Correio Braziliense
A visão de mundo que organiza o discurso de
Lula reconhece a erosão da ordem internacional, mas ainda busca respostas na
gramática criada durante sua expansão
O discurso do presidente Luíz Inácio Lula da
Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU contém uma das manifestações mais
claras do governo brasileiro sobre a transformação do sistema internacional. A
novidade não está na defesa da paz, do multilateralismo ou da reforma do
Conselho de Segurança. Está na descrição de um mundo em que as instituições
perderam capacidade de conter as grandes potências.
Lula afirmou não desconhecer as realidades do
poder. E o restante do pronunciamento mostra o alcance dessa constatação. A ONU
vive seu momento mais crítico, o Conselho de Segurança está imobilizado, a OMC
respira por aparelhos e as tarifas se transformaram em instrumentos de coerção
e chantagem. Uma nova corrida armamentista está em curso, enquanto zonas de
influência e investidas por recursos estratégicos voltam a organizar o
comportamento das potências.
Não é uma mudança pequena. Durante as últimas décadas, o Brasil interpretou crises internacionais como desvios que poderiam ser administrados pela cooperação, pela reforma das instituições e pela inclusão dos países emergentes. O discurso vai além: reconhece que a própria arquitetura construída depois da Segunda Guerra Mundial perdeu capacidade de proteger os mais vulneráveis.
O diagnóstico também chega ao hemisfério. Ao
afirmar que o Brasil não cabe no quintal de ninguém e não precisa de
porta-aviões vigiando suas águas, Lula responde ao retorno de uma concepção
militarizada da influência norte-americana. Soberania já não aparece apenas
como princípio jurídico, mas como capacidade de resistir a pressões militares,
econômicas, tecnológicas e eleitorais.
Há sinais semelhantes nas referências aos
minerais críticos, às plataformas digitais, à inteligência artificial e ao Pix.
Ao exigir agregação de valor, transferência de tecnologia e suprimento de
setores estratégicos, o discurso reconhece que o poder depende do controle de
cadeias produtivas, infraestruturas e tecnologias. São temas que já não cabem
na separação entre economia e segurança.
A questão central, entretanto, surge quando o
discurso passa do diagnóstico às respostas. A paralisia da ONU é atribuída a
uma crise de liderança. O Conselho de Segurança deveria voltar a cumprir seu
papel. A vontade política precisaria ser reencontrada. A diplomacia deveria
prevalecer sobre a guerra e o multilateralismo sobre o unilateralismo. O mundo
mudou, mas os instrumentos apresentados para enfrentá-lo continuam sendo, em
grande medida, aqueles formulados durante o período de expansão da ordem
multilateral.
O texto parece antecipar a objeção de que
essa resposta seria idealista e procura apresentá-la como expressão de
realismo. A preocupação é reveladora. Diplomacia e multilateralismo continuam
indispensáveis, sobretudo para países que não dispõem do poder das grandes
potências. O problema começa quando a defesa das instituições substitui uma
estratégia para o período em que elas já não conseguem constranger os atores
mais poderosos.
Reafirmar regras é necessário, mas não
responde a uma pergunta decisiva: como o Brasil preservará sua autonomia
enquanto essas regras não forem respeitadas? Reformar o Conselho de Segurança
continua desejável, mas não oferece proteção imediata contra tarifas
coercitivas, controles tecnológicos, dependências digitais ou a reconstrução de
zonas de influência. A realidade do poder não desaparece porque suas
manifestações são consideradas anacrônicas.
A visão de mundo que organiza o discurso
reconhece a erosão da ordem internacional, mas ainda busca respostas na gramática
criada durante sua expansão. Mark Carney, em Davos, partiu de uma premissa mais
incômoda: a antiga ordem não voltará. Para o primeiro-ministro canadense, a
ruptura exige que as potências médias fortaleçam capacidades internas e
construam coalizões diferentes conforme o problema, sem esperar pela
restauração do sistema anterior.
A diferença está nas consequências
estratégicas extraídas do diagnóstico. Se a crise for apenas uma interrupção,
recuperar a vontade política, reformar as instituições e reafirmar as regras
podem bastar. Se a ruptura for estrutural, o Brasil precisará combinar sua
defesa com novas formas de autonomia, capacidade nacional e cooperação
seletiva.
O discurso de Lula revela que os responsáveis
pela formulação internacional do governo já reconhecem grande parte das novas
realidades do poder. Esse é um avanço importante. Mas reconhecer que o mundo
mudou não significa necessariamente ter mudado a forma de pensá-lo. Mudou o
diagnóstico. A questão é saber quando mudará também a gramática.
*Gunther Rudzit — professor de relações
internacionais da ESPM, professor convidado da Unifa. Membro do Grupo de
Análise da Conjuntura Internacional da USP

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