No princípio, os Yanomami viviam e não
morriam, mas não tinham fogo para cozinhar e comiam comida crua ou apodrecida.
Mas eis que um dia descobriram que um deles, em forma de Jacaré, detinha o fogo
e o usava escondido dos outros e quando voltava à aldeia guardava-o em sua
bocarra. Aí os Yanomami fizeram tanta graça que o Jacaré abriu a bocarra para
rir e subitamente lhes subtraíram o fogo. Com o controle do fogo, perderam a
imortalidade, tornaram-se mortais.
Em outras palavras, o preço que se paga por
qualquer vantagem ou vitória na vida é necessariamente grande. É uma
interpretação moral, mas há outras à escolha.
Por longos anos, como se o tempo não mudasse,
os Yanomami viviam como se estivessem sós no mundo. Outros povos indígenas que
viviam ao seu redor, nos tempos coloniais, mal os viam e raramente se engajavam
em disputas ou em trocas de bens com eles. Os Yanomami mal sabiam do mundo dos
brancos, nenhum deles tinha ido a um simples vilarejo de mestiços. Tanto que os
Yanomami têm só uma palavra para significar qualquer pessoa que não é Yanomami,
seja índio, seja mestiço, seja branco, seja inimigo – nabë. Pode ser que num
passado mais remoto, ao tempo da colonização ou antes, houvesse mais
relacionamento, belicoso e pacífico, dos Yanomami com outros povos indígenas, mas já pelo século XX, quando
começaram a ser conhecidos vagamente por viajantes, caucheiros e balateiros
que, individualmente ou em pequenos
grupos, penetravam seu território, já não havia mais entrelaçamento
entre eles e outros povos indígenas. Praticamente todos, menos os Ye’kuana, que
fala uma língua Karib, haviam desaparecido. A própria língua Yanomami, em suas
três ou quatro variações dialetais, mudou tanto, se afastou tanto de outras
línguas matrizes que, hoje em dia, os linguistas não sabem precisar a qual
família linguística ela pertence. Seria sua língua talvez longinquamente do tronco
Karib? Nada.