sábado, 10 de outubro de 2026

Sempre um alento, por Flávia Oliveira

O Globo

Soa como música que acalma o Nobel da Paz concedido a Navi Pillay

Em tempos de multilateralismo despedaçado, conflitos alongados, misoginia galopante, soa como música que acalma o Nobel concedido a Navi Pillay. O comitê foi explícito ao reconhecer os esforços da jurista sul-africana para “promover a paz e o Direito Internacional”. Não deixou de notar que a ex-alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos e ex-presidente do Tribunal Penal Internacional, uma advogada que lutou contra o apartheid e denunciou genocídio, hoje com 85 anos, enfrentou na trajetória profunda discriminação, segregação e exclusão. Ainda assim, não perdeu a coragem nem esmoreceu na luta por justiça e dignidade humana. Não por acaso, a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, que estava com Navi na Alemanha quando ela soube do prêmio, disse que a escolha foi inspiradora.

A homenagem inspira também num Brasil que, não faz uma semana, elegeu um combo de parlamentares antifeministas. Futuras deputadas que ascenderam na política desqualificando quem pavimentou o caminho para elas votarem e ser votadas. A começar por Bertha Lutz (1894-1976), sufragista, bióloga, política e diplomata, que liderou a luta pelo voto feminino, garantido somente na Constituição de 1932. Tornou-se deputada federal em 1936; nove anos depois, integrou a delegação nacional na conferência que criou a ONU.

Não faz muito, perdemos Amelinha Teles (1944-2026), jornalista, escritora e ativista, que levou adiante a busca por memória, verdade e justiça contra a ditadura militar no Brasil. Foi seu testemunho que levou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra a ser reconhecido como torturador pelo Estado brasileiro. Foi igualmente insuficiente o pesar pela morte de Zélia Amador (1951-2026), professora emérita da Universidade Federal do Pará, cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará e uma das principais vozes do movimento negro no Brasil. Ambas partiram em meio à conturbada campanha eleitoral protagonizada pelos homens de terno e de toga.

O país terá, em 2027, a maior bancada feminina da História. Serão 109 deputadas dentre 513 representantes e 18 senadoras em 81; destas, 12 foram eleitas no último domingo. A cientista política Débora Thomé, coautora, com Malu Gatto, de “Candidatas — Os primeiros passos das mulheres na política no Brasil” (FGV, 2024), chama a atenção para a crescente presença feminina no Legislativo:

— O movimento de mulheres pós-2013 tem ajudado a aumentar as bancadas. Há mais mulheres entrando, conservadoras e progressistas. Estão em maior número no campo da direita, é verdade. Mas, se observarmos a proporção total, há mais esquerda na bancada feminina que no total da Câmara dos Deputados.

Em 2010, os brasileiros elegeram 45 deputadas; quatro anos depois, 51. Nas eleições de 2022, foram 91; agora, 109. O PT elegeu 26, o PL, 22. No campo da direita, serão 52 a partir da próxima legislatura; no centro, dez; na esquerda, 47. Há 43% de mulheres de esquerda na bancada feminina, enquanto o total geral de deputados progressistas não chegou a 17%. Há sempre esperança de diálogo e construção de consenso em agendas de interesse comum. Aconteceu na CPMI da Covid-19; e na legislação sobre proteção a crianças e adolescentes nas plataformas digitais, o ECA Digital.

O levantamento do Instituto Update também mostra predominância de parlamentares autodeclaradas brancas. Somam 73 eleitas entre 1.404 candidatas em todo o país. Das pretas e pardas, elegeram-se 34 em 1.418 candidaturas. A taxa de sucesso, que entre os homens brancos é de 11,4% —praticamente um eleito para dez em campanha —, cai para 5,2% entre mulheres brancas e 2,4% entre negras.

O ambiente político global — e também local — é hostil ao multilateralismo, à democracia, à paz, aos direitos humanos, à diversidade, às mulheres. A doutrina de alinhamento forçado de Donald Trump se espalha na América Latina e ameaça até a União Europeia. As nuvens que pairam são de rendição ao poder econômico e bélico das superpotências, de supremacismo, xenofobia e exclusão social, concentração de riqueza.

Mas não falta alento. Ontem, o Nobel da Paz para Navi Pillay, sinal de valorização às mulheres, aos direitos humanos, ao enfrentamento ao racismo, à convivência pacífica entre as nações. Dias atrás, a eleição da mineira Ana Elisa, aos 21 anos, como deputada estadual pelo PT, com mais de 524 mil votos. Nenhuma negra chegará tão jovem à Câmara dos Deputados. São Paulo deu 1,956 milhão de votos para a ultraconservadora Eduarda Campopiano (PL) para a Assembleia Legislativa, mas também reelegeu Erika Hilton (PSOL), negra e trans, com 1,6 milhão.

Como desde sempre, o futuro está em disputa. A luta por direitos e pela paz tem altos e baixos, é incessante. Mas, cedo ou tarde, avança.

 

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