O Estado de S. Paulo.
Os limites da euforia com os resultados até aqui das eleições estão na política
Os agentes econômicos consideram a eleição
terminada e decidida contra o atual governo. De fato, os profissionais em
pesquisas consideram bastante improvável uma virada de Lula no segundo turno,
embora não seja impossível. Esse é o fator mais imediato da “euforia” traduzida
em alguns números nos mercados.
O outro fator imediato é um dado inédito na recente história política brasileira, surgido do primeiro turno: a possibilidade (caso Flávio vença) de um presidente com maiorias confortáveis nas duas casas do Legislativo. O efeito manada entre as agremiações fisiológicas está em pleno curso no Congresso, atraídas pela perspectiva de poder. É a projeção dessa maioria no Senado e na Câmara que já levou Flávio a falar em alterações na Constituição.
O limite da euforia vai estar provavelmente
na política, dominada por dois fatores “estruturais” cuja solução é impossível
sem algum tipo de entendimento de forças que vá além – bem além – de vitória
nas urnas. O primeiro é a notável dissolução na relação entre os Poderes, com
distorções (particularmente em relação ao papel do Judiciário, mas também no
Legislativo), que estão se acentuando.
O segundo é a incapacidade, até aqui, de uma
força política majoritária organizar ao seu redor uma “agenda” de reformas
necessárias. Pode-se chamar isso também de “concertación” – a capacidade de
fazer convergir em torno de algo como “bem comum” também para adversários
políticos. Estamos bem longe disso.
No caso das eleições em curso é bastante
evidente o cansaço com o que existe, mas não está claro que tipo de mandato se
está conferindo aos prováveis vencedores. “Mudança”, “antipetismo” e
“antissistema” são fatores eleitorais. Não constituem plataformas seguras e
duradouras – e nem coerentes – para transformações em torno de eixos de atuação
política com sentido estratégico.
Ondas como a que se registra agora são
notoriamente difíceis de ser dirigidas e controladas. Jair Bolsonaro surfou uma
dessas em 2018, com os conhecidos resultados. Elas se compõem de muitos
elementos, até opostos entre si, muitas vezes coerentes apenas naquilo que não
querem ver mais no lugar e difusas quanto ao que pretendem instalar. E sujeitas
a circunstâncias voláteis. No caso do Brasil, as mais imediatas são a crise
fiscal e a desaceleração da economia, sufocada por dívida e juros. E choques
externos, particularmente em combustíveis e fertilizantes, que atingem
diretamente o principal segmento dinâmico da economia brasileira, que é a
agroindústria.
O maior risco para os que se enxergam
vencedores das eleições é achar que estão levando um cheque em branco.

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