sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Fim de época, por José de Souza Martins

Valor Econômico

No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições, revelações e fatos mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem

O resultado da eleição de 4 de outubro não foi uma surpresa. Ele já se anunciava há tempos, desde a eleição do candidato do PT à Presidência em 2002. Fernando Henrique Cardoso, então presidente em segundo mandato, não disfarçou sua enorme e genuína emoção no momento da passagem da faixa presidencial a Lula.

FHC era, provavelmente, o único brasileiro a compreender o significado politicamente revolucionário da eleição de um operário como presidente.

Num texto de 1977 sobre “O Estado na América Latina”, ele chamara a atenção para o fato de que o Brasil era o único país latino-americano a não se ter tornado independente por meio de uma revolução. O próprio Estado português fizera a independência do Brasil na proclamação feita em 7 de setembro de 1822 pelo príncipe herdeiro da Coroa. Não temos sido, portanto, um povo de protagonistas de nossa soberania nem do nosso destino.

O resultado desta eleição, de vários modos, expressa essa tradição, em que o próprio povo com facilidade pode ser manipulado para satisfazer ambições de poder de terceiros que são ambições de riqueza pessoal e de família. No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições, revelações e fatos, política e moralmente anômalos, mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem.

Fernando Henrique Cardoso, homem democrático e de esquerda, porém, compreendia claramente que a eleição de Lula quebrava a tradição da ausência do povo na política.

A eleição mostrou que o PT e os petistas compreenderam mal o processo político brasileiro e nossa realidade social. E compreenderam mal seu próprio protagonismo político.

Bastava ter observado as mudanças sociais, laborais e políticas na própria região de origem do PT, a região do chamado ABC, em São Paulo. A ascensão do PT coincidiu com o fato de que seis dos sete municípios da chamada região industrial tornaram-se petistas. Hoje, apenas um o é.

Os municípios em que estava instalada a chamada grande indústria, tecnologicamente mais desenvolvida e pagadora de grandes salários pelo trabalho altamente qualificado que empregava, criou uma classe operária rica.

O ABC tornou-se uma região de classe média, identificada com o ideal de ascensão social. Manifestações de racismo e nazismo surgiram na geração dos filhos dos operários que ouviam e aplaudiam os discursos de Lula no Estádio da Vila Euclides.

O cineasta Carlos Reichenbach lançou em 2003 o filme “Garotas do ABC”, inspirado em fatos reais, rodado numa tecelagem desativada, que mostra essa metamorfose social radical, a guinada para a direita. As classes sociais não são estruturas rígidas e estamentais fixas.

A eficácia política da classe operária persiste enquanto existem fatores e memória das lutas sociais, que são lutas de crítica e, no fundo, de aperfeiçoamento do capitalismo. Isso não elimina as contradições sociais que alimentam uma visão de esquerda do mundo.

O mundo do trabalhador não é um mundo de necessidades econômicas, simplesmente. Lula encampou uma visão economicista da realidade operária, a dos militantes, embora ele próprio intuísse e bem que o mundo operário não é só isso nem principalmente isso.

Há bem mais de cem anos, o capitalismo transformou o trabalho numa realidade nova, a do trabalho social e abstrato, criador de riqueza capitalista e não apenas de lucros. O capitalismo do mero lucro é o capitalismo do prejuízo. Lula é filho do novo proletariado, o do sindicalismo da mesa de negociação.

A reestruturação produtiva transformou o próprio trabalho. Se Lula quisesse voltar para a indústria, descobriria que sua profissão não existe mais. Computadores e máquinas fazem o mesmo trabalho e melhor.

Os fatores da consciência social de reivindicação do reconhecimento de direitos não terminou por isso. São outros. Ter filé-mignon à mesa no almoço e no jantar não significa que a classe trabalhadora foi saciada.

Hoje os trabalhadores na roça e na cidade têm necessidades de que nem mesmo são conscientes. São mais amplos e em maior número. Henri Lefebvre e Agnes Heller assinalam que surgiram o que chamam de necessidades radicais, as que só podem ser saciadas com transformações sociais.

As esquerdas, nesse cenário, são cogestoras do neocapitalismo da nova concepção de trabalho. A vitória da direita na eleição de 4 de outubro não significa nem derrota nem fim das esquerdas. A direita acaba de se transformar em vidraça em face do que ela própria produziu com suas anomalias ideológicas. Está devolvendo às esquerdas a função política de pedra de bodoque das pressões e reivindicações sociais: esquerdas desafiadas a retornar aos movimentos sociais e a redefinir sua relação com o Estado.

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