Correio Braziliense
O sintoma mais visível de que os aliados de
Bolsonaro já imaginam ter o caneco na mão é a discussão sobre a distribuição de
ministérios antes de conquistar a Presidência
A eleição presidencial entrou no segundo turno com duas campanhas em estados de espírito opostos. A de Flávio Bolsonaro vive uma euforia que já beira o salto alto, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procura superar a perplexidade de uma campanha que esperava chegar à etapa decisiva na liderança. O resultado de domingo fortaleceu a oposição, alterou as expectativas do mercado e acelerou a adesão de aliados. Mas a distância de 1,87 ponto percentual entre os candidatos não é intransponível: Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos; Lula, 45,16%. O favoritismo mudou de lado, mas a eleição continua aberta.
A grande repercussão na Bolsa de Valores deu dimensão econômica à vitória
política do bolsonarismo. Na manhã seguinte à votação, o Ibovespa chegou a
subir mais de 8%, ultrapassando os 207 mil pontos. Investidores antecipam uma
possível mudança de governo, associada à expectativa de maior contenção fiscal
e medidas favoráveis aos negócios. Esse movimento reforça a narrativa
oposicionista: preços de ativos expressam apostas sobre o futuro, sujeitas a
correções. Houve mais de R$ 10 bilhões em investimentos estrangeiros num único
dia. Ontem, a Bolsa caiu 0,74% e o dólar subiu 0,83%, o que mostra uma
acomodação. Por isso mesmo, é um risco interpretar o entusiasmo financeiro como
confirmação antecipada das urnas.
O sintoma mais visível de que os aliados de Bolsonaro já imaginam ter o caneco
na mão é a discussão sobre a distribuição de ministérios antes de conquistar a
Presidência. Tereza Cristina e Rogério Marinho são cogitados para a Casa Civil
e para a Presidência do Senado. Roberto Campos Neto, para a Fazenda. Ronaldo
Caiado e Guilherme Derrite entram nas conversas sobre Justiça e Segurança
Pública, cuja eventual separação também integra as especulações. Essa
movimentação revela uma competição por espaços entre aliados antigos, novos
apoiadores e grupos interessados em participar do próximo governo.
A antecipação transmite confiança na vitória, mas também expõe contradições. A
promessa de enxugar a máquina pública convive com a pressão para acomodar
partidos e lideranças. A chegada de novos aliados amplia a força eleitoral de
Flávio, ao mesmo tempo que aumenta a conta política de uma eventual vitória. A
disputa por cargos pode resultar numa imagem de que a divisão do poder começou
antes de o eleitor dar a palavra final.
A estratégia de comunicação de Flávio foca na indignação moral, na insatisfação
econômica e no confronto institucional. Ao chamar Lula de “ladrão”, lança mão
de uma acusação destinada a reativar o antipetismo e transformar a eleição num
julgamento pessoal do presidente.
A crítica à carestia aproxima esse ataque da experiência cotidiana de famílias
endividadas. Reduzir impostos e diminuir a máquina pública oferece uma resposta
simples ao sentimento de que o Estado custa muito e entrega pouco. Já a
promessa de alinhar o Brasil aos Estados Unidos sinaliza uma mudança de
orientação internacional.
O pedido de impeachment de ministros do Supremo, sobretudo Alexandre de Moraes,
completa essa narrativa. Está acoplado ao projeto de anistia ao ex-presidente
Jair Bolsonaro e demais condenados do 8 de janeiro de 2023. A atuação do
Supremo Tribunal Federal (STF) às vésperas da eleição embalou o voto para o
Senado e elegeu parlamentares dispostos a confrontar a Corte. A expansão do PL
nas duas Casas fortalece a percepção de que Flávio teria condições de executar
sua agenda. Entretanto, o tamanho das bancadas não elimina negociações nem
transforma promessas em soluções automáticas.
Contraofensiva
Lula enfrenta um problema de estratégia de
propaganda: reconhecer que parte da população não compartilha a avaliação
positiva que o governo faz de si mesmo. A percepção de que o país segue na
direção errada permaneceu sem resposta convincente. Indicadores favoráveis de
emprego ou renda não apagam a pressão dos preços, dos juros e das dívidas sobre
o orçamento doméstico. Insistir que a economia vai bem, sem reconhecer essas
dificuldades, pode ampliar a distância entre o discurso presidencial e a vida
do eleitor.
Superar a paralisia exige enfrentar as
fraquezas da própria campanha. O desgaste de Lula não será revertido apenas
pela exposição do passado do adversário ou pelo alerta sobre ameaças à
democracia. Esses argumentos estão longe uma perspectiva de futuro. O que
mudará no próximo mandato, como o governo enfrentará a carestia e por que terá
capacidade de entregar mais? A defesa de aposentadorias, medicamentos, serviços
públicos e melhores condições de trabalho não pode ser um simples inventário de
realizações, precisa representar um projeto de futuro melhor.
Há também uma grande incógnita quanto ao acerto da estratégia de campanha esboçada para o segundo turno: não há nenhuma garantia de 33,4 milhões de ausentes constituem uma reserva automática de votos petistas. Recuperar parte deles exige compreender a desmotivação. Lula perdeu terreno no Nordeste e precisa reduzir as desvantagens em São Paulo e Minas Gerais. Também terá de disputar eleitores dos candidatos eliminados, sem confundir adesões de dirigentes com transferência garantida de votos. A mobilização de idosos para votar em razão da prova de vida também precisa ser escrutinada. Em quem votaram?

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