CartaCapital
Após o fluxo contínuo de fake news sobre as
urnas eletrônicas, Donald Trump elogia o sistema eleitoral brasileiro
Por anos, ouvimos de bolsonaristas a mesma ladainha: as urnas eletrônicas não são confiáveis. Numa operação que contaminou a credibilidade do processo eleitoral brasileiro, a extrema-direita passou anos conspirando contra a democracia e disseminando a desinformação sobre supostas fraudes no sistema de contagem de votos no Brasil. Numa delas, em 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros para apresentar uma suposta denúncia contra as urnas no País, um gesto que lhe valeu a inelegibilidade. Em julho, em mais uma tentativa de alimentar a polêmica, o bolsonarismo convocou para uma live o consultor argentino Fernando Cerimedo, atualmente preso na Bolívia, para promover um ataque às urnas.
A mentira viajou e atravessou fronteiras. Em
2025, estive no Arizona para encontrar Jake Chansley, famoso em 6 de janeiro de
2021 ao invadir o Capitólio vestido com capuz de pele de animal adornado com
chifres. Num certo momento da conversa, o viking me garantiu: “Todos sabem
que Bolsonaro venceu a eleição de 2022, como Trump venceu”. Ele mandou seu
recado aos presos pelos crimes do 8 de Janeiro de 2023, na Praça dos Três
Poderes. “Continuem a rezar. Estamos com vocês”, insistiu.
Eu o interrompi para dizer que existiam
indícios de um golpe de Estado por parte de Jair Bolsonaro e seus
aliados. “Quando?”, me perguntou. Eu então lhe expliquei que existiam
documentos, minutas e trocas de mensagens entre os acusados. Mas sua resposta
foi típica de um grupo que rejeita os fatos: “Não confio em nada do que um
governo comunista diz”.
Ironicamente, dois episódios enterram de uma
vez por todas quaisquer sinalizações de dúvidas sobre como funcionam as urnas
no Brasil. A primeira delas foi o resultado expressivo da extrema-direita no
primeiro turno da eleição. Se houvesse alguma chance de uma fraude, seria com a
esquerda no poder. O que vimos foi um processo exemplar, como era de se
esperar.
Mas o prego no caixão da farsa da suposta
suspeita sobre as urnas veio de Washington. Depois de dias em silêncio sobre a
eleição brasileira, Donald Trump foi às redes sociais na noite do domingo 4
para elogiar a velocidade na apuração no País. Numa postagem, ainda afirmou que
o sistema no Brasil era uma espécie de modelo, comparando com o processo
arcaico de contagem de votos nos Estados Unidos.
Denunciar as urnas, portanto, passou a ser
inviável para um movimento que tem seu líder maior aplaudindo o processo e um
resultado que os coloca como um dos centros de gravidade da política
brasileira.
O caso é, porém, revelador e desmascara a
falta de caráter de um grupo político que chega ao poder com um instrumento
poderoso, a desinformação. Quando filósofos alemães retornaram para seu país de
origem depois da Segunda Guerra Mundial, uma das conclusões foi a de que o
regime nazista havia conseguido implementar uma versão que distorcia fatos,
mentia e criava, no fundo, uma realidade paralela. Ao escrever sobre a autópsia
moral da Alemanha, Theodor Adorno insistiu que o Terceiro Reich havia
corrompido a verdade. Numa Alemanha arruinada pela Segunda Guerra Mundial,
ele alertou que um dos primeiros sinais do totalitarismo é “a conversão de
todas as questões de verdade em questões de poder”.
Com uma campanha de propaganda inédita até
então, o Terceiro Reich anulou a verdade objetiva, substituiu fatos por
ideologia. “Os nazistas atacaram o próprio cerne da distinção entre verdadeiro
e falso”, constatou. Um de seus alunos, um certo Jürgen Habermas, foi além.
Segundo ele, em uma democracia funcional, o discurso público deve ser regido
pelo diálogo de boa-fé – livre de coerção, engano ou manipulação. Quando esse
espaço é inundado por desinformação ou demagogia, os fundamentos da democracia
começam a ruir.
Foi exatamente isso que a extrema-direita fez
ao longo dos últimos anos no Brasil. As urnas jamais foram um problema no processo
eleitoral brasileiro. Ao instaurar a desinformação, o bolsonarismo, que sempre
foi eleito pelo mesmo processo, plantou uma dúvida sobre a credibilidade das
instituições da democracia. Não foi um acidente. Foi um plano de poder,
organizado para debilitar a república, amplamente financiado e sofisticado.
Quando a esfera pública é tomada por versões
impulsionadas pelo poder, quando a comunicação se torna manipulação e quando os
cidadãos não concordam mais sobre o significado da verdade, o tecido social é
abalado. A verdade não é um luxo. Uma democracia pode sobreviver ao
conflito e à diferença, mas não à morte da verdade. •
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

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