retrógrados.

Vem dessa contingência a recusa silenciosa do Ministério da Defesa a tornar pública sua conclusão sobre a lisura ou deformação eleitoral. Dois motivos básicos, entre outros, tornam a providência um dever e mesmo um requisito de moralidade.

Um, é o fato sem precedente de que a Defesa assumiu a frente do ataque ao sistema de votação e apuração eleitoral. A Justiça Eleitoral ficou sob suspeitas oficiais e institucionais. O outro motivo é a dívida com a dignidade do país diante do mundo e com o direito de 156 milhões de eleitores. A Defesa deve-lhes conclusão e clareza sobre o sistema eleitoral acusado e investigado: questionada de fato pelas suspeitas foi a legitimidade dos poderes institucionais eleitos.