O Globo
Presidente brasileiro abriu Assembleia Geral
das Nações Unidas em Nova York
Em discurso na abertura da Assembleia Geral
da ONU em Nova York, nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
enviou uma série de recados sobre temas relacionados à relação do Brasil com os
Estados Unidos e de questões internas. Sem citar o líder americano Donald Trump
diretamente, Lula criticou a interferência externa em eleições de outros
países.
A 12 dias da eleição, Lula também defendeu
medidas do seu governo, como a aprovação da Lei Antifacção.
Conselho de Segurança da ONU
O presidente Lula iniciou seu discurso com
críticas ao Conselho de Segurança da ONU e à organização. O brasileiro adotou
um tom ainda mais duro do que o de costuma ao tratar do tema.
— Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército, nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez. A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.
Crise da democracia no mundo
Lula também falou sobre a crise da democracia
e disse que o Brasil não é quintal de ninguém. Disse que para os "países
da América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência
militar do mundo é inescapável".
— O Brasil não cabe no quintal de ninguém.
Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento.
Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre
vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção.
Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. A democracia
está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em
processos eleitorais — disse.
Terras raras
O presidente brasileiro afirmou que o acesso
aos minerais críticos do país exigirá contrapartida.
— Temos os minerais críticos e as terras
raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética. Nossas
riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro, e é em benefício dele que serão
exploradas. O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a
geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o
suprimento de setores estratégicos nacionais.
Crime organizado e Lei Antifacção
O presidente do Brasil mandou um recado ao
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao abordar o combate ao crime
organizado. Disse que não o país não precisa de porta-aviões vigiando nossas
águas.
— Estamos preparados para enfrentar as organizações
criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados. Mães
perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão
cansadas da violência. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender
nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não
precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para
estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o
espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao Presidente dos Estados
Unidos. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos
brasileiros no exterior.
Na sequência, Lula tratou da aprovação da Lei
Antifacção.
— Estamos enfrentando todos os escalões da
criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A Lei Antifacção que acabamos de
aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o
terrorismo.
Combate à corrupção
Lula tratou sobre combate a corrupção ao
afirmar que sua gestão foi "implacável" em relação ao tema. Repetiu a
frase usada durante a campanha eleitoral, especialmente após o acirramento da
crise do Supremo Tribunal Federal (STF), de que "ninguém está acima da
lei":
— Crime organizado e corrupção andam juntos.
O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está
acima da lei.
Enfrentamento das bets
Outra frente de batalha dentro do governo, o
enfrentamento às bets também foi defendida por Lula na ONU. O presidente
afirmou que essa indústria transforma "vícioo em lucro" e que o
Brasil "não vai tolerar esse modelo de negócio":
— A indústria bilionária das bets transforma
o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo
lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.
Lula tem criticado reiteradamente as apostas
online por avaliar que elas contribuem para o endividamento das famílias. Desde
a regulamentação do setor, o governo já restringiu a publicidade das casas de
apostas e bloqueou o acesso de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de
Prestação Continuada (BPC) às plataformas. Nos próximos dias, o governo avalia
divulgar medidas ainda mais duras contras as bets.
Venezuela e Cuba
Lula defendeu que os venezuelanos decidam o
futuro do próprio país. O presidente criticou as tentativas de dividir o mundo
em zonas de influência.
— O povo venezuelano merece decidir o seu
próprio destino. A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a
oposição de disputar eleições. A crise no Haiti continua a testar os limites da
indiferença da comunidade internacional. Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à
punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um
cerco energético ilegais — afirmou.
Fim da escala 6x1
Uma das principais bandeiras do governo e da
sua campanha à reeleição, o fim da escala 6x1 também foi defendido por Lula. O
presidente argumentou que o "mundo do trabalho está em transformação"
e que idosos querem permanecer ativos, enquanto jovens desejam empreender.
Defendeu a PEC em análise no Congresso Nacional para garantir dois dias livres
de descanso aos trabalhadores e citou que isso beneficia especialmente as
mulheres.
— O trabalhador precisa de tempo para
descansar, se qualificar e conviver com a família. No Brasil, concretizar esse
objetivo passa pelo fim da chamada escala 6x1 para garantir ao trabalhador dois
dias livres por semana. Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga
doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
Tarifaço
Lula afirmou que o Brasil deve bater novo
recorde de exportações neste ano, apesar do tarifaço imposto à economia
brasileira pelos Estados Unidos.
— O Brasil voltou a crescer de modo
sustentável. Somos o terceiro maior destino de investimentos estrangeiros
diretos. Apesar do tarifaço contra a nossa economia, este ano bateremos novo
recorde de exportações — disse Lula.
Em outro trecho do pronunciamento, Lula
afirmou que a Organização Mundial do Comércio (OMC) “respira por aparelhos” e
criticou medidas protecionistas adotadas sob justificativas ambientais.
Defesa do pix
O presidente fez ainda uma defesa do Pix, um
dos pontos citados pelos EUA ao aplicar o tarifaço contra o Brasil.
— Não vamos ceder às pressões de
multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de
pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para
milhões de brasileiros.
Regulamentação das big techs
Lula voltou a defender a regulamentação das
big techs e da Inteligência Artificial ao citar que seria uma "omissão
histórica imperdoável" não enfrentar esse desafio. E usou uma citação do
Papa Leão 14, de que as “as decisões sobre tecnologia nunca devem ser separadas
da consciência e da responsabilidade”. Também criticou as empresas que sabendo
dos seus riscos transferem para a famílias o ônus de enfrentarem o algorítimo:
— Um punhado de tecno-oligarcas quer
ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência.
Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU e do Painel
Científico sobre Inteligência Artificial.
Floresta Amazônica
Lula enfatizou a centralidade da Amazônia nas
estratégias ambiental e de segurança pública do país. Ao abordar o combate às
mudanças climáticas, disse que a redução do desmatamento no bioma caiu pela
metade, atingindo o menor nível dos últimos 11 anos.
— Não renunciaremos à agenda ambiental.
Levaremos adiante o Mapa do Caminho para a descarbonização da economia
brasileira. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém,
mostra que é possível mudar antigos paradigmas. A floresta vale mais em pé do
que destruída — disse.
Durante o discurso ele ainda destacou a autossuficiência do país em petróleo e afirmou seguirá "pesquisando o potencial" de novas reservas, como as da Margem Equatorial. No plano de segurança pública e da cooperação regional, apontou a Amazônia como peça-chave no enfrentamento ao crime organizado transnacional.

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