O Estado de S. Paulo
Em discurso de abertura da Assembleia-Geral
da ONU, Lula disse que ‘o Brasil não cabe no quintal de ninguém’
O presidente Lula aproveitou seu discurso de abertura da
Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para protestar contra a
projeção de poder dos Estados Unidos de Donald Trump na América Latina.
Lula denunciou “tentações hegemônicas”,
afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e garantiu estar
comprometido com o combate ao crime organizado, mas sem aceitar ingerências
externas.
O presidente disse que os venezuelanos devem decidir seu próprio destino, formulação que pode ser lida tanto contra o autoritarismo chavista quanto contra a intervenção americana.
Lula e Trump discursaram em sequência e
apresentaram visões diametralmente opostas de mundo. O presidente brasileiro
defendeu limites ao poder militar das superpotências, regras multilaterais,
respeito à soberania e regulação. O americano celebrou o exercício virtualmente
ilimitado do poder, a superioridade militar e tecnológica e a liberdade de ação
dos Estados Unidos.
Trump celebrou a operação militar que
capturou Nicolás Maduro e a cooperação com o
governo de Delcy Rodríguez. Ele se orgulhou do
emprego da força militar contra o crime organizado, comparando-o ao Estado Islâmico e enfatizando que é
preciso travar uma guerra contra o narcotráfico.
Lula falou por quase 22 minutos; Trump, por
37. Lula foi interrompido três vezes por aplausos espontâneos, sobretudo de
governantes do chamado Sul Global. Trump também, mas por palmas puxadas pela
sua comitiva, com apoio bem menor do restante da plateia. Ele alternou o texto
preparado com aparentes improvisos, repetições e digressões.
Praticamente a única concordância entre ambos
foi a condenação aos ataques do Hamas contra israelenses em outubro de
2023, que Lula classificou, corretamente, como “terroristas”. De resto, ambos
divergiram sobre o conflito palestino-israelense. Lula acusou o governo Netanyahu de genocídio em Gaza. Trump
comemorou seu plano para encerrar a guerra e trazer os reféns de volta.
Por sua vez, a abordagem de Lula da guerra na Ucrânia foi a mais contrastante com a visão europeia. Ele a chamou de “guerra entre a Rússia e a Ucrânia”, quando na verdade é uma guerra da Rússia contra a Ucrânia, que apenas luta em defesa da própria soberania, defendida por Lula em outros casos, mas não nesse.
E ainda citou a parceria do Brasil com a
China para tentar alcançar a paz. O Ocidente não vê credenciais na China para isso, já que o governo
chinês apoia a Rússia de forma econômica, política e até militar, com o envio
de equipamentos de uso dual. Trump reiterou a promessa de resolver a guerra
rapidamente, como se o tempo já não tivesse tornado essa promessa inócua.
A inteligência artificial também os
colocou em campos opostos. Lula disse que deixar de regulamentar Big Techs e IA
seria uma omissão histórica. Trump rejeitou um sistema global de controle e
adotou o termo “superinteligência”, título do livro de 2014 do filósofo sueco
radicado no Reino Unido Nick Bostrom, que exerceu influência sobre Elon Musk.
Disse que os Estados Unidos vão incentivar a tecnologia, no contexto da disputa
com a China, e não regulamentá-la.
Para Trump, as pessoas que alertam para os
riscos da IA são as mesmas que denunciaram o aquecimento global, o que, na
visão dele, não se confirmou. Em contraste, Lula disse que a eleição que o
Brasil enfrentará envolve a disputa entre democracia e negacionismo, palavra
que remete às teses contrárias a mudanças climáticas e ao uso de vacinas, mas
que ele aparentemente quis associar também ao autoritarismo.
Trump citou as eleições americanas de 3 de
novembro no contexto da guerra contra o Irã. Ele voltou a argumentar que os
iranianos buscarão um acordo depois das eleições, porque querem influir nelas
com a guerra, apesar de ele, Trump, não estar nas cédulas: “Estou ajudando os
republicanos”.
Lula discursou a 12 dias das urnas; Trump, a 42. Da mesma tribuna, emitiram não só duas visões do mundo — mas dois discursos dirigidos para casa.

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