quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Calor recorde expõe urgência de cortar emissões

O Globo

Apesar das temperaturas mais altas já registradas, humanidade tem andado a passos mais lentos do que deveria

A palavra “anomalia” tem um sentido técnico específico em ciência climática. Trata-se do desvio — para mais ou para menos — de uma medição em relação à média esperada. Não é necessariamente uma variação extrema, mas as anomalias de temperatura registradas em 2023 foram anômalas também no sentido mais comum da palavra. Nunca a Terra registrou temperaturas tão acima da média esperada. O ano de 2023 foi, de longe, o mais quente já medido. Recordes foram quebrados repetidas vezes. Junho foi o mês mais escaldante até julho chegar. Depois agosto, setembro... e assim sucessivamente, até dezembro.

O Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, agência europeia do clima, constatou que metade dos dias de 2023 registrou temperatura 1,5oC acima do nível pré-industrial. A média da temperatura global foi de quase 15oC, 0,17oC acima de 2016, até então ano mais quente da História. O cruzamento de dados de satélites com evidências geológicas mostra que 2023 figura como o mais quente dos últimos 100 mil anos. As medições da Nasa, que serão divulgadas ainda nesta semana, deverão corroborar a constatação.

Vera Magalhães - Frente ampla, parte 2

O Globo

Com chapa Boulos-Marta, Lula replica ideia que levou a aliança com Alckmin e mostra maior poder de articulação que Bolsonaro

Desde que começou seu caminho de volta à Presidência, Lula parece ter aprimorado uma qualidade que sempre lhe foi atribuída: promover encontros improváveis na política. Foi um espanto generalizado quando vieram a público as primeiras conversas para a composição da chapa Lulalckmin. Quem se lembrava dos impropérios lançados de parte a parte na eleição de 2006 jurava ser impossível unir o petista e o ex-tucano na mesma chapa. E olha no que deu.

O segundo turno foi pela mesma linha, com a criação da frente ampla que juntou no barco a ex-oponente Simone Tebet, que virou ministra. Na composição do governo, o presidente eleito resolveu exercitar o dom de convencer quem está confortável numa posição a aceitar outra para lá de espinhosa. Funcionou com José Múcio, deu errado com Josué Gomes.

Zeina Latif - Somos melhores do que se pensa

O Globo

A crença de que o país precisa de mais democracia, e não menos, para se tornar mais justo e próspero é de grande valor

Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 não produziram instabilidade democrática e tampouco contaram com o apoio da sociedade. Uma ampla maioria os reprovou, mesmo entre os eleitores de Bolsonaro. Há muito a celebrar, portanto, especialmente considerando que 72% da população mundial vive em autocracias, segundo o V-Dem.

O Brasil conta com freios e contrapesos que afastam o risco de rupturas democráticas. A tentativa de golpe, porém, não fracassou apenas porque inexiste intenção golpista na cúpula militar ou porque as instituições agiram prontamente para punir os envolvidos.

Um importante antídoto é a própria rejeição da sociedade a retrocessos; um ingrediente fundamental para o bom funcionamento das válvulas da democracia – o que certamente faltou em 1964.

Renata Gil* - ‘Habemus Supremum’

O Globo

Supremo Tribunal Federal se encarregou bem de seu papel de proteção ao Estado Democrático de Direito

A expressão Habemus Papam, que traduz o anúncio público da escolha de um novo Papa, admite uso coloquial e tem perfeito cabimento quando expressa a ocupação de um espaço institucional em momentos de incerteza e insegurança política e jurídica.

No último ano, assistimos com preocupação à crise democrática que se instalou em Israel antes do conflito bélico na Faixa de Gaza, em razão de atos do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para impedir que o Supremo daquele país avaliasse atos do Executivo. Fez isso por meio do Parlamento, por ele controlado, usando leis de caráter eminentemente antidemocrático.

Em julho, em pleno recesso forense brasileiro, conversei com ministros do nosso Supremo Tribunal Federal, pensando em ato de apoio ao Supremo israelense, conduzido por uma mulher, a magistrada Esther Hayut.

Elio Gaspari - É a segurança, senhores

O Globo

As celebrações do 8 de Janeiro tiveram todos os ingredientes típicos dos eventos de Brasília: as enfadonhas nominatas, com os intermináveis registros de presenças e discursos em louvor da democracia. Faltou uma só peça: a discussão dos fatores que permitiram a ocorrência das invasões.

Os ônibus convocados trazendo milhares de pessoas para a “Festa da Selma” chegavam a Brasília desde a véspera. Candidamente, diversos ministros contaram que, no início da tarde, estavam almoçando. Nenhum depoimento revelou alguém que, desde o início da manhã, estivesse organizando qualquer tipo de resistência.

A tentativa de golpe vinha sendo articulada havia semanas. Hoje culpa-se o culpado, e seu nome é Jair Bolsonaro. Contudo, se um sujeito tem uma joalheria, e ela é assaltada, a culpa é do ladrão, mas o dono da loja deveria ter pensado na proteção de seu patrimônio. O que houve em Brasília foi o colapso do sistema de segurança pública, que está bichado em todo o país.

Fernando Exman - Cotadíssimo, Lewandowski circula em Brasília

Valor Econômico

Expectativa é de que a substituição dê uma nova cara ao ministério

Personagem que atrai olhares por onde passa em Brasília, Ricardo Lewandowski chegou na segunda-feira (8) ao Congresso Nacional ladeado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino. A dupla logo chamou atenção.

Afinal, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é considerado favoritíssimo para substituir Dino, que está prestes a deixar a pasta para assumir uma cadeira na Corte. Nos bastidores, o anúncio é considerado iminente.

Lewandowski seguiu com desenvoltura pelo Salão Nobre do Senado, onde integrantes das cúpulas dos três Poderes se reuniam privadamente antes da solenidade que seria realizada no saguão ao lado. Em pouco tempo, ocorreria a cerimônia em memória à reação institucional que impediu um golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023.

Cristovam Buarque* - Hora do educacionismo

Correio Braziliense

A história mostra que, além da educação, é preciso liberdade para fazer florescer a criatividade, que a cooperação internacional é necessária para aproveitar recursos externos, e a democracia, para corrigir rumos errados

Na última edição de 2023 do Correio Braziliense, o jornalista Luiz Carlos Azedo provocou nominalmente este leitor a refletir sobre o papel da educação na construção do futuro do Brasil. Entre envaidecido e comprometido, respondo que apenas educação não é suficiente, mas é absolutamente necessária para construir um país rico, democrático, justo, sustentável e pacífico. A his tória mostra que, além da educação, é preciso liberdade para fazer florescer a criatividade, que a cooperação internacional é necessária para aproveitar recursos externos, e a democracia, para corrigir rumos errados, mas a educação é o eixo central para enfrentar cada problema brasileiro e construir o progresso, especialmente nestes tempos em que a economia é baseada no conhecimento.

Vera Rosa - O crocodilo de Múcio

O Estado de S. Paulo

PT e ministérios preparam ações pelos 60 anos do golpe de 1964 e militares ficam de orelha em pé

Passado o ato para lembrar um ano da barbárie do 8 de Janeiro e celebrar a democracia, uma nova preocupação toma conta das Forças Armadas. É que o PT e a Fundação Perseu Abramo, ligada ao partido, preparam debates, exposições e documentário para marcar os 60 anos do golpe de 31 de março de 1964, que deu início à ditadura militar no Brasil. Além disso, o Ministério dos Direitos Humanos articula com outras pastas uma série de iniciativas para lembrar a data.

Nos bastidores, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, já começou o trabalho na caserna para evitar “provocações”.

Paulo Delgado* - Mistério e mística na economia

O Estado de S. Paulo

Um círculo vicioso de claudicantes melhoras, insegurança, surpresas estressantes e a contínua fragilidade das ideias educacionais, liberais e democráticas

Melhor ser dono de um centavo do que escravo de um real é só um bonito ditado. Financiamento, crédito, política social, consignado, subsídio, isenção, incentivo, Refis, Mover, Desenrola, Selic, benefício-privilégio, qual o motor da prosperidade? Nenhuma lei da economia vai conseguir trazer igual alívio para o precavido, o protegido, o abandonado.

A relação informal entre o governo e o Banco Central se ajustou com o arcabouço fiscal. Um monitora as contas públicas para evitar descontrolado endividamento. Outro vai derrubando de 0,5% em 0,5% a Selic para chegar a 8% no fim do ano. Mantido o bom gosto do governo por reservas internacionais altas, o conceito de dívida deve ser o de dívida bruta menos reservas. O volume e liquidez do entesourado nos protege do risco de endividamento total.

Bruno Boghossian - Repatriação de Marta Suplicy

Folha de S. Paulo

Lula faz ajuste de rota para recuperar periferias e buscar renovação tardia na esquerda

Lula recebeu Marta Suplicy para um almoço em agosto de 2012. Numa conversa de duas horas, o então ex-presidente enterrou desentendimentos com a ex-prefeita e convenceu a aliada a embarcar numa missão: ajudar Fernando Haddad na eleição municipal de São Paulo, em especial nos bairros da periferia.

O presidente acaba de sacar o mesmo trunfo 12 anos depois. Lula costurou a volta de Marta ao PT e sua indicação como vice de Guilherme Boulos para a disputa deste ano. A ideia é que a ex-prefeita empreste três atributos à chapa do deputado do PSOL: experiência administrativa, uma imagem razoável na elite paulista e conexão com a periferia.

Martin Wolf* - O liberalismo está abalado, mas ainda não quebrado

Folha de S. Paulo

Liberais compartilham a confiança de que seres humanos podem decidir as coisas por si mesmos

A ideia central da democracia —de que os governos são responsáveis perante os governados— ainda é valorizada em grande parte do mundo. De que outra forma explicar o fato de que mais da metade da população mundial vai votar este ano?

No entanto, o mundo também tem passado por uma "recessão democrática", como Larry Diamond, da Universidade Stanford, chama, há quase duas décadas.

O poder da autocrática China tem aumentado. Vladimir Putin sufocou a democracia na Rússia. O autoritarismo está triunfando em muitos países. A reeleição de Donald Trump, após sua tentativa de derrubar o resultado da última eleição presidencial dos Estados Unidos, também seria uma mudança decisiva na democracia mais influente do mundo.

No entanto, o que está acontecendo não é principalmente uma perda de confiança nas eleições em si. Afinal, os autoritários frequentemente usam as eleições para consagrar seu poder.

Wilson Gomes* - Agenda para a esquerda deve incluir realismo político

Folha de S. Paulo

A militância, tão feroz e vocal, precisa aprender a baixar as armas e lembrar que o setor progressista venceu por pouco

Prosseguindo com minhas sugestões para a esquerda no Ano-Novo, destaco a necessidade de reconsiderar uma atitude específica da militância: é preciso baixar as armas.

Compreendo que de 2015 a 2021 a esquerda brasileira comeu o pão que o diabo amassou. A sua presidente recém-eleita levou um impeachment que de isento e republicano não teve nem o odor, o antipetismo virou o mais importante eleitor do país, a extrema direita saltou do seu pico de 3% de votos para mais da metade dos eleitores, a Lava Jato se engajou na destruição do PT como uma missão religiosa, o maior líder político e eleitoral da esquerda foi trancado em um cárcere em Curitiba.

Hélio Schwartsman - Buracos reinam soberanos

Folha de S. Paulo

Questões locais e não nacionais tendem a dar o tom da disputa em pleitos municipais

As eleições municipais deste ano se darão sob o signo da polarização? É pouco provável. De um modo geral, são os problemas locais que pautam as disputas para as prefeituras e Câmaras de Vereadores. É claro que em algumas praças, normalmente cidades grandes, em que pelo menos um dos candidatos se identifique fortemente com um dos grandes blocos políticos, poderemos ver ecos do lulismo contra o bolsonarismo, mas na grande maioria dos 5.570 municípios é o buraco na rua e não a posição do Brasil em relação à guerra na Ucrânia que dará o tom. Essa pelo menos tem sido a tendência nos últimos ciclos eleitorais.

Paul Krugman* - Por que Donald Trump vai começar a atacar o Fed em breve

Folha de S. Paulo

Ciclo de baixa na taxa de juros vai atrair acusações de uso político do banco central americano

As taxas de juros devem começar a cair. Talvez não hoje, e talvez não amanhã, mas em breve, e pelo resto deste ano (pelo menos).

Por quê? Porque existem razões muito boas para o Federal Reserve, que controla as taxas de juros de curto prazo —é assim que ele faz política monetária— começar a reverter os aumentos acentuados das taxas que realizou a partir de março de 2022.

Há um debate acirrado sobre se esses aumentos das taxas foram excessivos, o que não vou discutir aqui. Independentemente do que você pensa sobre a política passada, o argumento para cortes no futuro é muito forte, e espero que o Fed aja com base nesse argumento.

O que eu não sei é se o Fed está preparado para a tempestade política que está prestes a enfrentar, e se resistirá à pressão para manter as taxas muito altas por muito tempo.

Porque é uma previsão segura que Donald Trump e seus apoiadores vão reclamar que os próximos cortes nas taxas fazem parte de uma conspiração do "deep state" para reeleger o presidente Joe Biden.

Poesia | Amigo | Pablo Neruda

 

Música | PORTO DA PEDRA Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais /Opiniões

Eleições tornam urgente regulação das redes sociais

O Globo

Congresso deve reduzir riscos trazidos por desinformação e inteligência artificial às campanhas

No primeiro aniversário da tentativa de golpe de 8 de janeiro, é salutar o país avaliar o que foi feito nos últimos 12 meses para evitar novos ataques à democracia e urgente destacar o que falta fazer. Um ponto parece unir as principais autoridades da República: a necessidade de regular as redes sociais, principais focos de conspirações golpistas.

Em entrevista ao GLOBO, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes foi categórico: “A prioridade é impedir a continuidade dessa terra sem lei das redes sociais”. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), também defendeu a regulação em entrevista recente: “Esse movimento de uma vida paralela, não analógica, uma vida digital muito rápida, vai exigir de nós, congressistas, que algumas modificações aconteçam”.

Faltando sete meses para o início da propaganda eleitoral, o Congresso deve dar atenção ao tema. Passou da hora de deputados e senadores deixarem de ser reféns das fabulações espalhadas pelas grandes plataformas digitais. A falta de regras transformou as redes sociais e os aplicativos de comunicação em centros de disseminação de desinformação. Repetidas vezes, as empresas de tecnologia falharam. Quando vídeos, áudios ou memes fraudulentos são removidos, milhões já os viram, e o estrago já está feito.

Merval Pereira - Polarização corrói a democracia

O Globo

Na noite em que Tancredo Neves se internou em Brasília e ficou claro que não poderia tomar posse no dia seguinte como presidente da República, quem decidiu que o vice José Sarney assumiria foi o general Leônidas Pires Gonçalves, já escolhido como novo ministro do Exército.

Os juristas se dividiam entre Sarney e o presidente da Câmara, deputado Ulysses Guimarães, e Leônidas desempatou. O senador Pedro Simon perguntou, indignado, a Ulysses por que ele não reagira àquela decisão:

— Não podia, meu Pontes de Miranda estava me cutucando com a espada dizendo que seria o Sarney.

Trinta e oito anos depois, na baderna insurrecional que tomou conta da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, houve uma reunião em que ficou decidido que seria aberto um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar a tentativa de golpe.

Míriam Leitão - A dúvida entre punir e apaziguar

O Globo

O que os discursos e as conversas de bastidores mostraram é que há necessidade de punir os responsáveis antes de se superar esses atos

Estive ontem nos dois eventos que lembraram a tentativa de golpe de um ano atrás. O que ficou das conversas de bastidores e dos discursos é que há muito a fazer para garantir que agressões como as de 8 de janeiro de 2023 não se repitam. A sensação que colhi foi que é preciso esclarecer muita coisa e punir muita gente antes de se considerar que o risco passou. Foi muito caro mobilizar tantas pessoas, trazê-las do país inteiro, manter acampamentos por dois meses, com infraestrutura, e coordenar atos daquela dimensão, além de bloqueios em diversas estradas e refinarias do país. O que se sabe até agora da origem do grosso do dinheiro é muito pouco.

O presidente do Superior Tribunal Militar, brigadeiro Joseli Camelo, me disse que militares que forem condenados a mais de dois anos pela Justiça Federal serão também julgados pela Justiça Militar. E podem ser condenados à “indignidade para o oficialato” e expulsos das Forças Armadas.

Vera Magalhães – Risco de politizar ato é que haverá o dia seguinte

O Globo

Atos como o desta segunda-feira, para marcar efemérides históricas, sejam elas virtuosas ou infames, como o 8 de Janeiro, são benéficos para a Histórica e educativos para a sociedade. Assim, feriados em datas de grandes tragédias ou guerras, ou museus como o do Holocausto, o de Hiroshima ou de diferentes ditaduras mundo afora têm o caráter de evitar que esses eventos sejam esquecidos, minimizados ou repetidos.

O grande problema é quando o caráter cívico e institucional descamba para a partidarização, porque isso tisna o objetivo e dá munição aos que tentam desvirtuar os fatos. A solenidade desta segunda-feira teve o mérito de se inscrever na primeira modalidade, mas teve momentos em que incorreu na armadilha da politização.

Malu Gaspar - Bolsonaro é sujeito oculto dos discursos de Moraes e Lula

O Globo

Embora não tenham mencionado diretamente Jair Bolsonaro em seus discursos, tanto Lula como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STFAlexandre de Moraes procuraram deixar claro em suas falas, no ato realizado no Congresso Nacional para lembrar o 8 de janeiro, que não desistiram de responsabilizar o ex-presidente da República por seu envolvimento nos atos golpistas.

Moraes disse que "não haverá impunidade, apaziguamento ou esquecimento" aos envolvidos na trama golpista, e que "não haverá qualquer tipo de anistia aos personagens envolvidos nos ataques".

Já Lula afirmou que "não haverá perdão para quem atenta contra a democracia, seu país e contra seu próprio povo”, em um discurso em que falou o tempo todo do antecessor.

“Adversários políticos e autoridades constituídas poderiam ser fuziladas ou enforcadas em praça pública, a julgar por aquilo que o ex-presidente golpista pregou em campanha e seus seguidores tramam nas redes sociais”, disse o petista.

Carlos Andreazza - Crítica construtiva, ministro

O Globo

Alexandre de Moraes deu entrevista ao GLOBO. Um ano do 8 de Janeiro. Documento já histórico; em que justifica o afastamento de governador com o argumento de “evitar que pudesse ocorrer algo extremista em outros estados, eventualmente outro governador apoiar movimento golpista”.

Ibaneis Rocha, eleito, afastado para dar exemplo; para que, o Supremo monocrata se antecipando a pretenso “efeito dominó”, nenhum outro governante se animasse. E tudo bem. Pela democracia, à margem do Direito.

Não ornará, não em linguagem compatível com a República, um arranjo em que, para desmontar o 7 de Setembro permanente de Bolsonaro, prospere este estado de vigília; que, sob a inatacável defesa das instituições democráticas, legitime medidas de exceção e interdite o debate público — a ser fascista, trabalhando pela volta do capeta, aquele que criticar o governo Lula e as extravagâncias xandônicas.

Pedro Cafardo - O papel das missões na nova política industrial

Valor Econômico

Plano de reindustrialização do país deve envolver cooperação entre governo e setor privado, pautando-se por direções, prioridades e instrumentos para alcançar objetivos econômicos e sociais no longo prazo

Não há mais muitas divergências nem conflitos ideológicos significativos sobre a necessidade de lançamento de uma nova política industrial no país. Ficou para trás a ideia de que o setor de serviços, apesar de sua importância na estrutura produtiva, viria a comandar o crescimento econômico. E isso é um entendimento global.

A discussão do problema da desindustrialização e das formas de correção desse processo maligno se tornou dominante nas economias, inclusive nos países desenvolvidos. O pensamento majoritário sugere que a indústria de transformação continuará sendo a principal propulsora do crescimento econômico e difusora do progresso tecnológico.

Andrea Jubé - O encontro re-marcado de Haddad com o diálogo

Valor Econômico

Ministro tem recebido críticas veladas até de aliados

A primeira coluna do ano é sobre ódio, diálogo e esperança. O ódio foi tema de uma carta de Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino em maio de 1956, na qual ela confidenciou seu especial interesse no conto “O búfalo”, que havia acabado de escrever. O texto continha “uma violência que me faz tremer”, descreveu.

A escritora revelou que tomada por um “ódio muito forte”, sentimento que lhe era incomum, sentiu necessidade de criar aquela história. A protagonista é uma mulher abandonada que decide fazer uma visita ao Jardim Zoológico para aprender com os animais enjaulados como odiar.

Em sua busca, subitamente, a mulher se depara com um búfalo negro e imponente, e ambos passam a se encarar. “Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos... Olhos pequenos e vermelhos a olhavam... Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada, com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava”. A personagem então conclui que a busca chegou ao fim, até que sua mão alcança o punhal que guardava no bolso do sobretudo.

César Felício - Ataques golpistas permitiram a Lula ultrapassar barreiras da polarização

Valor Econômico

Documentários mostram participação decisiva de Janja na rejeição à GLO

Um traço marcante dos dois documentários divulgados nesse domingo (7) sobre o 8 de Janeiro, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi o bastidor sobre a decisão do governo de rejeitar na ocasião uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Tanto na produção levada ao ar pela GloboNews quanto na peça publicada pelo site do jornal “Folha de S.Paulo” destaca-se o papel decisivo da primeira-dama Rosângela Silva, a Janja, de ter afastado o presidente dessa solução, em reunião feita na Prefeitura de Araraquara (SP), onde o presidente estava por ocasião dos ataques em Brasília.

Fernando Exman - Oposição erra ao boicotar ato do 8 de Janeiro e Lula se equivoca ao citar PT em discurso

Valor Econômico

Ao falar de improviso, presidente resolveu citar, ainda que indiretamente, Bolsonaro e seus três filhos

Histórico, o ato em memória ao 8 de Janeiro poderia ter sido ainda mais bem-sucedido se governo e oposição tivessem deixado de lado seus interesses partidários pelo menos por um dia.

A ausência da oposição estava dada. Situação que contrastava, aliás, com a garantida presença dos comandantes das Forças Armadas. No fim do ano passado, o ministro da Defesa, José Múcio, contou em evento realizado no Comando da Marinha que havia garantido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, confirmada a realização do evento, os três oficiais seriam os primeiros a chegar ao local.

Já alguns líderes de partidos do Centrão, inclusive integrantes das mesas diretoras da Câmara e do Senado, haviam anunciado que não interromperiam o recesso parlamentar para prestigiar a solenidade. Muitos dependem dos votos de eleitores mais radicais nas eleições, e argumentavam que o ato, originalmente concebido para registrar a reação institucional em defesa da democracia empreendida no dia 8 de janeiro de 2023, seria transformado num evento político capturado pelo Palácio do Planalto. A orientação era “sumir” de Brasília nessa segunda-feira.

Eliane Cantanhêde - Dois pra lá, dois pra cá

O Estado de S. Paulo

Um ministério só para Justiça e Segurança Pública, mas com comando duplo

Em 8 de janeiro de 2023, o secretário-geral do Ministério da Justiça, Ricardo Cappelli, almoçava tranquilamente, enquanto esperava a mulher e o filho chegarem de mala e cuia para Brasília, quando estourou a invasão das sedes dos três Poderes. Ele correu para o gabinete do ministro Flávio Dino e, depois de virar interventor do Distrito Federal quase por acaso, poderá assumir agora um, digamos assim, meio Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O presidente Lula não vai dividir a pasta em duas, como foi no governo Michel Temer, mas pode redefinir as duas funções, na prática, dentro do mesmo ministério. O ex-presidente do Supremo Ricardo Lewandowski como ministro e Cappelli como um supersecretário executivo, com carta-branca para cuidar da Segurança Pública.

Bruno Boghossian - Força tarefa contra golpismo se renova, e ausentes passam recibo

Folha de S. Paulo

Autoridades reforçam punições e fazem campanha por regulação de redes, em data com inevitáveis interesses políticos em jogo

Além dos esperados desagravos e adjetivos carregados, as cerimônias em memória dos atos golpistas de 8 de janeiro serviram para renovar uma espécie de força-tarefa formada por algumas das autoridades mais poderosas de Brasília.

O evento principal, que reuniu chefes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, repetiu o caráter simbólico das primeiras reações aos ataques, ainda no início de 2023. Um ano depois, a reunião desses mesmos atores também foi palco da defesa de uma agenda mais concreta.

Boa parte dos discursos passou por um tripé que se consolidou como linha mestra da resposta aos ataques: a punição exemplar aos envolvidos nos atos, a regulação das redes sociais em que se cultivou o caldo dos ataques e um isolamento dos grupos políticos que alimentaram os desejos golpistas.

Joel Pinheiro da Fonseca - 8 de janeiro foi uma tentativa de golpe?

Folha de S. Paulo

Última linha de defesa dos atos é dizer que houve apenas vandalismo desesperado

A última linha de defesa dos atos de 8 de janeiro de 2023 é dizer que não foram uma tentativa de golpe, mas apenas um vandalismo desesperado. Será? Vamos aos fatos.

O dia 8 de janeiro não nasceu do nada. Foram anos de discursos mentirosos acusando nosso sistema eleitoral e meses de acampamentos golpistas em frente a quarteis clamando aos militares por um golpe de Estado. Foi a esses manifestantes que Braga Netto disse em novembro: "Tenham fé". Foi com eles que Michelle Bolsonaro orou. Dos mesmos acampamentos saíram os atos de vandalismo da noite de 12 de dezembro em Brasília e ainda a tentativa de explodir um caminhão tanque no aeroporto de Brasília em 24 de dezembro. Mais do que o suficiente para criar o clima de pânico que poderia justificar uma intervenção militar.

Esse era o objetivo único. A invasão do dia 8, já desesperada porque a troca de poder ocorrera sem obstáculos, buscava promover um tumulto tal que provocasse a intervenção militar para garantir a ordem e, na sequência, sob algum pretexto qualquer, tirar Lula do poder.

Hélio Schwartsman - Sob o espectro do golpe

Folha de S. Paulo

Apaziguamento de militares evita crises no presente, mas dificulta normalização democrática das Forças Armadas

Se eu estivesse na pele do Lula também faria o possível para evitar problemas com os militares. A última coisa de que o governo precisa é uma quartelada ou uma crise institucional. Mas é importante ressaltar que a opção pela política de apaziguamento tem um preço, que não é baixo.

Neste primeiro aniversário da tentativa de golpe bolsonarista, os incorrigivelmente otimistas destacam que a intentona fracassou porque a cúpula das Forças Armadas se recusou a patrocinar a aventura. Verdade, mas, considerado o quadro geral, não vejo motivos para celebração. Militares, incluindo alguns oficiais-generais, participaram ativamente das tramas democraticidas, se é que não constituíam a espinha dorsal do movimento. E, ao que tudo indica, serão poupados dos rigores da lei.

Dora Kramer - Da boca para fora

Folha de S. Paulo

A pacificação não interessa à direita nem à esquerda porque não é eleitoralmente sexy

De verdade a direita nem a esquerda têm interesse na pacificação dos ânimos na política. Pelo simples fato de que a moderação não é eleitoralmente sexy. Políticos se movem ao ritmo da demanda dos que lhes dão votos e estes não se mostram inclinados a aderir à calmaria celebrada na teoria, mas na prática rejeitada.

As pesquisas comprovam. Em dezembro, o Datafolha mostrou que com erros e acertos, derrotas e vitórias de um lado e de outro, 90% dos eleitores de Luiz Inácio da Silva e de Jair Bolsonaro continuam apegados às escolhas de 2022.

Alvaro Costa e Silva -Zeladoria versus ideologia

Folha de S. Paulo

Com Lula e Bolsonaro consolidados como cabos eleitorais, debate está desvirtuado

Em 1985, pressionado pelo Partidão, João Saldanha —cartola, técnico e comentarista de futebol, além de comunista de carteirinha— aceitou sair candidato a vice-prefeito do Rio na coligação de esquerda encabeçada pelo advogado Marcelo Cerqueira. Ele cumpriu a ordem e depois resmungou: "A lagoa Rodrigo de Freitas é do estado, só o peixe podre é da prefeitura. O Theatro é municipal, mas quem manda é o estado. Eu vou fazer o quê? Pegar o lixo?".

Poesia | O Teu Riso | Pablo Neruda

 

Música | O Pinto da Madrugada - Alceu Valença

 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Instituições deram prova de força ao derrotar golpismo

Valor Econômico

Ainda há pela frente um caminho de pacificação no país, além da identificação e punição dos mentores e organizadores dos atos golpistas

Um ano após a infame tentativa de golpe de Estado, com a invasão e depredação da sede dos Três Poderes - a mais séria investida para subverter a ordem legal desde o fim do regime militar - o país ainda acerta as contas com o passado. O regime democrático resistiu graças à ação imediata do Judiciário, do Executivo, Legislativo e das Forças Armadas, cujo comando alinhou-se na defesa da Constituição. Trinta pessoas foram condenadas até agora, e mil das 1.430 denúncias apresentadas tiveram ação penal suspensa a pedido do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, e poderão ser objeto de acordo com a Procuradoria Geral da República, com penas leves. Falta ainda outra ação fundamental: levar à Justiça quem planejou, financiou e organizou o levante em Brasília.

Fernando Gabeira - Para sobreviver em 2024

O Globo

Mudanças climáticas e El Niño não darão trégua. Será preciso insistir em algumas teses, ainda que políticos não as ouçam

Passado o ano, as listas pessoais de desejos, nada mais a fazer do que encarar a realidade. Mesmo um tipo de realidade sobre a qual nada podemos fazer: as eleições nos Estados Unidos, o esforço da China para anexar Taiwan. Até na guerra no Oriente Médio, tudo o que pudemos fazer foi sofrer e reclamar, exceto, é claro, a iniciativa oficial de trazer brasileiros de Israel, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

O ano entrou com o terremoto no Japão. É um ano de eleições municipais no Brasil. Pensei em ligar o progresso japonês em prevenção e resposta aos grandes eventos naturais a um debate sobre as cidades brasileiras. As mudanças climáticas estão aí, é preciso tirar gente de área de risco, preparar comunidades para uma resposta de emergência.

No primeiro artigo que escrevi no ano cheguei a sugerir que bons planos nesse campo poderiam sonhar com financiamento internacional. Afinal, é o esforço de adaptação às mudanças, e já no Acordo do Paris se falou numa verba para financiá-lo.

Simone Tebet* - A eterna vigilância

O Globo

Todos aqueles que participaram da infâmia de 8 de janeiro devem responder cabalmente por seus atos

Um ano atrás, no dia 8 de janeiro, todos nós, brasileiros e brasileiras que amamos a liberdade, a democracia e respeitamos a Constituição, conquistamos uma das maiores vitórias da civilização contra a barbárie desde o fim da ditadura militar e da redemocratização do país.

Aos que pensem que exagero nas palavras, quero lembrar apenas que acabamos de ser informados de que, entre os planos maquinados por alguns dos extremistas do golpe derrotado, estava o enforcamento de um ministro do Supremo Tribunal Federal em plena praça pública. Na verdade, na maior praça pública do Brasil, a Praça dos Três Poderes, que foi atacada e enxovalhada nos atos infames de 8 de janeiro de 2023.

Nós amamos a liberdade, a democracia e a Constituição porque aprendemos, ao longo das décadas, que, longe de ser palavras vazias, elas são os conceitos fundamentais que regem nossas vidas como cidadãs e cidadãos de uma sociedade moderna, que se pretende justa.

Carlos Pereira - A democracia não se fragilizou

O Estado de S. Paulo

Esquerda foi míope, enquanto a direita iliberal errou grosseiramente no 8 de Janeiro

Hoje celebra-se um ano da vitória da democracia no Brasil. Ao contrário do que Lula tem dito, não tem havido uma “reconstrução da democracia”, pois só se pode reconstruir algo que foi quebrado. A democracia brasileira nem se fragilizou nem se quebrou, a despeito das inúmeras tentativas iliberais de Bolsonaro de enfraquecê-la.

De um lado, a esquerda, aflita com seus medos e fantasmas do passado autoritário, foi míope ao enxergar que a democracia estava em risco iminente com Bolsonaro na presidência. Além de ter interpretado suas ameaças como críveis, não percebeu a capacidade de resiliência da sociedade e a força das instituições de resistir às iniciativas iliberais do ex-presidente.

Eliane Cantanhêde - Golpe foi articulado antes mesmo de 2018, mas a democracia foi mais forte

O Estado de S. Paulo

Tentativa não funcionou porque as Forças Armadas não aderiram; decisão de não decretar GLO foi decisiva

Era domingo, 8/1 de 2023, e o ex-metalúrgico Luiz Inácio da Silva, recém-empossado para seu terceiro mandato na Presidência da República, levou um susto ao saber da invasão e do quebra-quebra do Planalto, Supremo, Câmara e Senado e tomou três decisões: transformar a Prefeitura de Araraquara em quartel general de resistência ao golpe, só voltar a Brasília em plena segurança, depois da situação controlada, e não aplicar a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que significaria botar tropas e tanques do Exército nas ruas – principalmente na Praça dos Três Poderes.

Acertou nas decisões, mas a principal delas partiu da primeira-dama Janja da Silva: recusar o que idealizadores do golpe, civis e militares, queriam: a GLO. O Exército iria para a rua legalmente, dentro da Constituição. Só que, em vez de garantir a lei e a ordem, ficaria assistindo e, assim, aprofundaria o caos. As cúpulas das Forças Armadas, porém, se recusaram. E, no dia fatal, Lula vetou a GLO.

Ao entrar em campanha para a eleição presidencial de 2018, o capitão insubordinado Jair Bolsonaro mirava quatro segmentos que lhe serviriam como eleitores e que, mais adiante, ele cooptaria como golpistas: Forças Armadas, polícias estaduais, igrejas evangélicas e os Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs), civis apaixonados por armas, num ambiente em que há muita gente boa, mas é favorável a valentões que adoram tiros, brigas, confusões e “patriotadas”.