sexta-feira, 8 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não há alternativa à dependência de fertilizantes russos

O Globo

Investida tarifária de Trump para pressionar Putin expõe lado vulnerável do agronegócio brasileiro

As tarifas de 50% impostas por Donald Trump sobre produtos indianos acenderam um alerta no Brasil. Trump impôs a sobretaxa como forma de pressão para a Índia parar de comprar petróleo da Rússia. Dado o caráter mercurial da política tarifária americana, o receio é que, na tentativa de asfixiar a economia russa para forçar Vladimir Putin a assinar a paz com a Ucrânia, Trump mais uma vez volte os olhos ao Brasil. Estamos expostos em dois setores: transporte e agropecuária. Três em 10 litros de óleo diesel vendidos aqui são importados (a Rússia responde por 60%). Nos fertilizantes químicos, matéria-prima do agronegócio, a dependência é crítica: o Brasil importa 90%, tendo a Rússia como maior fornecedor, com 30%.

Com o estouro da guerra na Ucrânia em 2022, os russos foram alvo de sanções e passaram a vender diesel e petróleo com desconto. Importadores brasileiros não foram os únicos a aproveitar. Se Trump impuser restrições ao diesel russo, não faltam fornecedores alternativos. “O risco de desabastecimento no Brasil é próximo de zero”, diz o consultor de energia Adriano Pires. O maior problema será o custo alto e o impacto inexorável na inflação de um país onde o transporte rodoviário predomina.

A questão mais preocupante são os fertilizantes. A demanda brasileira tem crescido acima da global. A Rússia é um dos dois maiores produtores, e há poucos fornecedores alternativos. No curto prazo, uma saída seria importar mais de China, Canadá, Marrocos ou Egito. Mas, num momento em que outros países serão forçados a fazer o mesmo, haverá escassez e preços altos. O próprio agronegócio americano está preocupado. Quase metade do nitrato de ureia e amônio usado nos Estados Unidos vem da Rússia. No ano passado, o país importou mais fertilizantes russos que antes da guerra na Ucrânia.

A produção de fertilizantes exige uso intensivo de energia. Além de contar com reservas minerais, os russos têm gás barato para queimar. No curto e no médio prazos, não há saída: não só o Brasil, mas o mundo todo depende da Rússia para produzir alimentos. Mesmo que o Brasil explorasse o potássio que tem (em áreas de risco ambiental), dificilmente seria autossuficiente no médio prazo (foi esse, vale lembrar, o argumento usado pelo governo Jair Bolsonaro para fazer acenos a Putin quando o conflito eclodiu na Ucrânia). Para fábricas de fertilizantes se tornarem viáveis, o preço do gás teria de cair à metade. “Para diminuir a dependência, só com subsídio”, diz José Carlos Hausknecht, sócio da MB Agro Consultoria. “Mas até isso é difícil. Que empresa privada poria bilhões numa fábrica se a sobrevivência do negócio depende de vários governos honrarem o compromisso de manter gás barato?”

O governo até tem tentado incentivar o setor. A Petrobras anunciou investimentos de R$ 6 bilhões no segmento até o fim da década, e uma de suas subsidiárias deu o primeiro passo para retomar a produção de fertilizantes. Mas ainda são iniciativas tímidas.

Em três das quatro principais classes de fertilizantes, o Brasil depende de importações para suprir 90% da demanda. Não seria problema se o mundo não estivesse sujeito ao temperamento volátil de Trump. Não haverá solução rápida nem fácil, mas a relevância estratégica do agronegócio exige uma política consistente para fertilizantes. Tal desafio está claro desde o início da guerra na Ucrânia. A volta de Trump o torna mais urgente.

Lula pode perder o discurso e timing - Vera Magalhães

O Globo

Atraso no pacote de alívio a exportadores permite a governadores tentar emplacar narrativa falsa de que medidas são culpa do governo, e não de Trump e da família Bolsonaro

Uma situação inédita e desprovida de racionalidade, como o tarifaço enfiado goela abaixo do Brasil por Donald Trump, testa a acurácia, a capacidade de reação e o timing político do governo federal. Estes quase três anos de Lula 3 não têm sido pródigos em bons exemplos de todos esses atributos, que ameaçam falhar de novo numa hora crucial.

Depois de prometer uma resposta imediata e à altura da agressão, o governo patina e demora em anunciar o pacote em sua totalidade, algo essencial aos setores perdidos diante da falta de canais claros com que negociar situações que, em muitos casos, significam manter ou fechar negócios que geram empregos e sustentam famílias em todo o país.

O sequestro do Congresso - Bernardo Mello Franco

O Globo

Para salvar ex-presidente, extrema direita quer forçar guerra entre Legislativo e Judiciário

Os bolsonaristas realizaram por 30 horas o sonho de fechar o Congresso. Na manhã de terça, parlamentares de extrema direita se entrincheiraram nos plenários da Câmara e do Senado. Foi um motim contra a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, decretada na véspera pelo ministro Alexandre de Moraes.

A rebelião evoluiu para um sequestro do Parlamento. Os amotinados avisaram que só permitiriam a retomada dos trabalhos mediante três exigências: anistia aos golpistas, fim do foro especial e impeachment do ministro Moraes.

Porta-voz dos sequestradores, Flávio Bolsonaro apresentou a pauta como “pacote da paz”. Na verdade, o senador quer empurrar o Legislativo para uma guerra contra o Judiciário. Tudo em nome da impunidade do pai.

Cortina de fumaça - Pablo Ortellado

O Globo

Verdades objetivas desaparecem — até para os atores que provocaram o encobrimento

É um pouco angustiante acompanhar a evolução do entendimento dos conservadores sobre as movimentações antidemocráticas de 2022 e 2023. No começo, vemos algum estranhamento e mal-estar com os acampamentos em frente aos quartéis. Em 2023, o quebra-quebra do 8 de Janeiro é tão rejeitado que a principal explicação para ele era tratar-se de uma armadilha desenhada pela esquerda. A própria existência dos planos golpistas é inicialmente negada, de tão abjeta. Mas, aos poucos, uma cortina de fumaça vai sendo lançada, e as verdades objetivas desaparecem — até para os atores que provocaram o encobrimento.

Intervenção da Embaixada dos EUA exuma velhos fantasmas de golpes - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O gesto diplomático dos EUA pode ser lido como tentativa de pressionar o Supremo e isolar Alexandre de Moraes, cujo desgaste não se restringe aos aliados de Bolsonaro

A nota divulgada pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, ontem, alertando aliados do ministro Alexandre de Moraes no Judiciário e em “outras esferas” para que não apoiem ou facilitem sua conduta, reacende memórias da história latino-americana que nos remetem aos golpes de Estado que destituíram os presidentes João Goulart, no Brasil, em 1964, e Salvador Allende, no Chile, em 1973. Ambos eram líderes de esquerda, como os atuais presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Gabriel Boric.

Embora revestida de linguagem diplomática, a mensagem no X (antigo Twitter) chama Moraes de “arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores”. O texto ainda ameaçou outras autoridades: seus flagrantes violações de direitos humanos resultaram em sanções pela Lei Magnitsky, determinadas pelo presidente Donald Trump. Os aliados do ministro no Judiciário e em outras esferas estão avisados para não apoiar nem facilitar a conduta de Moraes. “Estamos monitorando a situação de perto”, escreveu a Embaixada.

O brasileiro de fabricação ideológica - José de Souza Martins*

Valor Econômico

Já não somos um país verde e amarelo, apenas amarelo, com a camisa da seleção brasileira, bolsonorizada. Torcemos pelo time, mas não pela pátria

Não basta nascer no Brasil para ser brasileiro. Aos poucos, vamos sendo outra coisa que ainda não sabemos o que exatamente é. Cada vez mais, muitos nascidos no Brasil gostariam de ter nascido em outro país. As demonstrações nesse sentido avolumam-se. Agora mesmo, nas manifestações direitistas e antipatrióticas na avenida Paulista, em favor de réus de crimes políticos contra o Brasil, muita gente abraçada à bandeira americana, a aplaudir Trump, o presidente americano que nos vê como fundo de seu quintal.

Já não somos um país verde e amarelo, apenas amarelo, com a camisa da seleção brasileira, bolsonarizada. A esfera azul é hoje uma bola de futebol. Torcemos pelo time, mas não pela pátria. Um traidor da pátria anexou-se ao quintal da Casa Branca e conspira contra a economia brasileira e contra as instituições brasileiras.

Contornos da nova ideologia econômica - Armando Castelar Pinheiro

Valor Econômico

É preciso ter um plano de ação. Ficar concentrado na polarização política não vai levar a isso

Esta semana entraram em vigor as novas tarifas sobre importações dos EUA, aí incluídas as aplicadas às compras de produtos brasileiros. Trata-se de uma mudança não trivial na política comercial americana e, de forma mais ampla, no comércio internacional. De acordo com o Budget Lab da Universidade de Yale, a tarifa média americana subiu de 2,42% em 2024, e de uma média de 2,5% em 1975-2024, para 17,35%, a mais alta taxa em 90 anos. No caso do Brasil, se calcula que a tarifa média é quase o dobro disso: 33%. E há mais por vir, com o presidente americano já prometendo para este mês tarifas sobre semicondutores e produtos farmacêuticos.

Repercussão negativa da arruaça contém aproximação entre as duas forças - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lula retomou a iniciativa com aprovação do IR e encontro com Gilberto Kassab

No dia seguinte ao “8/1 de paletó”, governistas e oposição delimitaram novas fronteiras. No Senado, a retomada dos trabalhos legislativos foi marcada pela aprovação do projeto de lei que atualiza a tabela do IR e pelo rechaço do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), a incluir o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, que conseguiu 41 assinaturas, na pauta de votação.

Na Câmara, que registrou o arrependimento público dos arruaceiros, o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou que pautará, sim, a anistia, se assim for decidido pelo colégio de líderes. Diante de situações semelhantes, os dois presidentes de mesas assumiram posturas diferentes em dois temas polêmicos. Motta negou, no entanto, que o compromisso de pautar o projeto tenha derivado de um acordo feito na noite de quarta-feira para que ele pudesse sentar-se na cadeira do presidente da Casa, tomada pelos bolsonaristas.

Aliança entre Centrão e bolsonarismo, pode selar destino de Motta - César Felício

Valor Econômico

Presidente da Câmara não foi o condutor das negociações, ou não aparece como tal; papel de Arthur Lira foi fundamental

As versões sobre o acordo que fez a tropa de choque baixar a guarda e a Câmara e o Senado retomarem seus trabalhos mudaram a cada três horas, em média, na quinta-feira (7) pelos corredores do Congresso, mas convergem em dois pontos: o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) teve um papel central e um confronto do Congresso com o Judiciário se aproxima. A PEC do foro privilegiado ganhará protagonismo.

A PEC do foro privilegiado poderá ser vendida para o público externo como o fim de privilégios, a igualdade de todos perante a lei, com ônus de detentores ou ex-detentores de mandatos eletivos serem julgados por instâncias inferiores do Judiciário e o bônus de contar com a múltipla jurisdição. Mas essa embalagem é fina e relativamente transparente: o objetivo real será a blindagem total de deputados e senadores.

Tudo o que seu mestre mandar – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Do que PL e bolsonaristas serão capazes quando, e se, Jair Bolsonaro for condenado? Outro 8/1?

Depois que vândalos saíram do entorno do QG do Exército para violar as sedes dos três Poderes, no fatídico 8/1, agora são os vândalos do próprio Congresso que invadem os plenários, tomam de assalto as cadeiras dos presidentes da Câmara e do Senado e horrorizam o País, em cenas deploráveis contra o Parlamento e a democracia. Do que serão capazes quando, e se, Jair Bolsonaro for condenado à prisão definitiva?

O Brasil está sob ataque externo e interno, depois de ter sobrevivido, mais unido e mais forte, a um golpe de Estado que começou a ser articulado ainda nas eleições de 2018 e ganhou corpo no mandato de Bolsonaro, com cooptação de militares, intervenção em instituições, planos, minutas e trocas de mensagens em 2022. Quanto mais perto da eleição, mais o golpe se tornava real, concreto. A democracia, porém, venceu.

O cisne vermelho - Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo

Uma resposta equivocada é dizer que a educação deve se preocupar com as competências, e não mais com o conteúdo

Cisnes negros, na imagem criada por Nassim Taleb (The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable, Random House, 2007), são fenômenos inesperados, como uma crise financeira ou a pandemia de covid-19, que forçam pessoas, empresas e instituições a buscar novos caminhos. Cisnes vermelhos são previsíveis, mas afetam de maneira tão profunda os hábitos e as rotinas que as pessoas preferem fingir que não existem, até que seja tarde demais. É essa a imagem que os irmãos Silvio e Luciano Meira usam para descrever o impacto da inteligência artificial (IA) na educação brasileira, num conciso e importante documento cujo título já diz tudo (Inteligência Artificial na Educação: Ruptura Paradigmática em um Sistema em Crise Crônica, Recife, tds.company, 2025).

“Ruptura paradigmática” é um termo complicado para descrever uma situação em que, daqui por diante, tudo será diferente. Os sistemas educacionais, com suas escolas e universidades, foram criados como instituições destinadas a transmitir conhecimentos, de forma semelhante aos sistemas fabris inventados séculos atrás, em que as pessoas são agrupadas em turmas homogêneas e trabalham para incorporar pacotes de conhecimento organizados por especialidade e nível de dificuldade. O que a inteligência artificial faz é tornar todos esses conteúdos misturados e facilmente acessíveis, de maneira quase imediata e a um custo mínimo para o usuário.

A COP-30 ameaçada de irrelevância - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Desta vez, não se trata de nenhum alarmismo. A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), prevista para novembro, em Belém do Pará, está seriamente ameaçada.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP-30, advertiu que os altos custos de hospedagem tornam o evento proibitivo. O presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, cancelou nesta semana sua participação na conferência em razão dos preços incompatíveis com o orçamento de seu país. Enquanto isso, a rede hoteleira local se recusa a justificar ao Ministério da Justiça o aumento de até dez vezes nos valores das diárias.

O minigolpe no Congresso – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Violência no Parlamento é parte da insurreição permanente que pretende destruir a democracia

Deputados e senadores bolsonaristas e a direita do já direitista Centrão promoveram um minigolpe nesta semana. Ocuparam os plenários de Câmara e Senado a fim de impedir o funcionamento do Congresso, à força, o que foi chamado de modo equivocado de "obstrução".

Obstrução é instrumento legal previsto em regimentos de Parlamentos importantes. O que aconteceu foi violência anticonstitucional, sequestro com o objetivo de chantagear outros parlamentares a fim de colocar em tramitação projetos de anistia de Jair Bolsonaro e de outros golpistas de 2022 e 2023.

Fardas em sala de aula - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se os garotos civis estudam o duque de Caxias, por que jovens militares não aprendem sobre Joaquim Nabuco?

O governador de um importante estado quer transformar 728 das 3.400 unidades de sua rede escolar em "escolas cívico-militares". Com seu salivante servilismo a certos poderosos, sugere plantar homens fardados em sala de aula para aplicar conceitos dúbios como "mediação de conflitos, desenvolvimento de atividades preventivas e promoção de valores como respeito, disciplina e responsabilidade".

É a volta da velha Educação Moral e Cívica, matéria de estimação da ditadura, imposta em 1969 por Costa e Silva e só revogada em 1993, por Itamar Franco. A EMC constava de "aperfeiçoamento do caráter e da moral do aluno", o "culto à pátria e aos seus símbolos, tradições e instituições" e a mesma "promoção de respeito, disciplina e responsabilidade". Se isso lhe soa como "Deus, pátria e família", acenda uma vela para Mussolini e outra para Bolsonaro.

Festa da Selma no Congresso – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O método dos amotinados só será vencido se a maioria os relegarem ao merecido isolamento

arruaça dos amotinados bolsonaristas no Congresso, notadamente na Câmara, não é um episódio que possa ser visto como superado, a despeito da retomada dos trabalhos depois de 30 horas de ensaio de insurreição.

Primeiro, porque a recuperação do controle foi relativa, dada a dificuldade de o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) alcançar sua cadeira na Mesa Diretora, sob cerco cerrado de deputados que, ao fim da sessão, ainda continuavam atrás dele insuflando o plenário aos gritos de "anistia já".

Depois, porque a celebração da violência é um método da ala radical da oposição que, no Parlamento, evocou o ocorrido no acampamento no quartel-general do Exército do qual partiram as hordas para a "festa da Selma", em 8 de janeiro de 2023.

Motim na Câmara era caso de polícia - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Hugo Mota, presidente da Casa, não atuou com o vigor necessário contra bolsonaristas que fazem chantagem parlamentar

Achei o Hugo Motta bem frouxo. A resposta adequada da Presidência da Câmara à tomada da Mesa por parlamentares bolsonaristas teria sido mandar a polícia legislativa retirar os insurrectos do local, recorrendo à força se necessário. Se há alguém que não pode reclamar de autoridades usarem o poder de polícia para fazer cumprir a lei é justamente um deputado bolsonarista —ou estariam legitimadas todas as ações do MST.

Congressistas podem valer-se de todas as medidas regimentais para obstruir trabalhos do Parlamento, mas apenas das regimentais. Não podem impedir fisicamente o presidente da Casa de sentar-se em sua cadeira. Isso não é só jogo feio, é falta mesmo. Motta precisaria remeter os casos dos deputados amotinados ao Conselho de Ética, para decidir se a falta é para cartão vermelho.

Um museu de grandes novidades: Onda da extrema-direita continua - Cláudio Carraly

A ascensão da extrema-direita no Brasil é um fenômeno que se insere em um contexto global de polarização política, evocando paralelos históricos e preocupações quanto à estabilidade democrática. A extrema-direita no Brasil supera o carisma individual de sua maior liderança, Jair Bolsonaro, mesmo com sua inelegibilidade e várias investigações criminais, as ideias e valores que mobilizou permanecem vivos. A atual transição do campo conservador está esmagando o que havia da direita centrista, radicalizando esses grupos e jogando-os para o espectro mais agudo do reacionarismo. Essa onda do chamado neofascismo fez emergir novas lideranças e novas formas de abordagem política, ampliando sua base de apoio e garantindo sua continuidade por ainda bastante tempo.

O enfraquecimento de Bolsonaro não implica o fim desse novo ciclo da extrema-direita. A figura do ex-presidente, antes central, hoje convive com um movimento fragmentado que se reorganiza em torno de agendas comuns, surfando sempre na insatisfação popular difusa, que antes era canalizada pela figura do ex-presidente, agora se pulveriza, permitindo a emergência de líderes regionais e setoriais. Nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Nikolas Ferreira ilustram a diversidade dentro da direita.

Poesia | E agora, José, de Carlos Drummond de Andrade

 

Joyce Cândido e João Bosco - Rancho da Goiabada (João Bosco e Aldir Blanc)

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Encenação no Congresso agride a democracia

O Globo

Parlamentares de oposição prestam desserviço ao país paralisando as sessões em meio à tensão do tarifaço

Na véspera da entrada em vigor do tarifaço de Donald Trump — penalizando o Brasil mais que quase todos os países —, era esperado que o Congresso estivesse empenhado em buscar saídas para atenuar os efeitos negativos. Em vez disso, parlamentares de oposição, revoltados com a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, armaram uma pantomima insólita. Ocuparam as mesas da Câmara e do Senado e, com esparadrapos colados na boca, impediram o início de sessões no plenário.

A obstrução é um dispositivo que faz parte do regimento do Parlamento, mas ocupação e tumulto não. A chantagem da bancada oposicionista não poderia ser mais clara: ou o Parlamento anistia Bolsonaro, réu acusado de tentativa de golpe de Estado no Supremo Tribunal Federal (STF), ou a pauta do Congresso ficará travada. A meta é ajudá-lo a escapar da Justiça de qualquer maneira. Na atual conjuntura, a resposta daqueles que ocupam cargos de comando na República precisa ser serena. O clima do “quanto pior, melhor”, cevado pela investida para livrar Bolsonaro, nada de bom trará ao Brasil.

O modus operandi da família Bolsonaro é conhecido. Os alvos mudam, mas a estratégia é a mesma: fazer todo tipo de pressão para tentar salvá-lo de uma condenação praticamente inevitável diante das provas acumuladas. Nos Estados Unidos, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) tentou convencer a Casa Branca a impor sanções contra o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, visto como nêmesis pelo bolsonarismo. Colheu como resultado não apenas isso, mas um tarifaço que traz prejuízo a todo o Brasil. “Dou graças a Deus que ele [Trump] voltou suas atenções para o Brasil”, disse ao GLOBO. “Acho que tem valido a pena.”

Não foi sua única declaração estapafúrdia. Eduardo confirmou querer provocar nova reação do governo Trump diante da prisão domiciliar do pai e ameaçou abertamente as lideranças do Congresso: “Uma vez que não é pautado o impeachment do ministro Alexandre de Moraes no Senado, uma vez que o presidente da Câmara não pauta anistia, eles estão entrando no radar das autoridades americanas. As pessoas que estão em posição de poder têm responsabilidades e estão sendo observadas pelas autoridades americanas”.

É evidente que as decisões de Moraes não estão imunes a críticas — e têm sido defendidas e criticadas por juristas respeitáveis. Mas seus eventuais desvios precisam ser corrigidos dentro dos ritos jurídicos apropriados, não com ameaças ou encenações no Congresso. Vale lembrar: Bolsonaro ainda não foi condenado. Tem — e terá — toda oportunidade de se defender no processo.

As lideranças parlamentares têm respondido com a devida calma ao furor da bancada bolsonarista. Pautas descabidas, como anistia a golpistas, seguem na gaveta. Em nota oportuna, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), fez um chamado à serenidade, pedindo civilidade e diálogo. Marcou para hoje a retomada das sessões, de forma remota. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), lembrou que não cabe a ele avaliar decisões judiciais. Sem ceder à chantagem, ameaçou suspender o mandato dos rebeldes e, depois de muita negociação, conseguiu abrir a sessão no plenário ontem à noite. Ambos estão certos. Regras e caminhos institucionais são claros e precisam ser respeitados. A balbúrdia só interessa a quem despreza a democracia.

Sobre o conceito de partido político – Antonio Gramsci*

Quando se quer escrever a história de um partido político, deve-se enfrentar na realidade toda uma série de problemas muito menos simples do que aqueles imaginados, por exemplo, por Robert Michels, considerado um especialista no assunto O que é a história de um partido? Será a mera narração da vida interna de uma organização política, de como ela nasce, dos primeiros grupos que a constituem, das polêmicas ideológicas através das quais se forma seu programa e sua concepção do mundo e da vida? Tratar-se ia, neste caso, da história de grupos intelectuais restritos e, em alguns casos, da biografia política de uma individualidade singular. Portanto, a moldura do quadro deverá ser mais ampla e abrangente. Será preciso escrever a história de uma determinada massa de homens que seguiu os iniciadores, sustentou-os com sua confiança, com sua lealdade, com sua disciplina, ou que os criticou "realisticamente", dispersando-se ou permanecendo passiva diante de algumas iniciativas. Mas será que esta massa é constituída apenas pelos adeptos do partido? Será suficiente acompanhar os congressos, as votações, etc., isto é, todo o conjunto de atividades e de modos de existência através dos quais uma massa de partido manifesta sua vontade? Evidentemente, será necessário levar em conta o grupo social do qual o partido é expressão e a parte mais avançada: ou seja, a história de um partido não poderá deixar de ser a história de um determinado grupo social. Mas este grupo não é isolado; tem amigos, afins, adversários, inimigos. Somente do quadro global de todo o conjunto social e estatal (e, frequentemente, também com interferências internacionais) é que resultará a história de um determinado partido; por isso, pode-se dizer que escrever a história de um partido significa nada mais do que escrever a história geral de um país a partir de um ponto de vista monográfico, pondo em destaque um seu aspecto característico. Um partido terá maior ou menor significado e peso precisamente na medida em que sua atividade particular tiver maior ou menor peso na determinação da história de um país. Desse modo, é a partir do modo de escrever a história de um partido que resulta o conceito que se tem sobre o que é um partido ou sobre o que ele deva ser. O sectário se exaltará com os pequenos fatos internos, que terão para ele um significado esotérico e o encherão de entusiasmo místico; o historiador, mesmo dando a cada coisa a importância que tem no quadro geral, acentuará sobretudo a eficiência real do partido, sua força determinante, positiva e negativa, sua capacidade de contribuir para a criação de um acontecimento e também para impedir que outros acontecimentos se verificassem.

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere. V.3 P.87. Civilização Brasileira, 207

Faça o que eu faço - Merval Pereira

O Globo

A negociação terá de ser entre ministros e secretários, porque Trump não abandonará a parte política

O que o ex-presidente Jair Bolsonaro sonhava fazer, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está fazendo, sem contestação relevante. Impressionante como são parecidos na ânsia de destruir as bases institucionais estabelecidas nos anos pós-Segunda Guerra como linha mestra da maneira ocidental de ver o mundo. A paranoia de que o comunismo espreita o Ocidente, se infiltra nos meios estudantis, intelectuais, artísticos e científicos é a mesma. Daí a necessidade de desmontar a estrutura estabelecida e recomeçar do zero, ou até não recomeçar.

Nos Estados Unidos, os setores de pesquisa e tecnologia sofrem grande abalos e cortes de gastos, assim como a educação, destruindo fatores importantes para o avanço da produtividade da economia americana. A imprensa, como sempre acontece em governos autoritários, tem de enfrentar os arreganhos dos presidentes — como foi Bolsonaro durante seu “reinado”, e como hoje é Trump.

Escolhas - Malu Gaspar

O Globo

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro desencadeou um debate intenso no meio jurídico, incendiou o Congresso Nacional e botou o Supremo Tribunal Federal (STF) em alerta, à espera de mais represálias vindas dos Estados Unidos. Em paralelo, deu-se um curioso consenso em torno da inevitabilidade da prisão. Por esse raciocínio, Alexandre de Moraes não tinha outra escolha, uma vez que o ex-presidente foi além do limite na afronta às instituições. Prender Bolsonaro era a única alternativa disponível para proteger a soberania nacional dos ataques da extrema direita.

De que Bolsonaro testou os limites do Supremo, não há dúvida. É, aliás, o que ele vem fazendo desde o início de seu mandato, especialmente depois de perder as eleições e mais ainda durante as investigações da trama golpista. Tão certo quanto isso, porém, é que Alexandre de Moraes tinha, sim, escolha. Sempre teve, mas nem sempre fez as melhores.

A armadilha do STF- Julia Duailibi

O Globo

Quem ajuda Bolsonaro a se vitimizar é o próprio Supremo, ao ignorar a contenção e escorregar nas cascas de banana

O próximo presidente do STF, Edson Fachin, disse nesta semana que o “Supremo Tribunal Federal não é o árbitro exclusivo do jogo democrático” e que “a vitalidade democrática brasileira exige que todos os atores — Executivo, Legislativo, partidos, imprensa e sociedade civil — atuem com contenção e dentro das regras do jogo”.

Não fosse o atual contexto político-criminal, a reflexão, feita numa palestra, poderia soar como uma obviedade sobre freios e contrapesos de democracias funcionais e independência dos Poderes, herança do Iluminismo francês prevista em nossa Constituição. Ela nos leva, porém, a uma incontornável discussão sobre a contenção dos Poderes. No caso, do próprio STF.

Muito além da economia - Míriam Leitão

O Globo

A bomba tarifária dos Estados Unidos, com estímulo da extrema direita, vai além da economia: é chantagem política contra a nossa democracia

Tudo o que temos vivido nos últimos dias é tão absurdo que, às vezes, parece irreal. O Brasil está sendo atacado pelos Estados Unidos com a maior tarifa que aquele país impôs aos seus parceiros, exigindo em troca não uma abertura da economia brasileira, mas a interrupção de uma ação penal contra quem tentou um golpe de Estado no Brasil. O governo brasileiro com seu plano de contingência quer mitigar os danos de setores e empresas, e é isso mesmo que ele deve fazer. Mas a economia vai sentir o impacto, algumas empresas podem não sobreviver, empregos serão perdidos. Segundo a CNI, as tarifas adicionais dos EUA afetam 77,8% das exportações brasileiras ao país.

Lula precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre os EUA e a China - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Havia um certo consenso nacional e continuidade em torno da política externa brasileira pós-redemocratização, a partir do governo de Sarney, que restabeleceu as relações com Cuba e a China. Bolsonaro rompeu essa tradição

Se imaginarmos um triangulo ligando o Brasil aos Estados Unidos e à China, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa traçar uma bissetriz entre os dois países que possibilite achar um ponto de equilíbrio e sair do impasse em que se encontra, a partir de relações bilaterais com o presidente Donald Trump, que hoje não existem, e com o presidente Xi Jinping, cada vez mais próximas. O multilateralismo, no curto prazo, não dá conta de evitar a escalada da crise.

Na geometria, um triângulo possui dois tipos de bissetrizes: internas e externas. Para não complicar a analogia, o que nos interessa aqui é o ponto de encontro das bissetrizes internas do triangulo. Imagine uma circunferência dentro do triângulo — seu centro é equidistante de todos os lados. Por isso, é chamado de “incentro”. Bissetrizes são traçadas com régua e compasso; na política, é muito mais difícil achar esse ponto de equilíbrio e equidistância.

Reação de presidentes da Câmara e Senado demorou muito - César Felício

Valor Econômico

Câmara abriu sessão com uma pauta cheia de assuntos irrelevantes

A potestade do cargo é o principal ativo que os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), têm para negociar com os parlamentares que bloqueiam desde terça-feira as duas Casas do Congresso, exigindo a votação do tal “pacote da paz”. Demoraram muito, mais de 24 horas, para exercerem o peso de suas cadeiras.

Esse poder só começou a ser exercido na noite de quarta. Somente às 22 horas Hugo Motta conseguiu retomar, de forma precária, o controle da Casa que preside. O motim bolsonarista teve início na terça. As notas de Alcolumbre e Motta divulgadas na ocasião, em vez de esvaziarem a crise, insuflaram-na. Na sua nota oficial de terça, Alcolumbre disse logo na segunda linha que “a ocupação das mesas diretoras das Casas, que inviabilize (sic) o seu funcionamento, constitui exercício arbitrário das próprias razões”. Alcolumbre criticou os bolsonaristas, mas admitiu que a manobra extremista atingia um de seus objetivos, inviabilizar o andamento do Congresso Nacional.

O 8 de janeiro dos paletós devolve a bola para Lula - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Ameaça bolsonarista contra Centrão devolve protagonismo ao presidente

O 8 de janeiro dos paletós que ocupou o Congresso Nacional sepultou de uma vez por todas o dueto entre bolsonaristas e o Centrão que, até aqui, capitaneou os maiores emparedamentos do governo.

É a MP de isenção do IR que pode perder a validade, mas o episódio, por paradoxal que possa parecer, marca a possibilidade de o Executivo retomar a posse da bola. O bolsonarismo havia até respirado com a prisão domiciliar do ex-presidente que fez com que um réu por tentativa de golpe de Estado fosse exibido como paladino da liberdade de expressão. Ao afrontar o comando das Casas, porém, os aliados do ex-presidente voltaram a unir os três Poderes.

Com um Supremo Tribunal Federal ainda agastado pelas divisões em torno das decisões do ministro Alexandre de Moraes no caso e com os presidentes das Casas desafiados pelos próprios pares, é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem recobra, em pleno embate com o chefe de Estado mais poderoso do mundo, a posse da bola.

Procuram-se engenheiros para fazer política - Nelson Niero

Valor Econômico

Mensagens de Donald Trump em rede social, entrevistas e a carta enviada a Luiz Inácio Lula da Silva já haviam deixado escancarado que o cerne da questão é político

A crise das tarifas está obrigando a classe empresarial a recuperar o lugar de destaque que já teve em outros momentos cruciais da história brasileira. A taxação do governo americano ao Brasil, que entrou em vigor ontem, desenha consequências drásticas para a economia, o que clama por um protagonista que nas últimas décadas parece ter se contentado com o segundo plano.

Diante da inépcia do governo, num momento de desarranjo institucional, com um Judiciário hipertrofiado e um Legislativo alheio, o poder econômico foi chamado a assumir a posição de negociador. Os líderes do setor privado não têm mais como fugir dessa concertação. Eles terão, no entanto, que arrumar estômago para enfrentar uma questão política, mais do que comercial, apesar do desconforto visível com o tema.

Sem saída visível para a crise - William Waack

O Estado de S. Paulo

Não há saída visível para a crise que apanhou o Brasil, pois o que cada um entende por “pacificação” ou “acomodação” significa a rendição do outro. Isso vale também para o precaríssimo estado das relações entre Brasil e Estados Unidos.

Um fato inédito é o componente internacional na crise doméstica brasileira, pois uma corrente política interna está contando com a ajuda de uma potência estrangeira para atingir seus objetivos – e os da potência. Eles equivalem na prática a um “regime change” no Brasil.

Trump está comandando o show em torno da sua visão de que o Brasil não vive um regime democrático. Mas, sim, uma ditadura de toga que persegue adversários políticos e prejudica interesses econômicos das big techs – além de se alinhar ao grande adversário geopolítico dos EUA, a China.

Não há como o Estado brasileiro ceder a esse tipo de demanda, salvo render-se. A crise expôs um Brasil vulnerável, despreparado para situações de emergência e com um governo incapaz de enxergar a natureza e a gravidade do contexto, preocupado sobretudo com obtenção de vantagens político-eleitorais. E seus cacoetes ideológicos de sempre.

Cabo de guerra no Supremo - Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Críticas a Moraes no Supremo não tiram dele maioria nas votações sobre trama golpista

Não foi boa a reação de ministros do Supremo Tribunal Federal à decisão de Alexandre de Moraes de prender Jair Bolsonaro. Nos bastidores, a medida foi considerada desnecessária neste momento, com potencial para escalar duas crises: a do tribunal com o Congresso e a do Brasil com os Estados Unidos.

A expectativa no STF é de que os EUA apliquem sanções com base na Lei Magnitsky a outros ministros e também a autoridades brasileiras. A partir da prisão de Bolsonaro, ministros aguardam punições que atinjam o bolso deles, com restrições financeiras ainda maiores que as impostas a Moraes.

Outro impacto da prisão de Bolsonaro é o aumento da pressão política sobre a Corte às vésperas do julgamento do ex-presidente. Na visão de alguns ministros, o ideal teria sido Moraes ignorar a isca jogada pelo réu e deixá-lo em liberdade até o veredicto, previsto para setembro.

Protecionismo não só para o comércio - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

É pouco dizer que o presidente Donald Trump abandonou a defesa e a prática do livre comércio, um dos fundamentos da doutrina neoliberal capitalista. Ele passou a usar o até recentemente inominável protecionismo do sistema produtivo e do comércio global para outras finalidades, como base de seu jogo político e geopolítico.

Ao contrário do que vinham afirmando alguns analistas, que previram um tiro no pé com o tarifaço, o presidente Trump tem obtido inegável sucesso, pelo menos até agora. Países e blocos de países poderosos têm engolido, com certo conformismo, a imposição de tarifas alfandegárias predatórias sobre sua economia. E, se o bumerangue se voltar contra a economia dos Estados Unidos, isso pode levar algum tempo.

Moraes simboliza o pavor da direita diante do pênalti - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Apesar de erros, ministro não cede à cultura política acomodatícia do país no processo de Bolsonaro e militares golpistas

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes causou grande alvoroço e afetação entre setores da opinião pública, da direita e do bolsonarismo ao determinar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro por descumprimento de medidas cautelares aprovadas pelo tribunal.

Chamado de censor e tirano, e alvo de uma tremenda palhaçada de trumpistas no Congresso, o ministro pareceu de uma hora para outra ser o inimigo público número um da livre expressão e da democracia no Brasil.

O magistrado é muitas vezes tratado enviesadamente como se tomasse medidas apenas monocráticas, sem respaldo de colegiado da corte, ao sabor de seus humores. É certo que há reparos a fazer ao STF e particularmente a Moraes, cujo temperamento justiceiro, como já se comentou aqui, poderia e deveria ser domado. São muito escassas, além disso, para dizer o mínimo, as habilidades políticas por ele demonstradas.

O freio conservador do eleitor brasileiro – Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Conservadorismo do eleitor limita o que se pode dizer em campanhas e fazer no governo

Não é de hoje a ideia de que no Brasil predomina uma cultura política conservadora. Os políticos tradicionais dela sempre tiraram inspiração para seus programas e discursos. Mas o assunto ganhou fôlego quando a direita radical, em ascensão, alçou a segurança pública, assim como os valores e comportamentos privados, para o primeiro plano da disputa com os progressistas.

Baseado em pesquisas dos últimos 15 anos, o Instituto Ipsos-Ipec vem medindo, desde 2010, a força da disposição conservadora na população brasileira —um traço cuja existência poucos contestam.

Elite econômica é conivente com a agressão de Trump e dos Bolsonaro – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No curto ou no longo prazo, não se vê ação para conter destruição institucional

Vamos supor que Donald Trump decida agredir o Brasil um tanto mais, como acaba de fazer com a Índia e como o faz com o Canadá: por política imperial. Suponha-se que impostos de importação aumentassem para níveis de embargo caso o Brasil continuasse a comprar diesel ou fertilizante russos.

O que fazer? Dar o comércio com os Estados Unidos como perdido (o que também afetaria investimentos aqui) e manter as compras russas? O que diriam empresas que exportam para os EUA? Aceitariam o custo de o Brasil manter as importações críticas de fertilizantes? Essas são as ameaças de hoje. Mas o mundo de Trump e suas sequelas vão durar.

A ameaça para a economia da Lei Magnitsky contra Moraes – Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Não se descarta a possibilidade de uma complementação da ordem disparada pelo governo Trump contra o ministro do Supremo

Não é exagero dizer que parte dos participantes do mercado financeiro no Brasil está hoje mais preocupada com o impacto de uma aplicação rígida da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes para as empresas brasileiras do que com o tarifaço em si.

A punição a Moraes não é um problema só para os bancos e muito menos restrito às dúvidas se o ministro do STF pode ou não fazer compras usando cartão de crédito internacional de bandeiras americanas.