quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A persistência da direita em busca do poder, por Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

O governo de Jair Bolsonaro foi um desastre em todas as áreas

Em 13 de junho de 2013, rapazes e moças arregimentados pela mídia social tomaram espontaneamente as ruas da cidade de São Paulo em protesto contra o aumento na tarifa dos transportes. A mobilização cresceu e em poucos dias se alastrou pelo país, incorporando outras pautas: contra a corrupção, a situação da saúde e da educação e até contra a Copa do Mundo que se realizaria no ano seguinte no Brasil.

Sob o olhar perplexo de expoentes do PT, que chegaram a considerar a insatisfação popular uma ingratidão do povo, as manifestações logo passaram a ser orquestradas pela direita que viu ali um caminho para voltar ao poder.

Dilma Rousseff foi reeleita em 2014 por estreita margem, mas não teve sossego. Em 31 de agosto de 2016 seu mandato foi cassado por crime de responsabilidade fiscal. Michel Temer, o vice, assumiu a Presidência, com ar alegre e faceiro, e as emendas parlamentares sedimentaram o confisco do Orçamento da União pelo Congresso Nacional através da mão firme de Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados. Começava ali o desenrolar do fio da meada que levou Luiz Inácio Lula da Silva à prisão em abril de 2018 e Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto na eleição daquele ano, escancarando a polarização política na sociedade brasileira.

O PT novamente não soube dimensionar a realidade à sua volta e identificar os novos anseios da classe C

No rastro da Lava Jato, o antipetismo atingiu o auge. Pessoas brigavam nas ruas pelo posicionamento político. Famílias se digladiavam entre Bolsonaro e Lula. Boa parte da intelectualidade brasileira — acadêmicos, estudiosos, analistas e formadores de opinião — passou a repudiar abertamente qualquer menção a Lula. A simples referência ao seu nome ou de pessoas do entorno do PT suscitava arrepios generalizados.

Contra a esquerda, cresceu a preferência em 2018 pelo candidato que fez apologia em alto e bom som a um dos piores torturadores da ditadura militar. O governo de Jair Bolsonaro foi um desastre em todas as áreas, mas sua displicência com a pandemia da covid-19, eivada de deboches, descaso com o fornecimento de material e oxigênio, mentiras e desagravos às legítimas autoridades na área da saúde acabou por ser o grande fator a pesar contra ele.

Com parentes e amigos mortos ou à beira da morte por culpa da insensatez do governo e diante do receio de retrocesso nas conquistas da democracia brasileira, a intelectualidade e a classe A, percebendo que havia algo pior do que o petismo, virou a chave. Resolveu que Lula, já então liberto, seria o único político com poder de fazer frente a Bolsonaro. Mesmo porque não havia outro.

E assim, com o apoio daqueles que poucos anos antes haviam emprestado suas vozes às narrativas antipetistas, Lula saiu vitorioso em 2022 contra a reeleição de Bolsonaro. Mas foi por um triz.

O discurso em defesa das instituições e da democracia ganhou força com a tentativa do golpe de 8 de janeiro de 2023, dando ao STF a grande chance de se firmar como o guardião máximo do Estado Democrático de Direito no país. Mas foi uma oportunidade desperdiçada. O envolvimento de alguns ministros com o caso Master expôs a falta de comprometimento ético e moral do Supremo, reforçando as investidas de políticos e eleitores simpáticos a Bolsonaro que, dia sim dia não, enquanto presidente, tentou sistematicamente desmoralizar a instituição.

Desse modo, em meio à crise do STF e uma bem articulada engrenagem da extrema direita, chega-se à segunda etapa do processo eleitoral de 2026 com a eleição já ganha pelo PL, partido do candidato Flávio Bolsonaro, o filho do pai. Independente de quem venha a ser efetivamente eleito na reta final para presidente, se Lula ou Flávio, a fatura já foi emitida. O PL terá 28 senadores a partir do ano que vem, uma avalanche não prevista pelos institutos de opinião pública. Aliás, as pesquisas ficaram longe dos resultados do primeiro turno com discrepâncias totalmente fora da curva, como o caso do marqueteiro palpiteiro que chegou a prever a vitória do Lula no primeiro turno.

A maioria de partidos de direita no Senado garante espaço para ameaçar a independência do STF. Esse é o roteiro seguido pelos grupos de extrema direita: conquistar o Executivo e o Legislativo, minar a Corte Suprema e preenchê-la com ministros de confiança para as causas que estão na raiz dos movimentos com viés fascista.

O apetite por um retrocesso, no entanto, vai além. O candidato Flavio Bolsonaro anunciou esta semana que pretende introduzir mudanças na Constituição. Tem votos para isso no Congresso Nacional. A chamada Constituição cidadã corre o risco de ser desfigurada a favor de grupos com maior poder de pressão no Congresso. Há aqui um caminho perigoso a monitorar como, por exemplo, a imposição de uma política de segurança mais rigorosa. Flavio Bolsonaro, simpático ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que introduziu o regime de exceção e o encarceramento generalizado no país, já defendeu a redução da maioridade penal no Brasil para 16 anos e até 14 anos, em alguns casos.

O fio que começou a ser puxado a partir da passeata do dia 13 de junho de 2013 nunca parou de ser desenrolado. Segue firme e muito bem direcionado. Mas esta explicação não basta para entender como chegamos até aqui.

Tal qual 2013, o PT não conseguiu dimensionar nestas eleições a realidade à sua volta. A classe C que Lula ajudou a consolidar nos dois primeiros mandatos não quer mais as mesmas promessas. Tem anseios novos que a esquerda não sabe identificar. Já do ponto de vista das candidaturas, o partido também falhou. Não foi capaz de colocar em prática uma estratégia que lhe assegurasse mais assentos no Senado, vital para uma composição política mais equilibrada na próxima legislatura.

O antipetismo, por sua vez, continua vivo e atuante, haja vista a reação do chamado mercado financeiro pós primeiro turno diante da perspectiva de que Flávio Bolsonaro vença as eleições. Sabe-se que o mercado é cego, mas nem toda a cegueira do mundo consegue justificar a euforia com a possibilidade de vitória de um candidato que até aqui não apresentou um programa de governo, não revelou planos para a economia e tampouco tem capacidade de liderança para estancar a sangria fiscal das emendas parlamentares.

Fato concreto é que Flavio Bolsonaro já se movimenta como futuro presidente do Brasil, respaldado por apoios crescentes da direita. A vitória de Lula está de novo por um triz.

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