terça-feira, 6 de outubro de 2026

A eleição do nariz tapado, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Não estará no gibi – o Supremo como grande eleitor – o quanto de 22 nas urnas Gilmar Mendes e Flávio Dino deram a Flávio Bolsonaro. Podem lhe dar ainda mais, os interventores. Só Nossa Senhora sabe. (Desaparecido Xandão, por ora.) (Sossegado Eduardo Bolsonaro, por ora.). Só Tarcísio poderia lhe dar mais votos; o resultado – a liderança ao fim do primeiro turno – sendo desestimulante para qualquer corpo mole. E já se achegam os donos do Centrão para oferecer o apoio negado três meses atrás. Chama-se perspectiva de poder.

O voto subterrâneo se manifestou, escasso o verde-amarelismo nas ruas. O voto de rejeição, de exaustão sobre o esquema de poder corrente, enquanto Lula – presidente pela terceira vez, chefe de um governo cansado – pede votos como se pedisse reconhecimento: um Oscar pelo conjunto da obra, pelo filme de há 20 anos. Rejeição sem precedentes. Rejeição de bruta praticidade. Ninguém admira o filho de Jair. Tapa-se o nariz.

Vota-se em Flávio por mudança. Em Flávio – por mudança. Essa, a obra desses quatro anos de Lula. O voto das gentes endividadas, sem grana para comprar carne – as que agora são chamadas de burras, “pobres de direita”, fascistas até. Essas gentes, culpadas!, que vivem no mundo real, aquele em que terra rara seria uma em que pudessem circular com segurança – essas gentes para as quais a projeção de ameaça à soberania nacional soa como delírio, talvez provocação, as gentes que não podem escolher provedor de internet em casa (tem de ser o imposto pelo miliciano) e cujos filhos não têm aula porque o traficante mandou fechar tudo.

Essas gentes ignorantes de que Lula precisará, caso queira reverter – ineditamente – a vantagem do adversário. Gentes que talvez alcançasse, não tivesse – estelionato eleitoral – mastigado a dita frente ampla por meio da qual elegeu-se em 2022. Ganhou, tomou o centro rapidamente, capturou-o – Marina Silva, Simone Tebet. Tomou de assalto o centro, despovoou-o, canibalizou-o, e então governou à esquerda, fechando-se nos seus – falando aos seus e a um trabalhador que já não existe.

Agora, atrás 2,2 milhões de votos, resta-lhe cantar o eleitor de Augusto Cury, trabalhar por baixar significativamente o índice de abstenção e esperar que o derrotado Alcolumbre lhe dê de presente uma aprovação – a do fim da jornada de trabalho 6x1 – que o resultado do primeiro turno talvez tenha tornado sem sentido, quiçá mesmo eleitoralmente irrelevante.

A Lula, afinal, sobrando como chance uma espécie de exame de consciência do eleitor cujo voto subterrâneo de repente transformou Flávio Bolsonaro em favorito. Ele pode ser presidente. Está muito próximo de ser. E esse cidadão teria três semanas para contemplar a hipótese; para pensar em como seria; para imaginar a materialização da possibilidade.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Falou falou E nãodisse nada!
Luva já era por mais que vocês tenha tristeza em reconhecer esse fato, a era PT acabou!
A onda conservadora que vinha ganhando espaço na América Latina chegou ao Brasil graças a Deus