Revista Será?
Entre decepções, surpresas e lamentações, as
urnas do primeiro turno impactaram a vida política brasileira. Como
interpretá-las?
Os resultados trouxeram perigos e alertas para os atores da política democrática brasileira. Nas eleições legislativas, a maioria formada pelo PL (Bolsonaro) na Câmara e no Senado foi um dado chamativo. Os demais partidos oscilaram. A maioria saiu-se mal, com a exceção do PSOL, que teve bom desempenho e elegeu uma bancada competitiva na Câmara. Já nas eleições para a Presidência, o campo democrático – representado por Lula, pelo PT, pelo PSDB, Rede e Cidadania, além de pedaços do chamado “Centrão” e dos liberais que prezam a democracia — sofreu uma inesperada derrota.
Não houve um único culpado pelos resultados
do primeiro turno. Foram tantos os fatos que incidiram sobre a eleitorado (os
escândalos, as denúncias, a crise moral do STF, as declarações precipitadas, o
desarranjo social crescente, os apelos à religião e à religiosidade), que não
faz sentido explicar a situação por causalidades simples. Mas os atores
principais, por sua própria relevância política, estão forçados a avaliar onde
foi que erraram. O PT e Lula não foram os únicos responsáveis pelo esmaecimento
do arco de forças democráticas formado após o fim da ditadura. Não ajudaram,
porém, a alimentá-lo. Por estarem a governar desde 2002, com um breve intervalo
entre 2016 e 2022, os petistas deixaram de lado a blindagem política da
democracia. O PT se entregou a Lula como “grande timoneiro”, líder único e
insubstituível, cercando-o de dirigentes com reduzida capacidade estratégica e
de formulação. Insistiu em se apresentar como a “única verdadeira democracia” e
desprezar alianças com os democratas não petistas, a não ser que esses
aceitassem ser cooptados. Não soube se renovar e se pluralizar como ator
político.
As direitas, extremas à frente, mostraram uma
força que não se previa e não se imaginava existir. Varreram o país, deixando
Lula praticamente ilhado no Nordeste. Lá, ele respirou e acumulou votos. Em
termos políticos, porém, os centros mais pujantes e eleitoralmente mais
importantes (o Sudeste e o Sul) ficaram ao lado de Bolsonaro. Somados aos cerca
de 20 milhões de abstenções, garantiram a ele a vantagem de 2 milhões de votos
no primeiro turno, mostrando a ampla capilaridade da extrema direita.
A força da extrema direita não caiu do céu.
Frutificou no correr de um processo, apoiado numa espécie de “conservadorismo”
entranhado no modo de ser do brasileiro. Ganhou impulso a partir do governo
Dilma e das grandes manifestações de 2013. Sua base operacional combinou doses
cavalares de antipolítica, uso maciço e competente das redes sociais,
incorporação política da religiosidade e apoios da internacional direitista que
hoje circula pelo mundo.
Seu crescimento coincidiu com uma mudança no
padrão da socialidade. Combinou-se com a conversão do país em uma sociedade
hipermoderna: mais fragmentada, com novas formas de trabalho, novos
comportamentos e aspirações, dúvidas existenciais no terreno moral, guerras
culturais incessantes, alterações profundas nas visões de mundo e no modo como
se encara a política. Os brasileiros passaram a viver em mudança célere e
transferiram isso para a política: mudar se tornou um estilo de vida, uma busca
constante por novidades e, por extensão, uma forte rejeição daquilo que é visto
como “mais do mesmo”.
A revolução digital ajudou a que surgisse um
ambiente favorável ao desarranjo social e institucional, como costuma ocorrer
nos grandes processos de transição. A rápida disseminação das redes sociais e,
agora, das aplicações de IA, alterou o modo como se vive, como se consome, como
se trabalha e como se pensa, abrindo espaços generosos para a configuração de
um diferente modo de viver a política.
Na sociedade hipermoderna movida por
tecnologia intensiva, o eleitor (o cidadão) não compreende que seus problemas
não podem ser resolvidos com um estalar de dedos dos governos. O eleitor é
impaciente e se move por uma lógica de satisfação imediata, lógica essa
irmanada com a lógica do capitalismo atual. Quem governa nesse clima está
sempre devendo. O que a revolução desorganiza (ou reorganiza), a extrema
direita captura, oferecendo uma visão “antissistema” que atrai a indignação e o
desconforto de tantas pessoas. Na Europa, ela trabalha para fornecer proteção aos
nacionais contra os imigrantes, para valorizar o “branco” em detrimento dos
“não brancos”, para criticar o Estado de Bem-estar e a globalização. No Brasil,
a extrema direita brada um “nacionalismo” retórico ao mesmo tempo em que se
subordina às orientações de Donal Trump. Oculta essa subordinação falando em
“defesa nacional”, “Pátria” e proteção do território.
Os resultados do primeiro turno traduziram a
grave crise institucional em que se encontra o país. É uma crise que, em parte,
está associada às transfigurações provocadas pela revolução digital. Mas que
reflete, sobretudo, a “despolitização” socialmente instalada, a fraqueza dos
partidos, os atritos improdutivos entre as instituições, que passaram a
funcionar de modo mais precário, colidindo umas com as outras. Os Poderes
(Executivo, Legislativo e Judiciário) paralisaram-se uns aos outros, trocando a
articulação funcional por disparos desfuncionais. A crise do STF desnudou o
ponto extremo dessa crise, cujo maior efeito foi a perda de credibilidade da Corte.
Sua decomposição moral fez o fogo crepitar e produziu ondas crescentes de
decepção e insatisfação, convertendo-se em moeda eleitoral. O fato
preponderante é que, no correr de alguns meses, os Poderes se converteram em
brigadas alinhadas umas contra as outras, com os conflitos sendo exibidos à luz
do dia. A governabilidade e a governança ficaram travadas. A desintermediação
fragilizou a democracia e a dinâmica política, sempre conflituosa e cada vez
mais polarizada, passou a transcorrer à base de atritos ruidosos entre os
Poderes, reverberando na opinião pública e na sociedade.
Os brasileiros vocalizaram nas urnas uma
expectativa de mudança. Fizeram isso sem clareza sobre o sentido da mudança.
Mudar para onde, e de que maneira? Podem ter olhado para trás e se reconfortado
com a ideia de que antes “éramos felizes e não sabíamos”, assim como podem ter
olhado para a frente e vislumbrado um cenário diferente de tudo o que está aí.
Houve mais emoção do que racionalidade. A velocidade das mudanças vindas da
revolução digital jogou grande peso, ao incentivar a ideia de que a lentidão das
condutas governamentais e políticas colidiria com a rapidez das mudanças
socioculturais e existenciais. Uma vida mais “individualizada”, o trabalho em
aplicativos de entrega, a propaganda exaustiva e as informações desencontradas
fornecidas pelas redes fizeram com que se alargasse a busca por candidatos
“novos”, diferentes dos que se conheciam.
As duas campanhas principais foram igualmente
medíocres. De um lado, o candidato da direita esbravejou contra tudo e todos,
esgrimindo as mais diferentes armas contra um suposto “dragão da maldade” (o
sistema) e insuflando o ressentimento popular. De outro, um Lula cansado de
guerra, com uma retórica cheia de promessas envelhecidas, agarrado à sua
biografia pregressa – heroica, mas de uma época que já passou –, fechado para o
novo mundo em gestação. Nenhum deles apresentou propostas concretas ou
“sugestões” sobre o futuro, uma ideia de país e de governo. Contaminados pela
polarização, limitaram-se a se atacar reciprocamente. É provável que nada
tenham falado porque nada tinham para falar. Entregaram-se por isso à pura e
simples agitação, que pode tê-los ajudado a levar mais longe suas “mensagens”,
mas nada acrescentou à percepção dos brasileiros e à compreensão do mundo em
que vivemos.
O cidadão médio brasileiro não votou pela
democracia. Talvez por não a entender, talvez por não a valorizar, talvez por
ter tido sua memória histórica sequestrada e não se lembrar dos anos duros da
ditadura militar. Deixou-se levar pela indignação e não encontrou um rumo claro
para se posicionar. Não é razoável, porém, concluir que 56 milhões de eleitores
se tornaram, conscientemente, de extrema direita, ou “fascistas”. O que há de
bolsonarismo no país cavalgou o cansaço e as decepções da população, sem ter
tido condições de organizá-la de forma sustentável.
Ninguém vence uma eleição apertada sem que
seu adversário cometa erros importantes. O vencedor do primeiro turno tinha sua
cota de malfeitos e relacionamentos suspeitos, mas sua campanha soube
blindá-lo. Ele próprio se escondeu, desviando-se da artilharia do lado oposto.
Sua campanha soube explorar o maior erro do PT e de Lula: não renovar suas
lideranças e seu discurso, confiando excessivamente na lealdade dos
brasileiros, sem levar em conta que esses brasileiros se descolaram dos resíduos
do século XX e ingressaram no século XXI, na hipermodernidade. O PT não
conseguiu abandonar ou neutralizar sua “superioridade moral”. Como não irão nos
apoiar, a nós, lulistas e petistas, depois de tudo o que fizemos por esse país?
Não precisamos de outros apoios (de uma “frente democrática”, por exemplo),
pois nos bastamos a nós mesmos. Além do mais, nosso adversário é um pangaré,
não corre tanto quanto o nosso alazão. Autoestima exageradamente elevada
combinada com subestimação do adversário. Receita certa para perder votos.
Os votos direcionados ao filho de Bolsonaro
misturaram antilulismo, ingenuidade, conservadorismo, cansaço, desejo de
mudança e indignação social. Formou-se um mix de comportamentos e ideias
afetivas, passionais e valorativas, com uma pitada de ideologia, que estendeu
um tapete vermelho para a extrema direita. A essa altura, não me parece haver
grande densidade organizacional e social no bolsonarismo. A impressão é que ele
flutua sobre a realidade brasileira, explorando-a com malícia e competência.
Adota uma perspectiva hegemônica curiosa, imperfeita, que não dispõe de grandes
intelectuais (substituídos por influenciadores e redes) e depende de uma
mobilização social inorgânica, que opera mediante soluços e apostas. Seria algo
mais próximo de um “populismo de direita”, mas mesmo esse é carente de uma
figura carismática explícita e inquestionável.
As redes sociais passaram a ocupar uma
posição central na vida atual. Reverberam na política. Têm poder: um poder
hostil à política, assentado na estridência, na mentira, na denúncia, na
provocação e na crítica retórica. As redes, em boa medida, afastaram de si a
política. Fecharam-se para o diálogo democrático. Suas bolhas são
autorreferenciadas. Ajudam a desorganizar e a confundir os eleitores. Por outro
lado, são bons canais de propaganda, especialmente quando impulsionadas pelo
tráfego pago. A extrema direita aprendeu a surfar nas redes e nos canais
digitais. Tem bons influenciadores, que se aproveitam da falta de consensos
entre os democratas e dos desencontros sociais. Explora com eficiência a
indignação e a decepção da população, interagindo com o que há de ruídos e
cacofonia na vida atual. Hoje, as informações circulam com rapidez e em
excesso, as atenções se dispersam e se deslocam rapidamente. Fala-se muito,
diverge-se sobre tudo, ataca-se sem dó todos os que pensam diferente.
Dialoga-se pouquíssimo. Não há cooperação política. Os partidos evaporaram, não
fazem mais contato com os cidadãos. Olham para o poder, a gestão e as eleições,
não chegam à população e não se interessam pela educação cívica.
Os eleitores hipermodernos não seguem
qualquer tipo de ordem unida democrática. No Brasil, são pouco afetados pelas
linguagens governamentais, cuja dissonância os afasta. A antipolítica prolonga
o estrago, facilitando o surgimento de condutas hostis a partidos e políticos.
Visto em seu conjunto, o eleitorado parece se ressentir da falta daquele arco
de forças políticas direcionadas para defender a Constituição de 1988 e
governar o país democraticamente. Esse arco foi se desfazendo com o passar do
tempo, consumindo-se de polarização em polarização, sem que surgisse um ator
com disposição e tirocínio para mantê-lo vivo. Ah, poderão dizer, Lula reavivou
a frente democrática para vencer as eleições de 2022. Fez isso, é verdade, mas
ao tomar posse se esqueceu dela. A iniciativa lhe serviu somente como recurso
eleitoral.
A partir de agora, será preciso aprofundar a
reflexão. Atualizar o discurso. Parar de ver conspirações e golpes em todo
canto. O eleitor de Flávio (56 milhões!) não é um bolsonarista. É somente um
cara insatisfeito com o que vê e com o que não recebe dos políticos. Alguém
cansado e decepcionado com governos, políticos e juízes, que quer uma mudança
que o inclua, nem que seja em termos simbólicos. Flávio Bolsonaro provavelmente
não contará com o consentimento de seus eleitores se fizer um governo de
“vingança” e compadrio, sem qualidade técnica para entregar políticas de
inclusão, de segurança, educacionais, ambientais, sem capacidade de interpretar
o mundo que está aí, fora de nossas janelas. Isso quer dizer que o jogo está
aberto.
Para a democracia brasileira, a eventual
vitória de Flávio Bolsonaro em 25 de outubro será um complicado teste. Se ela
já está fragilizada, tenderá a ficar ainda mais exposta. Mas devemos pagar para
ver o que ele fará. É provável que seja um governante fraco, sem muitas ideias
e com um saco de maldades pronto para ser aberto. Poderá travar alguns
programas, ameaçar a educação, deixar de financiar a cultura.de inclusão.
Poderá não ser responsável com as contas públicas. Terá dificuldades com o
Congresso Nacional (o Legislativo), mesmo que conte com maioria em ambas as
Casas. Afinal, o Legislativo de hoje seguirá sendo o Legislativo de amanhã: um
poder interessado em aprisionar e condicionar o Executivo, roubar-lhe recursos
mediante emendas suspeitas.
Seja quem vencer o segundo turno, terá pela
frente muitos desafios. Como administrará os gastos obrigatórios e a dívida
pública? Poderá contar com o STF? Como posicionará o Brasil no contexto
internacional e na “guerra” entre as grandes potências? Seguirá impulsionando
as políticas compensatórias? Adotará com firmeza uma política de segurança que
proteja de fato a população e combata o crime organizado? E quanto aos recursos
estratégicos, aos minerais críticos e à proteção ambiental? Conseguirá obter
consensos para atuar com firmeza nesses diferentes e explosivos terrenos?
Um cenário desse tipo, com tantos desafios e
tanta confusão institucional, sugere uma governança mergulhada em crise
sucessivas, em impasses procedimentais, pressionada pela indignação social e
pela resistência patrimonialista e social, que poderá ser exacerbada pela
ausência de propostas ou por uma atuação governamental destrambelhada.
O futuro próximo pode ser pensado como uma
oportunidade. Poderá ajudar a que os democratas – liberais, socialistas,
comunistas, libertários – reaprendam a dialogar, a agir de forma articulada e
com um causa comum como guia. Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um
confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo, que foi, a rigor, um dos fatores
causadores da devastação de 4 de outubro. Insistir nele, a partir de agora,
será fazer o jogo dos antidemocratas.

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