domingo, 4 de outubro de 2026

Os Safras, história de um banco, por Elio Gaspari

O Globo

Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram a empresa com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime

Está nas livrarias “Os Safras — Uma história”, do repórter Robson Viturino. Conta a trajetória do banco Safra. Tremenda história. Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram um banco com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime, no qual morreu Edmond.

Em 2015, José Safra era o banqueiro mais rico do mundo. Batia os Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setúbal e Moreira Salles. Tudo isso com um jeito simples e discreto, em pouco mais de 50 anos.

José morreu em 2020 sempre apagando suas pegadas, salvo na filantropia. Seu banco financiou tucanos e petistas, ajudou a criar o Cebrap, que em 1969 acolheu professores demitidos da USP (ouvindo o ministro Delfim Netto). Reservados, os Safra eram banqueiros ao velho estilo, em um mundo que não existe mais, o de contas numeradas na Suíça.

Viturino foi aos segredos dos Safra, não a todos, mas aos que fazem de seu livro um trabalho revelador. No coração dos mistérios está a morte de Edmond, em dezembro de 1999, em Mônaco. Minado pelo Mal de Parkinson, ele estava na sua cobertura quando temeu ser sequestrado e trancou-se com uma enfermeira num banheiro. Um enfermeiro ateou fogo a um cesto de lixo e os dois morreram asfixiados pela fumaça.

Viturino não decifra o mistério, mas mostra a moldura. Uma amostra:

“Muito se falaria do momento em que José e Moise apareceram na sinagoga Hekhal Haness e cadeiras tiveram de ser levadas a eles — através da sinagoga, já que seus nomes não constavam da lista de convidados —, tudo sob o olhar gélido de reprovação da viúva. (...) No enterro de Edmond no cemitério de Veyrier, José e Moise tiveram que abrir caminho às cotoveladas no cortejo para poder carregar o caixão do irmão.”

Isso. Os dois irmãos davam-se mal, muito mal, com Lily Safra. Ela viria a se tornar a mulher mais rica do mundo. Em 2008, Lily negociou a Villa Leopolda, onde dava festas com Edmond, por 530 milhões de dólares, o maior valor de um imóvel desde a Idade da Pedra.

José afastou-se dos negócios de Edmond antes de sua morte. Depois, José e Moise separaram-se. Hoje os dois bancos, Safra e J. Safra, estão nas duas calçadas da Avenida Paulista, esquina com Rua Augusta.

Moise morreu em 2014 e José, em 2020, aos 82 anos. A briga propagou-se na geração seguinte, até que uma paz foi selada em 2014. Mas o mundo dos bancos era outro. O Safra havia sido multado em 10 milhões de dólares e reconheceu seus malfeitos. José passava mais tempo no exterior, temendo ser preso. Mas os bancos continuam de pé.

A volta de ‘Je suis brésilien’

A vulgaridade e o nouveaurichisme das farofas de Daniel Vorcaro com hierarcas da República mostram que o tempo passa e os vícios persistem, com menos talento. Na segunda metade da década de 1860, a ópera bufa “La vie parisienne”, do compositor francês Jacques Offenbach, fez enorme sucesso na Europa. Nela havia uma ária que prenunciava os farofeiros do século XXI, chamava-se “Je suis brésilien“.

Ele cantava:

“Eu sou brasileiro, tenho ouro

E venho do

Rio de Janeiro

Mais rico hoje do que antes.

Paris, retorno para você.

Duas vezes,

eu já vim

Tinha ouro na minha mala

Diamantes na minha camisa

Quanto tudo isso durou?

O tempo de ter duzentos amigos

E de amar quatro ou cinco amantes

Seis meses de galantes bebedeiras

E mais nada,

ô Paris, Paris!

Em seis meses, você me tirou

Tudo.

(...)

E venho, para que você me roube

Tudo que roubei lá embaixo”

Em 1867, estava na plateia o boêmio Juca Paranhos, filho do Visconde do Rio Branco e pai do futuro Barão.

O “Brasileiro” de Offenbach pode estar na origem do termo “rastaquera”.

O tesouro de Vorcaro

Depois de meses de tratativas, a colaboração de Daniel Vorcaro continua na estaca zero. Apesar disso, o conteúdo armazenado em seus celulares prova, à saciedade, a extensão de suas conexões.

O cunhado do finório, Fabiano Zettel, revelou que em outubro de 2025 foi ao exterior e escondeu um ervanário. Nas suas palavras:

“O Banco Central deu três semanas para o Daniel reformular o banco, senão ele vai ser liquidado. Eu fui lá (no exterior), escondi um dinheiro, porque se der tudo errado e der uma merda danada e tudo meu for bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo as coisas. Agora, eu estou no Brasil e confio em falar isso pra você. Lá eu não podia falar isso por telefone”.

Seriam bilhões de reais, talvez 20. Com calma, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal têm como achar esse tesouro.

Itamaraty em perigo

De todas as propostas de Flávio Bolsonaro, a mais tóxica veio na semana passada. Ele já anunciou que seu irmão Eduardo será o chanceler de seu governo e que ele fará “uma faxina” nos quadros da diplomacia...

Pindorama já provou esse veneno. Em 2019, seu pai nomeou o diplomata Ernesto Araújo para o cargo. Sua gestão foi desastrosa mesmo para os padrões do ex-capitão, e ele teve que substituí-lo em 2021. Para o lugar foi o embaixador Carlos França que restabeleceu o estilo da Casa.

Veio a eleição, Bolsonaro foi derrotado, e a tradição prevaleceu. França foi mandado para a embaixada no Canadá, onde exerce sua função como um profissional correto. O canibalismo é estranho à vida do Itamaraty.

Em 1964, deposto João Goulart, seu chanceler, Araújo Castro, foi mandado para Atenas. Em 1985, terminada a ditadura, o chanceler Ramiro Guerreiro foi nomeado pelo presidente José Sarney para negociar a dívida externa.

O Brasil tem uma diplomacia respeitada porque não tem lugar para canibais. O Barão do Rio Branco dava-se mal com o Visconde de Cabo Frio, diretor-geral do Ministério. Esperou que morresse, o que se deu em 1907.

Os Bolsonaro deveriam ler “O mundo em que vivi”, as memórias do embaixador Pio Corrêa (1918-2013), um verdadeiro e destemido conservador.

O Judiciário na semana da Criação

Se o Judiciário brasileiro estivesse presente na Semana da Criação, ele obrigaria o Pai Eterno a:

1º dia: Deus criaria a luz, mas manteria nas trevas os processos envolvendo magistrados.

2º dia: Deus criaria o firmamento, separando uma área para os gabinetes e casas dos magistrados.

3º dia: Deus criaria as plantas e os pomares dos magistrados que teriam safras contínuas.

4º dia: Deus criaria os astros, com prioridade para familiares de magistrados e tribunais superiores e seus familiares.

5º dia: Deus encheria os mares com peixes e as águas dos magistrados com salmões.

6º dia: Deus criaria os animais e o ser humano, com imortalidade e juventude eterna para os magistrados.

7º dia: Deus descansaria, com direito a férias retroativas.

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