O Globo
Soa como música que acalma o Nobel da Paz
concedido a Navi Pillay
Em tempos de multilateralismo despedaçado, conflitos alongados, misoginia galopante, soa como música que acalma o Nobel concedido a Navi Pillay. O comitê foi explícito ao reconhecer os esforços da jurista sul-africana para “promover a paz e o Direito Internacional”. Não deixou de notar que a ex-alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos e ex-presidente do Tribunal Penal Internacional, uma advogada que lutou contra o apartheid e denunciou genocídio, hoje com 85 anos, enfrentou na trajetória profunda discriminação, segregação e exclusão. Ainda assim, não perdeu a coragem nem esmoreceu na luta por justiça e dignidade humana. Não por acaso, a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, que estava com Navi na Alemanha quando ela soube do prêmio, disse que a escolha foi inspiradora.
A homenagem inspira também num Brasil que,
não faz uma semana, elegeu um combo de parlamentares antifeministas. Futuras
deputadas que ascenderam na política desqualificando quem pavimentou o caminho
para elas votarem e ser votadas. A começar por Bertha Lutz (1894-1976),
sufragista, bióloga, política e diplomata, que liderou a luta pelo voto
feminino, garantido somente na Constituição de 1932. Tornou-se deputada federal
em 1936; nove anos depois, integrou a delegação nacional na conferência que
criou a ONU.
Não faz muito, perdemos Amelinha Teles
(1944-2026), jornalista, escritora e ativista, que levou adiante a busca por
memória, verdade e justiça contra a ditadura militar no Brasil. Foi seu
testemunho que levou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra a ser reconhecido
como torturador pelo Estado brasileiro. Foi igualmente insuficiente o pesar
pela morte de Zélia Amador (1951-2026), professora emérita da Universidade
Federal do Pará, cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará e
uma das principais vozes do movimento negro no Brasil. Ambas partiram em meio à
conturbada campanha eleitoral protagonizada pelos homens de terno e de toga.
O país terá, em 2027, a maior bancada
feminina da História. Serão 109 deputadas dentre 513 representantes e 18
senadoras em 81; destas, 12 foram eleitas no último domingo. A cientista
política Débora Thomé, coautora, com Malu Gatto, de “Candidatas — Os primeiros
passos das mulheres na política no Brasil” (FGV, 2024), chama a atenção para a
crescente presença feminina no Legislativo:
— O movimento de mulheres pós-2013 tem
ajudado a aumentar as bancadas. Há mais mulheres entrando, conservadoras e
progressistas. Estão em maior número no campo da direita, é verdade. Mas, se
observarmos a proporção total, há mais esquerda na bancada feminina que no
total da Câmara dos Deputados.
Em 2010, os brasileiros elegeram 45
deputadas; quatro anos depois, 51. Nas eleições de 2022, foram 91; agora, 109.
O PT elegeu
26, o PL,
22. No campo da direita, serão 52 a partir da próxima legislatura; no centro,
dez; na esquerda, 47. Há 43% de mulheres de esquerda na bancada feminina,
enquanto o total geral de deputados progressistas não chegou a 17%. Há sempre
esperança de diálogo e construção de consenso em agendas de interesse comum.
Aconteceu na CPMI da Covid-19; e na legislação sobre proteção a crianças e
adolescentes nas plataformas digitais, o ECA Digital.
O levantamento do Instituto Update também
mostra predominância de parlamentares autodeclaradas brancas. Somam 73 eleitas
entre 1.404 candidatas em todo o país. Das pretas e pardas, elegeram-se 34 em
1.418 candidaturas. A taxa de sucesso, que entre os homens brancos é de 11,4%
—praticamente um eleito para dez em campanha —, cai para 5,2% entre mulheres
brancas e 2,4% entre negras.
O ambiente político global — e também local —
é hostil ao multilateralismo, à democracia, à paz, aos direitos humanos, à
diversidade, às mulheres. A doutrina de alinhamento forçado de Donald Trump se
espalha na América Latina e ameaça até a União Europeia. As nuvens que pairam
são de rendição ao poder econômico e bélico das superpotências, de
supremacismo, xenofobia e exclusão social, concentração de riqueza.
Mas não falta alento. Ontem, o Nobel da Paz
para Navi Pillay, sinal de valorização às mulheres, aos direitos humanos, ao
enfrentamento ao racismo, à convivência pacífica entre as nações. Dias atrás, a
eleição da mineira Ana Elisa, aos 21 anos, como deputada estadual pelo PT, com
mais de 524 mil votos. Nenhuma negra chegará tão jovem à Câmara dos Deputados.
São Paulo deu 1,956 milhão de votos para a ultraconservadora Eduarda Campopiano
(PL) para a Assembleia Legislativa, mas também reelegeu Erika Hilton (PSOL),
negra e trans, com 1,6 milhão.
Como desde sempre, o futuro está em disputa.
A luta por direitos e pela paz tem altos e baixos, é incessante. Mas, cedo ou
tarde, avança.

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