quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pretensão de Kassio de soltar Bolsonaro é um acinte

Por Folha de S. Paulo

Ministro do STF cogita anular os efeitos da justa condenação do ex-presidente por tentativa de golpe

A via correta para reduzir penas exageradas é o plenário da corte autorizar logo a vigência da lei da dosimetria, aprovada pelo Congresso

Causa espécie a notícia de que o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, cogita anular os efeitos da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e permitir a sua soltura, mediante decisão monocrática. Parece que juízes da corte constitucional não compreenderam a intolerância da sociedade com esse padrão de intromissão político-partidária.

A causa é acintosa. Não há dúvidas da participação do então candidato derrotado à reeleição numa trama para subverter o resultado das urnas. Testemunhos e provas asseguram que o Brasil só não viveu a recidiva autoritária pela resistência da cúpula das Forças Armadas, liderada pelo general Freire Gomes, do Exército.

Lula e Flávio representam dois projetos de nação que dividem o Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O segundo turno não será apenas o confronto entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram a expectativa de poder de Lula para Flávio Bolsonaro

O segundo turno da eleição brasileira mobiliza complexos interesses. Terras-raras, energia, alimentos, dados, infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximará Brasília da agenda de Trump, encurtando a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma ruptura, mas cresce a pressão por um realinhamento diplomático radical.

O Brasil vive uma encruzilhada geopolítica e, ao mesmo tempo, de modelo de desenvolvimento: negociar sua inserção como produtor de tecnologia e bens de maior valor ou ampliar o papel de fornecedor de produtos agrícolas e recursos minerais estratégicos. A aproximação americana pode trazer investimentos, mas restringir as alternativas. Em contrapartida, a autonomia que Lula defende precisa produzir resultados. A diplomacia não supera, sozinha, a dependência tecnológica.

Cláusula de desempenho: menos partidos no Legislativo, mais ideologia? Por Evelyn Apolinaria e Isaac Jordão Sassi*

Correio Braziliense

Menos siglas não significa mais identidade programática, mas pode significar grandes blocos mais heterogêneos

Dezesseis dos 30 partidos registrados no país não alcançaram os requisitos da cláusula de desempenho nas eleições de domingo e ficarão sem fundo partidário, sem tempo de rádio e de TV a partir de 2027. A inspiração para essa regra, porém, remonta à Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial como um mecanismo para impedir que partidos minoritários pudessem ascender lentamente à participação do parlamento.

No Brasil, a tentativa de implementar um mecanismo semelhante aconteceu pela primeira vez em 1995, por meio da Lei dos Partidos Políticos, como um mecanismo para impedir que partidos nanicos ocupassem cada um poucas cadeiras na Câmara e causassem fragmentação excessiva. Contudo, o início da aplicação da cláusula foi adiado para 2006, quando foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Tsunami do PL poderia ter sido previsto, por Fernando Exman

Valor Econômico

Deve-se esperar um intenso trabalho nos bastidores dos chineses junto às autoridades brasileiras, em meio à guerra tarifária iniciada pelos EUA

Entre aliados do senador Flávio Bolsonaro, há uma avaliação de que muitos dos 56,1 milhões de eleitores que votaram no candidato do PL à Presidência da República no domingo (4) o fizeram mais para se posicionar “contra” a atual situação do país do que por estarem necessariamente a favor do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Contra os excessos da Justiça, contra a falta de segurança nas ruas, contra o endividamento, contra a carestia.” Contra algo e alguém, neste caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu governo.

O dilema da campanha: Faria Lima ou povão? Por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Há na área econômica do governo sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas ‘bondades’ neste segundo turno

Há na área econômica do governo federal sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas “bondades” neste segundo turno eleitoral. Primeiro, porque não há nada pronto para ser anunciado. Segundo, porque uma medida sacada da cartola a essa altura do campeonato, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida pela Presidência da República, poderia até ser malvista, ao passar um clima de “fazer o diabo para ganhar a eleição”.

Mesmo assim, ninguém jura que não haverá novas medidas daqui até o dia 25 de outubro. A postura nos bastidores da equipe econômica é de colaboração.

A hesitação entre lançar ou não mais “bondades” reflete um dilema que corre entre estrategistas da campanha de Lula em relação a temas econômicos: fazer um aceno para os agentes de mercado ou falar ao povão. O presidente precisa se aproximar dos dois grupos, mas agradar a um quase sempre é desagradar ao outro.

Não há falta de futuros, mas há falta de sentidos, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

A democracia tem que saber em que acredita; e dizê-lo

Se não dermos sentidos para o progresso e até para a humanidade, não teremos vidas que valham a pena ser vividas

"Estamos fartos", diz um dos participantes nos protestos estudantis em França. "Não há futuro para nós", diz outro. As mesmas frases poderiam ser ditas —e foram— sobre outros protestos e revoltas na história; as mesmas frases têm sido usadas para descrever as reações de eleitorados em todo o mundo, a cada vez que uma eleição corre como não era previsto. Não é impossível que os protestos deste ano na França acabem por ajudar à eleição de Marine Le Pen no próximo ano. Mas será que o lugar-comum faz sentido?

Como o Plano Barrabás e mexida na Constituição ameaçam ajuste fiscal de um Bolsonaro 2, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Expectativa de vitória já diminui taxas de juros, mas Flávio esconde programa econômico

Ataques ao sistema e histórico de governo Bolsonaro 1 lançam dúvidas sobre plano

Donos e administradores do dinheiro grosso tiveram de alterar suas aplicações porque Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno. Dadas as alternativas, Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cresceu um pouco a probabilidade de contenção de gasto e dívida do governo, o que afeta juros, moeda, etc.

Não interessa agora se a expectativa vai se confirmar. Amanhã vai ser outro dia. Importa falar dos riscos das expectativas para Bolsonaro 2.

O caminho mais seguro para perder uma eleição presidencial, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Confundir merecimento com voto e certezas com realidade é caminho seguro para a derrota

Se é preciso virar um jogo, o eleitor decisivo é justamente aquele que não fala a sua língua

Vamos supor que você queira disputar uma eleição presidencial numa situação em que quase metade do eleitorado diz que não votaria em você em hipótese alguma. O país está ávido por mudança, mas esta é a sétima vez que você concorre ao mesmo cargo.

É verdade que seu adversário tem rejeição semelhante. Mas há uma diferença importante: é você quem governa o país. É de você que se cobram os problemas que continuam sem solução e as coisas que as pessoas acham que um governo deveria entregar. Para piorar, há mais brasileiros avaliando negativamente a sua administração do que aprovando-a.

A síndrome do segundo mandato, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

A exemplo de Trump e Netanyahu, um novo governo do clã Bolsonaro tenderia à radicalização

Fraqueza do STF e Congresso dominado pela ultradireita agravam os riscos institucionais

Biológica e juridicamente, Jair e Flávio Bolsonaro são seres distintos. Mas, politicamente, atuam como um coletivo. Assim, uma vitória de Flávio iniciaria não o seu primeiro mandato, mas o segundo do clã Bolsonaro. E é aí que mora o perigo.

A literatura mostra que processos de erosão democrática patrocinados por líderes autoritários costumam ficar mais agudos a partir de seus segundos mandatos. E esses movimentos tendem a intensificar-se ainda mais se o dirigente tiver sido removido do poder por um período e depois retornado. É aí que eles vêm com sangue nos olhos. Vimos isso claramente nos casos de Trump 2, de Netanyahu pós-2022 e do último Viktor Orbán. Candidatos a explicar a radicalização incluem os ressentimentos acumulados, o maior conhecimento das engrenagens do poder, que torna suas ações mais eficazes, e o afastamento dos membros mais moderados de suas coalizões.

Perfil do Congresso será conservador como sempre foi, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É precipitada e incorreta a conclusão de que houve, agora, um avanço inédito da direita no Parlamento

A diferença é o desempenho dos radicais, que, no fim, se alinham sob o guarda-chuva pragmático do centrão

O Congresso Nacional eleito para os próximos quatro anos não será mais nem menos conservador do que sempre foi se olharmos o perfil geral pela predominância de representação do centro à direita.

No quadro mais amplo, a Câmara dos Deputados, isso se vê melhor: dos 57% atuais, esse campo vai para 59% dos deputados. A esquerda segue minoritária como sempre, com os mesmos 24%, considerando o PT e agregados.

Entrevista | Antonio Lavareda: ‘Voto para presidente não mostra revolução de direita’, por Hugo Henud

O Estado de S. Paulo

Cientista político atribui o revés de Lula no 1.º turno à abstenção e ao pessimismo econômico

Sociólogo, é professor colaborador da pós-graduação em Ciência Política da UFPE e especialista em comportamento eleitoral

A dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno não representa, na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, uma “revolução de direita” no voto presidencial. Para Lavareda, pequenos deslocamentos do eleitorado em relação a 2022 foram suficientes para produzir um resultado politicamente expressivo e colocar o senador à frente do presidente na disputa pelo Palácio do Planalto. “Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso”, diz.

Em entrevista ao Estadão, Lavareda afirma que a abstenção ajuda a explicar por que a vantagem de Lula registrada por pesquisas às vésperas da votação não apareceu nas urnas. Para o segundo turno, Lavareda afirma que uma virada de Lula é possível, embora difícil, e exigiria movimentos em três frentes: recuperar parte dos eleitores que se abstiveram, disputar os votos das candidaturas eliminadas, em sua maioria, segundo ele, de perfil conservador, e avançar inclusive sobre quem escolheu Flávio no primeiro turno. 

Leia os principais trechos:

As ilusões perdidas, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o MDB fazia com as siglas da esquerda

Ao fazer o retrato inicial de Lucien Chardon, o jovem de origem modesta que aspirava à aristocracia adotando o nome da mãe – Rubempré –, Balzac escreveu que suas “belas ilusões da juventude” ainda não “haviam sido afetadas pelos desejos e pelas dificuldades da vida”. Lucien reencontrava suas recordações, suas ilusões e seus vinte anos ao voltar à sua terra. Esse parece o caso, em cada eleição, das principais forças políticas do País.

Seria preciso um Balzac para demonstrar como a terceira via se iludiu durante quatro anos ao se juntar aos Bolsonaros em cada manifestação da Avenida Paulista em vez de lhes disputar a hegemonia na oposição? Quem passou a vida vendo a banda passar sai da urna da mesma forma que entrou. Ou pior: desempregado. Esperidião Amin que o diga. A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o velho MDB tratava as siglas de esquerda que abrigava nos anos 1980: uma turma do barulho, mas que lhe trazia votos.

Voto em Flávio Bolsonaro vai soltar Jair, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Kassio Nunes Marques indica que pode dar canetada e libertar ex-presidente após eleição

Kassio Nunes Marques mandou avisar: encerrada a eleição, quer julgar o pedido de revisão criminal apresentado pela defesa de Jair Bolsonaro. Para surpresa de ninguém, o ministro fez circular que vê “exageros” na condenação do ex-presidente. Acrescentou que também estuda soltá-lo com uma liminar, antes de levar o processo a plenário.

Flávio Bolsonaro nunca escondeu que sua primeira medida, se eleito, será assinar um indulto para tirar o pai da cadeia. A novidade é a disposição de Kassio, enrolado no escândalo do Banco Master, para antecipar o processo com uma canetada. Os bolsonaristas que demonizam as decisões monocráticas do Supremo não devem protestar.

O que vem por aí caso Flávio vença, por Vera Magalhães

O Globo

Mercado espera reforma fiscalista, mas ênfase da campanha, inclusive do início do segundo turno, é em ameaças ao STF e buscar indulto a Jair e demais condenados

A euforia nos mercados depois do primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula parte do princípio de que, se o senador do PL vencer a eleição no próximo dia 25, haverá reformas econômicas no período inicial do mandato, conhecido por representar uma lua de mel entre o presidente eleito e o Congresso. Todas as indicações do candidato e do comando de sua campanha, no entanto, deixam claro que essa está longe de ser a prioridade.

Um dos primeiros atos de Rogério Marinho, coordenador da campanha e visto como homem forte de um possível governo Flávio, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para deixar claro que o futuro governo não “se omitirá” em relação a ministros da Corte.

A direita veio para ficar, por Elio Gaspari

O Globo

O mapa eleitoral replica o de 1974 desde 2022

Desde a eleição presidencial de 2022, o mapa eleitoral mostra que Bolsonaro prevalecia no Sul e no Sudeste. Lula prevaleceu em Minas e no Nordeste.

Em 1974, a ditadura estava certa de que triunfaria e tomou uma bofetada eleitoral. A oposição elegeu 16 dos 22 senadores. (Naquele tempo, os governadores eram eleitos indiretamente; a disputa pelo Senado era a maior eleição majoritária disponível.)

A ditadura foi ferida de morte. Numa análise grosseira, em 1974 o PIB votou na oposição, e o regime ficou com os grotões. Em 2022, o mapa foi semelhante, e em 2026 a escrita repetiu-se, aprofundando-se.

A ditadura foi surpreendida em 1974. Em 2026, o PT foi para a guilhotina com indolência. Em São Paulo, a vitória de Orestes Quércia era inimaginável em 1974, tanto que Ulysses Guimarães não quis disputar o Senado. Em 2026, depois de ter perdido a capital por uma margem de 1 milhão de votos, o PT marcou presença e lançou Fernando Haddad ao governo e foi derrotado com uma diferença de 6 milhões de votos (36%).

Poesia | O Vento na Ilha, de Pablo Neruda

 

Música | Não vai dar certo - Celso & Pedro Viáfora (2025)