CartaCapital
Os seus adeptos encarnam o “homenzinho”
fascista, ansioso por autoridade, mas rebelde
Os trancos e barrancos do comportamento dos
seguidores do projeto bolsonarista despertam suposições as mais divergentes,
quando não disparatadas, a respeito dos verdadeiros propósitos – ou falta
deles – incrustrados no espírito do homem-massa.
A leitura obsessiva de alguns autores irreverentes instigou minha resistência a oposições binárias. Isto ou aquilo? Prefiro a forma “isto e aquilo”. É a estratégia da loucura, o desvario finalista e inconsciente de um certo tipo de gente que deambula nos espaços sociais criados pela sociedade capitalista de massa.
No livro The Mass Psychology of Fascism,
Wilhelm Reich assegura que a mentalidade fascista é a mentalidade do
“homenzinho”: escravizado, anseia por autoridade e, ao mesmo tempo, é rebelde.
Não é coincidência que todos os ditadores fascistas tenham surgido no meio
reacionário do homenzinho.
A civilização mecanicista e despótica colhe
do homenzinho humilhado apenas o que semeou nas massas de seres humanos
subjugados, lançando o desgraçado nos caminhos do fascismo governado pelo
automatismo psíquico. Essa “pequena burguesia” copiou muito bem o
comportamento dos grandes da grande burguesia e o reproduz de forma distorcida
e amplificada.
O fascismo sempre e em todo lugar se
manifesta como um movimento apoiado pelas massas de homens, ele traz todos os
traços e contradições da estrutura de caráter das massas de homens: não é, como
geralmente se acredita, um movimento puramente reacionário, mas constitui um
amálgama de emoções “rebeldes” e ideias sociais reacionárias.
O fascismo, em sua forma mais pura, é a soma
de todas as reações irracionais do caráter humano médio. O sociólogo obtuso,
que não tem coragem para reconhecer o papel predominante da irracionalidade na
história da humanidade, vê a teoria fascista da raça apenas como um
“preconceito”. A intensidade e a ampla difusão dos “preconceitos raciais” são
prova de que eles estão enraizados na parte obscura do caráter humano.
Em palestra aos estudantes do Kenyon College,
o escritor norte-americano David Foster Wallace começou sua exposição com um
apólogo: “Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho,
nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: ‘Bom dia, meninos. Como
está a água?’ Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha
para o outro e pergunta: ‘Água? Que diabos é isso?’”
Wallace explica: “O ponto central da história
dos peixes ensina que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais
difícil de ser reconhecida… Os pensamentos e os sentimentos dos outros
precisam achar um caminho para ser captados, enquanto o que vocês sentem e
pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para
fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras ‘virtudes’. Essa
não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha
configuração-padrão original,
impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo
profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes
do meu ser”.
Essa camada de homenzinhos, como os peixinhos
mergulhados em seu egocentrismo, não consegue reconhecer o ambiente social em
que vive. Por isso exerce seus desejos, medos e anseios em aras de
agressividade contra os demais. Os Bolsonaro não têm empatia, suas
personalidades exigem o confronto permanente com tudo e com todos. Com a cabeça
no travesseiro eles sofrem as dores do sentimento de inferioridade cevado nos
baixios de suas ignorâncias.
Em vez de comandar ações efetivas para
contrabalançar os danos sociais e econômicos da pandemia, o
presidente-homenzinho Bolsonaro dedicou-se a pressionar pela reabertura de
fábricas, lojas e outras atividades, ignorando o risco de as mortes se
avolumarem. Sua inumanidade se expressou na frase: “70% vão ser contaminados.
Eles estão com medo”.
Vou relembrar que a alma do Senhor Cloroquina
foi exposta em carne viva no episódio da demissão do ministro Luiz Henrique
Mandetta. O presidente do Brasil sentiu-se humilhado perante o protagonismo do
ministro e diminuído diante da argumentação científica do seu auxiliar. O
homenzinho-presidente (ou presidente-homenzinho?) apareceu horas depois da
demissão exibindo uma estampa de Jesus Cristo.
O cristianismo dos Bolsonaro e de seus
seguidores é o cristianismo utilitarista. Utilizar a imagem de Cristo para
fazer propaganda política ou surrupiar grana dos que têm pouco é uma infâmia.
Um insulto e um desrespeito aos princípios de amor e compaixão ensinados pelo
filho de Maria aos homens filhos de Deus. •
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

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