Folha de S. Paulo
Senador herda mais votos de candidatos
derrotados e avança além da base bolsonarista fiel
Petista reinicia campanha com esforço para ampliar desempenho entre os mais pobres e ampliar rejeição a rival
O segundo turno começa com uma vantagem
estreita de Flávio
Bolsonaro (PL)
sobre Lula (PT) e tarefas de
dimensões diferentes para os dois candidatos. A nova
pesquisa Datafolha
indica que o senador tentará se segurar no apoio que consolidou em regiões e
grupos diversos, enquanto o presidente precisa buscar mais votos fora do
Nordeste e ampliar vantagem em segmentos próximos do petismo.
O resultado vai depender de quem consegue convencer os eleitores que ainda não se fecharam: os que não rejeitam nenhum dos dois candidatos e os que não se alinham automaticamente a nenhum dos lados. As duas campanhas vão gastar energia nesse território até 25 de outubro.
Pontos-chave
Flávio chega ao segundo turno com a maior
fatia dos votos dos candidatos
derrotados e consegue melhorar o desempenho fora de segmentos tipicamente
bolsonaristas.
A campanha de Lula aposta no alerta
sobre cortes em programas e benefícios para ampliar espaço entre eleitores
mais pobres e beneficiários do Bolsa Família, grupos em que a vantagem do
presidente encolheu em relação a 2022.
A disputa pode mudar se houver movimentos de
uma fatia pequena de eleitores: os 8% que não rejeitam nenhum dos dois
candidatos.
Os números positivos de Flávio Bolsonaro no
lançamento do segundo turno se espalham por diversos
recortes. O senador consegue uma frente em grupos tipicamente
bolsonaristas, mas também colhe os votos de eleitores que evitaram um
alinhamento firme na primeira etapa da disputa.
Flávio puxa a maior fatia dos votos dos
candidatos que ficaram pelo caminho no primeiro turno, herdando 46% dos
eleitores de Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão)
e Romeu Zema (Novo). Lula fica com 32%.
O senador abriu uma vantagem de oito pontos
sobre o petista no Sudeste e segue dominando as regiões Sul, Centro-Oeste e
Norte. Lula lidera no Nordeste, numa maré que garante a ele uma vantagem de 26
pontos por ali.
Lula preserva uma vantagem de 11 pontos entre
os mais pobres, que representam cerca de metade do eleitorado. Na outra metade,
que inclui a classe média e eleitores com renda acima de cinco salários
mínimos, Flávio tem um domínio de 17 pontos.
O bolsonarista também conseguiu espalhar
votos por várias faixas etárias e avançou entre os mais jovens, enquanto o
presidente só vai melhor entre os mais velhos.
A vantagem é de Flávio, mas ainda no limite
da margem de erro. Na pesquisa espontânea, em que os nomes da dupla não são
apresentados, a diferença é menor: 46% a 44%.
A cartada de Lula
A campanha de Lula decidiu investir no
discurso de preservação de programas e benefícios sociais, soando um alerta
para cortes no Orçamento de um eventual governo Flávio. Um dos focos do petista
é uma expansão no eleitorado que vive com aposentadoria e Bolsa Família.
A estratégia mira o eleitor que depende de
benefícios, mas não está satisfeito com o governo. No caso do público atendido
pelo Bolsa Família, a soberania que mantinha nesse segmento já não tem a mesma
dimensão de antes.
A pesquisa mostra que 31% dos eleitores que
recebem o benefício dizem que não votam em Lula de jeito nenhum. Flávio é muito
mais rejeitado (57%), mas a oposição ao petista garante ao senador cerca de um
terço das intenções de voto desse grupo. O discurso do risco busca converter justamente
essa parcela.
A gordura de Lula entre os mais pobres já foi
maior. Em 2022, o petista batia Jair Bolsonaro nessa faixa por 54% a 37%.
Agora, ele tem 52% contra 41% de Flávio.
Os votos em disputa
Num segundo turno entre dois candidatos de
rejeição alta, a disputa pode ser decidida por um contingente de eleitores que
ainda não se fechou em nenhum dos lados. A pesquisa mostra dois segmentos nessa
situação: um reduzido grupo que não rejeita nenhum dos dois candidatos e
aqueles que não se alinham ao petismo nem ao bolsonarismo.
Na rejeição, 46% dizem que só não votam em
Lula, 43% se recusam a votar apenas em Flávio, e outros 3% rejeitam os dois.
Sobram 8% que não rejeitam nenhum candidato. São eleitores sem barreira prévia
a nenhum dos lados, o que os torna, em tese, os mais abertos ao convencimento.
Entre os eleitores não alinhados (aqueles que dizem não ser petistas nem bolsonaristas), 23% declaram voto em branco ou nulo, ou não sabem em quem votar. É outro contingente em disputa, que também pode alterar o resultado.

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