Folha de S. Paulo
Expectativa de vitória já diminui taxas de
juros, mas Flávio esconde programa econômico
Ataques ao sistema e histórico de governo Bolsonaro 1 lançam dúvidas sobre plano
Donos e administradores do dinheiro grosso
tiveram de alterar suas aplicações porque Flávio
Bolsonaro (PL)
venceu
o primeiro turno. Dadas as alternativas, Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cresceu um
pouco a probabilidade de contenção de gasto e dívida do governo, o que afeta juros, moeda,
etc.
Não interessa agora se a expectativa vai se confirmar. Amanhã vai ser outro dia. Importa falar dos riscos das expectativas para Bolsonaro 2.
Para vencer, Lula precisa do voto de 2 de
cada 3 eleitores que optaram por outros candidatos que não Flávio. É aritmética
rudimentar, com pressupostos óbvios: abstenção, nulos e brancos na mesma;
Flávio não perde votos. Serve apenas para indicar que a situação está difícil
para Lula, o que se confirma com a mera inspeção de outros resultados do
primeiro turno.
Enquanto pesquisas não desmentirem essa
aritmética, a conversa é o "ajuste" de Flávio, de que ninguém sabe e
ninguém viu, fora pequena panela bolsonarista. Há dúvidas.
Primeiro, não se sabe o quanto um Bolsonaro 2
vai se dedicar, por exemplo, ao Plano Barrabás (libertação de golpistas), que
já conta com a ajuda de Kassio
Nunes Marques. De modo geral, não se sabe se vai dar prioridade a atacar o
"sistema" ou, como diz, "redemocratizar
o país" mudando a Constituição.
Vai fazê-lo no início, no meio ou no fim do governo?
Segundo, o histórico bolsonarista de gestão
econômica é feito das mutretas de 2022 e das tentativas de Bolsonaro 1 de
evitar reformas "liberais" em 2019 (era contra a reforma
da Previdência). No mais, entregou o governo ao centrão vorcarista; a
epidemia solapou outras possibilidades.
Terceiro, em 2027 o crescimento do PIB será baixo.
Pode ser menor ainda pois, de início, "ajustes" tendem a ser
recessivos. A receita do governo crescerá pouco ou nada. Não se sabe qual será
a receita também por causa do início da reforma tributária. Vai haver menos
emprego novo ou mais desemprego.
Difícil que o peso de pagamento de dívidas diminua em relação à renda média das
famílias. A inadimplência
deve cair bem pouco. Nesse ambiente, empresas
faturam menos; dívidas sufocam muitas delas.
Quarto, dificilmente haverá superávit nas contas
públicas federais —vai faltar receita. Pode haver contenção de despesa, o
que implica também que a renda das famílias seria afetada porque benefícios
sociais não teriam reajuste real. Quanto menos corte de benefício de imposto
para rico e certas empresas, mais o povo será esfolado. Será ambiente político
difícil, a não ser que o povo aceite o sacrifício. Os Bolsonaros, demagogos
sempiternos, aguentariam em paz a impopularidade?
Quinto, havendo plano capaz, coerente em
termos macroeconômicos, goste-se ou não dele, o Congresso
Nacional vai aceitá-lo ou "cortar na carne" das emendas?
Sexto, na hipótese de haver plano bom e de
implementação longa (quatro anos e mais), Bolsonaro 2 vai sustentá-lo? Não vai
dar jeito de gastar ou meter a mão de outra maneira?
Sétimo, a equipe de um Bolsonaro 2, Fazenda e
Casa Civil,
será capaz de negociar o pacote com o Congresso? A Casa Civil estará dedicada a
isso ou a mudar "o sistema"? Qual será então o grau de apodrecimento
institucional (Supremo, Congresso etc.)?
Oitavo, em troca de apoio para o "ajuste",
Bolsonaro 2 vai negociar acordão entre Poderes, políticos e poderosos para
ajudar todo mundo a fugir da polícia (nos casos Vorcaro, emendas, INSS etc.)? Quanto
vai custar o apoio do centrão? Em qual moeda?
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