O Globo
Série de mentiras elencadas por presidente,
que amarga recorde de insatisfação nas pesquisas, não moverá votos a 42 dias
das eleições de meio de mandato
No mundo fantasioso de Donald Trump, os
Estados Unidos vivem de fato a era de ouro que ele prometeu em sua posse, em
janeiro de 2025. O país não entrou, por decisão própria, no atoleiro da guerra
ao Irã. E há paz em Gaza, não um frágil cessar-fogo com ações militares
rotineiras de Israel no enclave e a persistência do horror humanitário na
ocupação.
Exatamente como fez na Convenção de Meio de Mandato do Partido Republicano, no início do mês, o presidente americano elencou em seu discurso na ONU uma série de inverdades e exageros autocongratulatórios. A gravidade, no entanto, é muito maior por ter sido feita no palco mais nobre do multilateralismo global. De suas muitas declarações infelizes, assombrou mais com a ameaça reiterada, feita do púlpito, de "aniquilar" um país-membro das Nações Unidas, se Teerã não aceitar um acordo com Washington. A tentativa de demonstração de força incluiu ainda o aviso de que novas ações militares podem ocorrer se adversários peitarem os EUA nas Américas, em um recado direto para Cuba.
Trump encarou o planeta de olho nas eleições
de meio de mandato, quando o controle do Congresso estará em jogo. Se
confirmadas as pesquisas e os governistas perderem a maioria da Câmara e talvez
até mesmo a do Senado, os democratas poderão pautar os dois últimos anos de seu
segundo mandato e impor um freio, como já anunciado, ao avanço à direita
extremada do Trump 2.0. A cansativa mescla de distorções factuais e
demonstrações vagas de força, como a desta terça-feira na ONU, não moverá votos
na direção dos republicanos.
Desculpa pronta para derrota
Ao contrário do discurso na Convenção de Meio
de Mandato, quando pediu aos americanos que "votassem como se eu estivesse
na cédula", Trump deixou claro na ONU que este não será o caso em
novembro. Sublinhou a impossibilidade de competir ("quando o fiz, ganhei
por larga margem", outra inverdade), argumento que usará em eventual
derrota acachapante do Partido Republicano nas urnas. Uma das lições mais bem
assimiladas por Trump em sua trajetória pública foi a de jamais reconhecer um
revés. E, se ele for inevitável, ignorá-lo e bater bumbo para o que se parecer
mais com uma vitória.
Foi assim no discurso com a celebração do
fortalecimento das fronteiras do país e a diminuição recorde da entrada de
imigrantes em situação ilegal, sem mencionar os crimes, inclusive contra
cidadãos americanos, e a impunidade da Polícia de Imigração (ICE, na sigla em
inglês). Com os números positivos de criação de postos de emprego sem tratar da
alta no custo do vida. Com a celebração da ação
militar contra o tráfico de drogas nas Américas e do que considera a
extensão do progresso americano à Venezuela, ignorando a transformação da
ditadura em colônia informal de Washington sob a direção local do chavismo. Com
o elogio a números extraoficiais sobre a redução da pobreza em estratos
minoritários nos EUA, entre eles os hispânicos, esquecendo do asfixiamento
econômico de suas comunidades país afora, assustadas pelo que até políticos
governistas, ameaçados de perder suas cadeiras em novembro, classificam como
"exageros" do ICE. Não são os únicos exemplos.
Ainda mais do que no primeiro discurso de seu segundo mandato na Assembleia Geral, no ano passado, o presidente dos EUA, com sua sequência de mentiras e ameaças militares, desgraçadamente diminuiu de tamanho o púlpito da ONU. Tratou-o como se fosse mais um palanque da América Profunda, com audiência desinteressada em questionar a fantasia do Mundo de Trump. Não é o caso. Mesmo aliados históricos, entre eles o Canadá e a União Europeia, têm se movido no tabuleiro global de forma decisiva e independente de Washington. Pautam-se pela realidade cada vez mais próxima do fim do domínio institucional absoluto do republicano nos EUA. Faltam 42 dias para o pleito de meio de mandato.

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