O Estado de S. Paulo
Estamos diante de uma forte onda internacional de direita. Para fazer frente a ela é preciso estudo, pesquisa, humildade, uma tentativa de compreender o outro
O problema desse primeiro turno, encerrado com a vitória de Flávio Bolsonaro e uma grande votação da direita no Senado, é o fato de precisarmos de muito tempo para entender, num contexto em que não há tempo, pois o segundo turno já começou. É difícil corrigir em 20 dias erros que se arrastaram por quatro anos. Um deles se refere à amplitude e eficácia da frente democrática, bem-sucedida em 2022. Para ser fiel à proposta, o governo teria de evitar a hegemonia de um só partido e tentar, progressivamente, conquistar setores da sociedade que ainda estavam fora da frente. Não foi isso que aconteceu. A frente foi vista apenas como um instrumento da vitória eleitoral, e não como uma ferramenta que precisa ser aperfeiçoada para confrontar o crescimento da direita, uma realidade internacional.
Dificilmente num primeiro momento podemos
avaliar o impacto que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) teve na
campanha eleitoral. Para medilo, talvez seja necessário começar pelo julgamento
dos envolvidos no 8 de Janeiro. Os juízes foram muito severos em suas penas,
além disso, por falta de estrutura, não se avaliou adequadamente a participação
individual de cada manifestante. A severidade de uma determinada sentença não é
algo extraordinário. Pode ocorrer aqui e ali, sobretudo pelo fato de que os
juízes não analisam em detalhes as consequências políticas de suas decisões. O
problema é que os políticos do governo se identificaram com as decisões
judiciais e as aprovaram sem reservas. Isso contribuiu não para inibir a
direita, ao contrário, foi um estímulo para uma campanha denunciando injustiças
e perseguição política. Em pouco tempo, o Supremo, com o qual o governo se
identificou, entra numa grande crise de credibilidade. O mesmo juiz que se
destacou no rigor da repressão é apontado como cúmplice de Daniel Vorcaro, a
partir do contrato de R$ 131 milhões que o escritório de sua família tinha com
o Banco Master.
Para quem era de oposição e denunciava o
ministro Alexandre de Moraes por sua severidade e algumas injustiças, tornouse fácil
estabelecer uma ligação entre governo e STF. Algumas decisões atabalhoadas dos
ministros a favor de Lula nas eleições, como no caso do debate cancelado, podem
ter contribuído para que grande parte dos eleitores identificasse uma
instituição impopular com o governo. Essa hipótese é fortalecida pela grande
vitória da direita no Senado. Muitos candidatos vitoriosos prometiam votar o
impeachment de ministros. Parece que grande parte do eleitorado comprou a ideia
de que era necessário mudar o governo.
Uma das grandes questões da política atual no
Brasil é esta: se o bolsonarismo foi derrotado em 2022, apesar de ter o governo
nas mãos, por que, em vez de perder substância, continuou crescendo a ponto de
realizar sem problemas sua estratégia de ganhar o Senado?
Estava tudo tão claramente exposto e, no
entanto, foi impossível de evitar. Há dois caminhos de análise: avaliar a força
de um movimento internacional de crescimento da direita, mas também examinar os
erros da frente que começou com uma amplitude e foi se estreitando. Em termos
de distribuição de cargos, houve uma tentativa de ampliação. E isso sempre
funciona, pois há muita gente querendo cargos. Mas em termos de intercâmbio
político, de troca de ideias, de tentativa de crescimento, inclusive para cima dos
eleitores de Bolsonaro, pouco foi feito.
A ideia sempre foi a de delimitar o
bolsonarismo e atacá-lo, numa falsa suposição de que milhões de eleitores são
de extrema direita. Talvez não tenha sido a melhor. Um dos fatores que
influenciam as posições políticas é a lacração ou o desprezo pelo adversário.
Num livro lançado agora no Brasil, o
sociólogo François Dubet destaca a importância do desprezo, da humilhação e da
falta de reconhecimento no crescimento do populismo e na crise da democracia.
Muitas pessoas não compreendem isso e, ao começar o segundo turno, tornam-se
agressivas contra quem não votou com elas. Todas as pessoas que são ofendidas
por causa de suas opções políticas acabam se enraizando e dificilmente
consideram a possibilidade de mudar de ideia.
Para obter um resultado um pouco melhor,
teria sido importante voltar à vitória de 2022 e avaliar os erros de
interpretação. O primeiro deles foi considerar a frente democrática apenas como
uma bandeira de campanha, e não como um instrumento de aperfeiçoamento
constante.
O segundo deles é mais difícil de conter,
pois é um esporte popular: insultar o adversário político, renunciar à ideia de
convencê-lo. É muito comum nas redes o insulto ao “pobre de direita”, por
exemplo. Isso sem contar as milhares de lacrações do politicamente correto. É
importante que as pessoas reconheçam que estamos diante de uma forte onda
internacional. Para fazer frente a ela, é preciso estudo, pesquisa, humildade,
uma tentativa de compreender o outro.
Fatores como demonstração de artistas ricos e
bonitos a favor de uma candidatura talvez não tenham mais o peso do início do
processo de democratização. Existem forças políticas capazes de moldar
identidades, alimentar ressentimentos.
No seu pequeno livro, François Dubet lança a
ideia de que em nossos tempos nem sempre as desigualdades são vividas como
injustiça material, mas como uma humilhação simbólica. São ainda tímidas as
tentativas de entender o que se passa, mas algumas coisas mais urgentes
precisam ser discutidas agora. •

Um comentário:
O apoio de artista nunca ajudou ninguém,a campanha de 1989,praticamente todos os artistas fizeram vídeos apoiando Lula...
Postar um comentário