quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Na ONU, Lula protesta contra projeção de poder de Trump na América Latina, por Lourival Sant'Anna

O Estado de S. Paulo

Em discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU, Lula disse que ‘o Brasil não cabe no quintal de ninguém’

O presidente Lula aproveitou seu discurso de abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para protestar contra a projeção de poder dos Estados Unidos de Donald Trump na América Latina.

Lula denunciou “tentações hegemônicas”, afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e garantiu estar comprometido com o combate ao crime organizado, mas sem aceitar ingerências externas.

O presidente disse que os venezuelanos devem decidir seu próprio destino, formulação que pode ser lida tanto contra o autoritarismo chavista quanto contra a intervenção americana.

Lula e Trump discursaram em sequência e apresentaram visões diametralmente opostas de mundo. O presidente brasileiro defendeu limites ao poder militar das superpotências, regras multilaterais, respeito à soberania e regulação. O americano celebrou o exercício virtualmente ilimitado do poder, a superioridade militar e tecnológica e a liberdade de ação dos Estados Unidos.

Trump celebrou a operação militar que capturou Nicolás Maduro e a cooperação com o governo de Delcy Rodríguez. Ele se orgulhou do emprego da força militar contra o crime organizado, comparando-o ao Estado Islâmico e enfatizando que é preciso travar uma guerra contra o narcotráfico.

Lula falou por quase 22 minutos; Trump, por 37. Lula foi interrompido três vezes por aplausos espontâneos, sobretudo de governantes do chamado Sul Global. Trump também, mas por palmas puxadas pela sua comitiva, com apoio bem menor do restante da plateia. Ele alternou o texto preparado com aparentes improvisos, repetições e digressões.

Praticamente a única concordância entre ambos foi a condenação aos ataques do Hamas contra israelenses em outubro de 2023, que Lula classificou, corretamente, como “terroristas”. De resto, ambos divergiram sobre o conflito palestino-israelense. Lula acusou o governo Netanyahu de genocídio em Gaza. Trump comemorou seu plano para encerrar a guerra e trazer os reféns de volta.

Por sua vez, a abordagem de Lula da guerra na Ucrânia foi a mais contrastante com a visão europeia. Ele a chamou de “guerra entre a Rússia e a Ucrânia”, quando na verdade é uma guerra da Rússia contra a Ucrânia, que apenas luta em defesa da própria soberania, defendida por Lula em outros casos, mas não nesse.

E ainda citou a parceria do Brasil com a China para tentar alcançar a paz. O Ocidente não vê credenciais na China para isso, já que o governo chinês apoia a Rússia de forma econômica, política e até militar, com o envio de equipamentos de uso dual. Trump reiterou a promessa de resolver a guerra rapidamente, como se o tempo já não tivesse tornado essa promessa inócua.

A inteligência artificial também os colocou em campos opostos. Lula disse que deixar de regulamentar Big Techs e IA seria uma omissão histórica. Trump rejeitou um sistema global de controle e adotou o termo “superinteligência”, título do livro de 2014 do filósofo sueco radicado no Reino Unido Nick Bostrom, que exerceu influência sobre Elon Musk. Disse que os Estados Unidos vão incentivar a tecnologia, no contexto da disputa com a China, e não regulamentá-la.

Para Trump, as pessoas que alertam para os riscos da IA são as mesmas que denunciaram o aquecimento global, o que, na visão dele, não se confirmou. Em contraste, Lula disse que a eleição que o Brasil enfrentará envolve a disputa entre democracia e negacionismo, palavra que remete às teses contrárias a mudanças climáticas e ao uso de vacinas, mas que ele aparentemente quis associar também ao autoritarismo.

Trump citou as eleições americanas de 3 de novembro no contexto da guerra contra o Irã. Ele voltou a argumentar que os iranianos buscarão um acordo depois das eleições, porque querem influir nelas com a guerra, apesar de ele, Trump, não estar nas cédulas: “Estou ajudando os republicanos”.

Lula discursou a 12 dias das urnas; Trump, a 42. Da mesma tribuna, emitiram não só duas visões do mundo — mas dois discursos dirigidos para casa.

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