Segundo turno exige comedimento do Judiciário
Por O Globo
TSE e STF precisam ter sensatez nas decisões
sobre o pleito, para não interferir na vontade do eleitor
Definido o resultado do primeiro turno, com o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegando à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por diferença de quase 2 pontos percentuais, a disputa ao Palácio do Planalto entra agora numa fase decisiva. Os dois candidatos confrontarão suas ideias por meio de propaganda eleitoral, entrevistas e debates, para dar aos eleitores oportunidade de escolher entre os dois projetos. É fundamental que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) demonstrem sensatez e comedimento em suas decisões relacionadas ao pleito, de modo a não interferir na vontade do eleitor. Devem agir sobretudo nos casos absolutamente necessários, para impedir ou corrigir injustiças.
Infelizmente, não foi o que aconteceu no
primeiro turno, quando os tribunais tomaram decisões que prejudicaram o bom
andamento da campanha e deram margem a interpretações de favorecimento. Foi,
por isso, acertada a determinação do ministro Edson Fachin,
presidente do STF, de reforçar regras para evitar que pedidos fossem destinados
a relatores específicos, com apresentação de petições em processos já em
andamento na Corte. A resolução estabelece uma triagem para as manifestações.
Elas só poderão ser vinculadas à ação depois de análise da Secretaria
Judiciária e de validação da presidência do Supremo. A medida na verdade
reforça regras que já existiam, mas não vinham sendo respeitadas.
O presidente do TSE, ministro Nunes Marques,
havia pedido a Fachin a criação de um filtro na distribuição de petições com
pedidos urgentes relacionados às eleições, incluindo as apresentadas em
processos em andamento. A solicitação ocorreu depois dos desdobramentos do caso
Nossa Senhora Aparecida, em que o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou uma
decisão do ministro André Mendonça, do TSE. A decisão de Dino foi depois
suspensa por outra decisão do ministro Luiz Fux, também do STF, até que o caso
retornou para uma decisão definitiva do plenário do TSE.
A intervenção do Supremo em atribuições da
Corte eleitoral já havia ocorrido no despacho do ministro Gilmar Mendes que
manteve o reajuste de 15% do Bolsa Família concedido pelo governo a menos de um
mês da eleição. Gilmar desarquivou um processo para tomar a decisão, antes que
o caso fosse apreciado pela Justiça Eleitoral, como seria o trâmite regular.
A intenção de Fachin é evitar a sobreposição
de competências, de modo que as demandas sigam o curso regular pelos caminhos
do Judiciário. Se respeitadas, as normas poderão coibir o vaivém de decisões e
a confusão de liminares que tumultuaram a campanha no primeiro turno. No
segundo turno, é esperado que surjam conflitos e que sejam levados aos
tribunais. Cada Corte deve exercer suas atribuições com serenidade e o
necessário cuidado para não intervir na competência alheia. Seria uma lástima
se episódios de intervenção com potencial para desequilibrar a disputa se
repetissem. É preciso haver mais debate de propostas e menos ingerência do
Judiciário na campanha.
Sanear Secretaria da Educação deve ser
prioridade do novo governo do Rio
Por O Globo
Operação policial expôs desvios de R$ 1,6
bilhão em estado com indicadores indigentes de ensino
Entre os muitos desafios que terá à frente do
Palácio Guanabara, o futuro governador do Rio precisará moralizar a Secretaria
de Educação,
alvo da Operação Escola de Papel, deflagrada na semana passada pelo Ministério
Público do Estado do Rio e pela Polícia Civil
fluminense. A ação investiga desvios em reformas de escolas estaduais na gestão
do ex-governador Cláudio Castro (PL). Os alvos são ex-integrantes da cúpula da
secretaria, entre eles a ex-secretária Roberta Barreto de Oliveira, cuja
nomeação é atribuída ao ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj)
e deputado cassado Rodrigo Bacellar, preso sob acusação de ligação com o
Comando Vermelho. Tanto Castro quanto Bacellar pertencem ao grupo político de
Douglas Ruas (PL), atual presidente da Alerj e primeiro colocado no primeiro
turno da eleição ao governo estadual (o TSE decidirá se haverá segundo turno).
A operação foi deflagrada a partir do
depoimento de um empresário que contou aos investigadores ter vencido uma
licitação para a qual não tinha feito orçamento ou proposta. O Gabinete de
Segurança Institucional (GSI) do estado estima que contratações irregulares
dessa natureza tenham alcançado R$ 1,6 bilhão entre 2023 e 2025. Apenas dez
empresas concentram um terço de todas as obras sem licitação, como mostrou
reportagem do GLOBO.
Enquanto o dinheiro da secretaria se esvaía
em contratações irregulares, o Rio amargava números indigentes no setor. No
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do ensino médio, o estado
ocupa a penúltima posição entre as 27 unidades da Federação. No Sistema de
Avaliação da Educação Básica (Saeb), que se refere ao aprendizado em português
e matemática, o Rio ficou em último lugar, ao lado da Bahia.
É verdade que, nos últimos meses, a
administração estadual tem passado por um choque de gestão promovido pelo
governador interino, Ricardo Couto, que assumiu o comando do Palácio Guanabara
após a saída de Castro, em março. Couto enxugou secretarias, reduziu
drasticamente cargos em comissão, promoveu auditorias em contratos e desmontou
esquemas de corrupção. Não por acaso, os desvios na Educação vieram à tona. A
possível volta do mesmo grupo político ao poder desperta receio de que esse
trabalho seja interrompido. Caso seja confirmado no cargo, Ruas, que presidiu
uma Alerj coberta de escândalos, terá a obrigação de atuar de forma a afastar
qualquer ação condenável de seus aliados.
É fundamental que a Secretaria de Educação seja tratada com a importância que merece. Não faltam recursos para o setor. Falta boa gestão para usar o dinheiro disponível. É inadmissível que verbas destinadas a reformas de escolas e outros programas sejam desviadas para empresários corruptos, quando poderiam ser usadas em benefício dos estudantes. É preciso ainda blindar a secretaria de ingerências políticas e se empenhar para melhorar os índices da educação fluminense, incompatíveis com o estado que tem o segundo PIB do país. É tarefa de longo prazo, mas é preciso começar logo.
Bolsonarismo unifica a direita
Por O Estado de S. Paulo
Resultado das eleições no Congresso indica
que o bolsonarismo é incontornável para a direita. Para evitar que seu
radicalismo se torne igualmente majoritário, o País depende do Centrão
O resultado das eleições de domingo deu uma
dimensão nova ao bolsonarismo. O que em 2018 ainda parecia um movimento reunido
sobretudo em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro e em 2022 começava a ganhar
alguma estrutura, hoje se apresenta como a força dominante da direita
brasileira. Para evitar que esse radicalismo se torne igualmente majoritário, o
País depende, ora vejam, do Centrão.
O PL, partido dominado pelos Bolsonaros,
elegeu 121 deputados e terá 28 senadores. Seus aliados avançaram também nos
Estados. Há ainda uma nova geração de políticos com votos próprios, sinal de
que essa força deverá continuar a marcar a política brasileira por muitos anos.
Tamanho poder já não admite a confortável atitude de quem vive apenas da
contestação.
A mudança é particularmente importante no
Congresso. Com mais de um quinto das cadeiras da Câmara, segundo dados do
Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o PL terá a maior
bancada da Casa. É um resultado histórico. Nenhuma legenda elegia tantos deputados
desde os 109 conquistados pelo então PMDB em 1990. No Senado, os 28
parlamentares do partido representarão mais de um terço da Casa.
O resultado dá ao bolsonarismo poder
suficiente para influir decisivamente no que o Congresso fará a partir de
fevereiro, mas está longe de lhe assegurar maioria para fazer o que bem
entender. O Centrão, portanto, não perdeu sua conhecida condição de fiel da
balança.
O PL precisará dos partidos de centro para
construir maiorias e, sobretudo, para alcançar os três quintos necessários à
aprovação de emendas constitucionais. São 308 votos na Câmara e 49 no Senado,
em dois turnos em cada Casa. A força conquistada nas urnas é enorme, mas não
dispensa aliados. E aliados, em Brasília, raramente trabalham de graça.
Partidos como PSD, MDB, União Brasil, PP e
Republicanos passarão a negociar diante de uma direita muito mais organizada e
eleitoralmente poderosa. É uma posição confortável para o Centrão.
O mesmo vale para quem vier a comandar Câmara
e Senado. Os presidentes das duas Casas, a serem escolhidos em fevereiro do ano
que vem pelos seus pares, terão de conduzir um Congresso mais conservador, sem
esquecer que o Parlamento não existe para servir a uma facção. Terão de
dialogar com os demais Poderes e construir acordos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se
reeleito, terá pela frente um Legislativo ainda mais distante de seu governo.
Flávio Bolsonaro, por outro lado, encontraria, naturalmente, um ambiente
político mais próximo de suas posições, mas nem por isso poderá dispensar a
negociação. A política continuará sendo necessária.
E trabalho não falta. A PEC da Segurança
Pública, por exemplo, ainda está em tramitação no Senado A proposta está longe
de ser perfeita e merece aperfeiçoamentos, mas existe para enfrentar problemas
que não podem mais esperar, como a necessidade de coordenar melhor União e
Estados contra organizações criminosas. O combate ao crime foi uma das
principais bandeiras da direita nesta eleição. Se é prioridade, que seja
tratada como tal.
A responsabilidade fiscal será uma prova
ainda mais incômoda. Uma eventual reeleição de Lula exigirá do Congresso algum
freio à conhecida disposição lulopetista de aumentar despesas. Se o vencedor
for Flávio Bolsonaro, não haverá sequer essa desculpa: depois de anos denunciando
a irresponsabilidade fiscal do adversário, a direita terá de resistir à
tentação de praticá-la quando o dinheiro estiver sob seu comando. Deputados e
senadores, de resto, terão pouca autoridade para cobrar contenção de gastos do
Executivo enquanto preservarem para si uma parcela cada vez maior do Orçamento
por meio das emendas parlamentares.
Os vencedores têm todo o direito de levar ao
Congresso as pautas que receberam o apoio dos eleitores. Mas tamanho capital
político não pode ser desperdiçado em guerras culturais e disputas destinadas
sobretudo a manter a militância mobilizada. Os problemas reais do País talvez
rendam menos aplausos nas redes. Paciência.
O bolsonarismo já mostrou que sabe conquistar
poder. A partir de fevereiro, terá de mostrar o que sabe fazer com ele.
O aumento cavalar da dívida bruta
Por O Estado de S. Paulo
O endividamento cresceu 4,2 pontos
porcentuais em oito meses não em razão de uma crise econômica ou de uma
pandemia, mas como o resultado da política fiscal irresponsável de Lula
A dívida bruta atingiu 82,9% do Produto
Interno Bruto (PIB) em agosto, segundo dados divulgados pelo Banco Central
(BC). Foi o maior patamar desde março de 2021, quando o indicador estava em
85,1% do PIB, durante a pandemia de covid-19. Mais grave do que o nível
elevado, no entanto, é o ritmo de crescimento do endividamento de 4,2 pontos
porcentuais nos oito primeiros meses do ano, superado apenas pelo avanço
registrado em 2020, quando o aumento foi de 11,3 pontos porcentuais.
Em 2020, o País havia acabado de autorizar um
aumento emergencial de gastos para compensar as consequências da pandemia na
atividade econômica, no nível de emprego e na arrecadação de União, Estados e
municípios. Era uma situação excepcional, consequência da necessidade de adoção
de distanciamento social, principal medida recomendada pelas autoridades para
evitar o contágio e preservar vidas quando ainda não havia vacinas. A dívida
bruta atingiu um pico de 87,6% do PIB em outubro de 2020, mas depois recuou ao
longo de 2021 e 2022.
O crescimento da dívida pública neste ano, no
entanto, nada tem a ver com isso. Não se trata de algo circunstancial nem de
uma resposta a uma crise econômica ou a uma emergência sanitária global, mas o
resultado da política fiscal expansionista do governo do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), exacerbada neste ano em razão das eleições. Ademais, a
perspectiva é a de que o endividamento continue a subir nos próximos meses e
alcance 87,3% em 2027 e 90,4% em 2028, de acordo com a mediana das expectativas
do Sistema de Expectativas de Mercado, que dá base às projeções do Boletim
Focus do Banco Central.
Atribuir esse avanço à taxa básica de juros,
hoje em 13,75% ao ano, é cômodo para a equipe econômica. Mas a Selic, sozinha,
não explica o fato de a dívida bruta na proporção do PIB ter subido 11 pontos
porcentuais desde o início do terceiro mandato do petista. Embora o Ministério
da Fazenda insista na defesa do arcabouço fiscal e afirme ter entregado uma
consolidação fiscal de cerca de 2% do PIB, não há dúvida de que a âncora não
foi suficiente para conter os gastos, nem de que as medidas para recuperação de
receitas não funcionaram a contento.
É verdade que o Brasil não está sozinho nessa
toada. A dívida bruta global chegou a US$ 365 trilhões no primeiro semestre
deste ano, o equivalente a 311% do PIB mundial. A guerra no Oriente Médio, a
disparada das cotações do barril de petróleo e a resiliência da inflação no
pós-pandemia dificultam a redução dos juros no mundo todo. O problema é que a
dívida brasileira é bem mais elevada do que a da maioria dos países emergentes
– a média é de cerca de 70% do PIB, segundo o Fundo Monetário Internacional
(FMI) – e bem mais cara do que a das economias ricas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o rendimento
dos títulos de 30 anos chegou a bater 5,61% na quinta-feira passada, o maior
nível desde junho de 2002. No Reino Unido, os juros da dívida em papéis de 30
anos atingiram 6%, recorde desde 1998. Na França, o seu custo para títulos de
10 anos foi o maior dos últimos 25 anos. Tudo isso amplia nossa vulnerabilidade
e afasta investidores estrangeiros interessados no diferencial entre as taxas
cobradas no Brasil e no exterior.
Embora o tema do ajuste das contas públicas
tenha sido ignorado durante a campanha eleitoral, o presidente eleito terá
necessariamente de enfrentá-lo já em 2027, sob pena de termos de arcar com
taxas de juros demasiadamente elevadas pelos próximos anos. Restabelecer a
credibilidade fiscal é o primeiro e mais urgente dos desafios, tendo em vista a
probabilidade de que novas medidas eleitoreiras sejam lançadas até o fim do
segundo turno, piorando uma situação que já não é favorável.
Apesar do esforço da equipe econômica em
sinalizar um superávit primário no ano que vem, Lula se recusa a dar respaldo à
promessa. Já seu adversário no segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL), garante
que fará um “tesouraço” nas contas públicas, mas é evasivo em relação às
medidas que pretende adotar para atingir esse objetivo. Independentemente de
quem vença as eleições, a trégua terá curtíssimo prazo.
Professores insatisfeitos
Por O Estado de S. Paulo
Docentes brasileiros estão entre os mais
descontentes do mundo com suas condições de trabalho
Apenas 44,3% dos professores brasileiros que
lecionam nos últimos anos do ensino fundamental estão satisfeitos com as
condições de trabalho a que estão submetidos, de acordo com a mais recente
edição do Panorama da Educação da OCDE – um dos principais fóruns de países
desenvolvidos, que inclui algumas economias emergentes.
O Brasil aparece na 36.ª posição na lista de
satisfação dos professores com as condições de trabalho, à frente apenas de
Portugal e do Japão, o que demonstra que o sentimento de desvalorização dos
profissionais que transmitem conhecimento às novas gerações é global –
inclusive em países nos quais os professores tradicionalmente são respeitados,
como é o caso do Japão.
Quando o assunto é especificamente a
remuneração, o índice de satisfação dos brasileiros é ainda menor (22,3%).
Apesar disso, os docentes de Portugal, Islândia, Polônia e Turquia demonstram
um descontentamento ainda maior com seus salários.
Curiosamente, embora no Japão o salário
inicial médio dos professores do ensino fundamental (6.º ao 9.º ano) seja de
US$ 43 mil (cerca de R$ 224 mil anuais brutos) – quase 70% acima da média
brasileira de US$ 26 mil (equivalente a R$ 134 mil anuais brutos) –, o nível de
descontentamento salarial por lá é quase o mesmo que o dos professores brasileiros:
28,6%. Não se pode ignorar o impacto do custo de vida em diferentes países
sobre o contentamento salarial.
Na edição deste ano de seu panorama
educacional, a OCDE chama a atenção para o fato de que, embora a escassez de
professores seja mais pronunciada em determinados países ou nas áreas rurais, o
problema é generalizado. Como consequência direta disso, 9,1% dos professores
da educação básica e secundária dos países da OCDE, em média, não eram
plenamente qualificados para exercer suas funções no calendário 2024/2025.
O Brasil, que não é membro da organização mas
participa do relatório como país parceiro, destaca-se negativamente como um dos
países com maior taxa de evasão de professores plenamente qualificados (10,3%)
– a média da OCDE ficou em 6,4% em 2024/2025.
Ao mesmo tempo, o Brasil tem quase o dobro
(37%) da média da OCDE quando se trata de professores trabalhando por meio de
contratos temporários. Ademais, 89% dos professores brasileiros relataram que
precisam, “frequentemente” ou “sempre”, atuar para acalmar alunos
indisciplinados, um dos porcentuais mais elevados entre os países do relatório.
Somados, a insegurança sobre a permanência no
trabalho, os baixos salários e a indisciplina dos alunos – que não raro, no
Brasil, envolve ameaças do crime organizado aos docentes – afastam os bons
profissionais de uma função vital para o pleno desenvolvimento do País.
Como bem definiu a OCDE, “sistemas educacionais são tão fortes quanto seus professores”. Enquanto não trabalhar de forma multissetorial, o que passa pelo fortalecimento da segurança pública em áreas escolares dominada pela criminalidade, e pela valorização dos docentes tanto pelo Estado quanto pela sociedade civil, o Brasil seguirá perdendo bons profissionais da educação e amargando posições desabonadoras em indicadores globais de aprendizado.
Bolsonarismo terá poder inédito no Congresso
Por Folha de S. Paulo
Puxados pelo êxito inquestionável do PL nas
duas Casas, siglas de direita poderão dominar agenda de votações
Flávio já teve vitória precificada, com queda
de juros impulsionando a alta de 7,7% do Ibovespa e a queda de 4,5% do dólar
Para o mercado financeiro, o novo presidente
da República já está definido: será Flávio
Bolsonaro. Nesta segunda (5), os juros futuros recuaram cerca de 1
ponto percentual, impulsionando a alta de 7,7% do Ibovespa e a queda de 4,5% do
dólar. O PL
de Flávio, além disso, obteve marcas históricas no âmbito do Congresso
Nacional.
No Senado,
o PL construiu uma bancada
recorde de 28 cadeiras para a legislatura que começa em 2027, quase
o dobro das 15 que detém atualmente. A sigla superou, assim, as 27 que o PMDB
ostentou em 1999, antigo maior patamar desde a redemocratização.
Também foi recorde a bancada do PL na Câmara, com 121
deputados eleitos, pouco mais de 20% acima dos 98 atuais. O partido
deixou para trás todos os concorrentes desde 1990, perdendo apenas para as 260
vagas conquistadas pelo PMDB em 1986.
As façanhas do PL se estenderam no plano
individual. Em uma lista puxada por Nikolas
Ferreira (Minas Gerais) e Lucas
Pavanato (São Paulo),
ambos com mais de 3 milhões de eleitores, a agremiação atingiu votações
recordes de candidatos a deputado federal em nada menos que oito estados.
Com o êxito nas urnas, o PL de Flávio
Bolsonaro precisará de poucos aliados para dominar a Câmara e o Senado.
Siglas já próximas do bolsonarismo, como
União Brasil, PP, Republicanos, Podemos e Novo, somam entre si 22 senadores e
166 deputados. Ou seja, um bloco liderado pela agremiação de Flávio Bolsonaro
poderia partir de um mínimo já majoritário em ambas as Casas: 50 das 81 vagas
no Senado e 287 das 513 na Câmara.
Do lado oposto do espectro ideológico, uma
possível aliança de esquerda teria dificuldades de ultrapassar 30 senadores,
puxados pelas 9 cadeiras do PT, e 115 deputados, 70
dos quais petistas.
Não parece coincidência que 35 dos 54 eleitos
para o Senado sejam defensores do impeachment de ministros do Supremo Tribunal
Federal —ao todo, a Casa terá 49 nomes favoráveis à medida, apenas 5 abaixo do
mínimo necessário para aprová-la.
De antiga pauta bolsonarista de ataque às
instituições, o tema ganhou relevo com sucessivos abusos da corte e, mais
recentemente, com a proteção
corporativista a ministros envolvidos no escândalo do Banco Master.
Sob desgaste, integrantes do STF têm buscado
iniciativas meritórias nos últimos dias. O presidente Edson Fachin
baixou norma para coibir manobras pelas quais advogados selecionam os
magistrados que examinam seus pedidos, burlando o sistema de sorteio. Já Gilmar Mendes
cobrou dos tribunais medidas, já tardias, contra irregularidades no julgamento
de precatórios.
A pressão sobre o Supremo será obviamente
maior com Flávio no Planalto. Tudo indica que ele indultará o pai —decisão
moralmente infame diante da tentativa de golpe, ainda que juridicamente
amparada por se tratar de prerrogativa constitucional do presidente da
República.
Sobe o custo do socorro ao agro
Relatório da MP que criou programa de
renegociação de dívidas agora inclui demandas da bancada ruralista
Governo recua diante de projeto de lei, em
tramitação na Câmara, que projeta renegociação de R$ 180 bi ao custo de R$ 140
bi em 13 anos
O governo Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
aceitou ampliar seu programa de renegociação da dívida agropecuária, mesmo com
potencial prejuízo às contas públicas.
A medida provisória publicada em julho previa
limites mais sensatos. Agora, o Executivo recua diante da ameaça de aprovação
de um projeto de lei de alcance muito maior pelo Congresso
Nacional.
A bancada ruralista faz pressão com dados
ainda não consolidados sobre o baixo volume de pedidos de renegociação e de
contratação de novos financiamentos desde a efetiva vigência da MP, há pouco
mais de um mês.
Ainda não há clareza sobre se existem, de
fato, riscos à safra de 2026-27 ou se prevalece apenas mais um lobby em favor
da premiação de empresas inadimplentes às expensas do erário.
O que se tem é a insistência do setor em
substituir um programa capaz de amortizar ou liquidar cerca de R$ 100 bilhões
em dívidas ao custo de
R$ 48,3 milhões neste ano pelo dispendioso projeto de lei 5.122/23,
que tramita novamente na Câmara dos
Deputados e projeta renegociação de cerca de R$ 180 bilhões ao custo
estimado de R$ 140 bilhões em 13 anos.
A MP, com prazo de aprovação pelo Congresso
até 11 de novembro, somente prevalecerá se houver empenho das duas Casas
legislativas —ambas suscetíveis às demandas da
bancada ruralista.
Não à toa, tais demandas, anteriormente
rejeitadas pelo Ministério da
Fazenda, foram incluídas no relatório da medida provisória, de
autoria do deputado Paulo Pimenta
(PT-RS).
O texto amplia consideravelmente o escopo da
MP, antes reservada à inadimplência com o setor financeiro, ao admitir dívidas
de operações de crédito comum contratadas para cobrir o passivo acumulado até o
fim de 2025 e as não bancárias. Agrega ainda as operações adimplentes de
crédito para investimentos.
O relatório, porém, manteve os critérios para
a adesão ao programa e a exigência de laudo sobre a perda mínima de 30% da
renda bruta em duas ou mais safras no período de 2019 a 2025 devido a eventos
climáticos ou queda nos preços. Mas não indica o valor a ser coberto pelo
erário.
De todo modo, a aprovação do programa requer
informações mais precisas sobre as razões do endividamento do campo e seus
potenciais impactos sobre a inflação dos alimentos e as exportações
agropecuárias.
O Estado brasileiro não pode arcar desnecessariamente com riscos embutidos na atividade privada, mesmo consideradas as peculiaridades do setor agrícola, já favorecido pelo Plano Safra.
O recado claro do rali dos ativos: mudanças
estruturais
Por Valor Econômico
O debate a fundo das propostas dos candidatos é vital para o correto desenho das perspectivas econômicas
A expectativa de mudanças de política
econômica, com a vitória no primeiro turno do senador Flávio Bolsonaro,
acompanhada de uma avalanche de votos para o PL, maior partido da Câmara dos
Deputados e do Senado, provocou um rali de todos os ativos financeiros e queda
forte dos juros futuros, além de boa valorização do real. A base do otimismo
generalizado, que por enquanto se apoia apenas em promessas, é a de que, se
eleito, Flávio Bolsonaro realizará o ajuste fiscal necessário para inverter o
endividamento público crescente e impulsionará as reformas para destravar o
crescimento. A melhoria súbita das perspectivas econômicas, antes deprimidas
pela desaceleração da economia, pelos juros altos e pela inadimplência, mostrou
o potencial e a carência premente por controle dos gastos e mudanças
estruturais.
Os mercados tentaram antecipar o que ocorrerá
com os preços dos ativos em um possível governo do candidato do PL. O dólar
chegou a ter sua maior queda diária desde julho de 2018, para R$ 4,95, na manhã
de ontem. O Ibovespa ultrapassou pela primeira vez a marca dos 200 mil pontos,
atingindo 209.314, com pico de alta de 9,04% na tarde de ontem. O movimento do
dólar ajudaria o Banco Central (BC) na tarefa de trazer a inflação de volta à
meta, permitindo também queda mais rápida da taxa Selic e dos juros em geral. A
redução dos juros favoreceria os setores cíclicos mais influenciados hoje pelo
custo do dinheiro, como os ligados ao consumo doméstico, e as empresas com
balanços enfraquecidos, estressados pelo peso dos juros, avalia a equipe de
estratégia em ações do banco HSBC.
Essa valorização atingiu em cheio ontem os
papéis das grandes varejistas e empresas de construção. À tarde, as ações da
Magalu subiam 26% e as da C&A, 22,3%. Os grandes comerciantes de alimentos
foram levados por essa onda, com Assaí em alta de 17,7%. Só ontem, as ações
negociadas na B3 viram seu valor de mercado aumentar em R$ 410 bilhões. Os
juros futuros fizeram movimento inverso, com queda de 1 ponto percentual nos
contratos DI de vários vencimentos. O de janeiro de 2028 chegou a recuar de
13,51% para 12,58%, o de janeiro de 2029, de 13,51% para 12,52%, e o de 2031,
de 13,99% para 12,60%. NTNs com IPCA de todos os vencimentos caíram abaixo de 7%.
Com a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro
turno, os investidores já começaram a apostar em uma aceleração do ritmo de
queda da Selic, que poderia ser de 0,5 ponto percentual na reunião do Copom de
dezembro. A possibilidade de isso ocorrer, segundo o mercado de opções
digitais, subiu de 18% para 45%. Há aí componentes especulativos, porque se
mudanças recentes ocorreram no front inflacionário, elas foram na direção de
aumento do IPCA no curto prazo e de manutenção da desancoragem das
expectativas.
A prioridade do ajuste fiscal é consenso
entre os investidores e leva em conta a nova correlação de forças no Congresso.
As legendas de direita, com PL como força principal, somam 41,7% da Câmara e
51,8% do Senado, segundo a consultoria Oxford Economics. Essas legendas
comungam interesses com partidos do Centrão (MDB, PSD, Republicanos), e,
juntos, reúnem mais de três quintos dos deputados, quórum suficiente para a
aprovação de Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que exige 308 votos
favoráveis. Os partidos da esquerda (PT, PC do B, PV e PSB) têm agora bancada
de 124 deputados.
Além disso, os bolsonaristas abocanharam
espaços de legendas mais moderadas e fisiológicas, com o PL ampliando sua
bancada de 98 deputados para 121. União Brasil perdeu 6 cadeiras, o PP e o PSD,
5 cada na Câmara, enquanto o Novo, linha auxiliar do PL, elegeu 10 deputados,
dobro do que tinha.
Há em tese mais facilidade para a composição
de interesses com eventual presidente do PL, que contará com base parlamentar
robusta. Resta ver se há de fato vontade política e programática de realizar o
ajuste fiscal e as reformas. O senador Flávio Bolsonaro foi vago em ambas e
terá a chance de explicitar suas propostas no segundo turno. Sobre o ajuste,
ressurgiu o velho sonho de Paulo Guedes, ministro de Jair Bolsonaro, de obter
R$ 1 trilhão com a venda de imóveis da União, uma mudança patrimonial no
orçamento que não resolve o problema, assim como corte radical de ministérios,
importante, mas de economias modestas. Se o modelo for o praticado pelo governo
do pai, Jair Bolsonaro, os investidores se frustrarão. Não houve interesse em
reformas, a administrativa foi vetada e a da Previdência foi feita à revelia do
Planalto, que se empenhou em preservar privilégios dos militares.
O recado do rali serve também para o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que até o fechamento das urnas do segundo
turno, em 25 de outubro, continua no páreo. Precisa se comprometer com um
ajuste fiscal profundo, sem gastos contabilizados fora do arcabouço e com corte
estrutural de despesas, bem diferente do que vem praticando neste terceiro
mandato.
O debate a fundo das propostas dos candidatos é vital para o correto desenho das perspectivas econômicas. Há grande entusiasmo com mudanças. Mas para isso será preciso compromissos claro dos candidatos, e o momento decisivo para fazê-los diante dos eleitores é agora.
Voto consciente precisa do debate de ideias
Por Correio Braziliense
Quando a escolha política se baseia em
derrotar o menos pior e não em depositar a confiança em um projeto político que
faça sentido, perdem o eleitor, o Brasil e, sobretudo, a democracia
Cento e vinte e cinco milhões de brasileiros
não abriram mão neste domingo de usar, por direito, o principal instrumento de
participação na vida pública: o voto. Para além dos resultados das urnas, há de
se celebrar que elas funcionaram. Sem grandes intercorrências e "na maior
transparência possível", nas palavras do presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, o Brasil, mais uma vez, prova
que tem um dos sistemas eleitorais mais íntegros e ágeis do mundo.
Missões estrangeiras que acompanharam o
processo, a do Parlasul e a de Observação Eleitoral da OEA (Organização dos
Estados Americanos), chegaram à mesma conclusão. "O sistema de votação já
tem cerca de 30 anos e cada vez está melhor, cada vez mais aperfeiçoado",
resumiu o chefe da missão da OEA, José Miguel Insulza, também ex-chanceler do
Chile. Ambas as comitivas não desembarcaram em Brasília para acompanhar as
eleições pela primeira vez, e não há em relatórios anteriores conclusões
diferentes das impressões compartilhadas neste domingo.
Também ontem, críticos tradicionais ao
sistema de votação conquistaram vitórias expressivas e a abstenção chegou ao
maior patamar dos últimos 30 anos em um primeiro turno: 21,08%. Passou,
portanto, da hora de abandonar os disparates ideológicos e trazer o cidadão à
arena do processo da decisão democrática — a razão de ser da democracia
participativa e da soberania popular. Que seja agora, na disputa em segundo
turno pela Presidência e pelo governo de sete unidades da Federação.
Não é exagero afirmar que o desânimo e a
descrença que atingem uma parcela considerável do eleitorado brasileiro tem na
falta de proposituras uma de suas raízes. Quando a escolha política se baseia
em derrotar o menos pior e não em depositar a confiança em um projeto político
que faça sentido, perdem o eleitor, o Brasil e, sobretudo, a democracia. Não à
toa são cada vez mais desinibidas as defesas pelo fim do voto obrigatório e do
voto feminino.
O eleitor quer propostas e também respostas à
sucessão de grandes escândalos envolvendo cifras bilionárias e grandes figuras
da República. Quer voltar a acreditar que quem exerce os Poderes respeita os
limites das leis e atua de forma independente e harmônica, como prevê a nossa
Carta Magna. Precisa, portanto, que a mediocridade que tomou conta das
campanhas, em especial nas redes sociais, seja substituída por um debate de
propostas à altura da grandiosidade deste país. E mais: que quem chega ou se
mantém no Legislativo e no Executivo esteja, de fato, comprometido em representar
os votos recebidos e também dos adversários.
O descrédito na política não se expressa apenas no cansaço com as campanhas e no não comparecimento às urnas, gera apatia cívica, não acompanhamento de decisões públicas, inflama a intolerância — é, em suma, salvo-conduto aos mal-intencionados e uma ameaça cáustica à democracia. O voto consciente é antídoto para esses descaminhos. E ele depende do debate de ideias e da seriedade de quem tem a obrigação de apresentá-las.
A confiabilidade do sistema eleitoral do
Brasil
Por O Povo (CE)
O Brasil, de novo, ofereceu ao mundo uma
demonstração da força de sua democracia como saldo do que vivenciamos neste
último domingo, dia 4. Um dia de normalidade, em que as pessoas sairam de suas
casas para votar, o fizeram em ambiente de normalidade completa, puderam se
manifestar de maneira livre e, poucas horas depois de concluído o processo de
votação, já era possível divulgar os resultados.
Como evidência de robustez do modelo de
votação que temos em nosso País, o grupo político que sai, na média, com mais
vitórias contabilizadas, na eleição presidencial, na briga pelos governos
estaduais e na disputa por vagas nos parlamentos, é aquele que ainda mantém uma
ideia de contestação à segurança, por exemplo, das urnas eletrônicas. A melhor
resposta vem através de situações como a que ficou registrada, como
demonstração de que elas expressam nos resultados o que é desejo do eleitor.
Apenas isso.
Candidato à presidência pelo PL, Flávio
Bolsonaro, que tem festejado os números desde a noite de domingo, mesmo ainda
tendo um segundo turno por enfrentar, poderia dar um primeiro passo no caminho
de superarmos esse falso problema manifestando uma confiança definitiva no
sistema eleitoral brasileiro. Ajudaria no convencimento de quem confia nele,
conforme ficou demonstrado pelo voto, e ainda mantém uma visão distorcida
devido a discursos do passado que, em geral justificados por derrotas,
levantaram dúvidas quanto à confiabilidade de eleições anteriores realizadas
sob os mesmos parâmetros e condições de agora, em 2026.
O reconhecimento internacional já existe, de
quem observa como convidado ou de quem acompanha jornalísticamente, parecendo
ser hora de superarmos de maneira definitiva as dúvidas internas que seguem
alimentadas por agentes políticos que mantêm a pauta viva, pela fala ou pelo
silêncio. Mesmo diante de reiteradas demonstrações de que temos um processo
seguro, algo que o processo recém findo confirma.
Aliás, o próprio bloco político que tanto tem
contestado a tecnologia do voto brasileiro poderia anexar à sua visão acerca do
tema o que acaba de dizer, em forma de elogio, o presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump. Em comentário sobre a eleição brasileira, ele ressaltou
exatamente a agilidade, combinada à segurança, do processo de apuração, com o
anúncio dos resultados apenas algumas horas depois das urnas encerradas.
Claro que o nosso sistema eleitoral não é perfeito, imune a problemas ou, até, irregularidades. Para isso existem as instâncias responsáveis por apurar o que lhes chega como denúncia e, constatado o problema, buscar resolvê-lo. Assim é como funciona em toda democracia, não há razão para se tentar criar uma ideia de que seja diferente no Brasil, onde, ao contrário, nota-se um esforço de aprender com os erros e utilizá-los para fazer os ajustes necessários. Pode ser um momento apropriado para tirarmos essa pauta, definitivamente, do nosso debate político.

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