quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A síndrome do segundo mandato, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

A exemplo de Trump e Netanyahu, um novo governo do clã Bolsonaro tenderia à radicalização

Fraqueza do STF e Congresso dominado pela ultradireita agravam os riscos institucionais

Biológica e juridicamente, Jair e Flávio Bolsonaro são seres distintos. Mas, politicamente, atuam como um coletivo. Assim, uma vitória de Flávio iniciaria não o seu primeiro mandato, mas o segundo do clã Bolsonaro. E é aí que mora o perigo.

A literatura mostra que processos de erosão democrática patrocinados por líderes autoritários costumam ficar mais agudos a partir de seus segundos mandatos. E esses movimentos tendem a intensificar-se ainda mais se o dirigente tiver sido removido do poder por um período e depois retornado. É aí que eles vêm com sangue nos olhos. Vimos isso claramente nos casos de Trump 2, de Netanyahu pós-2022 e do último Viktor Orbán. Candidatos a explicar a radicalização incluem os ressentimentos acumulados, o maior conhecimento das engrenagens do poder, que torna suas ações mais eficazes, e o afastamento dos membros mais moderados de suas coalizões.

No caso brasileiro, um eventual Bolsonaros 2 encontrará ainda um ambiente institucional deteriorado. O STF, que no mandato de Jair foi uma importante linha de defesa contra abusos, está em frangalhos.

Registre-se que a fragilidade do Supremo decorre de erros e defeitos de seus próprios membros. Outra força moderadora da política brasileira é o centrão. O bloco de parlamentares com pouca ideologia e muito amor por cargos e verbas nunca teve problemas para apoiar qualquer administração que pagasse seu preço, mas costumava vetar radicalismos.

O centrão se opôs às iniciativas legislativas mais tresloucadas de Bolsonaro 1 e, mais recentemente, não permitiu a aprovação de uma anistia ao ex-presidente condenado. Bem, a vitória da direita bolsonarista no Parlamento foi tão contundente que o centrão, ao menos nominalmente, perdeu espaço.

O grupo segue existindo e continuará a atuar como fiel da balança. Mas, a partir da nova legislatura, o bolsonarismo não precisará cooptar mais do que meia dúzia de senadores e algumas dezenas de deputados do bloco para fazer passar suas boiadas constitucionais e impeachments.

 

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Então o jeito é o Lula governando para-o resto de sus vida? Instalar a monarquia com o rei Lula reinando para sempre? Uma solução versátil digna do Brasil, realmente !