Folha de S. Paulo
As palavras 'democracia' e 'Constituição' soam
duvidosas ante o histórico golpista da família Bolsonaro
Candidato a presidente está obrigado a se
expressar sem resquício de dubiedade em questões institucionais
Se não for bravata ou fruto de ignorância, a
ideia de Flávio
Bolsonaro (PL)
de "redemocratizar o país" caso seja eleito é um acinte aos 41 anos
de vigência da democracia e uma provocação à concertação nacional que pôs fim
ao regime
militar.
A dianteira no primeiro turno não dá ao candidato apenas o favoritismo na disputa presidencial. Obriga-o a medir palavras, sopesar pensamentos, conter certos ímpetos e, sobretudo, demonstrar conhecimento sobre a história (ao menos a mais recente) do Brasil.
Daqui a poucos dias o senador poderá ser
eleito presidente da República, o que o coloca desde já sob rigoroso escrutínio
da nação. Isso vale também para o caso de ser derrotado e venha a ocupar a
liderança de uma oposição de predominante presença no Congresso
Nacional.
A declaração
sobre as mudanças constitucionais que pretenderia levar adiante a
bordo da maioria de direita na Câmara e no Senado
não pode passar despercebida. Como prevenção a surpresas, é essencial que se
cobre do candidato explicação detalhada sobre o que exatamente quis dizer com
"redemocratizar" o Brasil.
Estaria pretendendo patrocinar a convocação
de uma Assembleia Constituinte? Sendo um plano de alterações ponto a ponto,
quais seriam as mudanças elencadas? A justificativa dele é que é preciso
restaurar no país o respeito à Constituição.
Para isso não é necessário fazer tábula rasa da Carta; é preciso, antes,
liderar um processo de reorganização institucional —se houver real compromisso
com a legalidade.
Os termos "democracia" e
"Constituição" soam duvidosos quando emergem do clã Bolsonaro,
promotor da única agressão feita ao Estado de Direito nas últimas quatro
décadas.
O patriarca
está preso por tentar dar um golpe "dentro das quatro
linhas". Ao herdeiro não se pode facilitar o trânsito no caminho de zerar
a trajetória da República, refundada em 1985, para restaurar o regime ao gosto
do arbítrio. Ainda que vestido em pele de cordeiro, o lobo não renega a
natureza.

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