Quero dar um pitaco preliminar sobre esse
aparente “pós-tudo”. Em primeiro lugar, virar a eleição a essa altura não é
impossível, mas muito difícil. Os dois pontos de diferença não seriam, em si, o
principal obstáculo se a fala realista de Lula pudesse prevalecer sob as
camadas de ressentimento que foram se erguendo, reciprocamente, entre ele e a
maioria do país, há mais de uma década. Ainda que uma parte dessa maioria tenha
votado nele, mais uma vez, em 2022, aquele momento foi só uma trégua que precisaria
ser usada para repactuar de modo mais perene a relação entre o governante e os
governados.
Ninguém pode ter certeza de que essa
repactuação, sugerida pela ideia de pacificação do país, seria realmente
possível, pois o contexto político, dentro e fora do Brasil, era e é áspero
para quem busca moderação. Como lembrou Cila Schulman, do Instituto Ideia, numa
live no último sábado, atualmente, nas democracias, ser incumbente numa eleição
tem se tornado, em vez de uma vantagem, um desafio. O problema adicional com
Lula é que, num país saturado de uma briga mais afetiva que política, se não
está nem poderia estar nítido que a pacificação era possível, ficou menos claro
ainda que Lula a tivesse sinceramente tentado. As evidências são de que
subestimou essa difícil, duvidosa, mas necessária missão, equivocadamente
julgou a sua dívida com o eleitorado zerada e a si mesmo, como até um credor.
Esse desentendimento é a mais recente camada
de ressentimento, agregada nos últimos quatro anos e que parece ter sido fatal.
Haja o que houver daqui a três semanas com a sua biografia eleitoral, já foi uma
derrota muito contundente de todo um espectro político e não apenas da sua
pessoa. Derrota que se mede pela correlação de forças quantitativa do
Congresso, pela composição qualitativa do Senado, pelo sentido da ascensão do
PL, que fez da polarização com o lulismo a sua palavra-chave e pelo fracasso do
campo governista na grande maioria das disputas estaduais. Tudo isso é e continuará
sendo fato, mesmo que a sagacidade e a resiliência da figura pessoal de Lula lhe
permitam sobreviver, mais uma vez, na presidência da República. Governar o país
real - isso sim e não a virada - parece impossível, ou quase isso. Para
consegui-lo, ele, seu partido, liderados e os aliados que puder segurar nessa
hora difícil precisariam inventar novo personagem e nova atitude política. Para
Luís Inácio seria reinventar-se publicamente, aos 81 anos, aceitando o encargo
de substituir Lula. Convenhamos que é pedir muito.
Tão importante quanto o que Lula fará nas
próximas três semanas é o que fará na sequência o pelotão dos que se afogaram
com ele no primeiro turno, caso a imersão completa não possa mais ser revertida.
Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva, Eduardo Paes e outros pelo país
afora. Um campo político de centro e centro-esquerda que se associou ao Lula 3,
resignando-se a baixa visibilidade própria, pode, agora, articular-se com
Raquel Lyra, Tábata Amaral, Daniel Vilela, Ricardo Ferraço, Renato Casagrande e
mesmo um perdedor jovem, presidente de partido, como João Campos, ou um
formulador e gestor experiente como Paulo Hartung. Um balanço do insucesso do
"entrismo" como conduta do centro democrático pode apontar, a esses
quadros políticos - e a um conjunto de conhecedores do país pela ciência e pela
administração pública que pode ser mobilizado- o caminho da construção de uma
oposição qualificada e democrática ao eventual governo Bolsonaro. Caminho a
percorrer em paralelo à reflexão que precisa ocupar o PT e a esquerda lulista e
que será renovadora se elas não encontrarem mais no centro democrático um
corrimão anódino para se manterem em cima de um trapézio avariado.
Bandas distintas do campo democrático que se
juntaram-no segundo turno de 2022 poderão passar por paralelas terapias políticas
para que cada qual lamba suas próprias feridas, que são também distintas. Faz
parte desse esforço de busca de eixos aceitar, inclusive, que o campo
democrático é mais amplo e inclui parte da direita também. Isso não significa
que todos os democratas devam se unir como oposição ao presumido governo Flavio,
mas compreender que, apesar das intenções de governantes ocasionais, a política
brasileira precisa voltar a ter governo e oposição democráticos como seus eixos
estruturadores.
Esse desafio estará também posto no caso de
Lula conseguir reverter a desvantagem eleitoral. Isso porque então se colocará
fortemente o tema da governabilidade, que depende de a possibilidade de forças
ao centro terem papel crucial num real governo de coalizão, com programa e
responsabilidades compartilhadas, como condição para integrarem a sua base. Em
caso de resistência do presidente e seu partido, o caminho da oposição também
se colocará para essas forças do centro, implicando, nesse caso, sua maior
interação no campo da centro-direita sem confundir sua voz com a da oposição
bolsonarista.
Essas duas hipóteses de reenquadramento do
tema do "centro" (a depender de quem vença o segundo turno) estão em
sintonia com o que se delineia como realinhamento de forças na política
brasileira. A direita aumentou sua força num modo PL e isso se combina com um
recuo relativo da força do centrão no Congresso, algo que não estava no radar.
Ao lado e cada vez mais atentas a esses movimentos espera-se que estejam áreas
ativas da sociedade civil que não foram tomadas pela letargia advinda da
sensação acomodatícia de nos últimos anos voltar a ter amigos no palácio. E
mesmo as que se deixaram distrair podem também participar do novo cuidado, não
só para vigiar os adversários que governarão, como também para influir na
partitura da oposição na vida real, para além do medo e da indignação.
A derrota política escancarada no primeiro
turno tem essa dimensão profunda, mas o processo não se encerra nela. Talvez a
eleição, em si, já tenha ido embora e os números do segundo turno apenas
confirmem os do primeiro. Mas não tem cabimento permitir que piorem e isso é
possível, tanto pela desmobilização de aliados cujas vidas eleitorais já foram
resolvidas no primeiro turno, quanto pela hipótese de radicalização de
discursos desesperados. Será um equívoco pensar que é desimportante a maneira
de perder. Se os perdedores (e não estou
falando apenas de Lula e do PT) tiverem essa consciência começarão, nessas três
semanas, a refazer as pontes com o povo, detonadas pelo que foi dito e feito
durante anos. Enquanto a pequena política é como cabelos, aos quais quem a
monta se agarra para não cair do seu galope, a grande política é como unha,
regenerável se houver vida inteligente e razão a serviço de causas comuns, que
a experiência do contato com o solo e o subsolo revela.
Além de ser como unha, a política, no
conhecido dizer de Max Weber, é lento esperar de tábuas duras. Essa percepção não me parece revogada por
mudanças estruturantes da era digital. Uma
reconstrução política depende do número e da qualidade de quem, manejando
tecnologia adequada, possa dizer, "apesar de tudo, eis-me aqui". No
caso específico, depende do número e da lucidez de quem tiver consciência de
que não há chance nem sentido de 2030 ser um quarto turno de uma disputa que
desde sempre foi inglória. Deixar que se embaralhem as cartas para um novo
jogo. É disso que se trata.
Como analisei acima, creio ser desejável e
possível que os vários sócios do condomínio político derrotado tenham que
operar a reconstrução em diferentes espaços e em diferentes ritmos, de acordo
com as suas específicas situações. Mas é importante que o serviço seja feito
por todos, porque todos são parte do país que é preciso recuperar. Se é bom
conselho pensar no futuro sem esquecer do passado, uma das questões a decidir é
se pensaremos em 2030 e mais além com os olhos da memória postos nos heróis
combatentes de 1968 ou nos artesãos políticos de 1974. Sinto-me, como sempre,
alistado entre esses últimos e o resultado parcial dessa eleição não muda essa
atitude, antes a reforça.
Essa é, porém, só uma entre várias questões
que formam uma extensa e intensa pauta sobre o nexo a ser encontrado entre
presente e futuro, pauta na qual o passado cumpre apenas o papel de vaga
lembrança de fundo. É imprudente nos agarrar a ele, enquanto a caravana
contemporânea passa fazendo barulho o bastante para não permanecermos
distraídos com nossas diferentes certezas. É preciso nos abrir, realmente, para
lições da democracia como a desse marcante quatro de outubro. Abertura que pode
nascer de emoções, mas só pode vingar se acionar, primeiro, o pensamento. Daí poderão
vir as palavras mais adequadas e as boas obras. Já que aos vencedores cabe as
batatas, plantemos outras sementes.
Quais? Será o ponto seguinte da pauta, assim
que nos entendermos sobre a atitude política, isto é, sobre uma predisposição
positiva a compreender a lição primária das democracias pluralistas: respeitar
- sem idolatrar, nem desqualificar - a vontade da maioria do povo,
principalmente quando contraria a nossa.
*Cientista político e professor da UFBA

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