Correio Braziliense
O segundo turno não será apenas o confronto
entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram a expectativa de
poder de Lula para Flávio Bolsonaro
O segundo turno da eleição brasileira
mobiliza complexos interesses. Terras-raras, energia, alimentos, dados,
infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma
vitória de Flávio Bolsonaro aproximará Brasília da agenda de Trump, encurtando
a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma
ruptura, mas cresce a pressão por um realinhamento diplomático radical.
O Brasil vive uma encruzilhada geopolítica e, ao mesmo tempo, de modelo de desenvolvimento: negociar sua inserção como produtor de tecnologia e bens de maior valor ou ampliar o papel de fornecedor de produtos agrícolas e recursos minerais estratégicos. A aproximação americana pode trazer investimentos, mas restringir as alternativas. Em contrapartida, a autonomia que Lula defende precisa produzir resultados. A diplomacia não supera, sozinha, a dependência tecnológica.
Mesmo enfraquecido pela ultrapassagem por Flávio,
o governo Lula ainda concentra muito poder, quando nada porque arrecada,
normatiza e coage. Entretanto, a expectativa de poder mudou de lado e, agora,
na medida em que a votação se aproxima, pode ser maior até do que a força do
Estado. Essa mudança de correlação de forças já chegou ao “pântano” da
política, formado por alianças pragmáticas, interesses orçamentários e projetos
de sobrevivência, que começam a recalcular sua posição. Quem se aproximou do
Planalto e apostava na reeleição pode procurar outro porto. É uma tendência,
não ainda uma deserção consumada de toda a base.
A ampliação do PL para 121 deputados e uma
bancada prevista de 28 senadores em 2027 reforça essa atração. Lula, se reeleito, encontrará um Congresso mais adverso;
Flávio tenta apresentar a convergência com o Legislativo como garantia de
governabilidade. Isso não assegura obediência parlamentar, mas altera o sistema
de alianças.
Lula representa uma alternativa ancorada na
combinação de direitos constitucionais e pluralismo. Suas raízes estão nas
lutas sindicais, na resistência à ditadura e no pacto de 1988. Essa matriz
aproxima social-democracia e reformismo popular, embora imponha acomodações com
forças conservadoras e Lula seja uma liderança carismática e personalista. Sua
maior contradição é depender de negociações opacas e interesses particulares do
Centrão.
Realinhamento
Flávio representa uma direita
nacional-conservadora, com tendências “iliberais” herdadas do bolsonarismo,
portanto, saudosista do regime militar e do chamado “milagre econômico”. A
soberania popular é invocada para fortalecer o governante contra instituições
intermediárias, promete um governo de maioria em conflito com as minorias e
políticas igualitaristas. Suas raízes incluem o anticomunismo, a tradição de
tutela militar e o conservadorismo religioso, reorganizados pelas redes
sociais. O poder plebiscitário possibilita ao líder reivindicar interpretar o
“povo” contra as instituições.
A “economia do afeto” de Lula combina
mercado, proteção social e Estado indutor. Herdou a tradição desenvolvimentista
de Vargas e da Cepal, especialmente de Celso Furtado, matriz de seu repertório
teórico: industrialização, investimento público e redução das desigualdades.
Flávio defende liberalização econômica e autoridade política: privatizações,
desregulação, contenção do gasto e protagonismo empresarial. Tem mais afinidades com Trump, que combina nacionalismo, tarifas e
intervenção.
No plano social, a esquerda enfatiza
direitos, redistribuição e serviços públicos. A direita privilegia família,
religião, empreendedorismo e ordem, sem necessariamente abandonar
transferências de renda. São respostas distintas à insegurança: proteção
coletiva ou autonomia individual amparada por autoridade. A clivagem da
segurança favorece a oposição nesta eleição. Quem ganhar, porém, terá que
apresentar os mesmos resultados quanto ao trabalho precário, ao crime e à
frustração dos jovens.
Além disso, o segundo turno não será apenas o
confronto entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram
a expectativa de poder de Lula para Flávio Bolsonaro. Com 47,03% dos votos
válidos, contra 45,16% do presidente, o senador ganhou a iniciativa. A
diferença é reversível, mas altera cálculos políticos, econômicos e
internacionais.
Hoje, as democracias representativas
enfrentam a cobranças por respostas rápida; negociação parlamentar, controle
judicial e participação social são apresentados como obstáculos à eficiência
dos governos. O “iliberalismo” nasce dessa promessa de eficiência sem
controles. Conserva eleições, mas procura enfraquecer o pluralismo, a imprensa,
as minorias e os contrapesos institucionais. Hungria, Rússia e Turquia
expressam graus distintos de fechamento político. Com Trump, entretanto, os
Estados Unidos se tornaram o principal centro de projeção internacional. Há uma
deterioração acelerada da democracia americana. A potência que difundia
instituições liberais passou a irradiar impulsos autoritários.
Nesse contexto, a eleição brasileira mobiliza grandes interesses internacionais. Terras-raras, energia, alimentos, dados, infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma vitória de Flávio tenderia a aproximar Brasília da agenda de Trump, reduzindo a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma ruptura, a pressão por um realinhamento geopolítico do Brasil pode ser inexorável.

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