quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Lula e Flávio representam dois projetos de nação que dividem o Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O segundo turno não será apenas o confronto entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram a expectativa de poder de Lula para Flávio Bolsonaro

O segundo turno da eleição brasileira mobiliza complexos interesses. Terras-raras, energia, alimentos, dados, infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximará Brasília da agenda de Trump, encurtando a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma ruptura, mas cresce a pressão por um realinhamento diplomático radical.

O Brasil vive uma encruzilhada geopolítica e, ao mesmo tempo, de modelo de desenvolvimento: negociar sua inserção como produtor de tecnologia e bens de maior valor ou ampliar o papel de fornecedor de produtos agrícolas e recursos minerais estratégicos. A aproximação americana pode trazer investimentos, mas restringir as alternativas. Em contrapartida, a autonomia que Lula defende precisa produzir resultados. A diplomacia não supera, sozinha, a dependência tecnológica.

Mesmo enfraquecido pela ultrapassagem por Flávio, o governo Lula ainda concentra muito poder, quando nada porque arrecada, normatiza e coage. Entretanto, a expectativa de poder mudou de lado e, agora, na medida em que a votação se aproxima, pode ser maior até do que a força do Estado. Essa mudança de correlação de forças já chegou ao “pântano” da política, formado por alianças pragmáticas, interesses orçamentários e projetos de sobrevivência, que começam a recalcular sua posição. Quem se aproximou do Planalto e apostava na reeleição pode procurar outro porto. É uma tendência, não ainda uma deserção consumada de toda a base.

A ampliação do PL para 121 deputados e uma bancada prevista de 28 senadores em 2027 reforça essa atração. Lula, se reeleito, encontrará um Congresso mais adverso; Flávio tenta apresentar a convergência com o Legislativo como garantia de governabilidade. Isso não assegura obediência parlamentar, mas altera o sistema de alianças.

Lula representa uma alternativa ancorada na combinação de direitos constitucionais e pluralismo. Suas raízes estão nas lutas sindicais, na resistência à ditadura e no pacto de 1988. Essa matriz aproxima social-democracia e reformismo popular, embora imponha acomodações com forças conservadoras e Lula seja uma liderança carismática e personalista. Sua maior contradição é depender de negociações opacas e interesses particulares do Centrão.

Realinhamento

Flávio representa uma direita nacional-conservadora, com tendências “iliberais” herdadas do bolsonarismo, portanto, saudosista do regime militar e do chamado “milagre econômico”. A soberania popular é invocada para fortalecer o governante contra instituições intermediárias, promete um governo de maioria em conflito com as minorias e políticas igualitaristas. Suas raízes incluem o anticomunismo, a tradição de tutela militar e o conservadorismo religioso, reorganizados pelas redes sociais. O poder plebiscitário possibilita ao líder reivindicar interpretar o “povo” contra as instituições.

A “economia do afeto” de Lula combina mercado, proteção social e Estado indutor. Herdou a tradição desenvolvimentista de Vargas e da Cepal, especialmente de Celso Furtado, matriz de seu repertório teórico: industrialização, investimento público e redução das desigualdades. Flávio defende liberalização econômica e autoridade política: privatizações, desregulação, contenção do gasto e protagonismo empresarial. Tem mais afinidades com Trump, que combina nacionalismo, tarifas e intervenção.

No plano social, a esquerda enfatiza direitos, redistribuição e serviços públicos. A direita privilegia família, religião, empreendedorismo e ordem, sem necessariamente abandonar transferências de renda. São respostas distintas à insegurança: proteção coletiva ou autonomia individual amparada por autoridade. A clivagem da segurança favorece a oposição nesta eleição. Quem ganhar, porém, terá que apresentar os mesmos resultados quanto ao trabalho precário, ao crime e à frustração dos jovens.

Além disso, o segundo turno não será apenas o confronto entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram a expectativa de poder de Lula para Flávio Bolsonaro. Com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente, o senador ganhou a iniciativa. A diferença é reversível, mas altera cálculos políticos, econômicos e internacionais.

Hoje, as democracias representativas enfrentam a cobranças por respostas rápida; negociação parlamentar, controle judicial e participação social são apresentados como obstáculos à eficiência dos governos. O “iliberalismo” nasce dessa promessa de eficiência sem controles. Conserva eleições, mas procura enfraquecer o pluralismo, a imprensa, as minorias e os contrapesos institucionais. Hungria, Rússia e Turquia expressam graus distintos de fechamento político. Com Trump, entretanto, os Estados Unidos se tornaram o principal centro de projeção internacional. Há uma deterioração acelerada da democracia americana. A potência que difundia instituições liberais passou a irradiar impulsos autoritários.

Nesse contexto, a eleição brasileira mobiliza grandes interesses internacionais. Terras-raras, energia, alimentos, dados, infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma vitória de Flávio tenderia a aproximar Brasília da agenda de Trump, reduzindo a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma ruptura, a pressão por um realinhamento geopolítico do Brasil pode ser inexorável.

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